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Livros de Alice Bailey

A Exteriorização da Hierarquia

Índice Geral das Matérias


Seção III - As Forças Que Sustentam o Progresso Evolutivo da Raça - Parte 2
O Único Caminho para a Vitória
A Significação do Festival de Wesak
A Causa da Catástrofe Mundial
O Intervalo entre a Guerra e a Paz

O ÚNICO CAMINHO PARA A VITÓRIA

Abril de 1942

Tenho trabalhado com A.A.B. como secretária desde novembro de 1919. Durante esse período, o mundo presenciou grandes e significativas mudanças, sendo a mais relevante o aumento fenomenal da percepção espiritual. Isto se revela no fato de que, apesar da catástrofe mundial, apesar do horror e do mal desencadeados em nosso planeta, e apesar da dor, do terror, do suspense e da incerteza dos homens, há agora dois fatores presentes na consciência humana: a visão de um futuro melhor e uma determinação fixa e inalterável de transformar esta visão em uma realidade na experiência humana. Neste mundo melhor, os valores espirituais controlarão, esses valores sendo considerados como o que é bom e correto para toda a humanidade, e não simplesmente como interpretações religiosas e teológicas. A percepção espiritual é agora inclusiva, e agora engloba o plano físico como também o plano metafísico.

Talvez não lhes seja fácil compreender a importância desta transformação que - diante de todas as forças em conflito - permitiu que os homens reconhecessem que o reino de Deus deve funcionar na Terra, que deve ser exteriorizado e que isto não deve ser considerado como a criação ilusória e longínqua de um desejo, mas que deveria condicionar a vida cotidiana do homem e controlar todos os seus projetos para o futuro. Os homens trabalham e lutam hoje para este fim. Aplicam muitos nomes à visão: melhores condições no mundo, estruturação diferenciada, reconstrução do mundo, nova civilização, fraternidade, companheirismo, federação mundial, entendimento internacional - pouco importa a denominação. É o tema do melhoramento, do bem-estar universal, da segurança geral, da oportunidade para todos, independente de raça, cor ou credo. Este é o fator importante. Os propósitos subjacentes de Deus estão se cumprindo e é com esta nota que pretendo começar minha mensagem de Wesak para vocês.

Este é o lado mais esperançoso e importante do ângulo da Hierarquia que observa todos os acontecimentos do mundo, do ponto de vista do futuro. Existe, porém, o outro lado. Não é necessário acentuar a gravidade da situação presente. A guerra ainda não foi ganha. No momento em que escrevo, apesar dos êxitos esporádicos e do poder de resistência das Nações Aliadas, e apesar de uma tendência básica para a vitória final, as potências do mal fizeram aproximadamente o que queriam. Avançaram triunfalmente, exceto na Rússia. Isto era de se esperar a princípio, pois se o mal é simplesmente o predomínio da matéria e a negação dos valores espirituais, evidentemente ele tem sua linha de menor resistência no plano material. Em consequência, era previsível o seu triunfo inicial, o que o curso da guerra até agora mostrou. Quando as pessoas de mente espiritual, os homens e mulheres de boa vontade, os idealistas e o povo benevolente e decente de todos os países puderem demonstrar no plano físico a mesma determinação unificada e a mesma vontade-para-a-vitória que as forças do mal demonstraram, então as Forças da Luz assumirão o controle e coordenarão os assuntos humanos.

A dificuldade que a Hierarquia enfrentou no esforço para consegui-lo deveu-se a que a condição de unidade objetiva, de método e de inter-relação devia ser obtida sem infringir o livre-arbítrio do indivíduo, do grupo ou da nação. A lei oculta de liberdade espiritual deve ser reconhecida e protegida. Nenhum reconhecimento ou proteção deste tipo entrava as atividades das forças do mal. A vontade-de-poder e uma minoria organizada, dominada pelo mal, assumiram o controle. A liberdade de consciência e de ação foi eliminada, e a submissão forçada da maioria à vontade de uma minoria desapiedada trouxe uma unidade ilegítima, mas temporariamente muito eficaz, o que não existiu no caso das Nações Aliadas que combatiam pelas Forças da Luz e em nome da liberdade humana.

A liberdade, meus irmãos, pode se mostrar como uma limitação quando retarda a ação correta, quando centra a atenção nas diferenças insignificantes e nas tendências da personalidade, e quando impede aquela unidade de ação que pode ganhar a guerra. Os governantes dos povos tiveram que dedicar um tempo precioso para lhes inculcar um sentido correto dos valores, à compreensão de que as diferenças individuais e nacionais e os pontos de desacordos políticos e religiosos devem todos ceder lugar ao único requisito supremo: ganhar a guerra e livrar a humanidade da ameaça da escravidão, do crescente e constante medo, e do domínio do mundo pela Loja Negra.

Como já lhes disse, um antigo conflito está novamente em pleno andamento, e a humanidade tem agora a oportunidade de resolvê-lo de uma vez por todas e - para sempre - ser livre como nunca foi. Este conflito comporta três etapas:

1. A etapa da guerra física em que estamos envolvidos agora e da qual não há como escapar.

Isto exige a Vontade-de-vencer.

2. A etapa da reorganização dos assuntos mundiais quando a guerra terminar, a qual normalmente deverá se dividir em duas fases:

a. O estabelecimento de corretas relações humanas, durante um prolongado armistício, se possível. De muitas maneiras, esta fase será tão difícil como a própria guerra, mas terá lugar nos níveis mental e emocional, e não no nível físico.

b. A tarefa de reabilitação. Seu campo de ação será o físico e o espiritual, e incluirá as atividades que vão desde a reconstrução das cidades devastadas, à restauração da terra arrasada, aos cuidados psicológicos para a juventude, os doentes mentais e os desorientados, até uma nova enunciação dos valores espirituais essenciais que devem guiar a humanidade no futuro.

Isto envolverá a Vontade-para-o-bem.

3. A etapa em que se reconhecerão as oportunidades da paz, a correta aplicação da segurança e a educação organizada da juventude de todos os países, nos termos dos princípios da nova era.

Isto envolverá a Vontade-para-organizar.

Desta maneira, nos três níveis da vida humana, os homens estarão condicionados por uma tendência para o bem, o belo e o verdadeiro. Falando em termos esotéricos, a personalidade da humanidade se integrará e reorientará para modos de vida novos e bons. Para alcançar estes objetivos, convoco hoje a vocês e a todos com quem possam estabelecer contato.

Neste ponto gostaria de incluir parte do que disse em outro texto.

Uma coisa é preciso ter sempre em mente. Quando a guerra terminar, quando este momento de tribulações e provas dolorosas chegar ao fim, haverá um grande despertar espiritual (cuja qualidade e natureza agora são totalmente imprevisíveis). A guerra terá ensinado muitas lições à humanidade, terá rasgado o véu do eu pessoal de muitos olhos. Valores que até agora só eram expressos e compreendidos por aqueles cujos "olhos estavam voltados para Deus”, serão a meta e o desejo de muitos milhares de pessoas. A verdadeira compreensão entre homens e nações será o objetivo ardentemente desejado, e o que a humanidade decide obter, sempre consegue. Trata-se de uma lei oculta, pois o desejo ainda é a maior força do mundo; o desejo unificado e organizado foi a razão básica para os esmagadores êxitos do Eixo.

O único fator que pode se opor com êxito ao desejo é a Vontade, empregando esta palavra na sua acepção espiritual e como expressão do primeiro grande aspecto divino. Houve pouco dessa vontade espiritual organizada nas Nações Aliadas; logicamente, os Aliados estão animados pelo desejo de vitória, pelo desejo de que este cataclismo mundial que a tudo engolfa tenha fim, pelo desejo de paz e de retorno à estabilidade, pelo desejo de terminar a guerra de uma vez por todas, e de romper seu ciclo sempre recorrente, pelo desejo crescente e constante de fazer desaparecer este terrível tributo de sofrimento, crueldade, morte, fome e medo que agarra a humanidade pela garganta na tentativa de estrangular sua vida.

Entretanto, toda esta determinação, na maioria dos casos, é simplesmente a expressão de um desejo comum e fixo. Não é a aplicação organizada da vontade. O segredo da vontade reside no reconhecimento da natureza divina do homem. Somente ela pode evocar a verdadeira expressão da vontade. Com efeito, a vontade deve ser evocada pela alma, à medida que domina a mente humana e controla a personalidade. O segredo da vontade está também estreitamente ligado ao reconhecimento da natureza invencível da bondade e da inevitabilidade do triunfo final do bem. Isto não é determinação, não se trata de açoitar e estimular o desejo para que seja transmutado em vontade; também não é um enfoque implacável, inabalável e imutável de todas as energias na necessidade de triunfar (os inimigos das Forças da Luz são peritos nesta arte). Para as Nações Aliadas, a vitória não depende de um esforço de concentração mais eficaz que o do inimigo. O emprego da vontade não se expressa pela férrea decisão de permanecer firmes e não ceder às forças do mal. A determinação, o enfoque da energia e a demonstração de um esforço total para a vitória são somente (no tocante às Nações Aliadas) a expressão de um desejo convergente de paz e de fim das dificuldades. As massas são capazes de fornecer este tipo de esforço e é o que elas fazem dos dois lados do conflito.

No entanto, há um ponto positivo, um algo a mais, que reverterá o curso da vitória para o lado das Nações Aliadas. Derivará de um esforço para compreender e expressar a qualidade da Vontade espiritual; será a manifestação da energia que faz do primeiro aspecto divino de Vontade ou Poder o que é; é a característica distintiva da força de Shamballa; é aquela qualidade particular e específica da divindade, que é tão diferente, que o próprio Cristo não estava na altura de expressá-la com facilidade e entendimento. Disso advém o episódio em Getsêmani, cujo significado me é difícil de expressar em palavras. Dois mil anos se passaram desde Getsêmani, e desde que o Cristo fez Seu contato inicial com a força de Shamballa, sendo que por esse meio e em nome da humanidade, Ele estabeleceu uma relação que, mesmo depois de dois mil anos, ainda não é mais que uma fina e frágil linha de energia conectora.

Porém, esta força da Vontade está disponível para ser usada corretamente, mas a faculdade de expressá-la depende de sua compreensão (até onde seja possível neste ponto médio da evolução humana) e sua aplicação grupal. É uma força unificadora, de síntese, que pode ser usada como força para reunir e uniformizar. Repito as duas palavras-chave para o emprego desta energia de Shamballa: Utilização grupal e Entendimento.

O homem teve muita dificuldade para compreender a significação do Amor. Se assim é, o problema em relação com a Vontade será, evidentemente, ainda mais difícil. Para a maioria dos homens, o amor verdadeiro ainda é apenas uma teoria. O amor (como geralmente o interpretamos) se expressa como benevolência, mas trata-se de benevolência para o lado forma da vida, para as personalidades que nos cercam; e se realiza geralmente no desejo de cumprir nossas obrigações e não obstruir de maneira alguma as atividades e os relacionamentos que tendem ao bem-estar dos nossos semelhantes. Expressa-se como o desejo de acabar com os maus-tratos e fomentar condições materiais mais favoráveis no mundo; revela-se no amor maternal, no amor entre amigos, mas raras vezes como amor entre grupos e nações. É o tema do ensinamento cristão, assim como a Vontade, em sua expressão divina, será o tema da futura religião. O amor é o impulso subjacente em grande parte do trabalho do bem realizado nos campos da filantropia e do bem-estar humano, mas, de fato, o amor verdadeiro nunca foi expresso - a não ser pelo Cristo.

