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A LUZ DA ALMA - Sua Ciência e Efeito
Os Aforismos de Ioga de Patânjali


LIVRO I

O PROBLEMA DA UNIÃO

a) A definição das naturezas superior e inferior
b) Os obstáculos e uma consideração quanto à sua remoção
c) Um resumo do sistema da Raja Ioga

Tópico: A versátil natureza psíquica.


Livro I - Aforismo 1

1. AUM (OM) - A seguinte instrução diz respeito à Ciência da União.

AUM. É a Palavra de Glória: significa o Verbo feito carne e a manifestação, no plano da matéria, do segundo aspecto da divindade. Este resplendor dos filhos da retidão perante o mundo é conquistado pela adesão às regras aqui contidas. Quando todos os filhos dos homens tiverem demonstrado que são também Filhos de Deus, o Filho de Deus cósmico da mesma maneira resplandecerá com uma Glória de intensidade crescente. O grande iniciado, Paulo, teve uma visão disto quando disse: "toda a criação geme e trabalha em dores... esperando pela manifestação dos Filhos de Deus". (Rom. VIII).

A Raja Ioga, ou a ciência da União, dá as regras e os meios pelos quais se pode:

1. estabelecer contato consciente com a alma, o segundo aspecto, o Cristo Interno,
2. adquirir o conhecimento do eu e manter seu controle sobre o não-eu,
3. sentir, na vida diária, o poder do Ego, ou alma, e seus poderes manifestados,
4. controlar a natureza psíquica inferior e demonstrar as faculdades psíquicas superiores,
5. pôr o cérebro em relação com a alma e receber as mensagens desta,
6. intensificar a "Luz na cabeça" de modo a que o homem se torne uma Chama vivente,
7. achar o Caminho e o próprio homem pode-se converter naquele Caminho.

O estudante poderá achar utilidade nas seguintes triplicidades, especialmente se se lembrar que na coluna central constam os termos aplicáveis à alma, ou segundo aspecto. A união a ser conquistada é a do terceiro e segundo aspectos. Isto é consumado na terceira iniciação (a Transfiguração, em terminologia Cristã). Uma síntese posterior é então efetuada entre o terceiro e segundo aspectos unidos, e o primeiro:

1° Aspecto 2° Aspecto 3° Aspecto
Espírito Alma Corpo
Pai Filho (Cristo) Espírito Santo
Mônada Ego Personalidade
Eu Divino Eu Superior Eu Inferior
Vida Consciência Forma
Energia Força Matéria
A Presença O Anjo da Presença O ser humano

Uma nítida distinção deve ser feita entre o Princípio do Cristo, como indicado acima, que é um elevado aspecto espiritual a que cada membro da raça humana deve atingir, e o mesmo termo aplicado a um personagem de grau exaltado, representando aquele Princípio, quer na referência histórica do Homem de Nazaré, quer na de outro tipo

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Livro I - Aforismo 2

2. Esta União (ou Ioga) se conquista subjugando-se a natureza psíquica e pela contenção da chitta (ou mente).

Aquele que procura alcançar a União tem duas coisas a fazer:

1. Obter o controle da "versátil natureza psíquica".
2. Impedir que a mente assuma as diversas formas que tão facilmente assume. Estas são frequentemente chamadas "modificações do princípio pensante".

Estas duas produzem o controle do corpo emocional e, portanto, do desejo, e o controle do corpo mental e, portanto, da mente, ou do manas inferior. O estudante deve-se recordar que o desejo incontrolado e uma mente desgovernada vedam a luz da alma e anulam a consciência espiritual. A União é impossível enquanto existirem as barreiras, e o Mestre por isso dirige a atenção do estudante (no início de sua instrução) para o trabalho prático a ser efetuado, de liberar esta luz, de modo a que ela "possa resplandecer num lugar escuro"; isto é, no plano físico. Deve-se ter em mente que, falando ocultamente, quando a natureza inferior é controlada, a superior pode-se manifestar. Quando o segundo aspecto do eu pessoal inferior, o corpo emocional, é subjugado ou transmutado, então a luz do Cristo (o segundo aspecto egoico) se faz visível. Posteriormente, na sua luz, a Mônada, o Pai, o Uno, será revelado. Igualmente, quando o primeiro aspecto do eu pessoal inferior, o corpo mental, é contido, o aspecto Vontade do Ego pode ser conhecido e, através de suas atividades, pode-se inferir o propósito do Próprio Logos.

Há certas linhas de menor resistência na vida espiritual e ao longo delas certas forças, ou energias, são liberadas.

a) Emocional intuicional ou búdica monádica ao coração do aspirante
b) Mental espiritual ou átmica logoica à cabeça do aspirante

Dá-se assim ao aspirante a PALAVRA de contenção ou controle como uma chave para todos os seus esforços.

A chitta é a mente, ou substância mental, o corpo mental, a faculdade do pensamento e da criação de pensamentos-forma, a totalidade de todos os processos mentais; é o material governado pelo ego ou alma, do qual os pensamentos-forma são feitos.

A "natureza psíquica" é kama-manas (desejo-mente), o corpo emocional ou astral, ligeiramente colorido pela mente, e é o revestimento material de nossos desejos e sentimentos. Assim são eles expressos.

Estes dois tipos de substância têm sua própria linha de evolução e as seguem. Segundo o plano logoico, os espíritos ou centelhas divinas são aprisionados por elas, sendo primeiro atraídos para elas pela mútua ação entre espírito e matéria. Pelo controle dessas substâncias e pela contenção de suas atividades instintivas, estes espíritos ganham experiência e a libertação final. Assim a união com a alma é alcançada. É uma união conhecida e experimentada no corpo físico, no plano da mais densa manifestação, através do controle consciente e inteligente da natureza inferior.

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Livro I - Aforismo 3

3. Quando isto é consumado o Iogue se conhece como realmente é.

Isto poderia ser descrito da seguinte maneira: O homem que conhece as condições e as cumpriu como indicado no aforismo anterior,

1. Vê o ego.
2. Compreende a verdadeira natureza da alma.
3. Identifica-se com a Realidade Interna e não mais com as formas que a esconde.
4. Habita no centro e não mais na periferia.
5. Conquista a consciência espiritual.
6. Desperta para o reconhecimento do Deus interno.

Nestes três versos, o método e o objetivo são descritos em termos claros e precisos e o caminho é preparado para uma instrução mais detalhada a ser ministrada. O aspirante enfrenta seu problema; a chave para resolvê-lo lhe é dada, e a recompensa - a união com a alma - é colocada à frente de seu olho que busca.

No próximo verso é feita uma ligeira exposição sobre o passado

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Livro I - Aforismo 4

4. Até agora, o homem interno tem-se identificado com suas formas e com as modificações ativas das mesmas.

Estas formas são as modificações mencionadas nas diversas traduções, indicando a verdade sutil sobre a infinita divisibilidade do átomo; estas são as camadas que recobrem e transformações rapidamente cambiantes que impedem a manifestação da verdadeira natureza da alma. Estes são os aspectos externos que impedem que a luz do Deus interno resplandeça e que em linguagem ocultista são mencionados como "lançando uma sombra sobre a face do sol".

A natureza inerente das vidas que constituem estas ativas e versáteis formas provaram ser, até agora muito fortes para a alma (o Cristo interno, como dizem os cristãos) e isto impediu a plena manifestação dos poderes da alma. Os poderes instintivos da "alma animal", ou as capacidades do conjunto de vidas que formam os veículos ou corpos, aprisionam o homem real e limitam seus poderes. Estas vidas são unidades inteligentes que se encontram na parte involutiva do arco da evolução, trabalhando para obter a autoexpressão. Seu objetivo, no entanto, é diferente daquele do Homem Interno e impede seu progresso e sua autorrealização. Ele fica "envolvido com suas atividades" e deve libertar-se, antes de poder receber sua herança de poder, paz e bem-aventurança. Ele não pode atingir a "medida da estatura completa do Cristo" (Ef. 4.13) enquanto houver modificações a serem sentidas, antes que as formas cessem de se transformar, suas atividades sejam aquietadas e sua agitação tranquilizada.

Recomenda-se ao estudante que tenha sempre em mente a natureza deste aspecto da evolução que se processa ao mesmo tempo que a sua. Na correta compreensão deste problema vem a conscientização do trabalho prático a ser feito, e o iogue em embrião pode começar seu trabalho.

As formas inferiores estão em constante e incessante atividade, assumindo sem cessar as formas de desejos impulsivos ou de dinâmicos pensamentos-forma mentais; somente quando esta "atividade de tomar forma" é controlada e o tumulto da natureza inferior abafado, é que se torna possível à entidade interna dirigente libertar-se desta escravidão e impor sua vibração às modificações inferiores.

Isto se consegue pela concentração - o esforço concentrado da alma para manter continuamente a posição do observador, daquele que percebe, e do vidente. Quando ele puder fazer isto, este "espetáculo" inferior de formas de pensamento rapidamente cambiantes e desejos se esvai, e o reino da alma, o verdadeiro campo do conhecimento da alma, pode ser visto e contatado.

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Livro I - Aforismo 5

5. Os estados da mente são cinco, e estão sujeitos à dor e ao prazer; são dolorosos ou não dolorosos.

No original, a palavra "prazer" não aparece; o pensamento transmitido é mais técnico e é normalmente traduzido como "não doloroso". Não obstante, o pensamento base é o empecilho à realização, causado pelos pares de opostos. O estudante deve-se lembrar que, neste aforismo, é a chitta, ou substância mental, que está sendo considerada, com as modificações que sofre enquanto sua versatilidade e atividade são fatores dominantes. O estudante não deve perder de vista que estamos tratando da natureza psíquica inferior, que é o termo ocultamente aplicado aos processos da mente inferior, bem como às reações astrais, ou emocionais. Toda atividade na natureza inferior resulta de kama-manas, ou da mente colorida pelo sentimento, do desejo-vontade do homem inferior. A meta do sistema da Raja Ioga é substituir estes impulsos pela ação ponderada e inteligente da alma, ou homem espiritual, cuja natureza é amor, cujos atos são sábios (no sentido ocultista) e cujo motivo é o desenvolvimento grupal. Por isso a reação chamada "dor", deve ser transcendida da mesma forma que a chamada "prazer", pois ambas são dependentes da identificação com a forma. O desapego deve substituí-las.

É interessante registrar que as modificações do órgão interno, a mente, são em número de cinco. Manas, ou mente, o princípio atuante de chitta, ou substância mental, é o quinto princípio e como tudo o mais na natureza, manifesta-se como uma dualidade. Esta dualidade é:

1. a mente concreta inferior, que se manifesta como a atividade do corpo mental,
2. a mente abstrata, que se manifesta como o aspecto mais baixo do ego.

No microcosmo, o homem, esta dualidade se transforma numa tríplice modificação no plano mental e, nestas três, temos, em miniatura, uma réplica da manifestação macrocósmica. Estas três são:

1. o átomo mental permanente, o mais baixo aspecto da Tríade espiritual ou da alma,
2. o corpo egoico, o corpo causal ou o karana sarira,
3. o corpo mental, ou aspecto mais elevado do eu pessoal inferior.

O próprio corpo mental tem cinco modificações ou atividades, e é assim um reflexo, ou uma correspondência, do quinto princípio, ao se manifestar no quinto plano, o mental. As modificações são a sombra inferior de manas (ou mente, na manifestação microcósmica), e esta mente é um reflexo de mahat (a mente universal), ou a mente manifestando-se no macrocosmo. Isto é um grande mistério, mas será revelado ao homem que domine as cinco modificações da mente inferior, e que, pelo desapego ao inferior, se identifique com o superior e assim solucione o mistério de "Makara" e percorra o Caminho dos Kumaras. Eis aqui um indício para os estudantes mais avançados desta ciência, sobre o problema esotérico de Makara, mencionado na "Doutrina Secreta" de H.P. Blavatsky.

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Livro I - Aforismo 6

6. Estas modificações (atividades) são: conhecimento correto, conhecimento errôneo, fantasia, passividade (sono) e memória.

Há um vasto campo de conhecimento que o vidente deve reconhecer em alguma ocasião. É geralmente aceito entre os psicólogos ocultistas, que há três modos de percepção:

1. Percepção direta, por intermédio dos órgãos dos sentidos, cada sentido, quando em uso, pondo seu usuário em contato com uma determinada faixa de vibrações que aparecem como manifestações da forma.

2. Dedução, ou inferência, é o emprego, pelo conhecedor, dos poderes de raciocínio da mente, em relação ao que não se percebe diretamente. Isto é, para o estudante de ocultismo, o emprego da Lei das Correspondências ou da Analogia.

3. A percepção direta do iogue ou vidente, centrada na consciência do Ser, isto é, o ego em seu próprio plano. Isto é obtido pelo correto emprego da mente como um órgão de visão e de transmissão. Patânjali diz:

"O vidente é conhecimento puro (gnosis). Embora puro, ele contempla a ideia apresentada por meio da mente". Livro II, aforismo 20.

A dedução não é um método seguro de se obter conhecimento e as outras modificações referem-se primariamente à utilização errônea da faculdade de produzir imagens (a imaginação), à passividade autoinduzida da mente, à condição de semitranse e à retenção de formas de pensamento dentro da aura mental, pelo emprego da memória. Patânjali trata de cada um deles em aforismos distintos.

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Livro I - Aforismo 7

7. A base do conhecimento correto são a percepção correta, a dedução correta e o testemunho correto (ou evidência precisa).

Umas das mais revolucionárias conscientizações à qual o estudante de ocultismo tem que se ajustar, é a apreciação de que a mente é um meio pelo qual se adquire conhecimento. No ocidente manteve-se predominante a ideia de que a mente é a parte do mecanismo humano que utiliza o conhecimento. O "processo de revolver as coisas mentalmente", na tentativa de encontrar a solução dos problemas por meio de árduo trabalho mental, em última análise, não tem expressão no desabrochar da alma. É apenas uma etapa preliminar e tem de ser substituída por um método diferente.

O estudante de Raja Ioga tem de se dar conta de que a mente foi concebida para ser um órgão de percepção; só assim ele chegará à correta compreensão desta ciência. O processo a ser seguido em relação à mente pode ser mais ou menos descrito como segue:

1. Controle correto das modificações (ou atividades) do princípio pensante.

2. Estabilização da mente e sua posterior utilização pela alma como um órgão de visão, um sexto sentido, e a síntese de todos os outros cinco sentidos.

Resultado: Conhecimento correto.

3. Correto emprego da faculdade de percepção, de modo a que o novo campo de conhecimento com o qual se estabeleceu contato seja percebido como realmente é.

4. Interpretação correta do que é percebido, pela posterior concordância da intuição e da razão.

5. Transmissão correta ao cérebro físico, do que foi percebido; o testemunho do sexto sentido é corretamente interpretado e a evidência é transmitida com oculta precisão.

Resultado: Reação correta do cérebro ao conhecimento transmitido.

Quando o processo é estudado e seguido, o homem, no plano físico, se torna cada vez mais consciente das coisas da alma e dos mistérios do reino da alma - ou o "Reino de Deus". Todas as preocupações do grupo e a natureza da consciência grupal lhe são reveladas. Notar-se-á que estas regras, mesmo agora, são encaradas como premissas até certo ponto essenciais, onde todo o testemunho preciso é considerado nos negócios mundiais. Quando estas mesmas regras forem levadas ao mundo dos esforços psíquicos (tanto o inferior como o superior), teremos então uma simplificação da confusão atual. Num velho livro, escrito para os discípulos de certo grau, estas palavras aparecem e são de valor para todos os discípulos, tanto os aceitos como os probacionários. A tradução dá o sentido, mas não é literal.

"Que aquele que observa certifique-se de que a janela pela qual olha deixa passar a luz do sol. Se ele a utiliza no início da aurora (de seus esforços - A.A.B.) que não esqueça de que o mundo ainda não nasceu. Os contornos precisos não podem ser percebidos; e os espectros e as sombras, os espaços sombrios e as áreas de treva ainda confundem sua visão".

No final desta frase se encontra um curioso símbolo, que leva à mente do discípulo o pensamento de "Conserva-te em silêncio e reserva tua opinião".

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Livro I - Aforismo 8

8. O conhecimento errôneo é baseado na percepção da forma e não no estado de ser.

Este aforismo é um tanto difícil de se interpretar. Seu significado consiste no seguinte: o conhecimento, a dedução e uma decisão baseados nos aspectos externos e na forma pela qual qualquer vida em qualquer reino da natureza se expressa, são (para o ocultista) um conhecimento falso e errôneo. Nesta etapa do processo evolutivo, forma alguma, qualquer que seja a sua espécie, é comparável à vida que a anima ou a exprime adequadamente. Nenhum adepto verdadeiro julga qualquer expressão de divindade pelo seu terceiro aspecto. A Raja Ioga adestra o homem para funcionar em seu segundo aspecto e, através deste, pôr-se em contacto com a "verdadeira natureza" latente em qualquer forma. "Ser" é a realidade essencial - e todos os seres lutam pela expressão verdadeira. Portanto, todo conhecimento que é adquirido por meio das faculdades inferiores e que se baseia no aspecto forma é errôneo.

Apenas a alma tem a percepção correta; somente a alma tem o poder de estabelecer contato com o germe ou o princípio de Budi (na fraseologia cristã, o princípio do Cristo), que se acha no coração de cada átomo, quer seja um átomo de matéria estudado no laboratório do cientista, quer seja o átomo humano no cadinho da experiência diária, quer seja o átomo planetário onde, dentro de seu círculo-não-se-passa, se encontram todos os nossos reinos da natureza, ou o átomo solar, Deus em manifestação por meio de um sistema solar. Cristo "sabia o que estava no homem" e por isso pôde ser um Salvador.

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Livro I - Aforismo 9

9. A fantasia baseia-se em imagens que não têm existência real.

Isto significa que estas imagens não têm existência real porquanto foram formadas pelos próprios homens, construídas dentro de suas próprias auras mentais, alimentadas por suas vontades ou desejos e, consequentemente, dissipadas quando a atenção é dirigida para outra coisa.

"A energia acompanha o pensamento" é um ponto básico do sistema da Raja Ioga e é verdadeiro mesmo no que diz respeito a essas imagens de fantasia. Estas imagens de fantasia se enquadram primariamente em três grupos, que o estudante fará bem em considerar.

