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Do Intelecto à Intuição


Capítulo VIII – A Universalidade da Meditação

"Para cada homem se abre
Um Caminho, e Caminhos, e um Caminho.
E a Alma Superior ascende ao Caminho Superior
E a Alma Inferior tateia às apalpadelas o Inferior;
E no meio, nos pântanos nebulosos,
Os restantes vegetam para cá e para lá.
Mas para todo homem se abre
Um Caminho Superior e um Inferior,
E todo homem decide
Qual o Caminho que a sua Alma deve seguir."
JOHN OXENHAM

A Universalidade da Meditação

Esboçamos o método pelo qual o místico pode tornar-se o conhecedor consciente e definimos as etapas sucessivas do desenvolvimento que suscita finalmente a iluminação do cérebro físico e o modo de vida inspirado na terra. Começamos com um homem que, tendo esgotado os recursos e as satisfações da existência física, e enfrentando o inevitável de uma grande transição para outra dimensão da vida, procura o caminho do conhecimento e da certeza. Ele descobre - quando investiga com imparcialidade - que em todos os tempos houve os que sabiam, os que penetraram até o coração do mistério do ser, e que voltaram trazendo a certeza da imortalidade da alma e da realidade do Reino de Deus. Falam, igualmente, de um método por meio do qual chegaram a esta apreensão da Verdade divina e de uma técnica que tornou possível a sua transição do quarto para o quinto reino da natureza.

Descobrimos que, em todos os tempos, estes homens iluminados testemunham a mesma verdade e afirmam que este método universal traz para eles certos resultados que podem ser assim enumerados:

Primeiro: Eles conquistam a experiência direta das realidades divinas, das verdades transcendentais e do mundo sobrenatural. Estas, ao serem contatadas, parecem ser um processo tão natural, uma parte do desenvolvimento evolutivo tão vital como qualquer dos processos que as ciências da biologia, da física e da química testemunham. Do mesmo modo que estas três grandes ciências são ocultas e praticamente inatingíveis para o aluno comum de nível médio, assim também a metafísica superior é oculta e inatingível mesmo para o acadêmico, a quem falte a abertura de espírito necessária, o treino específico e o equipamento.

Segundo: Outro efeito do desenvolvimento é a retirada do véu do Eu. Pela educação mental e espiritual, que a prática de meditação avançada confere, o problema dos psicólogos quanto à natureza do Eu, da alma, da psique, resolve-se, e a palavra pode retomar o seu significado original - Psique, o nome da alma. O processo foi o de uma gradual remoção do véu, e de uma aproximação por etapas, cada vez mais próxima da alma. A psique emerge na sua verdadeira natureza.

Por detrás da matéria, pode-se encontrar um fator imanente e poderoso que é responsável pela coerência da forma e que constitui a personalidade que age no mundo físico. Isto pode ser considerado como o aspecto vida, e os estudiosos lutam continuamente com o problema da vida, tentando chegar à sua origem e à sua causa. Mais profundamente enraizado ainda, pode-se encontrar o aspecto emocional do Eu, sensitivo, sofredor e experimentador, trabalhando através do sistema nervoso e do cérebro e governado muito poderosamente através de todas as atividades no mundo dos assuntos humanos. Ele sente o prazer e a dor; está ocupado com reações temperamentais e emocionais, com preocupações e desejos de toda ordem. Isso constitui a vida pessoal comum para a maioria de nós, porque sentimos mais do que pensamos, neste estágio de desenvolvimento humano. A razão para isso nos deu Patânjali claramente:

"O sentido de personalidade é devido à identificação do conhecedor com os instrumentos do conhecimento... A ilusão de que o Percebedor e o que é percebido são uma e a mesma coisa é a causa dos efeitos geradores da dor, que deve ser repelida." (1)

Ele nos diz em outro lugar que a experiência da vida e o processo da vida e do sentimento no plano físico provêm da

"inabilidade da alma em distinguir o eu pessoal, do espírito. As formas objetivas existem para uso e experiência do homem espiritual. Pela meditação sobre isso nasce a percepção intuitiva da natureza espiritual." (2)

Através desta experiência vital e do processo do desejo sensorial e pelo conhecimento subsequente, o homem esgota este aspecto de sua natureza e penetra mais profundamente, até que chega a um terceiro fator, a mente. O homem permanece agora neste ponto da sua investigação, e a consideração atenta dos processos mentais e o estudo das ações mentais, de suas causas e objetivos ocupam a atenção dos psicólogos por toda parte. Entre eles há numerosas escolas de pensamento, que sustentam pontos de vista em grande parte opostos, mas a existência de algo chamado mente e que ela está cada vez mais influenciando a humanidade, é hoje em dia universalmente reconhecido.