Talvez perguntem por que, se assim é, eu enfatizo este aspecto mais elevado? Por que não esperar que saibamos mais sobre o Amor e como manifestá-lo em nosso ambiente? Porque, em sua verdadeira expressão, a Vontade é hoje necessária como força de propulsão e de expulsão, e como agente de depuração e purificação.

A energia de Shamballa, portanto, está relacionada com a própria vida da humanidade (por meio da consciência e da forma); não é necessário examinarmos sua relação com o resto do mundo manifestado; diz respeito ao estabelecimento de corretas relações humanas, e é esta condição de ser que oportunamente anula o poder da morte. Em consequência, é incentivo e não impulso; é um propósito conhecido e não a expressão de um desejo. O desejo atua da forma material e através dela, para o alto; a vontade atua para baixo, penetrando na forma, dobrando-a conscientemente ao propósito divino. Um é invocador, a outra é evocadora. O desejo, quando é convergente e vem da massa, pode invocar a vontade; a vontade, quando é evocada, põe fim ao desejo e se torna uma força imanente, propulsora, dinâmica, estabilizadora, depuradora e, finalmente, destruidora. Ela é muito mais do que isso, mas é tudo que o homem pode captar nesta época e tudo para que possui, por agora, o mecanismo de compreensão. É esta vontade que - despertada pela invocação - deve ser centrada na luz da alma, consagrada aos propósitos da luz e à determinação de estabelecer corretas relações humanas. Deve ser usada (no amor) para destruir tudo que entrava a livre afluência da vida humana e ocasiona a morte (espiritual e real) para a humanidade. Esta vontade deve ser invocada e evocada.

Há duas grandes desvantagens para a livre expressão da força de vontade em sua verdadeira natureza. Uma é a sensibilidade da natureza inferior ao seu impacto e sua consequente prostituição para fins egoístas, como no caso do povo alemão, sensível e negativo, e seu emprego pelas nações do Eixo para objetivos materiais. A segunda é o bloqueio, a obstrução, a confusa oposição de massa, das pessoas bem-intencionadas que falam do amor vaga e belamente, mas que se recusam a considerar as técnicas da Vontade de Deus em ação. Pessoalmente, não querem ter nada a ver com esta Vontade. Recusam-se a reconhecer que Deus cumpre Sua vontade por intermédio dos homens, assim como trata sempre de expressar Seu Amor por intermédio dos homens, tal como está sempre procurando expressar o seu Amor por meio dos homens. Os homens não querem crer na possibilidade de que tal vontade poderia se expressar por meio da destruição do mal, com todas as consequências materiais desse mal. Não podem crer que um Deus de Amor poderia empregar o primeiro aspecto divino para destruir as formas que bloqueiam a livre atuação do Espírito divino; esta Vontade não deve se imiscuir em sua interpretação do Amor. Essas pessoas são individualmente de pouca importância, ou nenhuma, mas sua negatividade massiva é realmente prejudicial para a conclusão desta guerra, assim como a negatividade em massa do povo alemão e sua incapacidade de tomar as medidas corretas, quando Hitler tornou público os seus propósitos, possibilitou a grande afluência do antigo e concentrado mal que levou o homem à catástrofe atual. Essas pessoas são como um peso pendurado no pescoço da humanidade, malogrando o verdadeiro esforço, sussurrando "Amemos a Deus e amemo-nos uns aos outros”, mas não fazendo nada além de murmurar preces e trivialidades enquanto a humanidade está morrendo.

Podemos facilmente nos dar conta de que a evocação da energia da Vontade e seus efeitos sobre os indivíduos materialistas e não preparados poderia levar ao desastre, e levaria. Esta evocação só faria centrar e reforçar a vontade do eu inferior, nome aplicado ao desejo consciente e determinado. Poderia então criar uma tal força impulsora, dirigida para fins egoístas, que a pessoa poderia se tornar um monstro de perversidade. Na história da raça, foi o que fizeram uma ou duas personalidades avançadas, com consequências desastrosas, tanto para elas como para os homens do seu tempo. Uma de tais figuras na antiguidade foi Nero, e o exemplo moderno é Hitler. Porém, o que se tornou este último tão perigoso como inimigo da família humana foi que ao longo dos últimos dois mil anos a humanidade chegou a uma etapa em que pode também responder a certos aspectos da força de primeiro raio. Hitler, portanto, encontrou associados e colaboradores que somaram sua receptividade à dele, de maneira que um grupo inteiro se tornou o agente responsivo à energia destruidora, exprimindo-se em seu aspecto mais baixo. Foi o que lhes permitiu trabalhar de maneira desapiedada, poderosa, egoísta, cruel e com êxito para a destruição de tudo que procurasse impedir seus projetos e desejos.

A única maneira de vencer esta vontade concentrada do mal que responde à força de Shamballa é opor uma vontade espiritual igualmente concentrada, manifestada por homens e mulheres de boa vontade responsivos e aptos ao treinamento de se tornarem sensíveis ao novo tipo de energia entrante, aprendendo a invocá-la e evocá-la.

Em consequência, terão observado que em minha mente havia algo mais que o emprego casual de uma palavra comum quando falei em termos de boa vontade e de vontade-para-o-bem. Durante todo o tempo não só pensava na benevolência e na boa intenção, mas também na vontade-para-o-bem centralizada, que pode e deve evocar a energia de Shamballa e empregá-la para deter as forças do mal.

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A SIGNIFICAÇÃO DO FESTIVAL DE WESAK

Maio de 1942

Chegamos agora ao momento mais importante do ano. Este ano, são dois momentos que se unem, reforçando-se mutuamente, a Lua Cheia de maio e a Lua Cheia de junho. Gostaria que mantivessem em mente que tempo e energia são termos intercambiáveis nos planos internos. O tempo é um evento, e um evento é uma expressão focalizada de força de certo tipo ou classe. Duas grandes correntes de energia - uma centrada no Buda e a outra centrada no Cristo - serão fusionadas e mescladas e a tarefa dos discípulos, dos iniciados e dos discípulos aceitos do mundo, é precipitar esta energia combinada sobre o mundo expectante, onde o uso eficaz dependerá amplamente da resposta sensível dos aspirantes. Os aspirantes se encontram em todos os países e sua tarefa é reagir à corrente de energia dirigida. São estes os pontos que gostaria que tivessem em conta, à medida que se esforçarem por trabalhar através do ashram e no ashram; nesse ashram se encontram todos os tipos de discípulos, com todos os tipos e graus de capacidade de resposta.

No Ocidente, os esoteristas estão cada vez mais enfatizando a Lua Cheia de Maio, que é o Festival do Buda e tem lugar no momento em que faz Seu contato anual com a humanidade. Esta ênfase, que continuará aumentando nos próximos anos, não tem por objetivo impor o reconhecimento do Buda no Ocidente. Houve duas razões principais pelas quais se fez este esforço, a partir de 1900. Uma foi o desejo, por parte da Hierarquia, de levar a atenção do público para o fato dos dois Avatares, o Buda e o Cristo, todos os dois do segundo Raio de Amor-Sabedoria, os quais foram os primeiros da nossa humanidade a surgir como Avatares humano-divinos e a encarnar em Si Mesmos certos Princípios cósmicos, dando forma a eles. O Buda encarnou o Princípio da Luz e, devido a esta iluminação, a humanidade foi capaz de reconhecer o Cristo, que encarnou o ainda maior, o Princípio do Amor. O ponto a ter em conta é que luz é substância, e o Buda foi o exemplo da consumação de substância-matéria como meio de Luz, daí Seu título de "O Iluminado”. O Cristo encarnou a energia subjacente da Consciência. Um demonstrou o ápice da realização do terceiro aspecto divino; o outro a do segundo aspecto e, juntos, apresentam um Todo perfeito. A segunda razão, como já disse, era assentar as bases do tema da nova expressão religiosa. Este tema, no futuro, será subjacente a todas as observâncias religiosas, matizará todas as abordagens ao centro divino de vida espiritual, dará a chave para todos os processos de cura e - pelo emprego científico da luz - governará todas as técnicas para produzir unidade consciente e relação entre um homem e sua alma, e entre a humanidade e a Hierarquia.

O primeiro objetivo foi claramente alcançado. Hoje, na Lua Cheia de maio, vários milhões em todas as partes estarão dirigindo seus pensamentos para o Buda, procurando estar sob Sua influência e benção e a da Hierarquia em Seu retorno anual, embora breve, para abençoar a humanidade. Este reconhecimento crescerá até o momento não muito distante no futuro em que terá finalizado Seu período de serviço e não mais retornará, porque o Avatar que vem tomará Seu lugar nas mentes e nos pensamentos dos povos do mundo. A Sua tarefa de recordar continuamente aos aspirantes a possibilidade da iluminação e Seu trabalho de manter um canal aberto, perfurando todos os anos a substância luz para a Terra para que a luz se irradie sobre as mentes dos homens, está quase concluído; está quase chegando a hora em que "nessa luz veremos a Luz”.

Pediria a vocês que refletissem sobre estas duas funções que o Buda desempenhou. Há uma terceira que, em colaboração com o Cristo, Ele possibilitou: trata-se do estabelecimento de uma relação mais facilmente alcançada entre a Hierarquia e Shamballa, facilitando assim a impressão da Vontade de Deus nas mentes dos homens, por meio da Hierarquia. Interpretamos esta impressão até agora em termos do Plano divino, que no momento atual está se expressando no agudo reconhecimento dos homens de todas as partes sobre a necessidade de estabelecer corretas relações humanas, culminando nos objetivos pelos quais as Nações Unidas estão combatendo. Estes objetivos foram verbalizados para a humanidade por dois grandes discípulos mundiais em termos de As Quatro Liberdades e A Carta do Atlântico. As Quatro Liberdades se relacionam basicamente com os quatro aspectos do eu inferior, o quaternário. Os esforços do Buda permitiram que penetrasse luz suficiente para levar a necessidade dessas fórmulas ao reconhecimento mundial; e já há amor suficiente no mundo, liberado pelo Cristo, para possibilitar a viabilização das fórmulas. Respaldem-se nessa certeza e - em plena prática no plano físico - demonstrem a verdade disso. Disse "possibilitar”, pois a elaboração está nas mãos do Novo Grupo de Servidores do Mundo e nos homens e mulheres de boa vontade. Será que se mostrarão adequados para a tarefa? Será que se prepararão mentalmente para o árduo esforço necessário?