1. Os pensamentos-forma que ele mesmo constrói, que têm uma vida efêmera e que dependem da qualidade de seus desejos; não sendo, portanto, nem bons nem maus, nem altos nem baixos, podem ser vitalizados pelas tendências baixas ou pelas aspirações idealísticas, com todos os estados intermediários que podem ser encontrados entre estes extremos. O aspirante tem que tomar cuidado para não confundi-los com a realidade. Pode-se dar aqui um exemplo, em relação à facilidade com que as pessoas pensam ter visto um dos irmãos (ou Mestres de Sabedoria), quando o que viram na realidade foi um pensamento-forma de um Deles; como o desejo é o pai do pensamento, eles são vítimas da forma incorreta de percepção, chamada, por Patânjali, de fantasia.

2. Os pensamentos-forma que são criados pela raça, pela nação, pelo grupo ou pela organização. Os pensamentos-forma grupais de qualquer tipo (desde a forma planetária até a construída por qualquer grupo de pensadores) formam a soma total da "grande ilusão". Eis aqui um indício para o aspirante sério.

3. O pensamento-forma criado por um homem desde que apareceu pela primeira vez em forma física, chamado o "Morador do Umbral". Sendo criado pelo eu pessoal inferior e não pela alma, não é permanente e é conservado simplesmente pela energia inferior do homem. Quando o homem começa a funcionar como alma, esta "imagem" que ele criou, por sua "fantasia" ou por sua reação à ilusão, é dissipada por um supremo esforço. Não tem existência real, uma vez que não há nada no aspirante para alimentá-la e, ao compreender isso, ele se torna capaz de libertar-se desta escravidão.

Este é um dos aforismos que, embora aparentemente curto e simples, é da mais profunda significação; é estudado pelos altos iniciados que estão estudando a natureza do processo criativo do planeta e que estão ocupados com a dissipação da maia planetária.

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Livro I - Aforismo 10

10. A passividade (sono) é baseada no estado quieto dos vrittis (ou sobre a não percepção dos sentidos).

Talvez seja agora necessária uma explicação sobre a natureza das vrittis. As vrittis são aquelas atividades da mente que resultam na relação consciente entre o sentido empregado e aquilo que foi percebido. À parte de uma certa modificação dos processos mentais ou de uma afirmação da conscientização de que Eu-sou-eu, os sentidos podem estar em atividade sem que o homem tenha consciência deles. O homem tem consciência de que ele vê, prova e ouve; ele diz: "Eu vejo, Eu provo, Eu ouço" e é a atividade das vrittis (ou daquelas percepções mentais que têm relação com os cinco sentidos) que lhe permite reconhecer o fato. Retirando-se da percepção ativa dos sentidos e não mais utilizando a "consciência que se move para fora" e retirando esta consciência da periferia para o centro, ele pode criar uma condição de passividade - um alheamento que não é o samadhi do iogue, nem a conquista da concentração num ponto tal como o que o estudante de ioga aspira, que é uma forma de transe. Este aquietamento autoimposto não só é um empecilho à conquista da mais elevada ioga, mas, em muitos casos, é extremamente perigoso.

Os estudantes farão bem em lembrar-se que a correta atividade mental e o correto emprego da mente são o objetivo da ioga e que o estado chamado "mente em branco", e uma condição de passiva receptividade, com as relações sensoriais cortadas ou atrofiadas, não é parte do processo. O sono aqui referido não é a passagem do corpo para o estado de sonolência mas sim, o adormecimento das vrittis. É a negação dos contatos dos sentidos sem que o sexto sentido, a mente, se superponha às suas atividades. Nesta condição de sono, o homem está sujeito a alucinações, a ilusões, a impressões errôneas e a obsessões.

Há diversos tipos de sono, mas apenas uma curta tabulação é possível num comentário como este:

1. O sono comum do corpo físico, quando o cérebro não responde a qualquer contato dos sentidos;

2. o sono das vrittis, ou daquelas modificações dos processos mentais que correlacionam o homem ao seu meio ambiente, por meio dos sentidos e da mente;

3. o sono da alma, o qual, falando ocultamente, abrange aquela parte da experiência humana que data da primeira encarnação humana do indivíduo até que ele "desperte" para um conhecimento do plano e se esforce para alinhar o homem inferior com a natureza e a vontade do homem espiritual interno;

4. o sono do médium comum, quando o corpo etérico é parcialmente retirado do corpo físico e, de modo semelhante, separado do corpo astral, provocando assim uma situação de perigo muito real;

5. Samadhi, ou o sono do iogue resultante da retirada consciente e científica do homem real, de seu tríplice invólucro inferior, para trabalhar em níveis elevados, em preparação para algum serviço ativo no inferior;

6. o sono dos Nirmanakayas, que é uma condição de tão intensa concentração espiritual e de focalização no corpo espiritual, ou átmico, que a consciência exterior é retirada não só dos três planos de trabalho humanos, como também, das duas expressões inferiores da Tríade espiritual. Para as finalidades deste trabalho característico e específico, o Nirmanakaya "dorme" em relação a todos os estados, exceto ao terceiro, ou plano átmico.

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Livro I - Aforismo 11

11. Memória é a retenção daquilo que se conheceu.

Esta memória diz respeito a diversos grupos de percepções, quer ativas quer latentes; trata de certos agrupamentos de fatores conhecidos que podem ser enumerados como segue:

1. As imagens de pensamentos daquilo que é tangível, objetivo e que foi conhecido pelo pensador no plano físico.

2. Imagens kama-manásicas (ou desejos da mente inferior) de desejos passados e de sua satisfação. A "faculdade de produzir cenas" do homem comum, baseia-se em seus desejos (elevados ou baixos, aspiracionais ou degradantes, no sentido de inferiorizar) e sua conhecida satisfação. Isto é igualmente verdadeiro quanto à memória de um glutão, por exemplo, e sua latente imagem de um lauto jantar, quanto à lembrança de um santo ortodoxo, baseada em sua imagem mental de um aprazível paraíso.

3. A atividade da memória que resulta do adestramento mental, da acumulação de dados adquiridos em consequência de leituras ou de aprendizado, e que não é apenas baseado no desejo, mas que tem sua base no interesse intelectual.

4. Todos os vários contatos que a memória guarda e que reconhece como emanando das percepções dos cinco sentidos inferiores.

5. As imagens mentais, latentes na faculdade de evocação, que são a totalidade do conhecimento obtido e das percepções evocadas pelo correto uso da mente como um sexto sentido.

Todas estas formas de evocação devem ser abandonadas em definitivo; devem ser reconhecidas como modificações da mente, do princípio pensante e, portanto, parte da versátil natureza psíquica que tem de ser dominada antes que o iogue possa esperar atingir a liberação das limitações e de toda a atividade inferior. Este é o objetivo.

6. Finalmente (pois não é necessário enumerar subdivisões mais complicadas), a memória inclui também o acúmulo de experiências adquiridas pela alma durante as diversas encarnações e armazenadas na verdadeira consciência da alma.

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Livro I - Aforismo 12

12. O controle dessas modificações do órgão interno, a mente, deve ser obtido pelo esforço incansável e pelo desapego.

Apenas umas poucas e breves explicações são necessárias no caso de um aforismo de tão fácil compreensão como este; intelectualmente, o significado é claro; na prática, contudo, é difícil de ser realizado.

1. O órgão interno é, naturalmente, a mente. Os pensadores ocidentais devem-se lembrar que os ocultistas orientais não consideram os órgãos como sendo os órgãos físicos. A razão para isto é a seguinte: o corpo em sua forma densa, ou concreta, não é considerado como um princípio, mas simplesmente como a manifestação tangível da atividade dos princípios verdadeiros. Os órgãos, em sentido ocultista, são centros de atividade tais como a mente, os diversos átomos permanentes e os centros de força nos vários invólucros. Todos estes têm suas "sombras" objetivas, ou resultados, e estas emanações resultantes são os órgãos físicos externos. O cérebro, por exemplo, é a "sombra" ou o órgão externo da mente, e o investigador verificará que o conteúdo da cavidade cerebral tem uma correspondência nos aspectos do mecanismo humano encontrados no plano mental. Deve-se dar ênfase a esta última frase; ela contém um indício para aqueles que forem capazes de tirar vantagem dela.

2. Esforço incansável literalmente significa a prática constante, a repetição contínua e ininterrupta e o esforço reiterado para impor o novo ritmo sobre o antigo, e para eliminar hábitos e modificações profundamente arraigados pela instituição da impressão pela alma. O iogue ou Mestre é o resultado de paciente esforço; os resultados que obtém são o fruto do esforço contínuo baseado na apreciação inteligente do trabalho a ser feito e da meta a ser atingida, e não do entusiasmo espasmódico.

3. Desapego é o que finalmente levará todas as percepções sensoriais a desempenharem suas reais funções. Pelo desapego, as formas de conhecimento com as quais o homem entra em contato pelos sentidos vão perdendo seu domínio sobre o homem; finalmente chega a ocasião em que ele é finalmente libertado e é mestre de todos os seus sentidos e de todos os contatos sensoriais. Isto não envolve um estado em que os sentidos estejam atrofiados e inutilizados, mas sim, no qual sejam úteis ao iogue quando e como ele o desejar e somente quando o desejar; são por ele utilizados para aumentar sua eficiência no serviço grupal e nos esforços grupais.

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Livro I - Aforismo 13

13. O esforço incansável é o esforço constante para conter as modificações da mente.

Este é um dos aforismos mais difíceis de traduzir de modo a se dar sua real significação. A ideia envolvida é a do constante esforço feito pelo homem espiritual para conter as modificações ou flutuações da mente e para controlar a versátil natureza psíquica inferior a fim de expressar totalmente sua natureza espiritual. Assim, e somente assim, pode o homem espiritual viver a vida da alma, a cada dia, no plano físico. Charles Johnston, em sua tradução, procura dar este sentido pelas palavras "o correto emprego da vontade é o firme esforço para se manter no ser espiritual".

A ideia é a de aplicar à mente (encarnada como sexto sentido) o mesmo controle a que estão sujeitos os cinco sentidos inferiores, isto é, suas atividades externas são paralisadas e elas são impedidas de responder à atração de seu particular campo de conhecimento" .

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Livro I - Aforismo 14

14. Quando se dá suficiente valor ao objetivo a ser alcançado e os esforços para consegui-lo são persistentes e ininterruptos, então a estabilidade da mente (contenção das vrittis) é assegurada.

Todos os seguidores da Raja Ioga devem ser, em primeiro lugar, devotados. Somente um intenso amor pela alma e por tudo o que o conhecimento da alma implica, levará o aspirante com segurança à sua meta. O objetivo em vista - união com a alma e consequentemente com a Superalma e com todas as almas - deve ser corretamente apreciado; as razões para sua conquista corretamente julgadas, e os resultados a serem conseguidos, ardentemente desejados (ou amados), antes que o aspirante desenvolva o esforço suficientemente forte que lhe dará os meios de controlar as modificações da mente e, consequentemente, de toda a sua natureza inferior. Quando esta apreciação for suficientemente verdadeira e sua habilidade para prosseguir com o trabalho de domínio e controle, ininterrupto, então chegará a ocasião em que o estudante saberá, cada vez melhor e mais conscientemente, qual a significação da contenção das modificações.

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Livro I - Aforismo 15

15. O desapego é a libertação do anseio por todos os objetos do desejo, quer terrenos, quer tradicionais, aqui ou no futuro.

O desapego também pode ser descrito como "falta de sede". Este é o termo ocultista mais correto a ser empregado, pois envolve a dupla ideia de água, o símbolo da existência material, e desejo, a qualidade do plano astral, cujo símbolo também é água. A ideia de ser o homem o "peixe" está aqui curiosamente completa. Este símbolo (como no caso de todos os símbolos) tem sete significados: dois cabem aqui:

1. O peixe é o símbolo do aspecto Vishnu, o princípio Crístico, o segundo aspecto da divindade, o Cristo encarnado, quer seja o Cristo cósmico (expressando-SE através de um sistema solar), quer o Cristo individual, o salvador potencial dentro de cada ser humano. Este é "O Cristo em vós, esperança é de glória" (Colo 1.27). Se o estudante estudar também o Avatar peixe de Vishnu, aprenderá ainda mais.

2. O peixe nadando nas águas da matéria, uma extensão da mesma ideia, apenas levada à sua mais óbvia expressão atual, o homem como a personalidade.

Quando não houver mais anseio por qualquer objeto, seja ele qual for, e quando não houver mais desejo pelo renascimento (sempre o resultado do anseio de "expressão pela forma" ou manifestação material), então se atinge a verdadeira "ausência de sede" e o homem liberto volta suas costas a todas as formas nos três mundos inferiores e se torna um verdadeiro salvador.

No Bhagavad Gitâ encontram-se as seguintes palavras iluminadoras:

"Pois os possuidores de sabedoria, unidos na visão da alma, desistindo dos frutos do trabalho, livres da escravidão do renascimento, alcançam o lar onde a tristeza não mora.

"Quando tua alma ultrapassar a floresta da ilusão, não mais darás valor ao que vier a ser ensinado ou ao que tenha sido ensinado.

"Quando retirada do ensinamento tradicional, tua alma permanecer imutável, firme na visão da alma, então ganharás a união com a Alma" (Gitâ 11,51,52 e 53).

J. H. Woods torna isto bem claro em sua tradução do comentário por Veda Vyasa que é aqui transcrito:

"A falta de paixão é a consciência de ser Mestre por parte daquele que se livrou da sede pelos objetos, vistos ou revelados".

"A substância mental (chitta) - se estiver livre da sede pelos objetos visíveis, tais como mulheres, alimento, ou bebida, ou poder; se estiver livre da sede pelo objeto revelado (nos Vedas) tais como a conquista do Paraíso, ou do estado de desencarnação ou da resolução na matéria primária - se, mesmo quando em contato com objetos, supernormais ou não, por virtude de elevação, estiver consciente da inadequação dos objetos - terá consciência de ser um Mestre..."

A palavra "tradicional" afasta o pensamento do estudante daquilo que é habitualmente considerado como o objeto da percepção sensorial, para o mundo das formas de pensamento, para a "floresta de ilusões" que é construída com as ideias dos homens a respeito de Deus, céu ou inferno. A sublimação de tudo isto e sua mais elevada expressão nos três mundos é o "devachan", que é a meta da maioria dos filhos dos homens. A experiência devachânica, contudo, deve ser finalmente transformada em conscientização nirvânica. Pode ser útil para o estudante lembrar-se de que o céu, o objeto da aspiração dirigida pelo desejo que resulta do ensinamento tradicional e de todas as formulações de doutrinas de fé, tem significações diversas para o ocultista. O que segue será útil para uma melhor compreensão:

1. Céu, aquele estado de consciência no plano astral que é a concretização do anseio e do desejo do aspirante por repouso, paz e felicidade. É baseado nas "formas de alegria". É uma condição de prazer sensorial, e sendo construída para cada indivíduo, por si mesmo, varia tanto quanto o número de pessoas que dele participam. Deve-se conquistar o desapego em relação ao céu. É conscientizado como sendo desfrutado pelo eu inferior e pelo homem despojado apenas de seu corpo físico, antes de passar do corpo astral para o plano mental.

2. Devachan, aquele estado de consciência no plano mental para o qual a alma passa quando privada de seu corpo astral e funciona no seu corpo mental ou é limitada por ele. É de uma ordem superior à do céu comum e a bem-aventurança gerada e mais mental do que aquilo que normalmente entendemos por esta palavra mas, apesar disto, ainda pertence ao mundo inferior da forma e será transcendido quando o desapego for conhecido.

3. Nirvana, aquela condição para a qual o adepto passa quando os três mundos inferiores não mais estão "ligados" a ele por suas inclinações, ou carma, e que ele experimenta depois que tiver:

a) Recebido certas iniciações
b) Conseguido libertar-se dos três mundos
c) Organizado seu corpo Crístico.

Rigorosamente falando, aqueles adeptos que conquistaram o desapego mas que escolheram o sacrifício próprio e se mantêm entre os filhos dos homens para servi-los e auxiliá-los não são, tecnicamente Nirvanis. Eles são Senhores da Compaixão, que fizeram o voto de "sofrer" com (e de serem governados por) certas situações análogas (ainda que não idênticas) às condições que regem os homens que ainda estão presos ao mundo da forma.

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Livro I - Aforismo 16

16. A consumação deste desapego resulta num conhecimento exato do homem espiritual, quando liberto das qualidades ou gunas.

O estudante deve ter presente certos pontos ao estudar este aforismo:

1. que o homem espiritual é a mônada,

2. que o processo evolutivo, quando levado ao seu clímax, produz não só a libertação da alma das limitações dos três mundos, mas também a libertação, do homem espiritual, de todas as limitações, mesmo as da própria alma. A meta é a não-forma - ou a liberdade da manifestação tangível e objetiva, e o verdadeiro significado disto torna-se aparente quando o estudante recorda a unidade de espírito e matéria quando em manifestação; isto é, os nossos sete planos são os sete subplanos do mais baixo plano cósmico, o físico. Consequentemente, só "a hora do fim" e a dissolução de um sistema solar revelarão a verdadeira significação da ausência de forma.

3. As gunas são as três qualidades da matéria, os três efeitos produzidos quando a energia macrocósmica, a vida de Deus que persiste independentemente da tomada de forma, atua sobre a substância ou a alimenta. As três gunas são:

1. Sattva Energia do Espírito Mônada Pai ritmo ou vibração harmoniosa
2. Rajas Energia da Alma Ego Filho mobilidade ou atividade
3. Tamas Energia da Matéria Personalidade Espírito Santo inércia

Estas três correspondem à qualidade de cada um dos três aspectos que expressam a Vida una.

Num comentário tão breve como este é impossível ampliar em qualquer grau este assunto, mas pode-se obter uma ideia sobre o que se quer dizer por consumação do desapego quando aplicado ao macrocosmo ou ao microcosmo. Todas as três gunas foram empregadas, adquiriu-se experiência plena através do uso da forma, foi desenvolvida consciência, percepção ou sensibilidade através do apego a um objeto ou a uma forma, todos os recursos foram utilizados, e o homem espiritual (logoico ou humano) não tem mais necessidade nem emprego para elas. Ele está então liberto das gunas, dispensado de tomar forma como resultado do apego e entra em um novo estado de consciência sobre o qual não adianta especularmos.