Até onde iremos deste ponto? Houve, no decorrer dos tempos, uma constante progressão da consciência humana em evolução, um contínuo crescimento da compreensão da natureza, do mundo no qual o homem vive, e um cada vez maior alcance do Todo e hoje o mundo inteiro está ligado pelo rádio, o telégrafo e a televisão. O homem é onipresente ê a mente é o fator principal na realização deste aparente milagre. Adquirimos uma compreensão das leis que governam o mundo natural e de algumas das que regem o psíquico. As leis do reino chamado espiritual permanecem por serem descobertas e utilizadas cientificamente. São conhecidas de um pequeno número de seres que a respeito falaram à humanidade, mas são utilizadas apenas pelos pioneiros da nossa humanidade. Entre esses poucos que figuram como os Conhecedores iminentes encontram-se o Buda, o Cristo, Platão, Aristóteles, Pitágoras, Eckhart, Jacob Boehme, Spinosa. A lista é longa.

Atualmente começamos a fazer a pertinente pergunta: não será possível que centenas de seres estejam agora no ponto em que podem coordenar o cérebro, a mente e a alma, e assim cruzar o portal da percepção mental e penetrar no reino da luz, da percepção intuitiva, até o mundo das causas? Do ponto de vista do mundo mental no qual penetramos presentemente, deixando para trás de nós os véus do corpo físico e da natureza psíquica, não seremos capazes, agora, de passar para o nosso desenvolvimento evolutivo seguinte? Tendo até certo ponto compreendido a natureza da Humanidade e da mente, não podemos começar a assenhorear-nos da natureza da intuição e, deste modo, a atuar num outro reino da natureza, com uma compreensão e uma facilidade iguais às que vemos funcionar em nós como seres humanos? Os Conhecedores dizem-nos que podemos e indicam-nos o caminho.

Terceiro: Na linguagem de alguns dos pioneiros do reino do espírito, o terceiro resultado da meditação é que encontramos Deus. O que entendemos, em detalhe, por esta pequena palavra de quatro letras, é relativamente sem importância. Não é senão um símbolo da Realidade. Todas as religiões do mundo afirmam uma vida que é imanente na forma, e uma Causa que trouxe à existência todas as coisas. Cada ser humano é consciente em si mesmo de vagos esforços (que se tornam mais ardentes à medida que o intelecto se desenvolve) para conhecer, compreender e responder às questões Por quê e Como. A maioria dos homens, qualquer que seja a sua teologia, quando estão diante do portal da morte, afirmam a sua crença no Pai de todos os Seres, e aceitam tudo o que essa Paternidade implica. Consideremos Deus como o "Propósito Superior, e Desconhecido" que pode ser reconhecido como a soma de todas as formas que exprimem a Vida, a totalidade de todos os estados de consciência, e como a própria Vida; consideremos a Divindade como aquilo em que vivemos, nos movemos e temos a nossa existência, e que realiza através de todas as formas da natureza (aí compreendendo a forma humana) o seu próprio Plano inclusivo e sintético. Os Conhecedores dizem-nos que quando chegaram a um Caminho, graças a um método, e que tendo seguido esse caminho, entraram num novo estado de ser, o Propósito e o Plano Divinos lhes foram revelado. Podem participar ativamente aí e tornarem-se trabalhadores conscientes e inteligentes ao lado da evolução. Sabem o que está ocorrendo, porque viram as representações divinas desenhadas.