Qual é agora a tarefa que o Buda atribuiu a Si mesmo nesta próxima Lua Cheia? No que diz respeito à compreensão de vocês, é evocar na humanidade o espírito de demanda, enquanto mantém aberto o canal pelo qual essa demanda possa chegar diretamente a Shamballa. É este o ponto a ter em mente, à medida que se preparam para o Festival de Wesak e procuram participar da bênção da Lua Cheia - bênção para o mundo e não para vocês mesmos. O Buda vem este ano corporificando a força que pode estimular os homens do mundo inteiro e lhes permitir centrar sua "intenção em massa” e deste modo alcançar simbolicamente "o ouvido e o coração” do Avatar, arrancando assim do lugar secreto do Altíssimo a assistência, a ajuda e o reconhecimento dirigido que impulsionarão um acontecimento fenomenal no seu devido e apropriado tempo. Enquanto Ele procura fazer isto, o Cristo Se unirá ao esforço, enfocando em Si Mesmo o espírito de apelo, à medida que é evocado pelo estímulo que está sendo aplicado pelo Buda. Ele corporificará esse apelo em uma grande Invocação, uma que não pode ser dada a vocês, mas que Ele está preparado para usar se o apelo surgir com força suficiente por parte dos povos do mundo. Os homens responderão à evocação do Buda? Sua intenção em massa será suficientemente vital para permitir ao Cristo transformar-Se, de uma maneira misteriosa, no próprio Espírito de Invocação em nome deles? São essas as possibilidades que temos diante de nós nesta Lua Cheia de Maio.

Pediria a vocês que as tivessem em mente de agora até a Lua Cheia de Wesak e em seguida até a Lua Cheia de Junho. É nessa Lua Cheia que o Cristo pode usar e usará esta Invocação, desde que a vontade dos homens o permita. Naquele momento Ele procurará chegar aos Senhores da Liberação e evocará Sua resposta à enfocada vontade das pessoas de mente espiritual do mundo, os aspirantes, discípulos e iniciados; Eles, se evocados, podem dar o impulso que permitirá ao Cristo (como o Cavaleiro do Lugar Secreto) surgir em resposta à "intenção em massa” do público.

Veem vocês, assim, as iminentes e vitais possibilidades? Reconhecem a urgência da oportunidade? As duas Luas Cheias formam um ciclo completo de trabalho, que deve ser preparado em linha com estas declarações que faço, tanto agora como nos próximos anos. À medida que vocês preparam seus próprios corações, lembrem-se de que a Lua Cheia de maio é o momento no qual o Novo Grupo de Servidores do Mundo e todos os esoteristas e pessoas espiritualmente orientadas do mundo devem trabalhar em plena cooperação com o Buda, e que a Lua Cheia de junho é a oportunidade para que os homens e mulheres de boa vontade - ajudados pelo Novo Grupo de Servidores do Mundo - estimulem as pessoas de todas partes para que façam um grande apelo e, por este apelo, habilitem o Cristo a invocar para elas a ajuda necessária.

Eu teria um pedido. Não estabeleçam datas para o aparecimento do Ser Esperado, Aquele que Vem, o Avatar, ou para qualquer ajuda espetacular. Se o trabalho for realizado corretamente, Ele virá no momento estabelecido e assinalado, e a ajuda necessária aparecerá. Os modos e métodos não dizem respeito a vocês. Considerem as antigas profecias como intrinsecamente verdadeiras e corretas, mas reconheçam que sua fraseologia é simbólica e não deve ser tomada de maneira literal. Só a Hierarquia pode saber como os Senhores de Liberação trabalharão. A ajuda que prestarão estará enfocada em evocar na Hierarquia as atitudes e capacidades que possibilitarão a afluência de energia de Shamballa. O trabalho é com a Hierarquia, e a reação da humanidade à Sua atividade só virá por parte do Novo Grupo de Servidores do Mundo, e assim mesmo só será registrada conscientemente pelos discípulos seniores e pelos iniciados.

O trabalho do Avatar, o Cavaleiro do Lugar Secreto, será principalmente com a humanidade e visará a sua libertação e salvação.

A primeira metade deste trabalho, enfocado através do Buda, começará em maio de 1942. A segunda metade será iniciada pelo Cristo em junho de 1942, mas só se a invocação do Novo Grupo de Servidores do Mundo e a intenção em massa dos homens e mulheres de boa vontade forem adequadamente fortes e estiverem adequadamente enfocadas. Em consequência, será um processo recíproco de invocação e evocação, facilitado pela extrema disposição de atuar e de responder d’Aqueles que são invocados pela humanidade, mas limitados pela falta de sensibilidade e pela debilidade da vontade daqueles que buscam ajuda. Esta inadequação é a que o Buda espera remover quando Ele vier ao Seu povo em maio. O fortalecimento e enfoque da vontade é o que o Cristo procura promover com um esforço especial em junho.

Estas duas Luas Cheias são, portanto, de suprema importância e deveriam exercer um efeito definido subconscientemente sobre as mentes dos servidores do Novo Grupo do Mundo e sobre os corações dos homens e mulheres de boa vontade de todas as terras, nações e grupos. Que as suas reuniões, suas meditações e seu pensamento individual estejam constantemente enfocados sobre estes pontos e que se esforcem por abordar os exercícios de Lua Cheia - tanto de maio como de junho - com a mais clara compreensão possível sobre o que está acontecendo e uma nítida imagem dos resultados possíveis de uma ação correta. As duas Luas Cheias deveriam ser tempos de serviço eficaz. O Buda não precisa ser invocado. Ele virá. Mas o espírito de invocação necessita ser evocado das massas e é neste trabalho que os aspirantes de todas as partes podem ajudar o Buda, permanecendo deste modo com Ele e com a Hierarquia. No momento da Lua Cheia de junho, e em preparação para esta oportunidade durante todo o mês de maio, o ponto de enfoque, para todos os servidores, deve ser o Cristo, e todo esforço deve ser dirigido a ajudar Seu trabalho como Representante dos homens. Ele se empenhará em reunir em Si Mesmo tudo o que tiverem de apelo, oração e demanda - verbalizada ou não - transmitindo-os em um ato de intenção espiritual a Shamballa.

Uma mobilização das Forças da Luz está ocorrendo no aspecto interno da vida. Essas Forças estão preparadas, mas a palavra que as colocará em ação deve provir do Cristo, e Ele dará essa palavra quando as pessoas a derem a Ele. Somos nós que forjamos o nosso destino. Nem o Cristo nem a Hierarquia podem, nesta etapa na evolução humana, tomar medidas que afetem vitalmente a humanidade, a menos que a própria humanidade os libere para esta atividade.

O período de 15 de abril a 15 de junho é de semanas críticas, espiritual e materialmente, e este é um dos fatos importantes que quero levar à sua atenção neste momento. Não posso detalhar para vocês o que deveriam fazer ou qual deveria ser a sua linha de esforço. Posso lhes dar uma ideia geral da Aproximação da Hierarquia e da natureza do problema humano. O resto fica em suas mãos.

Mesmo que o trabalho realizado seja totalmente bem-sucedido, o momento do Aparecimento e da intervenção divina das Forças da Luz, por intermédio de Seus Agentes, os Senhores da Liberação e o Cristo, depende de muitos fatores além da invocação correta. Vocês pouco ou nada podem saber desses fatores. A questão do momento oportuno é de profundo significado esotérico e está basicamente envolvida aqui. Os próximos três anos são anos de realização e para esse período pede-se aos aspirantes do mundo que permaneçam firmes em expectativa paciente, mas confiante. A tarefa a realizar pela Hierarquia envolve não só o plano físico, como também os planos internos de causas e impulsos, de pensamento e desejo. Todos os discípulos sabem disso, mas tendem a se esquecer. A situação crítica no plano externo é só um reflexo de condições internas ainda mais críticas, e vocês podem prestar uma ajuda bem-vinda se evocarem a própria vontade e controlarem as suas emoções, disciplinando a personalidade. Desta maneira serão capazes de oferecer um diminuto ponto focal através do qual as Forças espirituais possam trabalhar. Pela mediação dos muitos pontos diminutos de luz e vontade, muita potência pode ser transmitida.

É a vontade-para-a-vitória que se pede neste momento; é a vontade-para-invocar que é necessária; é a vontade-para-enfocar, e através dela ajudar no grande ato de invocação para o qual o Cristo está se preparando neste momento; é a vontade-para-o-bem, para o autocontrole e para a evocação da ação correta que a Hierarquia está pedindo hoje. Se a humanidade fizer a sua parte, encontrará a Hierarquia mais do que pronta para responder e fazer a Sua cota para liberar o mundo das Forças do Mal.

Vocês refletirão sobre isto e cooperarão de toda maneira possível? Os planos podem ser expostos, a visão pode ser percebida, mas a menos que cada um reconheça a sua contribuição essencial e sua utilidade real, nada se pode fazer. Não há limitações quando se empreende um trabalho verdadeiramente esotérico. Para este fim, procuro enfatizar a renovada dedicação à meditação e um constante e perseverante uso da Invocação, especialmente daquela que começa invocando os Senhores da Liberação.

"Este trabalho”, disse o Cristo, "só pode avançar pela oração e pelo jejum”. Convoco-os à oração e à meditação, pois ambas são necessárias hoje, fusionando, como fazem, os corpos emocional e mental em um todo que aspira. Convoco-os à disciplina, pois é esse o significado do jejum, e ao constante esforço de viver no ponto mais elevado possível todo o tempo; o que com tanta frequência é um sonho, mas com pouca frequência é um fato. Hoje, na hora de necessidade mundial, a humanidade e a Hierarquia necessitam de aspirantes e discípulos que estejam dispostos a fazer ao menos um esforço coerente e persistente.

Meus irmãos, descrevi a situação; mantive ante vocês durante anos a visão da oportunidade, do serviço e do discipulado. Delineei para vocês o mecanismo de serviço que já existe e que pode ser posto em atividade e utilidade no mundo. Deixo a questão em suas mãos, pedindo a vocês que lembrem de que a união do grande número em interesse, amor, serviço e dinheiro é muito mais potente que o esforço consagrado de duas ou três pessoas. Ninguém é ineficaz ou inútil, a menos que opte por isso.

E, neste ínterim, em paralelo ao trabalho subjetivo de vocês e à exteriorização do esforço interno de vocês, devem prosseguir no trabalho que realizam por seu país e por seus semelhantes na hora da necessidade da humanidade. Deve haver constância, altruísmo e silêncio, além de coragem e confiança - confiança na força das suas próprias almas, confiança na Hierarquia que está atenta e confiança no Plano. Ainda não chegou o fim das tribulações, mas ele está à vista. Deixo-os com este pensamento. Que a bênção dos Mestres permaneça com vocês como grupo e como indivíduos, e que os Santos Seres, dos quais procuram se tornar discípulos, mostrem a vocês a Luz que estão buscando, que lhes concedam a poderosa ajuda de Sua compaixão e sabedoria, até que vocês estejam onde o Iniciador Uno é invocado, até que vejam fulgurar a Sua estrela.

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A CAUSA DA CATÁSTROFE MUNDIAL

Junho de 1942

Passamos agora ao exame da grave situação atual e da catástrofe mundial que está enraizada na miragem mundial e estudaremos a possibilidade de socorro e cura. Esta possibilidade existe, e está centrada nos dois grandes Avatares: o Buda e o Cristo.