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Livro I - Aforismo 17

17. Atinge-se a consciência de um objeto pela concentração sobre sua quádrupla natureza: a forma, pelo exame da mesma; a qualidade (ou guna), pela participação discriminativa; o propósito, através da inspiração (ou bem-aventurança); e a alma, pela identificação.

Tornar-se-á então aparente que a afirmação "como o homem pensa, assim ele é" (Prov. 23.7) baseia-se em fatos ocultistas. Cada forma de qualquer espécie tem uma alma, e esta alma, ou princípio consciente, é idêntica à forma humana; idêntica em sua natureza, embora não em seu escopo de desenvolvimento, ou grau. Isto é igualmente verdadeiro para as grandes Vidas ou Existências super-humanas nas quais o próprio homem "vive, se move e tem o seu ser" (Atos 17:28) e a Cujo estado de desenvolvimento ele aspira atingir.

À medida que o aspirante cuidadosamente escolhe os "objetos" sobre os quais meditará, ele, através destes objetos, constrói para si próprio uma escada pela qual chegará finalmente à meditação "sem-objetos". À proporção que sua mente assume, cada vez mais, a atitude meditativa da alma, o cérebro também se torna cada vez mais subjugado pela mente, como a mente o é pela alma. Assim é o homem inferior gradualmente identificado com o homem espiritual, que é onisciente e onipresente. Esta atitude meditativa é obtida por um processo quádruplo:

1. Meditação sobre a natureza de uma forma particular, com a conscientização de que, à medida que a forma é considerada, ela nada mais é que um símbolo de uma realidade interna, sendo todo o nosso universo tangível o objetivo constituído por formas de algum tipo (humanas, subumanas e super-humanas) que expressa a vida de uma legião de seres dotados de sensibilidade.

2. Meditação sobre a qualidade de uma forma particular, de modo a que se possa obter uma apreciação sobre uma energia subjetiva. Deve-se ter em mente que a energia de um objeto pode ser considerada como sua cor e daí as palavras de Patânjali (IV, 17) serem esclarecedoras a este respeito e servirem como um comentário para este segundo ponto. Este é chamado "participação discriminativa" e, através dele, o estudante chega ao conhecimento de que sua própria energia é una com a do objeto de sua meditação.

3. Meditação sobre o propósito de uma forma particular. Isto envolve a consideração sobre a ideia que envolve ou que está por trás de qualquer manifestação de forma e da energia de que dispõe. A compreensão disto leva o aspirante para diante, para um conhecimento daquela parte no plano, ou propósito, do Todo, que é o fator motivador da atividade da forma. Assim, através da parte, estabelece-se o contato com o Todo e há uma expansão de consciência, envolvendo bem-aventurança ou alegria. A conscientização da unidade da parte com o Todo sempre é seguida de beatitude. Da meditação sobre os tattvas, as energias ou princípios, ou sobre o tanmatras ou elementos que compõem o espírito-matéria, chega-se a um conhecimento do propósito ou plano para as manifestações microcósmicas ou macrocósmicas e este conhecimento traz bem-aventurança.


Nestes três itens devem-se encontrar correspondências com os três aspectos, espírito, alma e corpo, e também um estudo esclarecedor para o estudante dedicado.

4. Meditação sobre a alma, sobre Aquele que utiliza a forma, que lhe dá energia ao pô-la em atividade e que trabalha de acordo com o plano. Esta alma, sendo una com todas as almas e com a Superalma, serve ao plano único e tem consciência grupal.

Assim, através destes quatro estágios de meditação sobre um objeto, o estudante chega à sua meta - o conhecimento da alma e dos poderes desta. Identifica-se conscientemente com a realidade una, e isto em seu cérebro físico. Ele descobre a verdade que está nele próprio e que é a verdade oculta em toda forma e em todo reino da natureza. Assim ele finalmente chegará (quando obtiver o conhecimento da própria alma) a um conhecimento da Alma-Total e se tornará um com ela.

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Livro I - Aforismo 18

18. Conquista-se um estágio mais avançado de samadhi quando, através do pensamento dirigido, aquieta-se a atividade externa. Neste estágio, a chitta responde apenas a impressões subjetivas.

A palavra "samadhi" possui diferentes interpretações e é aplicada a diferentes estágios da conquista iogue. Isto causa certa dificuldade ao estudante comum quando estuda os vários comentários. Talvez um dos modos mais fáceis de compreender sua significação seja lembrar que a palavra "Sama" refere-se à faculdade da substância mental (ou chitta) de tomar forma ou de se modificar de acordo com as impressões externas. Estas expressões externas alcançam a mente através dos sentidos. Quando o aspirante à Ioga consegue controlar seus órgãos de percepção sensorial de modo a não mais transmitirem à mente suas reações ao que é percebido, obtém duas coisas:

a) O cérebro físico fica quieto e tranquilo,
b) a substância mental, ou o corpo mental, a chitta, não mais assume as diversas modificações e fica igualmente tranquila.

Este é um dos primeiros estágios de samadhi, mas não é o samadhi do adepto. É uma condição de intensa atividade interna, em lugar de externa; é uma atitude de concentração dirigida. O aspirante, contudo, é capaz de responder às impressões dos reinos mais sutis e às modificações originárias daquelas percepções que são ainda mais subjetivas. Ele toma consciência de um novo campo de conhecimento, embora ainda não saiba o que este possa ser. Certifica-se de que há um mundo que não pode ser conhecido através dos cinco sentidos, mas que será revelado através do correto emprego do órgão da mente. Ele tem percepção do que poderá estar por trás das palavras encontradas num aforismo posterior, tal como traduzido por Charles Johnston, que exprime este pensamento em termos particularmente claros:

"O vidente é visão pura... ele vê através da veste da mente". (Livro II, Aforismo 20).

O aforismo anterior tratou do que se pode chamar meditação com semente ou com um objeto; este aforismo sugere o estágio seguinte, meditação sem semente ou sem aquilo que o cérebro físico reconheceria como um objeto.

Seria conveniente mencionar aqui os seis estágios de meditação tratados por Patânjali, pois eles dão um indício sobre todo o processo de desenvolvimento tratado neste livro:

1. Aspiração
2. Concentração
3. Meditação
4. Contemplação
5. Iluminação
6. Inspiração

É também útil observar que o estudante começa aspirando ao que está além de seu conhecimento e termina sendo inspirado por aquilo que procurou conhecer. A concentração (ou focalização intensa) resulta na meditação e a meditação desabrocha como contemplação.

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Livro I - Aforismo 19

19. O samadhi que se acabou de descrever não vai além dos limites do mundo fenomênico; não ultrapassa os Deuses, nem os que dizem respeito ao mundo concreto.

Deve ser lembrado que os resultados alcançados nos processos tratados nos aforismos dezessete e dezoito levam o aspirante somente até o limite do reino da alma, ao novo campo de conhecimento do qual ele se tornou consciente. Ele ainda está confinado aos três mundos. Tudo o que conseguiu foi acalmar as modificações do corpo mental de modo que pela primeira vez o homem (no plano físico e em seu cérebro físico) se torna conhecedor do que está além dos três mundos - isto é, a alma, seu campo de visão e seu conhecimento. Ele ainda tem que fortalecer sua ligação com a alma (o que é tratado nos aforismos vinte e três a vinte e oito) e então, tendo transferido sua consciência para a do homem real ou espiritual, deve começar a trabalhar desta nova posição ou ponto vantajoso.

Esta ideia foi expressa por alguns tradutores como a condição em que o aspirante toma conhecimento "da nuvem de chuva de coisas cognoscíveis". A nuvem ainda não se precipitou suficientemente para que a chuva caia das alturas celestiais sobre o plano físico, ou para que as "coisas cognoscíveis" se tornem conhecidas pelo cérebro físico. A nuvem é percebida como o resultado de intensa concentração e da tranquilização das modificações inferiores, mas enquanto a alma ou Mestre não tiver assumido o controle, o conhecimento da alma não pode ser derramado no cérebro físico através do sexto sentido, a mente.

A ciência da ioga é uma ciência real e somente quando os estudantes a abordarem pelos estágios corretos, empregando métodos científicos, poderá o verdadeiro samadhi ou conscientização ser conquistado.

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Livro I - Aforismo 20

20. Outros iogues alcançam o samadhi e chegam a uma discriminação do espírito puro através da crença, acompanhada pela energia, memória, meditação e percepção direta.

Nos grupos de iogues anteriormente abordados, a percepção foi limitada ao mundo fenomênico, embora devamos compreender que estes abranjam apenas os três mundos, da percepção mental, percepção astral e dos sentidos físicos. As energias que produzem a concretização e a força matriz do pensamento à medida que produz efeitos no plano físico, são contatadas e conhecidas. Aqui, todavia, o iogue se desloca para reinos mais sutis e espirituais e se torna consciente daquilo que o ser (em sua verdadeira natureza) percebe e conhece. Ele penetra no mundo das causas. Pode-se tomar como do primeiro grupo, todos aqueles que estão trilhando o caminho do discipulado, e cobre desde o tempo de sua entrada no Caminho Probatório até aquele em que receberam a segunda Iniciação. O segundo grupo é composto pelos discípulos mais avançados que - tendo controlado e transmutado toda a natureza inferior - fazem contato com sua mônada, espírito ou "Pai que está no Céu" e discernem o que a mônada percebe.

A primeira forma de conscientização é obtida por aqueles que estão no processo de sintetizar os seis centros inferiores no centro da cabeça, pela transmutação dos quatro inferiores nos três superiores, e a seguir o do coração e o da garganta no da cabeça. O segundo grupo - por um conhecimento da lei - trabalha com todos os centros transmutados e purificados. Eles sabem como conquistar o verdadeiro samadhi, ou estado de abstração ocultista, através de sua habilidade em recolher as energias para o lótus de mil pétalas da cabeça, e daí abstraí-las através dos outros dois corpos mais sutis, até que todas as energias estejam centradas e focalizadas no veículo causal, o karana sarira, o lótus egoico. Patânjali nos diz que isto é produzido pelos cinco estágios seguintes. Os estudantes devem ter em mente que estes estágios se relacionam às atividades da alma, à conscientização egoica e não às reações do homem inferior e do cérebro físico.

1. Crença. A alma, em seu próprio plano, ensaia uma condição análoga à crença do aspirante na alma ou aspecto crístico; apenas, neste caso, o objetivo é a conscientização daquilo que o Cristo ou alma está procurando revelar, o espírito ou o Pai no Céu. Primeiro o discípulo chega à conscientização do anjo de Sua Presença, o anjo solar, ego ou alma. Esta é a conquista do grupo precedente. Depois a própria Presença é contatada e esta Presença é espírito puro, o absoluto, o Pai do Ser. O eu e o não-eu tornaram-se conhecidos deste grupo de iniciados. A visão do não-eu, então, diminui e se extingue e apenas o espírito é conhecido. A crença deve ser sempre o primeiro estágio. Primeiro, a teoria; a seguir, a experimentação e, finalmente, a conscientização.

2. Energia. Quando a teoria for compreendida, quando a meta for percebida, então segue-se a atividade - a correta atividade e o correto emprego da força que fará o objetivo tornar-se mais próximo e a teoria um fato.

3. Memória, ou lembrança correta. Este é um interessante fator no processo, pois abrange o correto esquecimento ou a eliminação da consciência do ego de todas as formas que até então encobriram o Real. Estas formas são ou autoescolhidas ou autocriadas. Isto leva a uma condição de verdadeira captação ou habilidade para registrar corretamente o que a alma percebeu, e ao poder de transferir essa percepção correta para o cérebro do homem físico. Esta é a memória que é aqui referida. Não se refere tão especificamente à lembrança de coisas do passado, mas abrange o ponto de conscientização e a transferência dessa conscientização para o cérebro, onde deve ser registrada e, por fim, relembrada quando se queira.

4. Meditação. Aquilo que foi visto e registrado no cérebro e que emanou da alma, deve ser alvo da meditação e assim tecido na fábrica da vida. É através desta meditação que as percepções da alma se tornam reais para o homem no plano físico. Esta meditação é assim de ordem muito elevada pois se segue ao estágio contemplativo e é meditação da alma com o propósito de iluminar o veículo no plano físico.

5. Percepção direta. A experiência da alma - e o conhecimento do espírito ou do aspecto Pai - começa a fazer parte do conteúdo cerebral do Adepto ou Mestre. Ele conhece o plano, tal como encontrado nos níveis mais elevados, e está em contato com o Arquétipo. Se posso empregar este exemplo, é aquela classe de Iogues que alcançou o ponto onde lhes é possível perceber o plano, tal como existe na mente do "Grande Arquiteto do Universo". Eles estão agora em relação com Ele. Na outra classe de Iogues, o ponto atingido é aquele em que podem estudar as cópias do grande plano e, assim, inteligentemente cooperar na construção do Templo do Senhor. A percepção a que aqui se refere é de ordem tão alta que é praticamente inconcebível para todos, exceto para os discípulos avançados, mas numa apreciação dos graus e estágios, o aspirante obtém não só uma compreensão de qual seja o seu problema imediato, e de sua posição, como também uma apreciação da beleza de todo o esquema.

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Livro I - Aforismo 21

21. A conquista deste estado (consciência espiritual) é rápida para aqueles cuja vontade é intensamente viva.

É natural que assim seja. À proporção que a vontade, refletida na mente, se torna dominante no discípulo, ele desperta em si próprio aquele aspecto que está em relação com o aspecto vontade do Logos, o primeiro aspecto ou o Pai. As linhas de contato são as seguintes:

1. Mônada ou Pai no Céu, o aspecto vontade
2. Atma ou vontade espiritual, o mais elevado aspecto da alma
3. O corpo mental ou a Vontade inteligente, o mais elevado aspecto da personalidade
4. O centro da cabeça

Esta é a linha seguida pelos raja-iogues e os leva à conscientização do espírito e ao adeptado. Há ainda uma outra linha:

1. Mônada
2. O Filho ou o aspecto do Cristo
3. O aspecto amor, ou aspecto sabedoria
4. Budi ou amor espiritual, o segundo aspecto da alma
5. O corpo emocional, o segundo aspecto da personalidade, e
6. O centro cardíaco

Esta é a linha seguida pelo bhakti, o devoto e o santo e o leva a um conhecimento da alma e da santidade. A primeira linha é a que deve ser seguida por nossa raça ariana. Esta segunda foi o caminho seguido pelos atlantes.

Se os estudantes seguirem estas normas com cuidado, obterão muita luz. A necessidade de uma vontade enérgica e forte se tornará aparente se se estudar o caminho da Iniciação. Somente uma vontade de ferro e uma resistência contínua, forte e inalterável, levarão o aspirante ao longo deste caminho até à clara luz do dia.

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Livro I - Aforismo 22

22. Aqueles que empregam a vontade também diferirão entre si, pois seu uso pode ser intenso, moderado ou suave. Em relação à conquista da verdadeira consciência espiritual há ainda um outro caminho.

Seria de bom alvitre esclarecer aqui as duas maneiras pelas quais os homens podem atingir a meta - conhecimento da vida espiritual e emancipação. Há o "Caminho da Ioga", como delineado por Patânjali, no qual, pelo emprego da vontade, obtém-se a discriminação entre o eu e o não-eu e se chega ao espírito puro. Este é o caminho para a quinta raça, a ariana, para aqueles cuja função é desenvolver o quinto princípio, ou mente, tornando-se assim verdadeiros filhos da mente. É sua missão tornarem-se a estrela de cinco pontas, a estrela do homem perfeito em toda a sua glória. Seguindo-se este caminho dominam-se os cinco planos da evolução humana e super-humana, e atma (ou a vontade de Deus, o aspecto Pai) é revelado por meio de budi (ou a consciência Crística), tendo, para veículo, manas ou a mente superior.

A outra maneira é a da devoção pura. Pela intensa adoração e consagração total o aspirante chega ao conhecimento da realidade do espírito. Este é, para muitos, o caminho da menor resistência; foi o método de realização para a raça anterior à ariana. Este método ignora quase que inteiramente o quinto princípio e é a sublimação da percepção sensorial, sendo o caminho do sentimento intenso. Seguindo este método, dominam-se os quatro planos e budi (ou o Cristo) é revelado. Os estudantes devem fazer a clara diferenciação entre estes dois caminhos, lembrando-se que o ocultista branco combina os dois e, se nesta vida seguir o caminho da Raja Ioga com fervor e amor será porque, em outras vidas, começou a trilhar o caminho da devoção e achou o Cristo, o Budi interno. Nesta vida ele recapitulará sua experiência, além do intenso exercício da vontade e controle da mente, que finalmente revelará o Pai no Céu, o ponto do espírito puro.

Os comentadores deste aforismo assinalam que os que seguem o método da Raja Ioga e empregam a vontade estão divididos em três grupos principais. Estes, por sua vez, podem ser divididos em nove. Há os que usam a vontade com tal intensidade que alcançam resultados muito rapidamente, resultados estes que são, porém, obtidos com algum perigo e risco. Existe o risco de um desenvolvimento desigual, de uma negação do lado coração da natureza, e de algumas destruições que terão de ser posteriormente remediadas. Há também aqueles aspirantes cujo progresso é menos rápido e que são expoentes do caminho do meio. Eles prosseguem contínua e moderadamente e são chamados os "adeptos discriminativos", pois não permitem qualquer tipo de excesso. Seu método é o recomendado aos homens neste particular ciclo. Há ainda aquelas almas delicadas cuja vontade pode ser considerada como caracterizada por uma pertinácia imperturbável e que prosseguindo firmemente, sem se desviarem, sempre para frente, atingem finalmente sua meta. São caracterizados por grande tenacidade. Seu progresso é lento. Eles são "as tartarugas" do Caminho, como os do primeiro grupo são os "coelhos".

Em alguns livros antigos há descrição detalhada sobre estes três grupos de aspirantes e eles podem ser retratados pelos seguintes símbolos:

1. O grupo dos intensificados, representados como bodes, e os aspirantes deste tipo são frequentemente encontrados encarnados sob o signo de Capricórnio.