Quarto: Nas palavras de todas, as escolas místicas, tanto orientais como ocidentais, esses resultados são resumidos como: União com Deus, ou Unificação com a Divindade. Deus e o homem são um. O Eu e o Não-Eu estão unificados. Tauler exprime-se sobre este tema, da seguinte maneira:

“Nesta união... o homem não atinge Deus pelas imagens ou meditações, nem pelos esforços mentais superiores, nem por um sabor ou uma luz. Mas é verdadeiramente Ele próprio que recebe interiormente, e de uma maneira que ultrapassa grandemente toda a luz dos seres criados, toda a razão, toda a medida e toda a inteligência.“ (3)

Todos os fatores abaixo da realidade espiritual não são senão caminhos para o centro e devem ser inteiramente anulados no estado contemplativo, em que o homem foge da consciência da forma para a da realidade espiritual, a alma. Esta, sendo uma parte consciente e indivisível da Alma Universal (por paradoxal que isso pareça), é desprovida de todo sentido de separatividade; daí a União com Deus ser uma conscientização de um fato na natureza que sempre existiu. A alma conscientemente sabe que é uma com Deus. Tendo isto presente em nossas mentes e compreendendo o papel que desempenhou a intelecção, as palavras de São Paulo tomam um novo significado: "Deixai que a mente que estava em Jesus Cristo esteja também em vós, Ele que, estando na forma de Deus, não considerou roubo ser igual com Deus".

Os resultados desta união (realizada em estado contemplativo) são a iluminação da mente e do cérebro, mantidos que tenham sido, um e outro, positivamente estáveis e numa condição expectante. A iluminação, quando se torna frequente e pode ser finalmente provocada à vontade, produz definitivamente a vida da inspiração.

Se esses estágios forem alcançados e dominados e se se puder encontrar homens e mulheres desejosos de se submeterem à técnica aqui descrita, muitos de entre eles surgirão, e darão testemunho desta ciência divina. Descobrir-se-á quanto são verdadeiras as palavras que escrevi no livro "A Alma e Seu Mecanismo”, que "Uma nova raça surgirá, possuindo novas capacidades, novos ideais, novos conceitos concernentes a Deus e à matéria, à vida e ao Espírito. Através dessa raça e da humanidade futura ver-se-ão não apenas um mecanismo e uma estrutura, mas ainda uma alma, uma entidade, que, servindo-se do mecanismo, manifestará a sua própria natureza que é amor, sabedoria e inteligência." (4)

Aqui é interessante notar a uniformidade do ensinamento de todas as religiões e raças, quanto à técnica da entrada no reino da alma. Em certo ponto do caminho da evolução, parece que todos os caminhos convergem e todos os peregrinos chegam a uma posição idêntica. A partir desta junção percorrem o mesmo caminho, empregam os mesmos métodos e servem-se de uma fraseologia curiosamente semelhante. O amplo estudo das religiões comparadas e as permutações entre as raças evidenciam a chegada do tempo para as realizações disto. Estes dois fatores estão quebrando firmemente as velhas barreiras e demonstram a unidade da alma humana.

Falando na generalidade, este Caminho comporta quase universalmente três divisões, que se encontram, por exemplo, nas três grandes religiões: o Cristianismo, o Budismo e o Hinduísmo. A Igreja cristã fala do Caminho de Provação, do Caminho da Santidade e do Caminho de Iluminação. O Dr. Evans-Wentz, de Oxford, na sua obra Tibet's Great Yogi, Milarepa, cita um mestre hindu, nestes termos:

"Para mim, as três principais escolas tibetanas marcam três etapas no Caminho da Iluminação ou do progresso espiritual. Na primeira, o devoto está sujeito às imposições e às proibições... Está 'ligado pelas ordenanças'; na segunda, adere a caminhos tradicionais... em que as restrições ordinárias são até certo ponto relaxadas, conquanto o devoto não esteja ainda completamente livre. Na terceira, a Adi-Ioga, quando pelas práticas da ioga, a Luz é vista, não há já qualquer restrição, pois o estágio de Buda... foi alcançado. Estes três estágios correspondem, grosseiramente, ao que se referem os Tantras como... o Estado do Hómem-Animal... o Estado do Herói e o Estado do Divino ou Iluminado." (5)

O Método no Budismo Tibetano

Estudando a vida de Milarepa, o Santo do Tibete, que viveu nos séculos XI e XII, vemos que se afirma ter ele alcançado a união pelo método da disciplina da meditação e da prática e, finalmente, a Iluminação. Lemos o que se segue:

"Ele foi quem, tendo dominado a ciência mística e oculta, lhe comunicou... continuamente os quatro estados abençoados da comunhão no êxtase...