É difícil escrever com clareza sobre o tema da miragem mundial, porque estamos em meio à sua expressão mais concentrada - a pior que o mundo já viu porque a miragem, incidente em séculos de ganância e egoísmo, de agressão e materialismo, esteve enfocado em uma triplicidade de nações. Portanto, é muito fácil vê-lo e ele está em manifestação de maneira muito eficaz. Três nações expressam os três aspectos da miragem mundial (ilusão, miragem e maya) de maneira assombrosa, e seu poderoso atentado sobre a consciência da humanidade depende não só da receptividade de Alemanha, Japão e Itália a este antigo miasma, como também ao fato de que toda nação - tanto as Nações Aliadas como as Nações Totalitárias - estão contaminadas por esta condição universal. A liberdade do mundo depende, em consequência e em grande medida, das pessoas de toda nação que (dentro de si mesmas) saíram de uma ou outra destas "ilusões da miragem e impressões do maya” da alma humana, passando para um estado de percepção consciente em que podem ver o conflito em seus termos mais amplos, isto é, como existindo para eles entre o Morador no Umbral e o Anjo da PRESENÇA.

Estas pessoas são os aspirantes, discípulos e iniciados do mundo. Elas se dão conta do dualismo, o dualismo essencial, deste conflito, e não são tão eminentemente conscientes da natureza tríplice e da condição diferenciada da situação que subjaz no dualismo que compreenderam. A maneira como abordam o problema é, portanto, mais simples e, devido a isto, a direção do mundo, neste momento, recai em grande parte em suas mãos.

Foi neste ponto que a religião, como um todo, se equivocou. Refiro-me à religião ortodoxa. Esteve preocupada com o Morador no Umbral e os olhos dos teólogos se mantiveram no aspecto material, fenomênico da vida, por meio do medo e do imediatismo, e pelo fato de que o Anjo tem sido uma teoria e uma quimera. O equilíbrio está sendo ajustado pelas atitudes humanitárias que, em grande medida, estão assumindo o controle, qualquer que seja a tendência teológica. Estas atitudes se apoiam na crença da inata retidão do espírito humano, da divindade do homem e da natureza indestrutível da alma humana. Isto leva inevitavelmente ao conceito da PRESENÇA, do Deus Imanente, e é resultado da necessária revolta contra a crença no Deus Transcendente. Esta revolução espiritual foi inteiramente um processo de equilíbrio e não deve gerar preocupação, pois Deus Transcendente existe eternamente, embora só possa ser visto, conhecido e corretamente abordado por Deus Imanente - imanente no homem individual, nos grupos e nações, nas formas organizadas e na religião, na humanidade como um todo e na própria Vida planetária. A humanidade hoje está (como esteve há eras) combatendo a ilusão, a miragem e maya. Os pensadores avançados, aqueles que estão no Caminho de Provação, no Caminho do Discipulado e no Caminho da Iniciação, chegaram a uma etapa em que o materialismo e a espiritualidade, o Morador no Umbral, o Anjo da presença e o dualismo básico da manifestação podem ser visto com clareza e precisão. Devido a esta clareza de demarcação, as questões subjacentes aos acontecimentos mundiais atuais, os objetivos da presente luta mundial, os modos e métodos para restabelecer o contato espiritual tão prevalecente nos dias atlantes e há tanto tempo perdidos, e o reconhecimento das técnicas que podem introduzir a nova era mundial e sua ordem cultural, podem ser claramente observados e apreciados.

Toda generalização é passível de erro. No entanto, é possível dizer que a Alemanha enfocou em si a miragem mundial - a expressão mais potente dos três aspectos da miragem. O Japão manifesta a força de maya - a forma mais grosseira da força material. A Itália, polarizada de maneira individualista e mental, é a expressão da ilusão mundial. As Nações Aliadas, com todas as suas falhas, limitações, debilidades e nacionalismos, estão enfocando o conflito entre o Morador e o Anjo; deste modo, aparecem simultaneamente as três formas da miragem e a forma final do conflito entre o ideal espiritual e seu oponente material. As Nações Aliadas, porém, estão gradual e decididamente pondo todo seu esforço e aspiração em favor do Anjo, restaurando assim o equilíbrio perdido e lentamente estabelecendo, em escala planetária, os atributos e as condições que, oportunamente, dispersarão a ilusão, dissiparão a miragem e desvitalizarão o maya predominante. Assim estão fazendo pelo aumento do pensamento claro do grande público de todas as nações, unidas para vencer as três potências do Eixo, por sua crescente capacidade de conceber ideias em termos do todo, em termos de uma ordem ou federação mundial desejável, e por sua capacidade de discriminar entre as Forças da Luz e as potências do mal ou materialismo.

O trabalho que estão realizando aqueles que veem o cenário mundial como a arena onde se desenvolve o conflito entre o Morador do Umbral e o Anjo da presença poderia ser pautado como:

1. A produção das condições mundiais nas quais as Forças da Luz podem vencer as Forças do Mal. Isto fazem pela supremacia de suas forças armadas, mais a sua clara visão.

2. A educação da humanidade na distinção entre:

a. Espiritualidade e materialismo, assinalando as diferentes metas das forças combatentes.

b. Partilha e ganância, delineando um mundo futuro no qual prevalecerão as Quatro Liberdades e todos terão o necessário para atender corretamente aos processos da vida.

c. Luz e escuridão, demonstrando a diferença entre um futuro iluminado, de liberdade e oportunidade e um sombrio futuro de escravidão.

d. Fraternidade e separação, indicando uma conjuntura mundial na qual ódios raciais, distinções de casta e diferenças religiosas não formarão nenhuma barreira para o entendimento internacional, e a conjuntura do Eixo de raças dominantes, atitudes religiosas determinadas e povos escravizados.

e. O todo e a parte, assinalando que se aproxima o momento (sob o impulso da evolução do espírito), em que a parte ou o ponto de vida assume sua responsabilidade pelo todo, e o todo existe para o bem da parte. O aspecto escuridão foi produzido por séculos de miragem. A luz está sendo enfatizada e esclarecida pelos aspirantes e discípulos mundiais que, por suas atitudes, ações, escritos e declarações, estão levando a luz aos lugares escuros.

3. Preparando o caminho para as três energias espirituais que impulsionarão a humanidade para uma era de compreensão, levando ao esclarecimento mental enfocado das mentes dos homens em todo o mundo. Estas três energias iminentes são:

a. A energia da intuição, que gradualmente dispersará a ilusão mundial e produzirá automaticamente um grande aumento dos postos de iniciados.

b. A atividade da luz que dissipará, pela energia da iluminação, a miragem mundial e levará muitos milhares ao Caminho do Discipulado.

c. A energia de inspiração que, por sua potência impulsionadora, produzirá a desvitalização ou remoção, como uma rajada de vento, do poder atrativo de maya ou substância. Isto liberará incontáveis milhares ao Caminho de Provação.

4. Liberando nova vida no planeta por todo meio agenciador possível. O primeiro passo para esta liberação é a comprovação de que o poder do materialismo se rompeu pela completa derrota das Potências do Eixo e, em segundo lugar, pela habilidade das Nações Aliadas de demonstrar (quando isto tiver sido feito) a potência dos valores espirituais por suas tarefas construtivas visando restaurar a estrutura do mundo e assentar as bases que garantirão um modo de vida melhor e mais espiritual. Estas atitudes e tarefas construtivas devem ser assumidas individualmente por toda pessoa e pelas nações como unidades coletivas. A primeira está sendo empreendida neste momento. A segunda ainda resta por fazer.

5. Esclarecendo as nações do mundo sobre as verdades ensinadas pelo Buda, o Senhor da Luz, e pelo Cristo, o Senhor do Amor. Assinale-se, a este respeito, que basicamente:

a. As Nações do Eixo têm que captar o ensinamento do Buda conforme Ele enunciou nas Quatro Nobres Verdades; precisam compreender que a causa de todo sofrimento e dor é o desejo - o desejo pelo material.

b. As Nações Aliadas têm que aprender a aplicar a Lei do Amor como foi enunciada na vida de Cristo e a expressar a verdade de que "nenhum homem vive para si mesmo” como também nenhuma nação, e que a meta de todo esforço humano é compreensão amorosa, fomentada por um programa de amor pelo todo.

Se as vidas e os ensinamentos destes dois grandes Avatares puderem ser compreendidos e forjados novamente na vida dos homens, no mundo dos assuntos humanos, no âmbito do pensamento humano e na arena da vida diária, a presente disposição organizada do mundo (que na atualidade é, em grande medida, indisposição) pode ser de tal maneira modificada e alterada que um novo mundo e uma nova raça de homens gradualmente possam surgir. A renúncia e o uso da vontade sacrificial deveriam ser a nota-chave no período intermediário do pós-guerra, prévio à inauguração da Nova Era.

Os estudantes devem se lembrar que todas as manifestações e todo ponto de crise estão simbolizados no antigo símbolo de um ponto dentro do círculo, o foco de poder dentro de uma esfera de influência ou aura. O mesmo ocorre hoje com todo o problema de pôr um fim na miragem e na ilusão mundiais que fundamentalmente se encontram por trás da atual grave situação e catástrofe mundial. A possibilidade de tal dispersão e dissipação está definidamente centrada nos dois Avatares, o Buda e o Cristo.

No mundo da miragem - o mundo do plano astral e das emoções - apareceu um ponto de luz. O Senhor da Luz, o Buda, se encarregou de enfocar em Si Mesmo a iluminação que, oportunamente, possibilitaria a dissipação da miragem. No mundo da ilusão - o mundo do plano mental - apareceu o Cristo, o próprio Senhor do Amor, que personificou em Si o poder da vontade atrativa de Deus. Assumiu o encargo de dispersar a ilusão, atraindo para Si (pela potência do amor) os corações de todos os homens, afirmando esta determinação nas palavras: "Eu, se for elevado da Terra, atrairei todos a Mim” (João 12:32). No ponto que eles terão alcançado então, o mundo de percepção espiritual, de verdade e de ideias divinas ficará revelado. O resultado será o desaparecimento da ilusão.

O trabalho combinado destes dois grandes Filhos de Deus, concentrado por meio dos discípulos mundiais e de Seus iniciados, deve inevitavelmente romper a ilusão e dispersar a miragem - um pelo reconhecimento intuitivo da realidade pelas mentes sintonizadas com ela, e o outro pela afluência da luz da razão. O Buda fez o primeiro esforço planetário para dissipar a miragem mundial, o Cristo fez o primeiro esforço planetário para dispersar a ilusão. Seu trabalho agora deve ser implementado de maneira inteligente pela humanidade, já bastante cônscia para reconhecer seu dharma. Os homens estão rapidamente saindo da ilusão e, em consequência, verão com mais clareza. A miragem mundial está sendo firmemente removida dos caminhos dos homens. Estes dois desenvolvimentos foram produzidos pela entrada de novas ideias, enfocadas por meio dos intuitivos do mundo e lançadas ao grande público pelos pensadores do mundo. Também foram muito ajudados pelo reconhecimento, quase inconsciente, mas não menos real, do verdadeiro significado das Quatro Nobres Verdades por parte das massas. Despojada da ilusão e da miragem, a humanidade espera a próxima revelação. Esta revelação será ensejada pelos esforços combinados do Buda e do Cristo. Tudo que podemos prever ou vaticinar com relação a essa revelação é que certos resultados, potentes e de longo alcance, serão alcançados pela fusão de luz e de amor e pela reação da "substância iluminada ao poder atrativo do amor”. Nesta frase dei, àqueles que podem compreender, um profundo e útil indício sobre o método e o propósito da tarefa que foi organizada para a Lua Cheia de junho de 1942. Dei também uma chave para o verdadeiro entendimento do trabalho destes Avatares - algo que até agora não foi reconhecido. Acrescente-se que quando houver uma apreciação do significado das palavras "transfiguração de um ser humano”, virá o entendimento de que quando "o corpo está cheio de luz”, "naquela luz veremos luz”. Vale dizer que quando a personalidade tiver alcançado um ponto de purificação, de dedicação e de iluminação, o poder atrativo da alma (cuja natureza é amor e entendimento) poderá atuar, e ocorrerá a fusão das duas. Foi isso que o Cristo provou e demonstrou.