2. O grupo moderado é representado por um peixe, e muitos dos nascidos sob o signo de Peixes encontram-se neste grupo.

3. Os do grupo lento ou suave são representados como caranguejos e constantemente se encontram no signo de Câncer.

Nestes três grupos há diversas subdivisões e é interessante notar que nos arquivos dos Senhores do Carma a maior parte destes três grupos passa para o signo de Libra (ou balança) próximo ao término de seus esforços. Quando encarnados neste signo, equilibram os pares de opostos com cuidado, igualizam seu desenvolvimento unilateral, modificando o desequilíbrio de seus esforços até então e começam a "desenvolver um esforço contínuo. Com frequência passam então para o signo de Aquário e tornam-se portadores da água, tendo que carregar "em suas cabeças o vaso da água viva". Assim, a rapidez de sua ascensão ao monte da iniciação tem de ser modificada, senão "a água será derramada e o vaso estilhaçado". Como a água é destinada a saciar a sede das massas, eles devem acelerar seu progresso, pois a necessidade é grande. Assim "os primeiros serão os últimos e os últimos serão os primeiros" e o coelho e a tartaruga se encontrarão ao atingirem a meta.

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Livro I - Aforismo 23

23. Pela intensa devoção a Ishvara, ganha-se o conhecimento de Ishvara

Ishvara é o filho em manifestação através do sol. Este é o aspecto macrocósmico. Ishvara é o filho de Deus, o Cristo cósmico, resplandecente no coração de cada um de nós. A palavra "coração" é usada aqui em seu sentido oculto. As seguintes correspondências podem lançar luz sobre o assunto e devem ser estudadas com cuidado.

ASPECTO QUALIDADE CENTRO MACROCOSMO
Espírito Pai Mônada Vontade Cabeça Sol espiritual central
Alma Filho Ego Amor Coração Coração do sol
Corpo Espírito Santo Personalidade Inteligência Ativa Garganta Sol físico

Ishvara é o segundo aspecto e, portanto, o real significado deste aforismo é o seguinte: através de intensa devoção e amor por Ishvara, o Cristo em manifestação, pode-se conhecer ou estabelecer contato com o Cristo ou alma. Ishvara é Deus no coração de cada filho de Deus; Ele é encontrado na caverna do coração; Ele pode ser alcançado através de puro amor e serviço devotado e, quando for alcançado, Ele será visto sentado sobre o lótus de doze pétalas do coração, segurando em Suas mãos "a joia do lótus". Assim o devoto encontra Ishvara. Quando o devoto se tornar o raja iogue, Ishvara lhe revelará o segredo da joia. Quando o Cristo for conhecido como rei no trono do coração, então Ele revelará o Pai ao Seu devoto. Mas o devoto tem que trilhar o Caminho da Raja Ioga e combinar o conhecimento intelectual, o controle mental e a disciplina, antes que a revelação possa ser verdadeiramente feita. O místico deve finalmente transformar-se no ocultista: as qualidades do coração e da cabeça devem ser desenvolvidas igualmente, pois ambas são igualmente divinas.

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Livro I - Aforismo 24

24. Este Ishvara é a Alma, sem limitações, livre de carma e desejo.

Temos aqui o retrato do homem espiritual, tal como ele é na realidade. Sua relação com os três mundos é mostrada. Este é o estado do mestre ou do adepto, da alma que recebeu seus direitos de nascença e que não está mais sob o controle das forças e energias da natureza inferior. Neste aforismo, e nos três que se seguem, é dado um quadro do homem liberto que passou pelo ciclo de reencarnações e que, pelas lutas e experiências, encontrou o verdadeiro eu. A natureza do anjo solar, o filho de Deus, o ego ou o eu superior, é aqui mostrada. Diz-se que Ele é:

1. Sem limitações. Ele não mais está "preso, trancado e confinado" pelo quaternário inferior. Não está mais crucificado sobre a cruz da matéria. Os quatro envoltórios inferiores - denso, etérico, emocional e mental - não mais são sua prisão. São apenas instrumentos que ele utiliza ou não, de acordo com sua vontade. Esta funciona livremente e se ele permanecer no reino dos três mundos é por sua livre escolha e a limitação que se impôs pode terminar quando quiser. Ele é mestre nos três mundos, um filho de Deus dominando e controlando as criações inferiores.

2. Livre de carma. Pelo conhecimento da Lei ele ajustou todo seu carma, pagou todas as suas dívidas, cancelou todas as suas obrigações, resolveu tudo o que pesava contra ele e, através de sua realização subjetiva, entrou conscientemente no mundo das causas. O mundo dos efeitos foi deixado para trás, no que concerne aos três mundos. Assim, não mais (cegamente e pela ignorância) põe em ação condições que produzam efeitos malévolos. Ele trabalha sempre com a Lei e cada demonstração de energia (a palavra falada e a ação iniciada) é desencadeada com pleno conhecimento do resultado a ser obtido. Deste modo, nada do que ele faz produz resultados maus e nenhum carma é assim criado. O homem comum lida com efeitos e abre caminho cegamente entre estes efeitos. O Mestre lida com causas e os efeitos que Ele produz, pela aplicação da lei, não o limitam nem o tolhem.

3. Livre de desejos. As percepções sensoriais nos três planos não mais o atraem nem o deslumbram. Sua consciência está voltada para dentro e para cima. Não está mais voltada para baixo e para fora. Ele está no centro e a periferia não mais o atrai. O desejo de experiência, os anseios pela existência no plano físico e o desejo pelo aspecto forma em suas muitas variações nada mais significam para ele. Ele experimentou, Ele conhece, Ele sofreu e Ele foi forçado a reencarnar-Se por Seu anseio pelo não-eu. Tudo isto terminou agora e Ele é uma alma liberta.

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Livro I - Aforismo 25

25. Em Ishvara, O Gurudeva, o germe de todo conhecimento expande-se até o infinito.

No sentido macrocósmico Deus é o Mestre de tudo e Ele é a soma total da onisciência, sendo (como facilmente se vê), a soma total de todos os estados de consciência. Ele é a alma de todas as coisas, e a alma do átomo de matéria assim como as almas dos homens são uma parte de Sua infinita realização. A alma do ser humano é potencialmente a mesma, e assim que a consciência cessa de identificar-se com seus veículos e órgãos, o germe de todo conhecimento começa a expandir-se. No discípulo, no adepto, no Mestre ou Mahatma, no Cristo, no Buda e no Senhor do Mundo, mencionado na Bíblia como o Ancião dos Dias, este "germe de todo conhecimento" pode ser visto em diferentes estágios de desenvolvimento. A consciência de Deus é a deles, e eles passam de uma iniciação para outra. Em cada estágio o homem é um mestre mas, sempre além do ponto alcançado distingue-se uma outra possível expansão e o processo é sempre o mesmo. Este processo pode ser resumido nas seguintes afirmações:

1. Um impulso ou determinação de alcançar o novo conhecimento.

2. A manutenção da consciência já desenvolvida e sua utilização e, a partir do ponto atingido, a evolução para uma outra realização.

3. A superação das dificuldades devidas às limitações dos veículos de consciência e ao carma.

4. As provas ocultistas a que é submetido o aluno, quando se mostra em condições.

5. O triunfo do aluno.

6. O reconhecimento de seu triunfo e realização, pelos guias da raça, a Hierarquia planetária.

7. A visão do que jaz à frente.

E assim prossegue o desenvolvimento e em cada ciclo de esforço o filho de Deus em evolução toma posse dos direitos que lhe pertencem por nascença e toma a posição de um conhecedor, "Alguém que ouviu a tradição, experimentou a dissolução do que até então havia sido mantido, viu aquilo que estava oculto aos que se aferram à tradição, substituiu aquilo que acabou de ver, doou as possessões que adquiriu àqueles que lhe estendiam mãos vazias e passou para as câmaras interiores do aprendizado".

Seria bom que os estudantes, ao estudar estes poucos aforismos relativos a Ishvara, tivessem em mente que eles se referem ao filho de Deus, a segunda pessoa da Trindade, ao Se manifestar por meio do Sistema Solar, a alma macrocósmica. A significação secundária também diz respeito ao divino filho de Deus, o segundo aspecto monádico, ao Se manifestar por meio de um ser humano.
Esta é a alma microcósmica. Os seguintes sinônimos do aspecto Ishvara podem ser úteis:

O MACROCOSMO O MICROCOSMO
Ishvara, o segundo aspecto - Cuja natureza é amor. O segundo aspecto - Amor sabedoria.
O Filho de Deus - O revelador do Pai. O filho do Pai - O revelador da Mônada.
O Cristo cósmico - Deus em encarnação. O Cristo - O Cristo em você, esperança é de glória.
Vishnu - Segunda pessoa da Trimurti Hindu. A Alma - Consciência.
A alma de todas as coisas - Átomos e almas são termos sinônimos. O Eu superior - O Senhor dos corpos.
O Ser Total - A soma total de todos os seres. O Ego - A Identidade que se está conscientizando.
Eu sou Aquele - Consciência grupal. A Palavra - Deus encarnado.
AUM - A palavra de Revelação. AUM - A Palavra de revelação.
A Palavra - Deus na Carne. O Mestre - O eu no trono.
O Gurudeva - O Mestre de tudo. O Augoeides radiante - A luz interior.
A luz do mundo - Brilhando na treva. O Homem espiritual - Utilizando o homem inferior.

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Livro I - Aforismo 26

26. Ishvara (o Gurudeva), não sendo limitado por condições temporais, é o instrutor dos primitivos Senhores.

Desde que as condições de tempo e espaço existem, houve aqueles que alcançaram a onisciência, aqueles cujo germe de conhecimento foi submetido à apropriada cultura e assim se desenvolveu até florescer na plena glória da alma libertada. Esta condição se tornou possível através de certos fatores que são:

1. A identidade de cada alma individual com a Superalma.

2. A força de atração da Superalma, ao atrair as almas separadas de todas as coisas, gradualmente de volta para Si própria. Esta é a própria força de evolução, o grande agente atrativo que lembra os pontos da Vida divina que se afastam, as unidades de consciência, de volta à sua fonte. Ela envolve a resposta da alma individual à força da alma cósmica.

3. O treinamento intensivo dado pela Hierarquia oculta para se obter o clímax, no qual as almas recebem um estímulo e vitalização que as capacitam para fazer mais rápido progresso.

O estudante de ocultismo deve lembrar-se que este processo vem sendo realizado nas rondas e ciclos que precederam o nosso planeta Terra. Os Senhores Primitivos ou Sábios, são aqueles grandes Adeptos que - tendo "provado a experiência" segundo a Lei do Renascimento, foram iniciados nos mistérios pelo Iniciador Único, o representante, em nosso planeta, da Superalma. Eles, por sua vez, tornaram-se instrutores e iniciadores nos mistérios.

O Mestre Único é encontrado no íntimo; é a alma, o regente interno, o pensador em seu próprio plano. Este Mestre Único é uma parte corporificada do Todo, da Alma-Total. Cada expansão de consciência que um homem experimenta coloca-o em condições de ser um Mestre para aqueles que ainda não alcançaram uma expansão de consciência similar. Portanto, conquistando-se a mestria - nada há a ser encontrado (falando em termos do reino humano) a não ser Mestres que são também discípulos. Todos são alunos e todos são professores, diferindo apenas no grau de realização. Por exemplo:

a. Aspirantes ao Caminho são discípulos de discípulos menores
b. Probacionários no Caminho são discípulos mais elevados
c. Discípulos aceitos são os discípulos de um adepto e de um Mestre
d. Um adepto é o discípulo de um Mestre
e. Um Mestre é o discípulo de um Mahatma
f. Os Mahatmas são discípulos de iniciados ainda mais elevados
g. Estes, por sua vez, são discípulos do Cristo ou de quem estiver à testa do departamento de ensino
h. O chefe do departamento de ensino é um discípulo do Senhor do Mundo
i. O Senhor do Mundo é o discípulo de um dos três espíritos planetários que representam os aspectos superiores
j. Estes, por sua vez, são discípulos do Logos solar

Torna-se então evidente, ao estudante cuidadoso, quão interdependentes são todos e como a conquista de um, afetará profundamente todo o corpo. O discipulado pode ser encarado como um termo genérico abrangendo todos os estados ou condições da existência nos quarto e quinto reinos (humano e espiritual) onde certas expansões de consciência são obtidas através de adestramento específico.

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Livro I - Aforismo 27

27. A palavra de Ishvara é AUM (ou OM). Este é o Pranava.

Os estudantes devem-se lembrar que há três Palavras básicas, ou sons, em manifestação. Este é o caso no que diz respeito ao reino humano. São eles:

I. A Palavra, ou Nota da Natureza. Esta é a Palavra ou o som de todas as formas existentes na substância do plano físico e, como é geralmente sabido, é emitido na nota fundamental "FÁ". É uma nota com a qual o ocultista branco nada tem a ver, pois seu trabalho não está relacionado com o aumento da tangibilidade, mas sim, com a demonstração do subjetivo ou intangível. Esta é a Palavra do terceiro aspecto, o aspecto Brahma ou Espírito Santo.

II. A Palavra Sagrada. Esta é a Palavra de Glória, o AUM. Este é o Pranava, o som da própria Vida consciente como é emitido em todas as formas. É a Palavra do segundo aspecto, e do mesmo modo como a Palavra da Natureza, ao ser emitida corretamente, produz as formas destinadas a revelar a alma ou segundo aspecto, assim também o Pranava, quando emitido corretamente,demonstra o Pai ou Espírito, por meio da alma. É a Palavra dos filhos de Deus encarnados. Num comentário tão curto como este não é possível escrever um tratado sobre este segredo dos segredos, e este grande mistério das idades. Tudo o que se pode fazer é relacionar certos fatos sobre o AUM e deixar ao estudante a expansão do conceito e a apreensão do significado das breves afirmativas feitas, de acordo com o seu grau de intuição.

III. A Palavra Perdida. A ideia desta Palavra Perdida foi preservada para nós na Maçonaria. É a Palavra do primeiro aspecto, o aspecto espírito, e somente o iniciado do terceiro grau pode realmente começar a busca desta palavra, pois só a alma liberta pode encontrá-la. Esta palavra diz respeito às mais altas iniciações e de nada adianta para nós tecermos mais comentários sobre ela.

Pode-se então fazer as seguintes afirmações sobre a palavra sagrada, que devem ser cuidadosamente estudadas:

1. O AUM é a Palavra de glória, e é o Cristo em nós, a esperança de glória.

2. A Palavra, quando corretamente apreendida, faz com que o segundo aspecto, ou o aspecto Cristo da divindade, brilhe resplandecentemente.

3. É o som que traz à manifestação a alma encarnada (macrocósmica ou microcósmica), o ego, o Cristo, e faz com que o "radiante Augoeides" seja visto na terra.

4. É a Palavra que liberta a consciência e que quando corretamente entendida e empregada, livra a alma das limitações da forma nos três mundos.

5. O AUM é o sintetizador dos três aspectos e por isso é, primariamente, a Palavra do reino humano no qual as três linhas da via divina se encontram - espírito, alma e corpo.

6. É também a Palavra da quinta raça ariana, num sentido especial. O trabalho dessa raça é revelar, de um modo mais novo e mais completo, a natureza da Identidade interior, da alma no interior da forma, o filho da mente, o anjo solar, o quinto princípio.

7. O significado da Palavra só se torna aparente depois que a "luz interna é conscientizada". Pelo seu emprego, "a centelha" se transforma em uma luz resplandecente, a luz se torna uma chama e esta finalmente se torna um sol. Pelo seu emprego, nasce na vida de cada homem o "sol da retidão".

8. Cada uma das três letras tem relação com os três aspectos e cada uma delas pode ser aplicada a qualquer uma das triplicidades conhecidas.

9. O Mestre, o Deus interno, é na realidade a Palavra, o AUM, e deste Mestre (encontrado no coração de todos os seres) é verdade que "no princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus (daí a dualidade) e a Palavra era Deus". Pelo seu emprego o homem chega à conscientização:

a. de sua própria divindade essencial
b. do propósito do processo de se tomar forma
c. da constituição e a natureza dessas formas
d. da realidade da consciência, ou a relação do eu divino, ou espírito, com a forma, seu polo oposto.

A esta relação, durante seu processo evolutivo, chamamos consciência, e a característica essencial desta consciência é amor.

10. O Guru ou Mestre, que leva um aluno até a porta da iniciação e que vela por ele durante todas as provas e processos, iniciais e subsequentes, também representa a Palavra e, pelo emprego científico deste grande som, Ele provoca um certo estímulo e vitalização nos centros do discípulo, tornando assim possíveis certos desenvolvimentos.

Não é aconselhável dar aqui nada mais sobre a Palavra Sagrada. Já foi dito o bastante para indicar ao aspirante sua potência e seu propósito. Deverá haver maiores informações a serem transmitidas ao estudante, de outras maneiras e em outras ocasiões, quando este - pelo estudo e pelo esforço autoiniciado - chegar a conclusões corretas. Pode-se acrescentar que esta grande palavra, quando se medita sobre Ela, dá indicações sobre o verdadeiro significado esotérico das palavras de H.P. Blavatsky na Doutrina Secreta:

"Encaramos a vida como a Forma Una de Existência, manifestando-se no que chamamos Matéria; ou aquilo que, incorretamente separando-os, chamamos Espírito, Alma e Matéria no homem. A matéria é o veículo para a manifestação da Alma neste plano de existência, e a Alma é o veículo num plano superior para a manifestação do Espírito, e estes três são uma Trindade sintetizada pela Vida, que permeia todos eles".

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Livro I - Aforismo 28

28. Pela emissão da palavra e pela reflexão sobre seu significado encontra-se o Caminho.

Esta é uma interpretação muito geral, mas apesar disto transmite a significação correta dos termos empregados no sânscrito. Apenas Vivekananda, entre os muitos tradutores, dá esta interpretação, colocando-a da seguinte maneira:

"a repetição do OM e a meditação sobre sua significação (é o Caminho)".

Os outros tradutores omitem as três palavras finais, embora a inferência seja clara.

A expressão "a emissão da Palavra" não deve ser interpretada muito literalmente; o esotérico "emitir" é baseado num estudo da Lei de Vibração e na sintonia gradual das vibrações inferiores dos invólucros ou vestimentas da consciência de modo a sincronizá-los com a nota, ou o som, do morador consciente. Falando corretamente, a Palavra deve ser emitida pela alma, ou ego, em seu próprio plano, e a vibração afetará subsequentemente os vários corpos ou veículos que abrigam aquela alma. O processo é, pois, mental, e só pode ser realmente praticado por aqueles que - através da meditação e da disciplina, associadas ao serviço - efetuaram uma consciente unificação com a alma. Os aspirantes a esta condição têm que utilizar os potentes fatores da imaginação, visualização e perseverança na meditação para alcançar este estágio inicial. Deve-se notar que este estágio tem que ser alcançado, mesmo que somente num grau relativamente pequeno, antes que o aspirante possa tornar-se um discípulo aceito.