Ele foi quem, tendo alcançado a onisciência, a boa vontade que tudo permeia, e o amor ardente, juntamente com a aquisição de poderes e virtudes transcendentais, se tornou um Buda, por seu próprio esforço, que se elevou acima de todas as opiniões opostas conflitantes e dos argumentos das diferentes seitas e crenças...

Era um ser dos mais diligentes e perseverantes na meditação sobre o Caminho Excelso... Tendo adquirido pleno poder sobre os estados mentais e sobre as faculdades internas, superou todos os perigos dos elementos externes... Era um ser perfeito na prática dos quatro estágios da meditação, (análise, reflexão, profundo amor, bem-aventurança. Estes são os quatro estágios mentais progressivos, que conduzem à completa concentração da mente, produzindo a iluminação pelo êxtase)... Era um sábio professor da Ciência da Mente, tendo provado sem discussão possível que a Mente é o Começo e o Fim de todos os fenômenos visíveis, tanto materiais como espirituais, cujos Raios, ao poderem brilhar sem obstrução, se desenvolveram, como ele sabia, na tríplice manifestação do Ser Divino Universal, pelo seu próprio poder, livre e inerente," (6)

Assim temos o mesmo processo: atividade mental, contemplação, união e iluminação.

O Método no Budismo Chinês

Uma das principais contribuições para o processo de iluminação é uma compreensão da maneira pela qual o Buda encontrou a Luz. Isso demonstra notavelmente a utilidade da mente para dominar a ignorância e a sua subsequente futilidade para conduzir um homem ao reino da Luz e do ser espiritual. O Dr. Suzuki, professor de Budismo Zen na Faculdade Budista de Kyoto, fala-nos disso nos luminosos parágrafos seguintes. Diz-nos que foi pelo "conhecimento perfeito e supremo" que Buda alcançou a sabedoria que o fez passar do estado de Bodhisattva ao de Buda. Este conhecimento é:

"... uma faculdade ao mesmo tempo intelectual e espiritual, por cuja operação a alma fica habilitada a quebrar os grilhões da intelectualidade. Esta última é sempre dualista, na medida em que conhece o sujeito e o objeto, mas no Prajñâ que se exerce "em uníssono com a apreciação de um único pensamento", não há separação entre o conhecedor e o conhecido, sendo estes todos vistos num só pensamento, e a iluminação brota disso...

"Assim, vemos que a iluminação é um estado mental absoluto, no qual "discriminação" alguma... tem lugar, e a realização deste estado no qual todas as coisas são vistas "num pensamento” necessita de um grande esforço mental. Com efeito, a nossa consciência lógica, bem como a nossa consciência prática, entregam-se muito à análise e à ideação; isto é, separamos as realidades em elementos para os compreendermos; mas, quando são reunidos para compor o todo original, seus elementos salientam-se muito conspicuamente definidos e nós não vemos o todo "num pensamento."

Como é apenas quando o "pensamento único" é alcançado que obtemos a iluminação, deve ser feito um esforço para se ir além da nossa consciência empírica relativa... O fato mais importante que se encontra por detrás da experiência da Iluminação, portanto, é o de Buda ter feito as tentativas mais vigorosas para resolver o problema da Ignorância e ter empenhado ao máximo sua força de vontade para sair vitorioso da luta... Portanto, a Iluminação deve envolver tanto a vontade como o intelecto. É um ato de intuição nascido da vontade... O Buda alcançou este objetivo quando lhe ocorreu uma nova visão interior no final do seu raciocínio sempre circulante em torno da decrepitude e da morte até à Ignorância e desde a Ignorância até a decrepitude e à morte...

Mas ele possuía uma vontade indomável; queria, com os esforços extremos da sua vontade, alcançar a plena verdade nesta matéria; bateu e bateu até as portas da Ignorância se abrirem; e elas abriram-se bruscamente para uma nova visão panorâmica jamais presenciada pela sua visão intelectual." (7)

Anteriormente, o Dr. Suzuki fez-nos notar que o alcançar do Nirvana é, no fim de contas, essencialmente, a afirmação e a conscientização da unidade. No mesmo ensaio, diz-nos:

"Eles (os Budistas) descobriram finalmente que a Iluminação não era uma coisa exclusivamente pertencente ao Buda, mas que cada um de nós podia alcançá-lo se conseguisse desembaraçar-se da ignorância, abandonando a concepção dualista da vida e do mundo; mais tarde, concluíram que o Nirvana não era o desaparecer num estado de absoluta não-existência, o que era uma impossibilidade visto termos de contar com os fatos reais da vida, mas que o Nirvana, no seu significado último, era uma afirmação - uma afirmação para além dos opostos de qualquer espécie." (8)

O termo "prâjña" empregado acima é muito interessante. É

"a presença de uma faculdade em qualquer indivíduo... Este é o princípio que possibilita a Iluminação em nós tão bem como em Buda. Sem Prâjña não haveria Iluminação, que é o mais alto dos poderes espirituais em nosso poder. O intelecto... é relativo na sua atividade... Buda, antes da sua Iluminação, era um comum dos mortais e nós, simples mortais, seremos Budas quando os nossos olhos mentais se abrirem na Iluminação." (9)

Assim, temos o intelecto concentrado e empregado até o máximo das suas capacidades e, depois, a cessação do seu trabalho. Em seguida vem o uso da vontade para conservar a mente firme na luz, e então - a Visão, a Iluminação!

O Método na Ioga Hindu

Os hindus analisaram o processo de aproximação mental à Realidade e o papel que a mente desempenharia, talvez mais claramente do que qualquer outro grupo de pensadores. Shankarâchârya diz-nos que:

"O iogue, cujo intelecto é perfeito, contempla todas as coisas como se residissem dentro de si próprio (no seu próprio "Eu", sem distinção alguma entre o exterior e o interior) e, assim, pelo olho do Conhecimento (Jñâna-Chaksus, uma expressão que pode ser traduzida de forma bastante exata por: "intuição intelectual"), ele percebe (ou melhor, concebe, não racional nem discursivamente, mas por uma percepção direta e um 'assentimento' imediato) que tudo é Atmâ". (10)

O iogue, ou aquele que alcançou a união (porque a Ioga é a ciência da união) conhece-se tal qual é na realidade. Quando a ignorância é substituída pelo conhecimento transcendente, verifica que está identificado com Brahma, a Causa Eterna, o Um e o Único. Conhece-se como sendo Deus, para além de qualquer controvérsia - Deus imanente e Deus transcendente. O observador prossegue e diz-nos:

"Ele é 'o Supremo Brahma, que é eterno, puro, livre, só (na Sua perfeição absoluta), incessantemente pleno de Beatitude, sem dualidade, Princípio (não condicionado) de toda a existência, conhecedor (sem que este conhecimento implique qualquer distinção entre sujeito e objeto, o que seria contrário à 'não dualidade'), e sem fim'.

"Ele é Brahma, por quem são iluminadas todas as coisas (compartilhando da Sua essência segundo os seus graus de realidade), a Luz que é a causa do sol brilhar e de todos os corpos luminosos, mas que não se tornou manifestado pela luz dos mesmos."

O "Eu” estando iluminado pela meditação... ardendo então com o fogo do Conhecimento (concebendo a sua identidade essencial com a Luz Suprema) está livre de qualquer acidente... e brilha com o seu próprio esplendor como o ouro que é purificado pelo fogo.

"Quando o Sol do Conhecimento espiritual se eleva no firmamento do coração (isto é, no centro do ser...), dissipa as trevas (da ignorância que encobre a única Realidade absoluta), tudo permeia, tudo envolve e tudo ilumina." (11)

O Padre Marechal diz-nos que:

"... a experiência psicológica vivida pelo contemplativo atravessa as duas fases da concentração mental e da inconsciência, descritas por M. Oltramare, segundo o Sarvadarsanasangraha; 'É em duas fases sucessivas que o logue escava, por antecipação, a base das futuras existências e apaga as impressões que determinam a existência presente. Na primeira está consciente... o pensamento está então, exclusivamente atento ao seu próprio objeto e todas as modificações do princípio estão suspensas na medida em que dependem de coisas exteriores; os frutos que recolhe, sob esta forma são, ou visíveis - a cessação do sofrimento - ou invisíveis - a percepção imediata do Ser que é o objeto da meditação... O segundo período da Ioga é aquele em que está inconsciente ... o órgão pensante está dissolvido na sua causa ... o sentimento de personalidade está perdido; o indivíduo que medita, o objeto no qual o seu pensamento se apoia, o próprio ato de meditar, não fazem senão uma coisa..." (12)

Patânjali, o maior mestre da ciência da Ioga, resumiu as últimas etapas no seu quarto Livro com as seguintes palavras:

"O estado de unidade isolada (retirada para a verdadeira natureza do Eu) é a recompensa do homem que pode discriminar entre a substância mental e o Eu, ou homem espiritual.