Quando o trabalho do Buda (ou o princípio búdico encarnado) for consumado no discípulo que aspira e em sua personalidade integrada, a plena expressão do trabalho do Cristo (o princípio de amor encarnado) também poderá ser consumado, e estas duas potências - luz e amor - encontrarão uma expressão irradiante no discípulo transfigurado. O que é válido para o indivíduo também é válido para a humanidade como um todo e a humanidade hoje (tendo alcançado a maturidade) pode "entrar na realização” e participar conscientemente do trabalho de iluminação e de atividade amorosa e espiritual. Os efeitos práticos deste processo serão a dissipação da miragem e a liberação do espírito humano da escravidão da matéria; produzirá também a dispersão da ilusão e o reconhecimento da verdade tal como existe na consciência daqueles que estão polarizados na "consciência do Cristo”.

Necessariamente, não se trata de um processo rápido, mas de um procedimento ordenado e regulado, seguro em seu êxito final, mas relativamente lento também no estabelecimento e processo sequencial. Este processo foi iniciado no plano astral pelo Buda e no plano mental quando o Cristo se manifestou na Terra. Indicou a proximidade da maturidade da humanidade. O processo foi lentamente tomando impulso, à medida que estes dois grandes Seres reuniam em torno de Si os discípulos e iniciados ao longo dos últimos dois mil anos. Alcançou um ponto de grande utilidade na medida em que o canal de comunicação entre Shamballa e a Hierarquia se abriu e ampliou e o contato entre estes dois grandes centros e a Humanidade se estabeleceu mais firmemente.

Na Lua Cheia de junho de 1942, foi feito o primeiro teste da abertura da comunicação direta entre o Centro onde rege a Vontade de Deus, o Centro onde governa o Amor de Deus e o Centro onde há espera inteligente. O meio do teste foi o esforço unido do Cristo, do Buda e daqueles que responderam à Sua influência. Este teste teve que ser realizado em meio ao terrível ataque dos poderes do mal e se estendeu por duas semanas, começando no dia da Lua Cheia (30 de maio de 1942) e terminando em 15 de junho de 1942. Houve uma grande concentração das Forças Espirituais naquela oportunidade, e o uso de uma Invocação especial (a qual a humanidade não pode usar), mas o êxito ou o fracasso do teste foi, em última análise, determinado pela própria humanidade.

Talvez pensem, embora erradamente, que não há pessoas em número suficiente que conheçam ou compreendam a natureza da oportunidade ou do que está se tornando público. Porém, o êxito desse teste não depende do conhecimento esotérico dos poucos, dos relativamente poucos, aos quais foram transmitidos em parte os fatos e as informações. Depende também da tendência dos muitos que inconscientemente aspiram pelas realidades espirituais, buscam um modo de vida novo e melhor para todos, desejam o bem do todo, e cujo veemente anseio e desejo repousam em uma verdadeira experiência de bem, de corretas relações humanas e de iniciativa espiritual entre os homens. Encontram-se em todas as nações.

Quando a vontade de Deus, expressa em Shamballa e enfocada no Buda, quando o Amor de Deus, expresso na Hierarquia e enfocado através do Cristo, e quando o desejo inteligente da humanidade, enfocado através dos discípulos e aspirantes do mundo e dos homens de boa vontade estiverem alinhados - seja consciente ou inconscientemente - uma grande reorientação poderá ocorrer e ocorrerá. Trata-se de um evento que pode acontecer.

O primeiro resultado será a iluminação do plano astral e o começo do processo que dissipará a miragem; o segundo resultado será a irradiação do plano mental, a dispersão de todas as ilusões passadas e a gradual revelação das novas verdades das quais todos os ideais passados e as chamadas formulações da verdade foram apenas uma sinalização. Reflitam sobre esta declaração. Uma sinalização indica o caminho a seguir; não revela a meta. É indicativo, mas não conclusivo. E assim é com toda verdade até o momento atual.

A necessidade é, pois, de conhecedores e daqueles de mente e coração abertos, livres de ideias preconcebidas e fanaticamente sustentadas, e de antigos idealismos, que só devem ser reconhecidos como indicações parciais de grandes verdades incompreendidas - verdades que podem ser compreendidas em grande medida e pela primeira vez, se as lições da presente situação mundial e da catástrofe da guerra forem devidamente aprendidas e se a vontade sacrificial for posta em ação.

Fiz esta aplicação prática e ilustração direta do ensinamento referente à miragem, ilusão e maya porque todo o problema do mundo atingiu hoje um ponto de crise e porque a devida elucidação será o tema relevante de todo progresso - educacional, religioso e econômico - até 2025.

Hoje, enquanto a humanidade espera a revelação que encarnará os pensamentos, sonhos e a meta construtiva da nova era, pela primeira vez surge a demanda de um grande grupo de pessoas de inclinação intuitiva. Não disse intuitivas, meus irmãos. Agora este grupo é tão grande, seu enfoque tão real e sua demanda tão elevada, que procura enfocar a intenção unida dos povos. Portanto, toda revelação que possa emergir no futuro imediato, ela estará mais bem "protegida pelo espírito de compreensão” que qualquer outra. Este é o significado das palavras do Novo Testamento: "todo olho o verá”; a humanidade como um todo reconhecerá o Ser Revelador. Em eras anteriores, o Mensageiro do Alto só era reconhecido por um mero punhado de homens e levou décadas, e às vezes séculos, para que Sua mensagem penetrasse nos corações da humanidade.

A tensão dos tempos e também o desenvolvimento do sentido de proporção, mais um forçoso retorno à simplicidade de vida e de exigências, podem salvar a futura revelação de submergir rápida e aceleradamente no fogo da Grande Ilusão.

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O INTERVALO ENTRE A GUERRA E A PAZ

Agosto de 1942

Há uma insistente demanda por parte das inúmeras pessoas que leram os folhetos e artigos que escrevi, para que diga algo sobre o futuro período de reabilitação e o que pode ser feito (enquanto a guerra continua) para se preparar para ser útil no futuro. Quando a guerra estourou, publiquei um artigo intitulado A Crise Mundial Atual, no qual procurei remontar às origens do conflito e levantar os fatores que possibilitaram esta catástrofe. Mais tarde apareceu outro artigo que discorria sobre a futura governança do mundo, que procurava apresentar ao mundo sofredor a visão de um futuro material e espiritual há muito tempo reclamado pelos corações dos homens. Assim foi feita uma tentativa de tratar do passado e do futuro.

Naquele momento, nada mais se podia fazer, dada a desunião entre as nações que hoje formam as Nações Aliadas. Não havia compreensão, mas sim uma perspectiva egoísta entre as nações, que então eram neutras. Acima de tudo, havia o fato de que os assuntos envolvidos deviam ser resolvidos pela própria humanidade e, naquela hora, não era possível predizer com exatidão o que a humanidade faria. Nem mesmo os homens mais iluminados e os guias espirituais da raça podiam julgar a linha de ação que os homens tomariam, ou se haveria no mundo pessoas em número suficiente com clara visão para poder e querer impelir as massas dos homens a uma oposição eficaz contra as potências do Eixo. A pergunta era: Predominariam o medo do mundo e o egoísmo universal, ou o espírito de liberdade e o amor à liberdade seriam suficientemente fortes para conciliar as nações livres em um todo unido e decidido?

Hoje a questão está clara, e o fim inevitável. As nações livres e as pequenas nações derrotadas e escravizadas estão, subjetiva e praticamente, unificadas em uma intensa determinação espiritual de vencer a guerra. O destino das Nações do Eixo, portanto, está inalteravelmente decidido, mesmo que, no momento em que escrevo, elas pareçam vitoriosas em toda linha. O que ainda está incerto é quando se produzirá a vitória final do direito contra a força, devido à enorme força preparada pelas nações agressoras e à falta de preparação das democracias. Esta falta de preparação está sendo rapidamente remediada.

Este artigo pretende indicar os problemas e talvez algumas das soluções que devem inevitavelmente preencher o intervalo entre o fim da guerra e a futura estrutura organizacional do mundo. Será necessário tratar deste tema de forma ampla e geral, porque é vasto demais para especificá-lo inteligentemente. Podemos, porém, considerar o trabalho imediato a realizar em preparação para a cessação da guerra, e indicar as primeiras medidas que podem e devem ser tomadas para instaurar sólidos métodos de reconstrução. O período de reabilitação e de reconstrução deveria ser hoje a profunda preocupação de todos que amam seus semelhantes.

Alguns considerarão que é prematuro ponderar sobre o futuro período de reconstrução. Pensam (e com razão) que nossa primeira preocupação imediata é vencer a guerra, e estou plenamente de acordo com isso. A vontade-de-vencer é o primeiro fator fundamental, porque não haverá nenhuma verdadeira atividade de reconstrução se as Nações do Eixo triunfarem. Porém, há agora muitas pessoas cuja tarefa não é lutar, e cujo lugar e função se encontram forçosamente nos aspectos civis da vida das nações. Elas podem pensar, falar e trabalhar em preparação para o futuro. Outras creem que só o especialista, treinado nos campos da readaptação econômica e política pode abordar este difícil problema com a esperança de dar uma contribuição valiosa. Outros pensarão que a paz é tudo que importa, e que deverá seguir- se um longo período de tranquilidade mental em todos os países. Consideram que as pessoas de todas as partes estão demasiado exaustas, e se sentem incapacitadas para empreender qualquer trabalho de reconstrução. Outros são tão pessimistas que não concebem a possibilidade de restaurar o mundo, e esperam, na maior tristeza, o desmoronamento de todos os modos de vida civilizados. Há uma certa verdade em cada um destes pontos de vista. O trabalho dos peritos será muito necessário, mas o interesse compreensivo e o poder sustentador daqueles cujos corações ardem de amor podem viabilizar este trabalho. Não teremos necessidade apenas das atividades institucionalizadas das empresas financeiras dos trabalhadores nos campos econômico e social e dos agentes dos governos, mas, acima de tudo, a solução deve vir do florescimento da boa vontade nos corações dos homens. É o que proporcionará o incentivo correto e compassivo. Certamente seria possível reabilitar o mundo para fins puramente comerciais e egoístas, porque o intercâmbio comercial, a capacidade de comprar e vender, e o restabelecimento da estabilidade financeira são fatores importantes na restauração mundial. Entretanto não são estes os motivos fundamentais que restabelecerão para a humanidade uma vida de confiança e de autorrespeito. Estes fatores proporcionarão o poder motivador para muitos homens e grupos, mas não a motivação capaz de produzir a verdadeira restauração da trama da vida humana.