O processo de emissão da Palavra é duplo, como enfatizado aqui.

Há, antes de tudo, o ato do ego, anjo solar, eu superior ou alma, ao emitir a Palavra de seu próprio lugar, nos níveis abstratos do plano mental. Ele dirige este som, através do sutratma e das vestimentas da consciência, para o cérebro físico do homem encarnado, a sombra ou reflexo. Esta "emissão" tem que ser constantemente repetida. O Sutratma é aquele elo magnético, mencionado na Bíblia Cristã como o "cordão prateado, o fio de luz viva que liga a Mônada, o Espírito no homem, ao cérebro físico.

Em segundo lugar, há o intenso reflexo do homem, em seu cérebro físico, sobre este som, ao reconhecê-lo. Dá-se aqui uma indicação dos dois polos do ser: a alma e o homem encarnado e, entre estes dois, encontra-se o fio ao longo do qual o Pranava (ou palavra) vibra. Os estudantes da ciência esotérica têm que reconhecer a técnica dos processos indicados. No caso da emissão da Palavra temos os seguintes fatores:

1. A alma que o envia, ou emite
2. O sutratma, ou fio, ao longo do qual o som vibra, é levado, ou transmitido
3. As vestimentas da consciência, mental, emocional e etérica, que vibram em resposta à vibração, ou alento, e são assim estimuladas.
4. O cérebro que pode ser adestrado para reconhecer o som e para vibrar em uníssono com a emissão.
5. O subsequente ato do homem em meditação. Ele ouve o som (chamado às vezes "a Voz quieta e pequena" ou "a Voz do Silêncio"), reconhece-a pelo que realmente é e, em profunda reflexão, assimila os resultados da atividade de sua alma.

Posteriormente, quando o aspirante penetrou nos mistérios e aprendeu como unificar a alma e o homem de modo a que os dois funcionem como uma unidade coordenada na terra, o homem aprende a emitir a Palavra no plano físico com o propósito de despertar as forças que estão latentes nele e assim desperta os centros. Desta maneira participa cada vez mais no trabalho criativo, mágico e psíquico de manifestação, sempre com o objetivo em vista de beneficiar seus semelhantes, assim cooperando no desenvolvimento dos planos da hierarquia planetária.

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Livro I - Aforismo 29

29. Disto vem a entrada na consciência do Ego (a alma) e a remoção de todos os obstáculos.

Quando se conhece o Mestre Interno, sente-se cada vez mais a afirmação de seus poderes, e o aspirante submete toda a sua natureza inferior ao controle desse novo senhor.

Deve-se notar aqui que a remoção completa e final de todos os obstáculos ocorre após o lampejo da conscientização. A sequencia dos acontecimentos é a seguinte:

1. Aspiração após o conhecimento da alma
2. Conscientização dos obstáculos, ou uma compreensão das coisas que impedem o conhecimento verdadeiro
3. Compreensão intelectual quanto à natureza destes obstáculos
4. Determinação de eliminá-los
5. Uma visão, ou lampejo repentino da Realidade da alma
6. Nova aspiração e uma forte determinação em transformar esta visão passageira em realidade permanente na experiência do plano inferior
7. A batalha de Kurukshetra, com Krishna, a alma, encorajando Arjuna, o aspirante, a desenvolver um esforço uniforme e contínuo. Encontra-se o mesmo pensamento no Velho Testamento, no caso de Joshua ante as muralhas de Jericó.

Pode ser conveniente concluir aqui este comentário com os aforismos 31,32,33 e 34, do livro IV:

31. Quando, pela remoção dos obstáculos e pela purificação de todos os envoltórios, a totalidade do conhecimento se torna acessível, nada mais resta para o homem fazer.
32. As modificações da substância mental (ou qualidades da matéria) pela natureza inerente das três gunas terminam, pois serviram a seu propósito.
33. O tempo, que é a sequência das modificações da mente, da mesma forma termina, dando lugar ao Eterno Agora.
34. O estado de Unidade isolada torna-se possível quando as três qualidades da matéria (as três gunas ou potências da Natureza. - A.B.) não mais têm influência sobre o Eu. A Consciência Espiritual pura se recolhe para o Uno.

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Livro I - Aforismo 30

30. Os obstáculos à cognição da alma são os defeitos físicos, a inércia mental, as perguntas errôneas, a falta de cuidado, a preguiça, a falta de serenidade, a percepção errônea, a incapacidade de conseguir a concentração e de manter a atitude meditativa, uma vez conquistada.

Obstáculo I. Defeitos físicos.

É interessante notar que o primeiro obstáculo tenha relação com o corpo físico. Os aspirantes fariam bem em lembrar-se disto e devem ajustar o veículo físico às exigências que posteriormente serão feitas a ele. Estes ajustes são grandes e enquadram-se em quatro grupos:

1. Tornar o corpo imune aos ataques de doenças e indisposições. Isto é, em si mesmo, um processo tríplice que envolve:

a. A erradicação das moléstias atuais
b. O refinamento e a purificação do corpo de modo a finalmente reconstruí-lo
c. A proteção do corpo contra ataques futuros e sua utilização como um veículo para a alma

2. O fortalecimento e o refinamento do corpo etérico de modo a que possa ser finalmente sintonizado para que o trabalho de direcionamento das forças se possa realizar com segurança. O discípulo tem que passar por seu corpo as forças que utiliza em seu trabalho.

3. O desabrochar e o despertar dos centros no corpo etérico, a centralização dos fogos do corpo e sua correta progressão subindo pela espinha dorsal para se unir com o fogo da alma.

4. A coordenação do corpo físico em suas duas divisões e seu subsequente alinhamento com a alma pelo sutratma, ou fio, que é a ligação magnética.

Só é possível realizar com segurança o terceiro ajustamento após os três meios da ioga terem sido empregados e desenvolvidos. Estes são:

1. Os cinco mandamentos, (Ver Livro II Sutras 28 e 29)
2. As cinco regras, (Ver Livro II Sutras 32 a 46)
3. Postura correta (Ver Livro II Sutras 46 a 48)

Este é um ponto muitas vezes esquecido pelos aspirantes à ioga, e daí os desastres e problemas tão comumente vistos entre aqueles que prematuramente se ocuparam com o despertar dos centros e com o ativar do fogo serpentino. Somente quando toda a relação do aspirante com a economia social (como tratado nos mandamentos), somente quando o trabalho de purificar e ajustar a tríplice natureza inferior foi realizado (como delineado nas regras) e somente quando uma equilibrada e controlada condição da natureza emocional foi obtida e se conseguiu também a posição correta, pode o aspirante à Raja Ioga prosseguir com segurança no trabalho ocultista e mais esotérico relacionado com os fogos de seu pequeno sistema. Não é possível enfatizar demais este ponto. Somente num estágio muito avançado do discipulado poderá o homem, com segurança, lidar conscientemente com os fogos vitais e dirigir sua correta progressão espinha acima. Há ainda muito poucos que "observaram a lei e os mandamentos."

Obstáculo II. Inércia mental.

O próximo grande obstáculo básico (pois estes obstáculos são relacionados de acordo com seu poder relativo sobre o homem comum) é a incapacidade de pensar claramente sobre o problema de como atingir a meta. A menos que um pensamento preciso preceda a ação, ter-se-á um impulso insuficiente, associado à falha de não se apreciar corretamente a magnitude do problema. A inércia mental é devida à condição letárgica da "vestimenta da consciência" que chamamos de corpo mental e ao baixo ritmo vibratório encontrado na maioria das pessoas. Esta é a razão por que a Raja Ioga provoca uma atração maior dos tipos mentais que de puros devotos, e explica o fato dos de corpo mental bem equipado e ativamente empregado poderem ser mais rapidamente adestrados nesta sagrada ciência. Para a maioria das pessoas, o despertar do corpo mental, o desenvolvimento de um interesse intelectual e a substituição do controle pelas emoções pelo controle da mente, tem que preceder qualquer conscientização posterior da necessidade da cultura da alma. O equipamento do pensamento tem que ser contatado e usado antes que a natureza do pensador possa ser inteligentemente apreciada.

Quando isto é compreendido, a contribuição das grandes escolas de pensamento que chamamos Ciência Mental, Ciência Cristã, Novo Pensamento e outros grupos que dão ênfase aos estados mentais para o desenvolvimento humano, será mais corretamente apreciada. Somente agora a família humana está se tornando consciente da "vestimenta da consciência", a que chamamos de corpo mental.

A maioria dos homens ainda tem que construir esta vestimenta a que os estudantes ocultistas chamam de corpo mental. Dentre aqueles que o estão construindo, serão escolhidos os verdadeiros raja iogues.

Obstáculo III. Perguntas errôneas.

Este é o estágio seguinte e depende também de um certo grau de desenvolvimento mental. Alguns tradutores chamam a isto de "dúvida". Este questionar errôneo é o que se baseia na percepção inferior e na identificação do homem real com este instrumento ilusório, seu corpo mental. Isto o leva a questionar as verdades eternas, a duvidar da existência das realidades fundamentais e a procurar a solução de seus problemas no que é efêmero e transitório e nas coisas dos sentidos.

Há perguntas certas e adequadas. É aquele "fazer perguntas" ao qual se referiu o Cristo em Suas palavras: "Pede e receberás". Esta faculdade de perguntar é deliberadamente cultivada por todos os verdadeiros Mestres no Oriente, em seus discípulos. Estes aprendem a formular perguntas sobre as realidades internas e, a seguir, a encontrar as respostas por si próprios, por meio de uma procura naquela fonte de todo conhecimento, latente no coração de todos os seres. Para perguntar inteligentemente e achar a resposta, eles devem em primeiro lugar libertar-se de toda autoridade exterior imposta e de toda tradição, bem assim, da imposição de todo dogma teológico, quer religioso ou científico. Somente assim pode-se achar a realidade e ver a verdade.

"Quando a tua Alma ultrapassar a floresta de ilusões. não mais te preocuparás com o que será ou com o que foi ensinado. Quando afastada do ensinamento tradicional, tua Alma ficará estável, firme na visão da alma, e então ganharás a união com a Alma". Gita 11. 51.52.

Obstáculo IV. Falta de cuidado.

A atitude da mente aqui abordada tem sido traduzida por alguns como "superficialidade da mente". É na realidade aquela versátil atitude mental que torna tão difícil alcançar a atenção e a concentração uni direcionadas. É, literalmente, a tendência para fabricar formas-de-pensamento da matéria mental que também foi descrita como a "tendência mental de saltar de um objeto para outro". Ver Livro 111, Aforismo 11.

Todos os comentadores concordam com esta tradução, empregando os termos indolência, langor ou preguiça. Isto se refere não tanto à inércia mental (pois pode acompanhar uma aguda percepção mental) como à indolência do homem inferior como um todo, que o impede de se elevar à altura do reconhecimento intelectual e à aspiração interior. Já foi dito ao aspirante o que ele tem a fazer, "os meios da ioga" lhe foram tornados claros. Ele vislumbrou o ideal e tem consciência de todos os obstáculos; teoricamente conhece que medidas deve tomar, mas não há correspondência entre sua atividade e seu conhecimento. Há um espaço vazio entre sua aspiração e sua realização. Embora ele deseje realizar e conhecer, o preenchimento das condições é um trabalho por demais árduo. Sua vontade ainda não é forte bastante para empurrá-lo para a frente. Ele permite que o tempo se escoe e nada faz.

Obstáculo VI. Falta de calma.

Isto foi bem traduzido por alguns como "apego a objetos". Este é o desejo por coisas materiais e sensoriais. É o amor pelas percepções dos sentidos e a atração por tudo aquilo que leva o homem, vez após vez, de volta às condições de existência no plano físico. O discípulo tem que cultivar a "calma", ou seja, a atitude de nunca se identificar com formas de qualquer espécie, mas sim de desapego e superioridade, livre das limitações impostas pelas coisas que possui. Isto é tratado em diversos locais nos vários aforismos e não é necessário ser tratado aqui com maiores detalhes.

Obstáculo VII. Percepção errônea.

Esta inabilidade em perceber corretamente as coisas e em visualizá-las como realmente são, é o natural resultado dos seis obstáculos anteriores. Enquanto o pensador se identificar com a forma, enquanto as vidas menores das vestimentas inferiores da consciência puderem mantê-lo escravizado, e enquanto ele se recusar a se separar do aspecto material, sua percepção permanecerá errada. A visão é de diferentes tipos, que podem ser enumerados como se segue:

1. Visão física. Revela a natureza do plano físico e é obtida por meio dos olhos, fotografando, através da lente do olho, o aspecto da forma tangível, sobre o maravilhoso filme que todo homem possui. É circunscrita e limitada.

2. Visão etérica. Esta é uma faculdade do olho humano que está em rápido desenvolvimento e que finalmente revelará a aura de saúde de todas as formas nos quatro reinos da natureza, o que trará o reconhecimento das emanações prânicas de todos os centros vivos e tornará manifesta a condição destes centros.

3.Clarividência. Esta é a faculdade da visão sobre o plano astral e é um dos "siddhis" inferiores, ou poderes psíquicos. É conseguida através de uma sensibilidade da superfície de todo "o corpo da sensibilidade", o invólucro emocional, e é uma percepção sensorial levada a um grau muito avançado. É enganadora e, em oposição à sua correspondente superior, que é a espiritual, é a própria apoteose de maya ou ilusão.

4. Visão simbólica. Esta é uma faculdade do corpo mental e o fator que produz a visão de cores e de símbolos geométricos, a visão na quarta dimensão e aqueles sonhos e visões que são resultantes da atividade mental, não da visão astral. Frequentemente, estas visões têm uma qualidade de previsão.

Estes quatro tipos de visão são a causa da percepção errônea e produzirão apenas ilusão e erro, até que as formas superiores de visão, a seguir enumeradas, as substituam. Estas formas superiores de visão incluem as outras.

5. Visão pura. Patânjali refere-se a ela nos seguintes termos: "O vidente é Conhecimento puro (gnosis). Apesar de puro, ele olha para a ideia apresentada por meio da mente" (Livro II, Aforismo 20).

As palavras "conhecimento puro" foram traduzidas como "visão pura". Esta visão é a faculdade da alma que é conhecimento puro, e se manifesta quando a alma emprega a mente como seu instrumento de visão. Charles Johnston traduz este mesmo Aforismo do seguinte modo: "O vidente é visão pura... Ele olha para fora através da vestimenta da mente".

São esta clara apreensão do conhecimento e uma perfeita compreensão das coisas da alma que caracterizam o homem que - pela concentração e pela meditação - alcançou o controle mental. A mente se torna então a janela da alma, e por ela o homem espiritual pode apreciar um novo e mais elevado reino de conhecimento. Simultaneamente com o desenvolvimento deste tipo de visão, a glândula pineal se torna ativa e o terceiro olho (em matéria etérica) desenvolve-se com uma atividade paralela.

6. Visão espiritual ou percepção verdadeira. Este tipo de visão abre o mundo do plano intuicional ou búdico, e leva seu possuidor até além dos níveis abstratos do plano mental. As coisas do espírito puro e os propósitos básicos que estão por trás de toda manifestação são assim conscientizados, exatamente como a visão pura permitiu a seu possuidor contatar os recursos (ou a fonte) de sabedoria pura. Com o desenvolvimento desta visão, o centro alta principal se torna ativo e o lótus de mil pétalas se abre.

7. Visão cósmica. Esta é de natureza inconcebível para o homem e caracteriza a conscientização daquelas Existências que se manifestam através de um esquema planetário num sistema solar, do mesmo modo como o homem se manifesta através de seus corpos.

Pelo estudo destes tipos de percepção o estudante chegará a uma correta apreciação do trabalho que tem a fazer. Ele é assim ajudado a se situar no lugar onde atualmente está e, em consequência, a preparar-se inteligentemente para o próximo passo à frente.

Obstáculo VIII. Incapacidade de conseguir a concentração.

Estes dois últimos obstáculos indicam o caminho pelo qual "as coisas antigas podem ser abandonadas" e pelo qual o novo homem recebe a sua herança. O método do discípulo não deve só incluir a autodisciplina ou a subjugação das vestimentas ou envoltórios, nem deve somente incluir o serviço ou a identificação com a consciência grupal, mas deve incluir também os dois estágios de concentração, focalização ou controle da mente, e a meditação, o processo seguro de analisar o que a alma contatou e conhece. Estes dois serão considerados posteriormente e não mais se tratará deles agora.

Obstáculo IX. Incapacidade de manter a atitude meditativa.

Ficará evidente, portanto, que os seis primeiros obstáculos tratam de condições errôneas e os três últimos, com as consequências destas condições. Contêm uma indicação quanto ao método pelo qual se pode conseguir a libertação destes estados errôneos de consciência.

O próximo aforismo é muito interessante, pois trata dos efeitos produzidos em cada um dos quatro corpos da natureza inferior, no caso do homem que ainda não venceu estes obstáculos.

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Livro I - Aforismo 31

31. A dor, o desespero, a atividade corporal mal aplicada e a direção errada (ou controle) das correntes da vida são os resultados dos obstáculos na natureza psíquica inferior.

Cada um destes quatro resultados exprime a condição do homem inferior; eles tratam dos efeitos da centralização ou identificação errada.

1. Dor é o efeito produzido quando o corpo emocional ou astral está erroneamente polarizado. A dor é a resultante da incapacidade de se equilibrar corretamente os pares de opostos. Indica uma falta de equilíbrio.

2. Desespero é o resultado do remorso, provocado no corpo mental e é, ele próprio, uma característica do que se pode chamar "natureza mental não regenerada." O aspirante tem uma percepção do que poderia ser, embora ainda não tenha vencido os obstáculos; ele tem consciência ininterrupta da falha e isto provoca nele uma condição de remorso, de desgosto, desespero e desânimo.

3. Atividade corporal mal aplicada. A condição interna se traduz no plano físico como uma intensa atividade, uma procura violenta de uma solução ou de um consolo, um constante correr de cá para lá, à procura de paz. No momento é a característica principal de nossa raça mental ariana e a causa da agressiva intensidade nos empreendimentos em todos os ramos da vida. Os processos educacionais (por acelerarem o corpo mental) foram em grande parte os fatores que contribuíram para isso. A grande contribuição da educação (nas escolas, colégios, universidades e em outras atividades correlatas) tem sido estimular os corpos mentais dos homens. E tudo parte do grande plano, trabalhando sempre para o objetivo único - o desabrochar da alma.