"O estado de unidade isolada torna-se possível quando as três qualidades da matéria (as três gunas ou potências da natureza) não têm já qualquer domínio sobre o Eu. A pura consciência espiritual retira-se para o Um.

"Quando a inteligência espiritual que se mantém só e livre de objetos, se reflete na substância mental, então, vem a consciência do Eu... A mente tende então para... uma iluminação crescente..." (13)

Aqui ainda temos a mesma ideia. O emprego da mente, retirada afinal da consciência mental; e a conscientização da unidade. Isto tende para a firme iluminação.

O Método do Sufismo

Os escritos dos Sufis estão muito velados por fantasias e simbolismos e têm um sentido de dualidade mais forte do que talvez em qualquer outro sistema religioso esotérico, à exceção dos escritos místicos Cristãos. Mas aí ressalta também a mesma expressão da verdade e o mesmo método fundamental. É O que extratos do vetusto Tratado Persa sobre o Sufismo nos demonstra. É interessante notar que os escritos mais extensos e que apresentam a maior utilidade tiveram origem naqueles que são os Conhecedores, capazes de contar as suas experiências da divindade de tal modo que podem ensinar è delinear, assim como declarar e afirmar.

"O primeiro passo para a unificação é o aniquilamento da separação porque a separação é a declaração de que se está separado das imperfeições, enquanto que a unificação é a declaração da unidade de uma coisa... Por conseguinte, o primeiro passo para a unificação é negar que Deus tenha um associado e pôr de lado tal associação...

"Temos cinco princípios de unificação: o afastamento da fenomenalidade, a afirmação da eternidade, o abandono dos laços familiares, a separação dos irmãos e o esquecimento do que é conhecido e desconhecido.

"O afastamento da fenomenalidade consiste em negar que os fenômenos tenham conexão com a unificação ou que lhes seja possível alcançar a Sua santa essência; a afirmação da eternidade consiste na convicção de que Deus existiu sempre...; o abandono dos laços familiares significa, para o noviço, a separação dos prazeres habituais da alma inferior e das formas deste mundo e, para o adepto, a separação das posições sublimes e dos estados gloriosos e dos milagres exaltados; a separação dos irmãos significa o afastar-se da sociedade da espécie humana e o dirigir-se para a sociedade de Deus, dado que qualquer pensamento que não seja o de Deus é um véu e uma imperfeição e, quanto mais os pensamentos de um homem estão associados a outrem que não Deus, mais Deus lhe está velado, porque está universalmente reconhecido que a unificação é a concentração dos pensamentos, enquanto que estar satisfeito com outro que não Deus é um sinal de dispersão do pensamento..." (14)

Encontramos ainda estas palavras:

"Um dos Shaykhs diz: são necessárias quatro coisas àquele que ora: a aniquilação da alma inferior, a perda dos poderes naturais, a pureza do coração interno e a perfeita contemplação. A aniquilação da alma inferior não pode ser alcançada senão pela concentração do pensamento; a perda dos poderes naturais apenas pela afirmação da Majestade Divina, o que implica a destruição de tudo o que é diferente de Deus; e pureza do coração interior unicamente pelo amor; e a perfeita contemplação apenas pela pureza do coração interior." (15)

Uma vez ainda, temos a mesma verdade.

O Método do Cristianismo

É naturalmente fácil encontrar grande número de textos que ligam o caminho do Conhecedor Cristão ao do seu irmão do Oriente. Eles testemunham a mesma eficácia do método no qual o intelecto é igualmente empregado até aos limites do seu poder e, depois, todo o esforço é suspenso, até se estabelecer uma nova condição do ser e sobrevir um novo estado de consciência. Santo Agostinho diz: "Assim como é inefável, na primeira procissão, donde o Filho sai do Pai, assim também existe qualquer coisa de oculto por detrás da primeira procissão, intelecto e vontade". Meister Eckhart une-se aos Conhecedores Orientais pelas seguintes palavras:

"O intelecto é o mais forte poder da alma e, com isso, a alma assenhoreia-se do bem divino. O livre arbítrio é o poder de saborear o bem divino que o intelecto lhe faz conhecer. A chispa da alma é a luz do reflexo de Deus, que sempre se volta para observar Deus. O arcano da mente é, por assim dizer, a soma de todo o bem divino, de todos os dons divinos, na essência mais íntima da alma, que é como um poço insondável de bondade divina.