O trabalho de reconstrução caberá aos homens e mulheres inteligentes e de boa vontade, e implicará na tarefa de estabelecer para a humanidade uma nova vida e felicidade. É para eles que escrevo, e peço que tenham isto em mente. Não escrevo para os peritos, técnicos e conselheiros competentes do governo, mas para aqueles que abrigam em seus corações boa vontade para todos os homens e que, devido a isso, desejam cumprir sua parte, trazendo tranquilidade e paz ao mundo - uma paz fundada em valores mais seguros que no passado, e com base em um planejamento mais sólido. Em última análise, não é pela paz que os homens de boa vontade trabalham, mas pelo desenvolvimento do espírito de compreensão e de cooperação; pois somente eles serão fortes o suficiente para derrubar as barreiras raciais, curar as feridas da guerra e construir uma nova estrutura mundial adequada às demandas inteligentes das massas.

Nos folhetos anteriores procurei (como outros pensadores) indicar as medidas que poderiam ser tomadas para evitar o cataclismo iminente. Entre os mais importantes que enfatizei, encontrava-se o desenvolvimento da boa vontade mundial, porque a boa vontade é o princípio ativo da paz. Também procurei acentuar o entendimento internacional e um futuro de partilha dos recursos do planeta, o reconhecimento de uma culpabilidade geral, comprovada pela história, no que diz respeito à guerra, mais as ideias que - desenvolvidas - poriam fim à era da separatividade.

Apesar dos esforços de todos os homens de boa vontade, de todas as organizações de paz e do trabalho iluminado dos pensadores, educadores e governantes, aconteceram duas coisas que se esperava evitar. A primeira foi uma precipitação muito nítida e focalizada do espírito do mal e do materialismo por meio das Nações do Eixo, usando a agressão do Japão como ponto focal inicial e se expressando mais tarde em toda sua força pelo canal da Alemanha. A segunda foi que as nações neutras, nas primeiras etapas da guerra, não tomaram as medidas necessárias para se aliaram ativamente às nações que combatiam o totalitarismo, e foram incapazes de compreender todo o horror do que estava por vir para a humanidade. O egoísmo da humanidade estava ainda mais profundamente enraizado do que se pensava, e as Nações Aliadas só vieram a uma atividade cooperativa depois de dois anos de guerra e a violação organizada de várias nações neutras. A cegueira das nações neutras definitivamente perturbou os cálculos dos trabalhadores com visão para o bem do mundo e atrasou seriamente o fim da guerra.

O ponto crítico agora passou. A compreensão humanitária das questões envolvidas e a unidade que existe entre as Nações Aliadas garantem a inevitável derrota das Potências do Eixo. Outros fatores também asseguram a vitória final das forças do direito e da liberdade do mundo; não há tempo para desenvolvê-los, mas podem ser relacionados e as pessoas podem então ver com que segurança eles garantem o triunfo dos povos livres do mundo. São eles:

1. A vontade-para-a-vitória está crescendo continuamente. A política de apaziguamento, o pacifismo e a incerteza estão desaparecendo regularmente.

2. A dificuldade em que se encontra a humanidade em todas as partes como resultado da agressão do Eixo vai estabilizando infalivelmente a opinião pública e evocando uma determinação inalterável de pôr fim ao mal iniciado e levado adiante pela Alemanha e o Japão, ajudados algo relutantemente pela Itália.

3. Os recursos das Nações Aliadas são vastos e estão agora em processo de mobilização. Seu emprego massivo e seu potencial fabril são praticamente inesgotáveis e estão sendo rapidamente organizados. O potencial humano e os recursos da Alemanha e seus aliados alcançaram seu ponto culminante, lhes dando atualmente um enorme poder, mas anunciando um declínio constante para o futuro.

4. Os resultados possíveis desta guerra são compreendidos cada vez com mais clareza; até mesmo os ignorantes e preconceituosos reconhecem que os resultados possíveis se inserem em três posições principais, o que lhes permite escolher pessoalmente onde colocar sua lealdade:

a. A posição democrática, com sua ênfase nas Quatro Liberdades e na Carta do Atlântico, assegurando corretas relações humanas e pondo fim à agressão.

b. A posição totalitária, com sua ênfase na ditadura mundial, na escravidão das inúmeras nações conquistadas, sua inclinação antirracial e sua flagrante crueldade e terrorismo.

c. A política de apaziguamento e as atitudes pacifistas - idealistas e sem caráter prático e que hoje têm ponto focal na atitude de Gandhi - que evidencia uma atitude fanática, intransigente e não realista, que está pronta para sacrificar vidas, nações e o futuro da humanidade para alcançar seu objetivo. Se Gandhi triunfasse em seus objetivos agora, isto precipitaria a guerra civil na Índia, sacrificaria toda esperança imediata de liberdade para esse país, permitiria que os japoneses conquistassem a Índia com facilidade, provocaria o massacre de incontáveis milhares de pessoas e permitiria que a Alemanha dividisse com o Japão o domínio da Ásia, com a terrível probabilidade de uma vitória totalitária.

Estes três pontos de vista estão sendo claramente compreendidos hoje em dia pelos homens de todas as partes, e suas decisões com relação a lealdades e adesão estão esclarecidas.

5. O espírito de liberdade está triunfando em todos os países (mesmo nos países conquistados, para grande assombro da Alemanha) e a beleza do espírito humano surge em todas as partes, tanto nos países conquistados como nas nações que lutam, de costas para a parede, pela liberdade humana.

6. Um intenso interesse pelas condições do pós-guerra se evidencia nas declarações dos governantes, políticos, conferencistas e homens de mente espiritual de todas as partes; os artigos, folhetos, livros, alocuções e planos que tratam da nova composição atestam esse fato. As forças da reabilitação e de boa vontade se mobilizam rapidamente; elas constituem um grande exército em todas as nações, exército invisível, mas ainda incipiente e inseguro a respeito dos métodos e procedimentos, mas com objetivos e princípios bem claros.

Estes seis fatores asseguram a derrota das forças do mal e o triunfo das Forças da Luz; isso sendo uma base para o otimismo, podemos olhar para frente com a esperança certa do fim da guerra, da desmobilização dos exércitos, da tranquila navegação pelos sete mares, e do momento em que o medo começa a desaparecer.

Quais serão os perigos a neutralizar? Para que condições devemos estar preparados quando enfrentarmos a tarefa de reconstrução? Seria útil enumerar alguns dos perigos para os quais devemos estar preparados. Vamos então examiná-los por ordem de importância:

1. O perigo de um acordo de paz rápido demais. Trabalhemos arduamente para um armistício prolongado, durante o qual o ardor da batalha e os fogos da vingança tenham tido tempo de se apagar, a agonia da humanidade de se amenizar e tempo para fazer projetos com calma e sem precipitação.

2. O perigo de um retorno à assim chamada normalidade. O principal desastre que ameaça a humanidade neste momento é um retorno ao estado de coisas que precederam a deflagração da guerra e o restabelecimento do velho mundo familiar, com seu imperialismo (seja de império ou de finanças), seus nacionalismos e suas minorias angustiadas exploradas, suas vis diferenciações e barreiras separatistas entre ricos e pobres, orientais e ocidentais, castas e classes, que existem em todos os países - sem exceção.

3. Os perigos incidentais aos necessários ajustes entre as nações. Quaisquer ajustes realizados com base na tradição histórica ou nas antigas fronteiras só servirão para mergulhar o mundo novamente na guerra. Os ajustes devem se realizar com base na própria humanidade; a vontade dos povos livres deve ser o fator determinante, e não a vontade dos técnicos e políticos, de alguma classe ou grupo governante. No mundo do amanhã, a equação humana terá uma posição predominante, os seres humanos determinarão o próprio destino na medida do possível e os homens exercerão seu livre-arbítrio para estabelecer o tipo de mundo no qual querem viver. Eles decidirão em que país preferem ser cidadãos e o tipo de governo ao qual prestarão sua lealdade. Isto necessariamente levará tempo, e deve ser um processo lento. Será preciso haver uma educação planejada das massas em todos os países, e os princípios da liberdade e a diferença entre liberdade e abuso terão que ser ensinados cuidadosamente. Um novo mundo, baseado no restabelecimento dos limites territoriais, determinados pela história, não conseguirá pôr fim à luta, à agressão e ao medo. Um novo mundo baseado em valores humanos e corretas relações humanas poderá instaurar (de maneira lenta, sem dúvida, mas inevitavelmente) a nova civilização que os homens de boa vontade pedem para toda a humanidade.

4. Os perigos derivados do ódio, da vingança e da dor. Estes perigos serão os mais difíceis de evitar. Um ódio profundo contra o regime nazista e a nação alemã que o apoia está aumentando sem cessar. Isto é quase inevitável, pois se baseia nos fatos da atividade nazista. A tarefa das Nações Aliadas depois da guerra será necessariamente, entre outras, proteger o povo alemão do ódio daqueles contra os quais foram perpetrados terríveis abusos, o que não será fácil de fazer. O revide e a vingança não devem ser permitidos, mas, ao mesmo tempo, não pode nem deve ficar sem se exigir uma justa reparação da má ação. A lei atua sempre, e a lei diz que um homem ou nação deve colher o que semear. A Alemanha semeou o mal em todo o mundo civilizado, e durante algum tempo sua sorte deve ser dura, tendo que pagar com suor, trabalho e lágrimas suas más ações. Entretanto, este pagamento deveria fazer parte do grande trabalho de reabilitação e não de exigências vingativas, e se isto for levado em conta, não serão cometidos erros sérios. O povo alemão deve trabalhar arduamente para corrigir o mal que fez, na medida do possível, mas a próxima geração - que hoje está no berço ou na escola - não deve ser penalizada. As crianças e os bebês da raça alemã - inocentes das ações erradas de seus pais e irmãos - não deveriam ser envolvidos nas penalidades exigidas. Os jovens de hoje da Alemanha devem, pelo trabalho de suas mãos e o suor do seu rosto, reconstruir o que destruíram tão desapiedadamente, mas as pessoas idosas, inofensivas e frágeis, as crianças e os adolescentes, deverão ser eximidos e instruídos para se tornarem cidadãos de uma Alemanha melhor, como nunca existiu - uma Alemanha que seja parte construtiva do todo, e não uma ameaça ou um terror para todos os homens que pensam corretamente. O despertar de homens de boa vontade em todas as nações - homens que veem a humanidade como um todo e a todos os homens como irmãos - é a única maneira de deter a ascendente maré do ódio. O ódio não será detido, dizendo àqueles que sofreram nas mãos das nações do Eixo que não devem odiar, nem exortando os povos que foram vítimas dos traidores que não devem ter má vontade com colaboradores como Quisling e Laval. Deverá ser compensado por uma grande demonstração prática de amor e compreensão por parte das Nações Aliadas - amor que atuará na forma de alimentos para os famintos, cuidados para os enfermos, reconstrução das cidades destruídas, e a restauração da "terra arrasada”. Os problemas de ódio e vingança vão exigir a maior habilidade e será preciso haver uma ação extremamente sábia por parte das nações livres.