4. Direções erradas das correntes da vida. Este é o efeito produzido no corpo etérico pela turbulência interior. Estas correntes da vida (para o estudante de ocultismo) são em número de duas:

a. O sopro da vida ou prana
b. A força da vida ou os fogos do corpo.

O mau uso do sopro da vida, ou o emprego errado do prana, é a causa de oitenta por cento das atuais doenças físicas. Os outros vinte por cento são provocados pela direção errônea da força vital através dos centros e atingem principalmente os vinte por cento da humanidade que podem ser chamados de mentalmente polarizados. A indicação para o estudante de ocultismo que aspira à libertação não será encontrada, todavia, em exercícios respiratórios nem em qualquer trabalho com os sete centros no corpo. Será encontrada numa intensa concentração interior, em um modo de viver rítmico e na cuidadosa organização da vida. À medida que assim procede, por um lado obterá a coordenação dos corpos sutis com o corpo físico e, por outro, dos corpos sutis com a alma, o que resultará no automático ajustamento das energias prânicas e vitais.

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Livro I - Aforismo 32

32. Para vencer estes obstáculos e o que deles decorre, a intensa aplicação da vontade sobre alguma verdade (ou princípio) é necessária.

Seria conveniente que aqui, o aspirante à ioga anotasse que há sete caminhos pelos quais se pode obter a paz, e assim atingir a meta. Estes sete caminhos são os que trataremos a seguir e cada um tem uma correlação definida com os sete obstáculos anteriormente considerados.

OBSTÁCULO SOLUÇÃO
1. Defeitos físicos Viver sadio e puro (1.33)
2. Inércia mental Controle da força vital (1.34)
3. Perguntas errôneas Pensamento concentrado (1.35)
4. Falta de cuidado Meditação (1.36)
5. Preguiça Autodisciplina (1.37)
6. Falta de calma Análise correta (1.38)
7. Percepção errônea Iluminação (1.39)

Estas correções das condições erradas são de profunda importância nos estágios iniciais da ioga e daí a ênfase que lhes é dada no Livro I.

Mas uma compreensão teórica dos obstáculos e de como sobrepujá-los de pouco valerá enquanto não for empregada intensamente a vontade. Apenas o contínuo, constante e duradouro esforço da vontade, funcionando através da mente, poderá tirar o aspirante das trevas, levando-o à luz e conduzindo-o da condição de mortal à imortalidade.

Uma vez o princípio compreendido, poderá então o discípulo trabalhar inteligentemente e daí a necessidade de uma correta compreensão dos princípios ou qualidades pelos quais a verdade em relação à realidade ou a Deus, pode ser conhecida.

Todas as formas existem para expressar a verdade. Pela contínua aplicação da vontade de Deus ao Todo, é a verdade revelada por meio da matéria. Quando o discípulo se conscientiza de qual princípio suas várias formas, invólucros ou corpos devem expressar, saberá então como dirigir sua vontade com exatidão, de modo a produzir as desejadas condições. Os invólucros e veículos são apenas seus corpos de manifestação nos vários planos do sistema, e estes invólucros devem expressar o princípio que é a característica ou qualidade inerente a cada plano. Os sete princípios que dizem respeito ao homem são, por exemplo:

1. Prana energia vital corpo etérico plano físico
2. Kama desejo, sentimento corpo astral plano astral
3. Manas inferior mente concreta corpo mental plano mental
4. Manas superio mente abstrata corpo egoico plano mental
5. Budi intuição corpo búdico plano búdico
6. Atma vontade espiritual corpo átmico plano átmico

E aquele que corresponde ao "princípio imutável e sem limites" no macrocosmos, a Mônada (em seu próprio plano), constitui o sétimo princípio. Há outras maneiras de enumerar estes princípios, pois Subba Rao de certo modo está certo quando diz que há apenas cinco princípios. Os dois mais elevados, atma e a vida monádica, não são, de modo algum, princípios.

Pela utilização consciente da vontade em cada plano, o veículo é constantemente dirigido para a expressão cada vez mais precisa da verdade una. Esta é a verdadeira significação do aforismo em consideração e a razão por que os adeptos ainda estão estudando este tratado sobre ioga. A compreensão, por eles, da verdade em seu todo, ainda não é completa em todos os planos e as regras básicas são aplicáveis em toda extensão, embora sejam diferentemente aplicadas. Os princípios são aplicáveis a todas as diferenciações e a todos os estados de ser.

À medida que o homem estuda as esferas em que sua consciência está atuando, à medida que obtém uma compreensão dos veículos que deve usar numa esfera específica, à medida que despertar para um conhecimento de qual a qualidade divina específica que o corpo deve expressar como parte ou aspecto da realidade ou verdade una, ele se torna consciente das falhas existentes, dos obstáculos que bloqueiam e das dificuldades que devem ser sobrepujadas. Vem então a aplicação da vontade e sua concentração sobre o princípio ou qualidade que busca expressão. Deste modo a manifestação inferior é alinhada com a superior, pois "como o homem pensa, assim ele é".

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Livro I - Aforismo 33

33. A paz de chitta (ou substância mental) pode ser alcançada através da prática da compreensão, ternura, firmeza de propósito e de uma atitude desapaixonada em relação ao prazer ou à dor ou a todas as formas do bem e do mal.

Neste aforismo lidamos com o corpo físico, que sofre experiências no plano físico e que emprega a consciência do cérebro.

A tendência deste corpo é para todas as demais formas objetivas, e poderá (em seu estado não regenerado) gravitar facilmente na direção dos objetos materiais. A natureza destes objetos dependerá do ponto de evolução do ego que está em busca de experiências. Isto deve ser cuidadosamente lembrado ao se estudar este aforismo, pois senão a cláusula final será mal compreendida. Deve-se ter sempre uma ação discriminativa em relação a todas as demonstrações de forças do bem e do mal, e a lei age neste sentido, mas a emancipação de todas as formas físicas que esta energia pode tomar é finalmente obtida quando se pratica o desapego em relação a estas formas objetivas. É conveniente notar-se que a compreensão a que nos referimos diz respeito às nossas relações para com todos os outros peregrinos, ou para com o quarto reino da natureza; a ternura abrange nossas relações com o reino animal ou terceiro reino; a firmeza de propósito diz respeito às nossas relações com a Hierarquia do planeta, e o desapego, à nossa atitude para com as ações do eu pessoal inferior. A abrangência deste aforismo é, portanto, evidente, e diz respeito a todas as vibrações cerebrais do discípulo.

O corpo físico é consequentemente encarado como um veículo para a expressão de:

a. Auxílio aos nossos semelhantes
b. Ternura ao lidar com o reino animal
c. Serviço no plano físico em cooperação com a Hierarquia
d. Disciplina dos apetites físicos e desapego em relação a todas as formas que atraem nossos apetites e sentidos, quer possam causar danos ou não. Todas devem ser igualmente transcendidas

Assim se obtém a paz, paz da chitta ou substância mental, paz das ações cerebrais e, finalmente, completa calma e quietude. A ideia foi bem expressa por Charles Johnston nas palavras com que traduziu este aforismo, "A natureza psíquica se desloca para uma graciosa paz", e o homem exprime, na globalidade, uma saúde espiritual, uma natureza equilibrada e uma completa sanidade de pensamento e ação. Toda a incapacidade física é deste modo conquistada e o bem estar físico expressa a natureza da manifestação.

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Livro I - Aforismo 34

34. A paz de Chitta também pode ser obtida pela regulação do prana ou do alento vital.

Os estudantes farão bem em notar que Patânjali inclui o Pranayama (ou a ciência da respiração ou da energia prânica) entre outros métodos de se chegar à "paz de chitta". No entanto, não dá ênfase especial ao mesmo. Como foi anteriormente assinalado, o paranayama é um termo que pode ser empregado para abranger três processos, todos interligados e relacionados.

1) A ciência do viver rítmico, ou a regulação dos atos da vida diária pela organização do tempo e pela sábia utilização do espaço. Deste modo o homem se torna um adepto, um criador no plano físico e um cooperador nos planos da hierarquia, ao se exteriorizarem em evolução cíclica.

2) A ciência da respiração, ou a vitalização do homem inferior pela inspiração e pela expiração. O homem sabe que ocultamente é "uma alma vivente" e emprega o fator da respiração. Através deste, ele se torna consciente da unidade da vida e da relação existente entre todas as formas onde a vida de Deus é encontrada. Ele se torna um irmão e um adepto e sabe que a fraternidade é um fato da natureza e não uma sublime teoria.

3) A ciência dos centros, ou laya ioga; esta é a aplicação da lei às forças da natureza e a científica utilização dessas forças pelo homem. Envolve a passagem de certos septenatos de energia através dos centros ao longo da coluna vertebral até a cabeça, numa certa e específica progressão geométrica. Isto torna o homem um mestre psíquico e desabrocha nele certos poderes latentes que - quando desenvolvidos - o colocam em contato com a alma de todas as coisas e com o lado subjetivo da natureza.

É significativo registrar que este modo de se chegar à paz se segue ao viver de modo salutar e ao seu consequente resultado - um corpo físico são. Posteriormente, quando Patânjali novamente se refere ao controle da respiração e das correntes de energia, ele o situa como o quarto meio da ioga e afirma que apenas quando a atitude correta for conquistada (o terceiro Meio) como resultado da observação dos Mandamentos e das Regras (Meios um e dois) pode-se tentar esse controle. Os estudantes farão bem em estudar estes meios e verificar como o interesse pelos centros só é permissível depois que o homem haja de tal modo purificado sua natureza e equilibrado sua vida, que não possa haver mais perigo.

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Livro I - Aforismo 35

35. A mente pode ser adestrada até ficar firme, por meio das formas de concentração relacionadas com as percepções sensoriais.

Estamos lidando com aquelas formas de desenvolvimento e controle que resultam no que foi chamado "paz graciosa". Nós vimos que as corretas relações grupais e o viver rítmico produzirão a condição em que se obtém a aquietação dos veículos ou invólucros e o homem inferior pode então, adequadamente, refletir o homem superior ou espiritual. Tocamos agora em certos aspectos da filosofia da Raja Ioga e a chave para a compreensão deste aforismo é encontrada na palavra desapego. O aspirante (à medida que faz seus contatos sensoriais e que, através dos cinco sentidos, entra em contato com o mundo fenomênico) assumirá, gradualmente e cada vez mais, a posição de observador. Sua consciência transfere-se, lentamente, do reino dos veículos sensoriais para o do "morador do corpo".

É interessante registrar aqui o ensinamento hindu sobre o emprego da língua e de toda a região do nariz e do palato. O ensinamento oriental ortodoxo dá as seguintes sugestões:

Método Sentido Resultado
1. Concentração sobre a ponta do nariz Olfato Perfumes
2. Concentração sobre a raiz da língua Audição Sons
3. Concentração sobre a ponta da língua Paladar Chamas
4. Concentração sobre o meio da língua Tato Vibração
5. Concentração sobre a abóbada palatina Visão Figuras, visões

O aspirante não deve encarar literalmente estas coisas e nem procurar meditar cegamente, por exemplo, sobre a ponta da língua. A lição a ser aprendida, de acordo com a lei da analogia, é que a língua exemplifica a faculdade criativa, o terceiro aspecto em sua natureza quíntupla. A relação dos cinco sentidos (como aqui sintetizados na região da boca) com os cinco raios que formam a síntese governada pelo Mahachohan (diretor do aspecto do terceiro raio em nosso planeta), será bastante esclarecedora. Os estudantes verificarão que será de valia descobrir a analogia entre estes cinco raios e os cinco sentidos e com a boca como órgão da fala. À medida que o estudo for levado adiante ver-se-á que dois outros órgãos físicos, a hipófise e a glândula pineal, correspondem aos dois aspectos restantes, amor sabedoria e poder organizador, vontade ou propósito. Estes sete pontos na cabeça (e são todos encontrados numa área relativamente pequena) são os símbolos, na matéria física, dos três grandes aspectos que se manifestam como os sete.

À proporção, portanto, que o aspirante assume a posição de senhor dos sentidos e de analisador de todas as suas percepções sensoriais, ele gradualmente se torna cada vez mais concentrado mentalmente, e o iogue avançado pode-se identificar a qualquer momento com qualquer uma das energias de raios, com a exclusão - quando desejado - das demais.

O estudante é aqui prevenido para não imaginar que esta "graciosa paz" possa ser conquistada através da meditação definida sobre qualquer sentido específico. Pela compreensão das leis da criação e do som, por uma apreciação da abóbada palatina da boca e do método pelo qual se torna possível o falar, um conhecimento dos processos criativos mundiais pode ser atingido e o homem pode conquistar uma compreensão das leis pelas quais as formas são criadas. Os sentidos de todos os iogues são, naturalmente, anormalmente aguçados e este fato deve ser lembrado.

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Livro I - Aforismo 36

36. Pela meditação sobre a Luz e sobre a Irradiação, pode-se alcançar o conhecimento do Espírito e, assim, conquistar a paz.

O estudante deve anotar que cada um dos métodos aqui delineados diz respeito a certos centros. Há sete métodos de consecução mencionados e podemos, portanto, inferir que se cogitou dos sete centros.

Método I. Aforismo 33. Centro do plexo solar.
A paz da chitta (ou substância mental) pode ser obtida através da prática da compreensão, ternura, firmeza de propósito e calma em relação à dor e ao prazer, ou em relação a todas as formas do bem e do mal.

Método II. Aforismo 34. Centro da base da coluna vertebral.
A paz da chitta é também obtida pela regulação do prana.

Método III. Aforismo 35. Centro entre as sobrancelhas.
Pode-se adestrar a mente para permanecer estável através das formas de concentração relacionadas às percepções sensoriais.

Método IV. Aforismo 36. Centro da cabeça.
Pela meditação sobre a Luz e sobre a Irradiação pode-se atingir o conhecimento do Espírito e assim conquistar a paz.

Método V. Aforismo 37. Centro Sacro.
A chitta é estabilizada e liberada da ilusão à medida que a natureza inferior é purificada e subjugada.

Método VI. Aforismo 38. Centro da laringe.
A paz (estabilidade da chitta) pode ser alcançada através da meditação sobre o conhecimento dado pelos sonhos.

Método VII. Aforismo 39. Centro do coração.
A paz também pode ser conseguida pela concentração sobre aquilo que é mais querido ao coração.

Estes métodos devem ser cuidadosamente considerados apesar de não ser possível dar aqui detalhes quanto ao procedimento. Apenas o princípio e a lei em pauta podem ser considerados pelo estudante. É necessário lembrar também que todos estes centros têm seus correspondentes na matéria etérica localizados na região da cabeça e que somente quando estes sete centros da cabeça são despertados é que se pode com segurança ativar suas contrapartes. Estes sete centros da cabeça correspondem, no microcosmos, aos sete Rishis da Ursa Maior, os protótipos dos sete Homens Celestiais, e os centros acima mencionados são relacionados com a energia dos Próprios Sete Homens Celestiais.

Não é necessário alongarmo-nos mais sobre estes centros além das seguintes indicações:

1) O aspirante pode considerar cada centro simbolicamente como um lótus.

2) Este lótus é formado de unidades de energia movendo-se ou vibrando de modo específico e estas ondas de vibração assumem a forma que chamamos de pétalas de lótus.

3) Cada lótus consiste de:

a) Um certo número de pétalas
b) Um pericarpo ou cálice de sustentação
c) Um centro de pura luz branca chamado "joia"

4) Cada centro corresponde a um planeta sagrado, o corpo de manifestação de um dos sete Homens Celestiais.

5) Cada centro tem que ser desenvolvido através do emprego da Palavra. Esta Palavra é AUM e deve finalmente aparecer no centro vibrante. Quando brilhar perfeitamente no centro da roda o centro estará perfeitamente desperto.

6) Certas qualidades do sol são as qualidades dos centros.

a) Qualidade do plexo solar calor
b) Qualidade do centro na base da espinha fogo Kundalini
c) Qualidade do centro ajna entre as sobrancelhas luz iluminadora
d) Qualidade do centro da cabeça luz fria
e) Qualidade do centro sacro umidade
f) Qualidade do centro da garganta luz vermelha
g) Qualidade do centro do coração luz magnética ou radiante

Neste aforismo é apreciada a meditação sobre a luz e a radiância e aprendemos que, através desta luz e da habilidade em utilizá-la, pode-se chegar ao conhecimento do espírito. No centro do "chakra cardíaco" reside Brahma, diz a antiga Escritura, e Ele Se revela na luz. O aspirante deve então tornar-se consciente do "ponto de luz dentro da roda com doze raios" e à medida que se considera este ponto de luz, ele revela um caminho que deve ser percorrido se o aspirante procura chegar à sua meta. A primeira coisa a ser revelada é a treva. Isto deveria ser lembrado. Em termos do misticismo ocidental isto traz a baila a "escura noite da alma". Não nos deteremos, contudo, sobre o aspecto místico, pois é necessário mantermos nossas conclusões, tanto quanto possível, dentro da linha do ocultismo. A verdade, como expressa em termos do misticismo cristão, tem sido frequente e adequadamente explicada.

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Livro I - Aforismo 37

37. A chitta é estabilizada e libertada da ilusão à medida que a natureza inferior se purifica e não mais se cede às suas atrações.

Esta é uma tradução particularmente livre, pois as palavras usadas no sânscrito apresentam uma certa dificuldade para exata interpretação. O pensamento que se procura transmitir é que à medida que os órgãos de percepção e os contatos sensoriais forem sendo continuamente negados pelo homem real (que não mais procura se identificar com eles), ele se torna "livre da paixão". A luxúria, ou desejo por todos os objetos, é superada. Ele fica então livre de sua natureza sensorial inferior. Isto resulta numa correspondente estabilidade mental e na capacidade em concentrar-se, pois a substância mental não mais está sujeita às modificações produzidas pelas reações sensoriais de qualquer espécie, quer as que chamamos boas, quer as que chamamos más.