"Os poderes mais inferiores da alma deveriam estar consagrados aos poderes superiores da mesma, e estes a Deus; os seus sentidos externos aos internos e estes à razão, o pensamento à intuição, e todos eles à unidade afim de que a alma possa estar só sem que coisa alguma flua para ela que não seja pura divindade, refluindo neste momento para dentro de si mesma.

"Quando a mente de um homem perdeu o contato com todas as coisas, então, e somente então, entra em contato com Deus.

"No influxo desta graça aparece de imediato aquela luz da mente para a qual Deus envia um raio de Seu Esplendor sem mácula. Nesta poderosa luz um mortal está tão acima dos seus semelhantes quanto um homem vivo está acima de sua sombra projetada na parede.

"O homem da alma, transcendendo o seu modo angélico e guiado pelo intelecto, abre caminho até a fonte de onde a alma brotou. O intelecto é deixado de lado com todas as coisas que têm um nome. Assim a alma é absorvida na pura‘unidade." (16)

Assim, todas as grandes escolas de meditação intelectual (privadas, nos últimos estágios, de emoções e de sentimento) conduzem ao mesmo ponto. No ponto de vista do Budismo, do Hinduísmo, do Sufismo e do Cristianismo, o fim é fundamentalmente o mesmo: a Unificação com a Divindade; há a mesma transcendência dos sentidos, a mesma concentração da mente no seu mais alto ponto para conduzir o aspirante ao seu objetivo; a mesma entrada no estado de contemplação da Realidade, a mesma fusão em Deus e a consciência da identidade com Deus e a mesma subsequente Iluminação.

Todo sentimento de separatividade desapareceu. A Unidade com o Universo, a Identidade com o Todo conscientizado, a percepção consciente do Eu e a assimilação em plena consciência desperta, quer com a Natureza exterior, quer com a interior - tal é a meta definida do investigador do conhecimento.

O eu, o não-eu e a relação entre ambos são conhecidos como um fato, sem diferenciação. Deus, o Pai, Deus, o Filho e Deus, o Espírito Santo, são conscientizados como trabalhando harmonicamente em conjunto com uma Identidade - os Três em Um e o Um em Três. Este é o objetivo de todas as escolas onde o místico transcende o sentimento e, em última análise, até o pensamento, para ficar unido ao Todo. Entretanto, a individualidade persiste na consciência, mas está tão identificada com o Todo que desaparece o sentido da separatividade.

Nada mais subsiste senão a Unidade conscientizada.

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1. Baitey, Alice A., A Luz da Alma, pp. 115-116.
2. Da mesma obra e autor, p.239.
3. Citado de Poulain R.p., Graces of Interior Prayer, p.80.
4. Bailey, Alice A., A Alma e seu Mecanismo, p.130.
5. Evans-Wentz, W.V., Tibet's Great Yogi, Milarepa, p.5.
6. Evans-Wentz, W.Y., Tibet's Great Yogi, Milarepa, pp.32, 33, 35, 38
7. Suzuki, Daisetz Taitaro, Essays in Zen Buddhism, pp.113-115.
8. Suzuki, Daisetz Taitaro, Essays in Zen Buddhism, p.47.
9. Suzuki, Daisetz Taitaro, Essays in Zen Buddhism, pp.52-53.
10. Citado por Guénon, René, em Man and His Becoming, p.254
11. Guénon, René, Man and H is Becoming, pp.356, 258, 259, 260.
12. Maréchal, Joseph, S.J., Studies in the Psychology of the Mystics, pp.312, 313.
13. Bailey, Alice A., The Light of the Soul, IV, 25, 34,22.
14. Nicholson, Reynold A., The Kashf Al-Mahjúb, pp.281,282.
15. Nicholson, Reynold A., The Kashf Al-Mahjúb, pp.302, 303.
16. Pfeiffer, Franz, Meister Eckhart, pp.338, 144,101,66.

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