5. O perigo, para a humanidade, dos efeitos da guerra sobre as crianças e os adolescentes de todas as nações. As crianças de hoje são os pais das futuras gerações; passaram por uma arrasadora experiência psicológica. Dificilmente podem voltar a ser realmente normais. Viram as profundezas da crueldade, da perversidade, da dor, do horror, do terror e da incerteza. Foram bombardeados, metralhados, e sofreram o choque da guerra; não conheceram a segurança, nem esperam nenhum futuro seguro. Milhões deles não tiveram nenhuma assistência paterna; foram separados de suas famílias pela guerra e muitos sequer sabem seus próprios nomes. Mesmo quando a unidade familiar ficou intata, seus pais, em geral, estavam envolvidos em um trabalho para a guerra, em seu país ou no estrangeiro, e suas mães trabalhavam em fábricas ou cultivavam a terra. Portanto, as crianças careceram de vida e de assistência familiar. A desnutrição debilitou suas forças, e o mal prevalecente minou seu ânimo e escala de valores. Do ponto de vista humanitário e espiritual, o problema vital depois da guerra será restabelecer nas crianças do mundo a felicidade, a segurança, modos de vida e de conduta apropriados, e certa medida de disciplina compreensiva. Trata-se essencialmente de um problema de educação. Em todos os países, os educadores e psicólogos de visão devem ser mobilizados para fins de determinarem para as crianças, de maneira inteligente, uma "estrutura para as coisas que virão”. Isto deverá ser feito em escala internacional e com a sabedoria obtida pela percepção da necessidade imediata e uma visão de longo alcance.

6. Os perigos do ressurgimento do espírito nacionalista. O intenso nacionalismo foi um dos fatores determinantes que fomentou a guerra; nenhuma nação ficou isenta deste espírito de orgulho nacional e visão separatista e nacionalista. Interesses egoístas determinaram as razões pelas quais cada nação tomou parte nesta guerra; a segurança individual obrigou até mesmo as nações democráticas mais iluminadas a participarem dela. Que a estes incentivos egoístas acrescentaram a necessidade mundial e o amor à liberdade, é bem verdade; isto compensa, mas não faz desaparecer as motivações egoístas; que o instinto de autopreservação não lhes deixou alternativa, também é verdade, mas temos o fato de que não teria havido guerra se as nações democráticas tivessem sido o fator determinante. Isto em si dá margem a questionamentos. Por que, em última análise, as potências democráticas permitiram esta guerra, quando, unidas e aliadas desde o início, teriam podido detê-la nas etapas iniciais? Além disso, considerando-se a existência das nações agressivas, o próprio interesse coletivo obrigou as democracias a combater e, no entanto, este mesmo interesse deveria ter feito com que tomassem as medidas que garantiriam a paz. Tipos nacionais, interesses nacionais individuais, culturas nacionais e civilizações nacionais existem lado a lado, mas em vez de serem considerados como tributários de um todo integrado, foram zelosamente competidores e considerados como prerrogativas peculiares e distintivas de alguma nação, existindo unicamente para o bem dessa nação. No futuro, o fator de contribuição na vida deve ser acentuado e desenvolvido, e o bem de uma nação ou grupo de nações deve ser substituído pelo bem de toda a família de nações. A educação do público neste ideal não o faz perder sua identidade nacional ou cultura individual, as quais devem permanecer e se desenvolver até sua meta espiritual mais elevada, a fim de enriquecer, para todos, o bem coletivo. Somente a motivação que enfatiza cada cultura específica, nacional ou racial, deverá mudar.

A família de nações, considerada como uma unidade, com suas inter-relações adequadas e a tomada de responsabilidade, para o todo único como para os fracos, deve ser a meta consciente de todo empreendimento nacional. Os recursos de todo o planeta devem ser compartilhados coletivamente, é preciso compreender cada vez mais que os produtos da terra, as riquezas do solo e o patrimônio intelectual das nações pertencem à humanidade como um todo e não exclusivamente a uma só nação. Nenhuma nação vive para si mesma, como nenhum indivíduo poderia viver sozinho e feliz. A nação ou o indivíduo que fizesse essa tentativa desapareceria inevitavelmente da superfície da terra. Todas as nações fizeram esta tentativa egoísta, como prova a história moderna e antiga. Sua tradição, recursos, gênio nacional, história, produtos minerais e agrícolas, posição estratégica sobre o planeta, foram usados no correr dos séculos em benefício da nação que os reclamou, e explorados para aumentar o poder daquela nação à custa do sofrimento das outras. Este é o pecado que a Alemanha está cometendo hoje, ajudada pelo Japão e um pouco pela Itália. A política de poder, a exploração dos fracos, a agressão, o egoísmo econômico, os ideais baseados em objetivos puramente comerciais, materialistas e territoriais, caracterizam toda a história da humanidade nos dois hemisférios e criaram as condições para a atual guerra.

Algumas nações, em especial as grandes democracias como a Commonwealth britânica e os Estados Unidos da América, já compreendem que estas atitudes e atividades devem ter fim, e que a esperança do mundo reside no desenvolvimento de corretas relações humanas, no intercâmbio econômico, na ampla e altruísta política internacional e no crescimento do espírito de cooperação. Creem inalteravelmente, como política nacional básica, nos direitos do indivíduo, e que o Estado existe para benefício desse indivíduo; a isso agregam a crença de que o Estado também existe para benefício dos demais estados e para a humanidade como um todo. Outras nações, como as Potências do Eixo, estão cristalizando violentamente os antigos pontos de vista, acentuando os piores aspectos da antiga e maligna ordem, e se apoderando agressivamente de tudo que podem. Consideram que o indivíduo não tem valor; sustentam que ele existe apenas para benefício do Estado; creem que o Estado é a única unidade importante, e que só conta o próprio estado particular. Dividem a família de nações em um superestado para controlar a Europa e um outro para controlar a Ásia, considerando os demais estados como nações-escravas. Perpetuam o antigo mal da força e da guerra, recorrendo a indizíveis crueldades em um esforço de elevar seu próprio estado à eminência suprema.

Esta é a antiga estrutura organizacional que deve desaparecer, mas seus perigos devem ser reconhecidos. As Nações Aliadas lutam para que seja abolida, mas são muitas as dificuldades, embora a força espiritual de todos os homens de bem e as Forças da Luz estejam a seu lado, lutando para ajudá-las. O espírito nacionalista ainda não morreu em nenhum país. É preciso ajudá-lo a morrer. As minorias que têm um passado histórico, mas não direitos territoriais, clamam por uma terra que possam chamar de sua, onde possam construir uma nação. As pequenas nações estão atemorizadas, e se perguntam que lugar lhes será permitido ocupar na família de nações, e se os alemães, segundo seus planos nefastos, prescindirão de seus cidadãos para um dia formar uma nação. A demanda por um reconhecimento nacional se estende por todos os lados, mas pouca ênfase se ouve quanto à humanidade como unidade importante.

As nações que bloqueiam o caminho do progresso vivendo da memória de sua história e de suas fronteiras passadas, olhando retrospectivamente para o que chamam de "um glorioso passado”, apoiando-se na recordação do domínio nacionalista ou imperialista sobre os fracos. Duras palavras, mas o espírito nacionalista constitui um grave perigo para o mundo. Se ele se perpetuar de qualquer maneira, exceto como tributário em prol de toda a humanidade, mergulhará o mundo novamente (depois da guerra) em uma era de trevas e os homens não estarão melhor do que estavam, apesar de terem vivido vinte anos de trabalho e agonia.

Poderíamos tomar as nações, uma por uma, e observar que este espírito nacionalista, separatista ou isolacionista, consequência de um passado histórico, dos complexos raciais, da posição territorial, da rebelião e da posse dos recursos materiais, gerou a crise mundial atual e a separação atual, e este conflito global de interesses e ideais. Mas isso de nada serviria. O estudante inteligente de história (que não tem nenhuma inclinação nacionalista) conhece bem os fatos e está profundamente preocupado com os procedimentos que devem ser realizados para acabar com a luta mundial. Sabe que os esforços para alcançar a expansão territorial, um lugar ao sol, Lebensraum, a supremacia financeira, o controle econômico e o poder devem terminar. Ao mesmo tempo, percebe que se a humanidade quiser se livrar desses produtos malignos do egoísmo, certos valores básicos devem ser conservados. As culturas e as civilizações passadas e presentes têm um grande valor; o gênio particular de cada nação deve ser evocado para o enriquecimento de toda a família humana; a nova civilização deve ter raízes no passado e nascer dele; novos ideais devem aparecer e ser reconhecidos, e para isso os fatos e a educação do passado terão preparado os homens. A própria humanidade deve ser a meta do interesse e do esforço, e não qualquer nação ou império particular. Tudo isto deve ser implementado de maneira prática e realista, dissociado dos sonhos visionários, místicos e impraticáveis, e tudo que se realiza deve estar fundado em um reconhecimento fundamental - o da fraternidade humana que se expressa em corretas relações humanas.

A revolta tão generalizada contra as "vagas visões” dos sonhadores humanitários baseia- se no fato de que a avalanche de palavras e do excesso de planos, pouco saiu de valor prático e sem potência suficiente para acabar com os antigos e abomináveis modos de vida. Nada realmente efetivo foi feito antes da guerra para neutralizar os males visíveis e gritantes. Foram testadas medidas paliativas e assumidos compromissos pela paz, mas os males básicos da ambição nacional, da disparidade econômica e das virulentas diferenças de classes (hereditárias ou financeiras) ainda permaneceram. As diferenças religiosas eram galopantes, os ódios raciais generalizados e as ordens econômicas e políticas permaneciam corruptas, fomentando conflitos partidários, sociais e nacionais.

Hoje a guerra clareou a atmosfera. As questões colocadas estão claras e, pelo menos, sabemos o que está errado. Ao demonstrarem um supremo egoísmo, ambição nacional, ódio racial e total barbárie e crueldade, como também uma completa falta de sentimento humanitário, as Potências do Eixo prestaram serviço à raça, mostrando o que não deve ser permitido e que não será. As democracias despertaram também para seus pontos fracos e para a compreensão de que a verdadeira democracia não existe ainda devido à corrupção política, amplamente disseminada, e à ignorância e falta de preparo das massas para o verdadeiro autogoverno. As potências imperialistas, tais como a Grã-Bretanha, estão repudiando publicamente os antigos pontos de vista e seguem adiante com a tarefa de reconstrução do mundo. O conservador reacionário deixou de ser popular. As pequenas nações vão compreendendo seu desamparo e a completa dependência de seus vizinhos maiores, e estes, por sua vez, reconhecem suas responsabilidades para com os fracos e os pequenos. As pessoas de todas as partes vão despertando e começam a pensar, e jamais voltariam a mergulhar na condição negativa do passado. Prevalece em todos os cantos a fé de que é possível, e mesmo provável, uma nova e melhor governança neste mundo.

Como expressar, de maneira simples e clara, a meta desta nova governança tão esperada, e como formular brevemente o objetivo que cada pessoa e nação deveriam manter ante si quando a guerra terminar e a oportunidade de agir se apresentar para cada um e para todos? Seguramente cada nação, grande ou pequena (as minorias obtendo direitos iguais e proporcionais), deveria seguir sua própria cultura individual e realizar a própria salvação como melhor lhe parecer, mas cada uma e todas devem compreender que são partes orgânicas de um todo que forma um corpo, e que devem contribuir para essa totalidade com tudo que possuem e são. Este conceito já está presente no coração de incontáveis milhares de pessoas, e acarreta uma grande responsabilidade. Quando estes conhecimentos forem desenvolvidos de maneira inteligente e manejados com lucidez, conduzirão às corretas relações humanas, à estabilidade econômica (baseada no espírito de partilha) e a uma nova orientação do homem em relação ao homem, de uma nação em relação à outra, e de todos frente a esse poder supremo que chamamos de "Deus”.