Isto foi fortemente advogado em muitos sistemas e um dos métodos sugeridos é a constante meditação sobre grandes entidades tais como Krishna, Buda, e o Cristo, que Se libertaram de todas as reações sensoriais. Este pensamento transparece em algumas das traduções, mas apesar de indicado sob um ponto de vista, não parece ser a ideia principal que se quer transmitir. A libertação dos laços é obtida à medida que os fogos dos desejos são subjugados e, embora seja o centro sacro apontado como tendo uma relação específica com a natureza sexual, contudo, esta natureza sexual (como se expressa no plano físico) é simbólica de qualquer apego entre a alma e qualquer objeto de desejo outro que não o espírito.

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Livro I - Aforismo 38

38. A Paz (estabilidade da chitta) pode ser alcançada pela meditação sobre o conhecimento que os sonhos dão.

As palavras significativas no aforismo 38 são as da frase: "o conhecimento que os sonhos dão" e a este respeito o comentário no aforismo 10 é de interesse. O ocultista oriental emprega a palavra "sonho" num sentido muito mais técnico que o ocidental e isto deve ser perfeitamente entendido pelo aspirante. Para o oriental, a condição mais profunda de sonho é aquela em que o homem real está submergido quando em encarnação física. Isto corresponde ao estado de sonho que reconhecemos como o provocado pela vibração das células do cérebro físico. O caos, a falta de continuidade e as conclusões mal controladas estão presentes, associadas a uma incapacidade de recordação fiel e acurada quando acordado. Esta condição é o sonho no plano físico. Há, então, a condição de sonho em que o homem participa quando imerso na percepção sensual de um ou outro tipo, quer de dor ou de prazer. Esta é experimentada no corpo astral ou emocional. O conhecimento dado pela condição do plano físico é grandemente instintiva: e o obtido pela condição de sonho astral é em grande parte sensual. Um é de realização racial e grupal, o outro é relativo ao não-eu e à relação do homem com o não-eu.

Vem então um estado superior de consciência de sonho em que uma faculdade de outra espécie entra em jogo e esta pode ser chamada de imaginação, trazendo seu próprio tipo de conhecimento. A imaginação envolve certos tipos de estados mentais tais como:

a) Memória das coisas tal como foram conhecidas, como estados de consciência,
b) Antecipação das coisas como podem vir a ser conhecidas ou de estados de consciência,
c) Visualização das condições imaginárias e a seguir a utilização da imagem invocada como uma forma, pela qual um novo reino de conscientização pode ser contatado, uma vez que o sonhador possa identificar-se com aquilo que imaginou.

Nestes três estados de sonho temos a condição do pensador nos três planos, nos três mundos, desde o estado de selvageria ignorante até o de um homem comum iluminado. Vai-se a um estado muito mais elevado de consciência de sonho.

A verdadeira utilização da imaginação requer um alto grau de controle e de poder mental e quando eles estão presentes levam finalmente ao que é chamado de "estado de samadhi". Esta é a condição em que o adepto pode fazer o homem inferior inteiro adormecer e passar ele próprio para o reino onde "os sonhos do Próprio Deus" são conhecidos, e no qual o conhecimento das "imagens" que a Divindade criou podem ser contatados e vistos. Assim o adepto pode inteligentemente participar no grande plano de evolução.

Além deste estado de samadhi está o estado de sonhos dos Nirmanakayas e dos Budas, e assim por diante na escala da vida hierárquica, até aquele em que é conhecido o grande Sonhador, que é o Uno, o único Narayana, o Próprio Senhor do Mundo, o Ancião dos Dias, nosso Logos Planetário. O estudante somente pode chegar a uma compreensão muito pequena sobre a natureza destes estados de sonho à medida que estuda a ideia transmitida na afirmação anterior de que, para o ocultista, a vida no plano físico nada mais é que uma condição de sonho.

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Livro I - Aforismo 39

39. A paz também pode ser alcançada pela concentração sobre aquilo que é mais querido ao coração.

O aforismo 39, em sua própria simplicidade, leva em si o seu poderoso apelo. Nele podem ser traçados os vários estágios de aquisição - desejo, anseio, determinação concentrada de possuir, a negação de tudo o que não se enquadra nestes moldes, o esvaziamento das mãos de modo a estar livre para a nova possessão, a seguir, então, a própria possessão, satisfação, paz. Mas com todas as coisas pertencentes aos desejos inferiores, a paz é apenas temporária, um novo desejo desperta e aquilo que havia sido conservado com tanta alegria, é desprezado. Apenas o que é fruto das idades, apenas aquilo que é a reconquista de uma antiga possessão satisfaz plenamente. Que o estudante, portanto, estude e se certifique se aquilo que é mais caro ao seu coração é temporal, transitório e efêmero, ou se é como disse o grande Senhor: "tesouro armazenado no céu".

Chegamos agora ao mais abrangente aforismo deste livro: (40). Pode-se indicar aqui que estes "sete caminhos para a paz psíquica", como têm sido chamados, cobrem os sete métodos dos sete raios em relação ao controle da natureza psíquica. É importante enfatizar isto. Estes sete caminhos têm uma relação direta com as quatro iniciações do umbral, pois não haverá iniciação principal para qualquer filho de Deus que não tenha conseguido um certo grau de paz psíquica. Os estudantes acharão de interesse o estudo destes sete caminhos para a paz em relação a um ou outro dos sete raios, designando o caminho para o raio sempre que julgarem adequado.

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Livro I - Aforismo 40

40. Assim sua realização se estende do infinitamente pequeno até o infinitamente grande, e de annu (o átomo ou partícula) a atma (ou espírito) seu conhecimento é aperfeiçoado.

Esta tradução não segue exatamente os termos sânscritos. Apesar disto, transmite o significado exato do original, e isso é que é de importância vital. Um antigo verso de uma das escrituras ocultistas serve para elucidar a ideia deste aforismo e diz o seguinte:

"No interior da partícula, Deus pode ser visto. No interior do Homem, Deus pode reinar. No interior de Brahma os dois são encontrados; no entanto tudo é um. O átomo é como Deus, Deus é como o átomo".

É um truísmo oculto que, à medida que o homem chega ao conhecimento de si mesmo, pela grande lei da analogia ele chega ao conhecimento de Deus. Este conhecimento abrange cinco grandes aspectos:

1. Formas
2. Os componentes da forma
3. Forças
4. Grupos
5. Energia

O homem deve compreender a natureza de seu corpo e de todos os seus envoltórios. Isto concerne ao seu conhecimento da forma. Ele descobre que as formas são feitas de átomos ou "pontos de energia" e que todas as formas são semelhantes neste respeito. Este conhecimento refere-se aos componentes da forma. A seguir, chega a uma compreensão do agregado da energia dos átomos que constituem suas formas, ou, em outras palavras, a um conhecimento das forças variáveis; a natureza destas forças é determinada pelo ritmo, pela atividade e pela qualidade dos átomos que formam o envoltório ou envoltórios. Este conhecimento refere-se às forças. Posteriormente, ele descobre formas análogas com análogas vibrações e demonstração de forças, e este conhecimento diz respeito aos grupos. Consequentemente, ele acha seu lugar e conhece seu trabalho. Finalmente ele chega a um conhecimento daquilo que concerne a todas as formas, controla todas as forças e é a força motriz de todos os grupos. Este conhecimento diz respeito à energia; tem a ver com a natureza do espírito. Por meio destas cinco realizações o homem chega à mestria, pois a realização envolve certos fatores que podem ser enumerados como se segue:

1. Aspiração
2. Estudo e investigação
3. Experimentação
4. Descoberta
5. Identificação
6. Realização

O adepto pode identificar-se com, ou penetrar na consciência do infinitamente pequeno. Ele pode identificar-se com o átomo da substância e sabe o que é ainda desconhecido dos cientistas modernos. Ele se conscientiza também de que, como o reino humano (composto de átomos humanos) é o ponto ou a estação do meio do caminho da escada da evolução, por conseguinte, o infinitamente pequeno está relativamente tão distante dele como o infinitamente grande. O caminho que é necessário percorrer para abarcar a consciência da menor das criações de Deus é tão longo quanto o necessário para abarcar a maior delas, um sistema solar. Não obstante, em todos estes limites de consciência, o método para adquirir a mestria é o mesmo - concentração perfeita durante a meditação, levando ao controle perfeito sobre a mente. Esta é constituída de tal modo que serve ao duplo propósito: agir como um telescópio, levando o vidente ao contato com o macrocosmo, e como um microscópio, colocando-o em contato também com o menor átomo.

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Livro I - Aforismo 41

41. Para aquele cujas vrittis (modificações da substância da mente) estão inteiramente controladas, resulta um estado de identidade com - e uma semelhança a - o que é conscientizado; o conhecedor, o conhecimento e o campo de conhecimento se tornam um, exatamente como o cristal absorve as cores do que nele é refletido.

Este aforismo se origina naturalmente do precedente. O vidente aperfeiçoado abarca em sua consciência todo o campo de conhecimento, do ponto de vista do observador, ou de quem percebe, e do ponto de vista da identificação. Ele é um com o átomo de substância, ele é capaz de identificar o menor dos universos; ele é um com o sistema solar, o maior universo que lhe é permitido conhecer neste ciclo maior. Verifica-se que sua alma e a deles são idênticas - a potencial idade é vista numa e (do ponto de vista humano) uma ordem incompreensível, levando à perfeição última, é vista na outra. A atividade que mantém os elétrons reunidos em torno de seu centro é reconhecida como idêntica em natureza à que mantém os planetas em suas órbitas em torno do sol, e entre estas duas manifestações divinas encontra-se toda a escala das formas.

O estudante de ocultismo tem de se conscientizar de que as formas são muitas e diversas, mas que todas as almas são idênticas à Superalma. O conhecimento completo da natureza, qualidade, chaves e nota de uma alma (quer de um átomo químico, de uma rosa, de uma pérola, de um homem ou de um anjo) revelaria todas as almas na escada de evolução. E o processo é o mesmo para todos: O reconhecimento, o emprego dos órgãos sensoriais, inclusive o sexto sentido, a mente, na apreciação da forma e de suas componentes; a concentração, um ato da vontade pelo qual a forma é negada pelos sentidos, e o conhecedor passa por trás dela, para aquilo que vibra em sintonia com sua própria alma. Assim chega-se ao conhecimento - daquilo que a forma (ou campo de conhecimento) está procurando expressar - de sua alma, chave ou qualidade.

Depois, segue-se a contemplação, a identificação do conhecedor com aquilo dentro de si próprio que é idêntico à alma no interior da forma. Os dois são, então, um, e tem-se a completa realização. Isto pode ser cultivado de um modo muito prático entre os seres humanos. Deve haver reconhecimento do contato que apareça entre dois homens que possam ver, ouvir e tocar, um ao outro. O resultado é uma identificação superficial da forma. Mas é possível um outro estágio onde o homem pode passar para trás da forma e atingir aquilo que é a qualidade de seu irmão; ele pode tocar aquele aspecto da consciência que é análogo ao seu próprio. Ele se torna consciente da qualidade da vida de seu irmão, da natureza de seus planos, aspirações, esperanças e propósitos. Ele conhece seu irmão e quanto melhor conhecer a si próprio e à sua própria alma, tanto mais profundo será seu conhecimento de seu irmão. Poderá finalmente, identificar-se com seu irmão e tornar-se como ele é, sabendo e sentindo como a alma de seu irmão sabe e sente. Esta é a significação implícita nas palavras ocultas da Epístola de São João - "Nós seremos como Ele, pois nós O veremos como Ele é".

Pode ser válido enunciarmos novamente alguns sinônimos que, se relembrados, esclarecerão muito a compreensão dos outros aforismos e permitirão que o estudante aplique de modo prático estes pensamentos à sua própria vida.

Espírito Alma Corpo
Mônada Ego Personalidade
Eu Divino Eu Superior Eu inferior
Percebedor Percepção Aquilo que é percebido
Conhecedor Conhecimento O campo de conhecimento
Pensador Pensamento A mente (este é o cristal, refletindo o pensamento do pensador)

É conveniente também relembrar que:

1. no plano físico, o percebedor utiliza os cinco sentidos para chegar ao campo de conhecimento;

2. todos os nossos três planos nos três mundos constituem o corpo físico denso Daquele em Quem "vivemos, nos movemos e temos o nosso ser";

3. no plano emocional, ou astral, os poderes inferiores da clarividência e da c1ariaudiência são empregados pelo percebedor e que, quando empregados erroneamente, revelam a serpente no jardim;

4. no plano mental, a psicometria e a simbologia (incluindo a numerologia e a geometria) são utilizadas pelo percebedor para chegar a uma compreensão dos níveis mentais inferiores;

5. apenas quando estes três são encarados como inferiores e como constituintes do aspecto forma, chega o percebedor a uma condição onde pode começar a entender a natureza da alma e compreender a verdadeira significação dos Aforismos 40 e 41;

6. tendo atingido esse ponto, ele começa a discriminar e a empregar a mente como o sexto sentido, chegando, assim, à qualidade subjetiva, ou vida, que está por trás do campo de conhecimento (ou forma). Isto constitui a natureza da alma no interior da forma e é potencialmente e na realidade, onisciente e onipresente;

7. tendo alcançado a alma em qualquer forma e estabelecido contato com ela por meio de sua própria alma, ele verificará que todas as almas são uma e poderá colocar-se facilmente na alma de um átomo ou na alma de um beija-flor, ou poderá expandir sua conscientização noutra direção e saber que ele próprio e um com Deus e com todas as existências super-humanas.

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Livro I - Aforismo 42

42. Quando o percebedor funde as palavras, a ideia (ou significação) e o objeto, a isto se chama condição mental de raciocínio judicioso.

Neste aforismo, e no seguinte, Patânjali amplia uma formulação anterior da verdade. (Ver Aforismo 7). Ele ensina que a meditação é de duas espécies:

1. Com objeto ou semente, e, portanto, empregando a mente racionalizadora judiciosa, o corpo mental com sua faculdade de concretização e sua habilidade em criar pensamentos-forma.

2. Sem objeto, ou sem semente, empregando assim uma faculdade diferente, que só é possível quando a mente concreta é compreendida e empregada corretamente. Esta utilização correta envolve a capacidade de "aquietar as modificações da mente", levando a "chitta", ou substância mental, à quietude, de modo que possa adquirir a coloração do conhecimento superior e refletir as realidades superiores.

O percebedor tem que chegar a um conhecimento das coisas subliminares, em primeiro lugar, pelo processo da percepção da forma externa, passando a seguir para além da forma externa, para o estado interno daquela forma, para aquele que produz a exterioridade (sendo força de alguma espécie) até chegar ao que é a causa de ambos. Neste aforismo estes três são denominados:

A ideia A causa por traz da forma objetiva
A palavra O som Que produz a forma
O objeto A forma produzida pelo som para expressar a ideia

Os estudantes devem compreender que isto abrange o estado meditativo anterior e, por ser a mente inferior empregada neste processo, é o método separativo. As coisas são separadas em suas partes componentes e vê-se que são como tudo o mais na natureza - tríplices. Uma vez que isto seja compreendido, a significação oculta e a importância de toda a meditação tornam-se aparentes e o método pelo qual se formam os ocultistas torna-se claro. No processo para se chegar a uma compreensão da natureza, o ocultista sempre trabalha da forma externa para o interior, para descobrir o som ou o agregado de forças que criou a forma externa; cada agregado de forças tem seu próprio som, provocado pelo jogo interno das forças. Tendo descoberto isto, ele penetra ainda mais para o interior até tocar a causa, ideia, ou pensamento divino (emanando do Logos, planetário ou solar) que deu origem ao som, assim produzindo a forma.

No trabalho criativo, o adepto começa no interior e - conhecendo a ideia que ele procura incorporar na forma - emite certas palavras ou sons e assim invoca certas forças que produzem (devido à sua ação recíproca) uma forma de algum tipo. Quanto mais elevado for o nível em que o adepto trabalha, tão mais elevadas serão as ideias contatadas e tão mais simples ou sintéticos os sons emitidos.

Os estudantes da Raja Ioga, contudo, têm que compreender os fatos elementares que dizem respeito a todas as formas e se familiarizarem, em sua meditação, com o trabalho de separar as triplicidades - de modo a poderem finalmente estabelecer contato com qualquer dos aspectos componentes que desejarem. Desta maneira, a natureza da consciência é entendida, pois o percebedor (que está adestrado nestas diferenciações) pode entrar na consciência dos átomos que compõem qualquer forma tangível e pode avançar mais e penetrar na consciência das energias que produzem o corpo objetivo. Estes são os que foram literalmente chamados "O Exército da Voz". Pode também estabelecer contato, finalmente, com a consciência da Grande Vida que é responsável pela palavra inicial. Estes são os grandes marcos, mas entre eles há diversos graus das vidas responsáveis pelos sons intermediários e estas podem, portanto, ser contatadas e conhecidas.

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Livro I - Aforismo 43

43. A percepção sem raciocínio judicioso é alcançada quando a memória não mais mantém o controle, a palavra e o objeto são transcendidos e apenas a ideia está presente.

Esta condição é o estado de "meditação sem semente", livre do emprego racional da mente e de sua faculdade concretizadora. O objeto (que é trazido à consciência da mente pela recordação ou memória) não mais é considerado, e a palavra que o designa e expressa seu poder não mais é ouvida. Apenas a ideia da qual os outros dois são expressão é conscientizada, e o percebedor entra no reino das ideias e das causas. Esta é a contemplação pura, livre de formas e pensamentos. Nela, o percebedor olha para o mundo das causas; vê com visão clara os impulsos divinos; e assim então, tendo contemplado os trabalhos internos do reino de Deus, reflete de volta, na mente ou no corpo mental em repouso, o que foi visto, e o corpo mental remete ao cérebro físico o conhecimento adquirido.

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Livro I - Aforismo 44

44. Estes mesmos dois processos de concentração, com ou sem ação judiciosa da mente, também podem ser aplicados às coisas sutis.

Este aforismo é claro, mesmo sem muitas explicações. A palavra "sutil" tem ampla significação, mas (do ponto de vista de Patânjali) é aplicada com maior frequência àquela coisa essencial de que tomamos consciência após termos empregado os cinco sentidos; isto é, a rosa é a forma tangível objetiva; seu aroma é a "coisa sutil" por trás da forma. Isto expressa sua qualidade ao ocultista e é a resultante dos elementos mais sutis produzindo sua manifestação. Os elementos mais grosseiros produzem a forma; mas dentro desta forma não refinada há uma mais sutil com a qual só podemos estabelecer contato através da percepção aguda ou do sentido esclarecido. No comentário encontrado na tradução de Wood, as seguintes palavras podem servir para elucidar e, se os estudantes mais avançados meditarem sobre elas, verificarão que têm profunda significação ocultista:

..."o átomo da terra é produzido pelos cinco elementos do fogo, entre os quais predomina o elemento de fogo do odor. De modo semelhante o átomo da água é produzido dos quatro elementos do fogo, entre os quais predomina o elemento ígneo do paladar. Da mesma maneira, o átomo do fogo é produzido pelos três elementos do fogo, excluindo os elementos ígneos do odor e do paladar, e entre os quais predomina o elemento ígneo da cor. De modo semelhante, o átomo do vento é produzido pelos dois elementos ígneos, começando com o odor e desses dois predomina o elemento ígneo do tato. Da mesma maneira o átomo do ar é produzido apenas pelo elemento de fogo, do som".

Se esta ideia for estendida ao macrocosmos nós verificaremos que poderemos meditar sobre a forma externa de Deus na Natureza com e sem ação judiciosa da mente. Então, tendo-se adquirido experiência na meditação, e por um ato da vontade, o estudante pode meditar sobre a natureza subjetiva sutil de Deus, tal como manifestada sob a grande Lei da Atração, à qual os cristãos se referem quando dizem que "Deus é Amor". A natureza de Deus, o grande "amor" ou força atrativa, é responsável pelas "coisas sutis" que são veladas pelas coisas externas.

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Livro I - Aforismo 45

45. O grosseiro leva ao sutil e o sutil, através de progressivos estágios, leva ao estado de puro ser espiritual chamado Pradhana.

O estudante deve agora lembrar-se dos seguintes degraus ou estágios pelos quais deve passar à medida que penetra no coração do mais interno:

1. O grosseiro forma, bhutas, envoltórios tangíveis racionais
2. O sutil a natureza ou qualidades, os tanmatras, os indryas, ou os sentidos, os órgãos sensoriais e aquilo que se sente

Estes podem ser aplicados a todos os planos dos três mundos que dizem respeito ao homem, e têm uma íntima relação com os pares de opostos que ele tem que equilibrar no plano emocional. Por trás deles é encontrado o estado de equilíbrio, chamado Pradhana, que é a causa daquilo que se contata fisicamente e se sente sutilmente. Este estado de equilíbrio pode muito bem ser chamado de substância primária não dissociável, matéria unida com espírito, indiferenciada e ainda sem forma ou marca distintiva. Por trás destes três é novamente encontrado o Princípio Absoluto, mas estes três são tudo o que o homem pode conhecer enquanto em manifestação. Vivekananda diz, em seu comentário, o seguinte:

"Os objetos mais grosseiros são apenas os elementos e tudo é feito com eles. Os cinco objetos começam com os Tanmatras ou as cinco partículas. Os órgãos, a mente (o agregado de todos os sentidos), o egoísmo, a substância mental (a causa de toda a manifestação), o estado de equilíbrio de sattva, rajas e tamas (as três qualidades da matéria - A.B.) - chamado Pradhana (principal) Prakriti (natureza) ou Avyakta (não manifestado), todos estão incluídos na categoria de cinco objetos. Apenas Purusha (a alma) está fora desta definição)".

Vivekananda, aqui, aparentemente traduziu purusha como alma, mas normalmente é traduzido como espírito e se refere ao primeiro aspecto.

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46. Livro I - Aforismo 46

Tudo isto constitui a meditação com semente.

Os quatro últimos aforismos trataram das formas de concentração construídas em torno de um objeto. Este objeto pode dizer respeito ao que é sutil e intangível do ponto de vista do plano físico, apesar do fato de (do ponto de vista do homem real ou espiritual) o não-eu estar envolvido. Ele tem a ver com aquilo que (em qualquer dos seus aspectos) pode levá-lo aos reinos que primeiramente não são os do espírito puro. Precisamos, contudo, lembrarmo-nos agora que todos estes quatro estágios são necessários e devem preceder a qualquer realização espiritual a mais. A mente do homem não é em si mesma, constituída de modo a apreender as coisas do espírito. À medida que ele passa de um estágio de meditação "com semente" a outro, aproxima-se cada vez mais da sede de todo conhecimento e finalmente entrará em contato com aquilo sobre o que vem meditando. Então a natureza do próprio pensador, como puro espírito, será apreendida e os degraus, estágios, objetos, sementes, órgãos, formas (grosseiras ou sutis) serão perdidos de vista e apenas o espírito será conhecido. Tanto o sentimento quanto a mente serão então transcendidos e apenas o Próprio Deus será visto; não mais serão sentidas as vibrações inferiores; a cor não mais será vista; conhecer-se-á apenas a luz; perder-se-á de vista a visão e se ouvirá apenas o som ou a palavra. O "olho de Shiva" será deixado e com ele o vidente se identificará.

Na quádrupla eliminação acima citada, faz-se sugestões quanto aos estágios de conscientização - os estágios que levam o homem para fora do mundo da forma, para o reino do sem forma. Os estudantes verificarão que é interessante comparar os quatro estágios pelos quais progride a "meditação com semente" com os quatro acima citados. Pode-se apontar também que em qualquer meditação em que se reconheça a consciência, há um objeto presente; em qualquer meditação na qual o percebedor estiver consciente do que há para ser visto, então há igualmente uma condição de percepção da forma. Só quando todas as formas e o próprio campo de conhecimento são perdidos de vista e o conhecedor se reconhece pelo que ele essencialmente é (estando perdido na contemplação de sua própria natureza espiritual), pode-se chegar a meditação ideal, sem forma, sem semente e sem objeto. É aqui que a linguagem tanto dos ocultistas como dos místicos falha, pois a linguagem lida com a objetividade e com sua relação com o espírito. Por isso, esta condição superior de meditação é assemelhada a uma condição de sono ou transe, mas ela é a antítese do sono físico ou do transe do médium, pois nela o homem espiritual está plenamente desperto nos planos que transcendem definição. Ele está consciente, num sentido amplo (ou completo) de sua Identidade Espiritual.

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Livro I - Aforismo 47

47. Quando este estado supercontemplativo é alcançado, o Iogue adquire a conscientização espiritual pura, através da quietude equilibrada da chitta (ou substância mental).

As palavras sânscritas empregadas neste aforismo só podem ser adequadamente traduzidas em termos precisos pelo emprego de certas frases que tornam a versão inglesa mais clara. Literalmente, pode-se dizer que o aforismo acima significa o seguinte: "A clara perspicácia se segue à aquietação da chitta". Deve ser relembrado aqui que a ideia é a da pureza em seu verdadeiro sentido, ou seja, "libertação de limitações", significando assim o alcançar da pura realização espiritual. O resultado é o contato da mônada, ou espírito, pela alma, e o conhecimento deste contato é transmitido ao cérebro físico.

Isto só é possível num estágio muito avançado da prática da ioga e quando a substância mental está absolutamente aquietada. O Pai no Céu é conhecido, como revelado pelo Filho à Mãe. Sattva (ou ritmo), apenas, é manifestado, estando dominadas e controladas rajas (atividade) e tamas (inércia). Devemos lembrar aqui que sattva se refere ao ritmo das formas nas quais o iogue está atuando e somente quando expressam as mais elevadas das três gunas (ou qualidades da matéria) é o aspecto mais elevado, ou espiritual, conhecido. Somente se conhece o segundo aspecto quando rajas controla, e se conhece o aspecto mais inferior quando tamas governa. Há uma interessante analogia entre o aspecto inércia (ou tamas) da matéria e a condição dos corpos do iogue quando no mais elevado samadhi. Então o movimento rítmico, ou sáttvico, é tão completo que para a visão do homem comum se conquista uma condição de quietude que é a sublimação da condição de inércia, ou tamásica, da mais densa substância.

As seguintes palavras, de um comentário abordado na tradução dos aforismos feita por Woods, serão de utilidade:

"Quando livre da treva da impureza a sattva da substância-pensante, cuja essência é a luz, tem um límpido fluxo contínuo que não é sobrepujado por rajas nem por tamas. Isto é a claridade. Quando esta claridade surge no super-reflexivo estado de equilíbrio, então o iogue adquire uma calma interna imperturbável, ou seja, a visão do lampejo da visão interna (sputa) que não passa sucessivamente através da sequência ordenada (dos processos normais da experiência) e que tem como seu objetivo a coisa como realmente é... A impureza é um crescimento de rajas e tamas. E é a poluição que tem a característica da obscuridade). A claridade é a libertação disto".

O homem conseguiu (através da disciplina; seguindo os meios da ioga e pela perseverança na meditação) dissociar-se de todas as formas e identificar-se com o sem-forma.

Ele chegou ao ponto no coração de seu ser. Desse ponto de pura realização espiritual, ele pode cada vez mais trabalhar no futuro. Pela prática, ele fortalece essa realização e toda a vida, trabalho e circunstâncias são vistos como um espetáculo que passa, que não lhe diz respeito. Sobre eles porém, pode apontar o holofote do espírito puro; ele próprio é a luz e se conhece como parte da "Luz do Mundo" e "nessa luz ele verá luz". Ele conhece as coisas como elas são e se dá conta de que tudo aquilo que até agora encarou como realidade nada mais é do que ilusão. Ele penetrou na Grande Maya e ultrapassou-a até a luz que a produz e, para ele, erros futuros são impossíveis; seu senso de valores é correto; seu senso de proporção é exato. Ele não mais está sujeito a ser enganado e está livre de ilusões. Quando este ponto é conscientizado, dor e prazer não mais o afetam; ele está perdido na bem-aventurança da Autorrealização.

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Livro I - Aforismo 48

48. Sua percepção é agora infalivelmente exata, (ou, sua mente revela apenas a Verdade).

Ambas as traduções são dadas aqui, pois, juntas, parecem dar uma ideia mais verdadeira que qualquer uma delas isoladas. A palavra "exata" é empregada em seu sentido ocultista e se refere a como o percebedor encara todos os fenômenos. O mundo de ilusão, ou o mundo da forma, deve ser "exatamente conhecido". Isto significa, literalmente, que a relação de cada forma com seu nome, ou com a palavra de onde se originou, deve ser apreciada como ela é. No final do processo evolutivo cada forma de manifestação divina deve responder exatamente ao seu nome, ou à palavra que deu o impulso original, criada assim uma vida. A primeira tradução, então, dá ênfase a esta ideia e aos três fatores:

1. A ideia
2. A palavra
3. A forma resultante
Trazem também com eles, inevitavelmente uma outra triplicidade:

1. O tempo, que liga as três
2. O espaço, que produz as três
3. A evolução, o processo de produção

Um resultado disto é a demonstração da lei e do exato cumprimento do propósito de Deus. Isto é conscientizado pelo iogue que conseguiu eliminar todas as formas de sua consciência e tornou-se consciente do que está por trás de todas as formas. O modo pelo qual ele faz isto é revelado pela segunda tradução. A substância mental, estando agora completamente quieta, e estando o homem polarizado naquele fator que não é nem a mente, nem qualquer dos envoltórios, pode transmitir diretamente ao cérebro físico, acuradamente e sem erros, o que é percebido na Luz do Shekinah que flui do Santo dos Santos onde o homem conseguiu entrar. A verdade é conhecida e a causa de cada forma em todos os reinos da natureza revelada. Esta é a revelação da verdadeira magia e a chave para o grande trabalho mágico do qual participam todos os verdadeiros iogues e adeptos.

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Livro I - Aforismo 49

49. Esta percepção especial é única e revela o que a mente racional (empregando testemunhos, inferências e deduções) não pode revelar.

Pode-se dizer que o significado aqui é que a mente do homem, em seus vários aspectos e usos, pode revelar as coisas que dizem respeito à objetividade, mas que somente a identificação com o espírito pode revelar a natureza e o mundo do espírito. "Nenhum homem jamais viu Deus em qualquer ocasião, o único Filho gerado, que está no seio do Pai, ele O revelou". Até que um homem se identifique como um Filho de Deus, até que o Cristo em cada homem esteja em manifestação e que a vida Crística esteja plenamente expressa e até que o homem seja um com a realidade espiritual interna que é o verdadeiro ser, o conhecimento especial aqui tratado (conhecimento de Deus e do espírito, independente da matéria ou forma) é impossível. O testemunho dos tempos indica uma força ou vida espiritual no mundo; a inferência a ser colhida da experiência de vida de milhões é a de que o espírito existe; a dedução a ser tirada de uma consideração do mundo ou da grande maya é que uma Causa, autopersistente e autoexistente, deve estar por trás daquela maya. Só o homem, todavia, que pode ultrapassar todas as formas e transcender todas as limitações nos três mundos (mente, emoção e as coisas dos sentidos, ou o "mundo, a carne e o diabo") pode saber, além de toda controvérsia e discussão que Deus é e ele próprio é Deus. Ele conhece então a verdade e essa verdade o torna livre.

O campo do conhecimento, os instrumentos do conhecimento e o próprio conhecimento são transcendidos e o iogue chega ao grande reconhecimento de que não há nada senão Deus; que Sua vida é una e é encontrada pulsando no átomo microscópico e também no átomo macrocósmico. Ele se identifica com essa vida. Ele a encontra no coração de seu próprio ser e lá pode unir-se com a vida de Deus, tal como encontrada no átomo primordial básico, ou expandir sua compreensão até conhecer a si próprio como a vida do sistema solar.

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Livro I - Aforismo 50

50. Ela é hostil às demais impressões, ou as ultrapassa.

Antes de ter atingido sua verdadeira percepção, o observador dependeu de três métodos para se assegurar da verdade, todos eles limitados e imperfeitos. São eles:

1. Percepções sensoriais. Neste método o morador no corpo se assegura da natureza do mundo objetivo por meio de seus cinco sentidos. A objetividade ou tangibilidade torna-se conhecida por ele e ele escuta, vê, toca, prova e cheira as coisas do mundo físico. Ele lida, contudo, com os efeitos produzidos pela vida subjetiva, mas não tem indicação alguma sobre as causas ou sobre as energias subjetivas de que resultam. Sua interpretação delas é consequentemente falsa, levando a uma identificação errada e a um errôneo conjunto de valores.

2. Percepção mental. Pelo emprego da mente o observador se torna consciente de um outro grau de fenômenos e é colocado em relação com o mundo de pensamentos, ou com aquela condição de substância na qual são registrados os impulsos de pensamento de nosso planeta e seus habitantes, e com formas criadas pelos impulsos vibratórios que exprimem certas ideias e desejos - primariamente estes últimos, na atualidade. Devido à percepção errônea provocada pelo emprego dos sentidos e pela interpretação errada das coisas sentidas, estas formas de pensamento são em si mesmas distorções da realidade e exprimem apenas os impulsos e reações inferiores que emanam dos reinos inferiores da natureza. Os estudantes devem-se lembrar que é apenas quando o homem está realmente começando a utilizar seu corpo mental (e não sendo utilizado por ele), que ele estabelece contato com os pensamentos-forma criados pelos guias da raça e os percebe corretamente.

3. O estado supercontemplativo. Nesta condição a percepção é infalivelmente precisa e os outros modos de visão são percebidos em suas corretas proporções. Os sentidos não mais são necessários ao observador, exceto quando os utiliza para fins de trabalho construtivo em seus respectivos planos. Ele está agora de posse de uma faculdade que o protege de erros e de um sentido que só lhe revela as coisas como elas são. As condições que controlam este estado podem ser enumeradas como se segue:

1. O homem está polarizado em sua natureza espiritual
2. Ele se reconhece e funciona como alma, o Cristo
3. Ele tem a chitta, ou substância mental, num estado de quietude,
4. O sutratma, ou fio, está funcionando adequadamente e os corpos inferiores estão alinhados sobre ele, formando um canal direto de comunicação com o cérebro físico
5. O cérebro está adestrado para servir apenas como um delicado receptor de impressões da verdade
6. O terceiro olho está em processo de desenvolvimento. Posteriormente, à medida que os centros forem despertados e colocados sob controle consciente, colocam o homem em relação com os vários septenatos de energia nos sete planos do sistema, e por estar desenvolvida a faculdade de percepção da verdade, o homem é assim protegido contra erros e perigos.

Isto foi muito apta e claramente dito por Charles Johnston em seu comentário sobre este aforismo, que é o seguinte:

"Cada estado ou campo da mente, cada campo de conhecimento, por assim dizer, que é alcançado por energias mentais e emocionais, é um esta psíquico, do mesmo modo com o quadro mental de um palco com os atores, é um campo ou estado psíquico. Quando a visão pura, como a do poeta, do filósofo e do santo, preenche todo o campo, todas as vistas e visões inferiores são afastadas. Esta elevada consciência desloca todas as consciências menores. Contudo, de um certo modo, aquilo que é visualizado como parte, mesmo pela visão de um sábio, ainda tem um elemento de ilusão, um fino véu físico, não importando o quão puro e luminoso seja este véu. E o último e o mais elevado estado psíquico".

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Livro I - Aforismo 51

51. Quando este estado de percepção é, por sua vez, também contido (ou superado), então o Samadhi puro é conquistado.

O grande instrutor Patânjali, tendo-nos conduzido através dos vários estágios da consciência em expansão, desde a meditação com "semente" até aquele em que os sentidos e a mente são ultrapassados, leva-nos a um estado para o qual não temos terminologia adequada. O iogue do Oriente aplica a palavra Samadhi àquele estado de consciência no qual o mundo em que o homem espiritual funciona e os níveis ou planos sem forma de nosso sistema solar são contatados, vistos e conhecidos. O campo de conhecimento dos três mundos, o reino de maya e da ilusão, podem ser contatados à vontade pelo vidente empunhando o instrumento que lhe é fornecido para isto, mas um novo mundo se abre, no qual ele vê sua consciência como una com todas as demais energias, ou expressões conscientes da vida divina. O último véu da ilusão é retirado, a grande heresia da separatividade é vista em sua verdadeira natureza e o vidente pode dizer com o Cristo:

"E não rogo somente por estes, mas também por aqueles que pela sua palavra hão de crer em Mim; para que todos sejam um, como tu Pai, és em Mim e Eu em Ti; que também eles sejam um em Nós, para que o mundo creia que Tu Me enviaste. E a glória que Tu me deste Eu a dei a eles, para que eles sejam um, como Nós somos um: Eu neles, e Tu em Mim, para que eles sejam perfeitos em unidade e para que o mundo possa saber que tu Me enviaste a mim e que os tens amado, como tens amado a Mim" (João XVII. 20-23).

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