É esta a visão e ela está mantendo incontáveis milhares de pessoas firmes no caminho do dever, e muitas delas, em cada nação, estão dispostas a trabalhar para esse fim. Apesar do histórico de um passado maligno, do presente massacre mundial, dos problemas psicológicos quase insuperáveis que a humanidade está enfrentando, das maquinações políticas, da diplomacia dos tempos antigos e da improbabilidade de um rápido sucesso, há milhares de pessoas preparadas para começar o trabalho preparatório. O número de homens e mulheres de visão e boa vontade é hoje tão grande (especialmente entre as Nações Aliadas) que há uma possibilidade de êxito final e que já hoje é possível começar. Percebe-se hoje tenuemente os contornos da futura estrutura mundial; o fracasso - completo, evidente e irremediável - da antiga estrutura organizacional e do antigo mundo é reconhecido em todas as partes. A vontade-para-o-bem aumenta. É interessante e útil reconhecer que esta visão está presente com maior clareza no homem da rua e no intelectual do que nas classes privilegiadas. Pelas dificuldades materiais da vida e pelos processos mentais resultantes, os homens sabem que a mudança das condições é necessária, e que não existe alternativa.

A tarefa pela frente se divide em duas categorias: Primeiro, dirigir o pensamento e a energia das massas para as linhas corretas, para que a boa motivação e a sábia ação possam instaurar a desejada era de corretas relações humanas e de paz final; segundo, educar aqueles cuja apatia como também falta de visão entravam o progresso. Esta última fase do trabalho já está bem encaminhada, pois um grupo de guias mundiais, potente, embora pequeno, está expondo certas proposições gerais que devem ser consideradas imperiosas quando chegar a hora dos reajustes mundiais. Este grupo pede um novo princípio diretor na política e na educação, fundamentado nos direitos humanos universalmente reconhecidos, na urgência de uma unidade espiritual, e na necessidade de descartar todas as atitudes teológicas separatistas e todos os dogmas em todos os campos do pensamento. Um clamor se eleva, não só por compreensão e colaboração internacionais, mas também pela compreensão entre classes. Estas exigências estão sendo expressas em todas as plataformas e púlpitos, e por meio da escrita em todos os países, exceto nos lastimáveis países onde não há liberdade de expressão.

O homem comum está observando tudo isto, e com frequência fica acabrunhado com a magnitude da tarefa que se apresenta ante ele, com a diversidade de opiniões expressas, com as diversas sugestões, planos e projetos para um mundo melhor, e pela percepção de sua própria e total insignificância diante dessa gigantesca empresa humana. Levanta muitas perguntas para si mesmo: Qual é a minha utilidade? O que posso realizar? Como fazer ouvir minha insignificante voz? E de que servirá, se for ouvida? Que papel posso desempenhar no vasto cenário dos assuntos mundiais? Como posso demonstrar que sou útil e construtivo? Como posso compensar minha ignorância de história, da sociedade, das condições políticas e econômicas do meu próprio país, sem falar dos outros? A humanidade é tão imensa, seu número tão vasto, e tantas as suas raças, que ele tem a impressão de ser uma unidade insignificante e desamparada. Carece de instrução acadêmica ou geral que lhe permita captar realmente os problemas ou contribuir para sua solução. Portanto, como pode contribuir o homem comum, o homem de negócios em seu escritório, a dona de casa, o cidadão comum, nesta hora e no futuro para ajudar o mundo? É para essas pessoas que escrevo.

Começaria lembrando ao público um importante fato, de que uma opinião pública concentrada, determinada, iluminada é a força mais potente do mundo. Não tem igual, mas pouco foi usada. A credulidade do cidadão comum, sua inclinação para aceitar o que lhe é dito, se lhe é dito em alto som e com suficiente força plausível, é bem conhecida. As frases bem construídas do político de formação, comprometido com seus propósitos egoístas, os argumentos do demagogo eloquente quando explora uma teoria própria à custa do público e o palavreado do homem com causa, teoria ou interesses a defender, todos encontram um público fácil. A psicologia das massas e as determinações das multidões foram exploradas ao longo dos séculos, pois os emotivos, aqueles que não pensam, são facilmente levados em qualquer direção e isto até agora foi aproveitado para benefício daqueles cujos corações não abrigam o melhor interesse para a humanidade. Isso foi utilizado para fins egoístas e maus, muito mais que para o bem. Um destacado exemplo desta tendência negativa e atitude de impotência é o que oferece o povo alemão sob o regime nazista.

Mas esta receptividade negativa (que não merece o nome de opinião pública) pode ser facilmente direcionada para fins bons ou maus e para medidas construtivas ou destrutivas. Um pouco de organização na direção e um programa traçado com lucidez em vista deste objetivo podem produzir e produzirão as mudanças necessárias e farão de uma opinião pública sensata e inteligente um dos principais fatores da reconstrução mundial. Um dos traços mais interessantes deste período de guerra foi o contato direto estabelecido por alguns dos dirigentes mundiais, com o homem da rua e a dona de casa, como testemunham as palestras de Roosevelt e Churchill. Os discursos dos líderes do Eixo eram de categoria totalmente diferente, porque se dirigiam à juventude masculina de seus países e aos homens de uniforme. Só os dirigentes do segundo escalão da Alemanha, por exemplo, falam ao povo em seus lares, e unicamente para dar ordens, fomentar o ódio e tergiversar a verdade. Em todos estes casos, porém, o valor da opinião das massas é reconhecido e a necessidade de influenciar suas mentes, seja submetendo-a à vontade de algum dirigente como Hitler, ou instruindo-a sobre princípios benéficos para a totalidade.

O segundo ponto que o cidadão comum deve compreender é que a massa é composta de indivíduos; que cada um de nós, como indivíduo, é parte integrante e precisa do todo. Trata- se de um fato básico e importante, e tem a ver com o nosso tema. O primeiro passo no processo de reconstrução que temos por diante é chegar ao indivíduo, mostrar a ele a sua importância, indicar sua muito real esfera de influência e, convencê-lo a trabalhar nessa esfera, com os meios que tem. Assim o seu sentimento normal e natural de inutilidade desaparecerá, e ele compreenderá gradualmente que é necessário e que pode fazer muito. Compreendendo este fato por si mesmo, poderá então procurar fomentar a mesma atitude construtiva nas pessoas que o circundam, as quais passarão a fazer o mesmo.

Gostaria de destacar que o valor do indivíduo com toda a certeza está assentado na divindade inerente do espírito humano e na integridade do todo. Baseia-se também no conhecimento que deve fundamentar todo o futuro trabalho de reconstrução, de que no próprio coração do universo existe um Poder divino, chame-o como quiser, e na crença de que o amor é uma lei da própria vida, apesar de todas as aparências e dos testemunhos do passado.

É essencial que sejamos práticos ao abordar este tema, e que os planos de reconstrução envolvam as medidas que estejam ao alcance do homem comum. A primeira atitude prática a adotar é a eliminação do ódio, pois ele não é construtivo e é um entrave. Impede a visão, desorienta a razão e simplesmente nutre o aumento do medo e do horror. Entretanto, o amor que nos é exigido não é emocional nem sentimental, mas intensamente prático, e se expressa pelo serviço e atividade de cooperação. Procura ajudar todos os movimentos que beneficiam a humanidade, na linha da nova era. Muitas pessoas creem que uma reação emocional e um protesto horrorizado pelo que aconteceu ao mundo indica amor e sensibilidade espirituais. É muito mais provável que indique egocentrismo e desconforto pessoal. O verdadeiro amor não tem tempo para estas reações, porque o trabalho de levar alívio absorve totalmente. O homem que ama seus semelhantes está mentalmente equilibrado, trabalha inteligentemente e mobiliza todas as suas forças para o serviço necessário no momento. Um coração verdadeiramente compassivo não é emocional.

O segundo passo, pois, tendo reconhecido a responsabilidade individual, é substituir a emoção pelo amor prático que se expressa em serviço altruísta. O terceiro passo será reorganizar as nossas vidas, reservando tempo para este serviço necessário. A maioria das pessoas não obtém o resultado máximo da vida diária por várias razões. Muitas vezes elas não desejam realmente fazer os sacrifícios que esse serviço exige; vivem na ilusão de que o serviço que produzem no momento é o máximo que podem fazer; imaginam também que sua saúde não poderia resistir a um trabalho mais ativo, que precisam de tempo para si mesmas, ou que desperdiçam horas valiosas fazendo coisas que não produzem nenhum resultado real. Porém, se a necessidade presente é tão grande hoje como se quer fazer crer, se é uma hora de urgência para a humanidade, se os problemas são tão grandes que todo o futuro da raça depende do resultado da guerra, então a única coisa importante é que o homem cumpra o seu papel, mobilize seu tempo e tudo o que possui para fazer o esforço supremo que liberará a vida e a energia, possibilitando a vitória imediatamente possível e fazendo do período de reconstrução um êxito. Isto deve ser feito a qualquer preço, mesmo ao custo da sua vida. Temos aqui um paradoxo espiritual. O indivíduo é de suprema importância, porém o que lhe acontece quando serve a liberdade humana ou luta por ela não tem a menor importância individual. Um breve período de esforço organizado e, ao final, a morte, é hoje de utilidade mais vital que a inutilidade de fazer com calma as coisas que o homem deseja e depois deixar placidamente transcorrer os anos.

Portanto, o desenvolvimento do sentido de responsabilidade individual, a expressão do amor real no serviço e a reorganização da vida, a fim de obter o máximo de cada dia, constitui a etapa preparatória para o homem que procura participar no período de reconstrução.

Tendo feito isto da melhor maneira possível (e muitos já tiveram um bom começo), deve desenvolver em si mesmo e evocar nos outros o espírito de boa vontade. Esta vontade-para-o-bem é de eficácia imediata, porque rege as relações do homem com a família, o seu lar, seus negócios, sócios, seus conhecidos, e todos os seus contatos. É o que lhe possibilita empreender o trabalho de reconstrução ali onde se encontra, e o treina em seu ambiente familiar a praticar corretas relações humanas. É o potente e maior fator que permite ao indivíduo, que de outra maneira seria um inútil, a se tornar um ponto focal de influência construtora. Então, como resultado, descobrirá que sua esfera de influência construtora se expande continuamente.

São estas as primeiras quatro medidas, talvez as mais difíceis, pois não são espetaculares e constituem quase trivialidades espirituais, mas são os fatores preliminares essenciais e inevitáveis para o homem que quer trabalhar com sabedoria, utilidade e intuição no futuro.

Ao que foi exposto acima, podemos agregar as seguintes iniciativas e procurar e impor a si mesmo o programa sugerido abaixo:

1. Estudar e refletir sobre as inúmeras propostas feitas pelos pensadores e dirigentes do mundo quanto à reabilitação do mundo. Será necessário planejar o que ler e saber o que está sendo debatido. Procure cultivar uma opinião inteligente baseada na boa vontade e no que, como resultado do estudo, consideram que deve ser feito. Depois, debater estas ideias em seu lar, entre os amigos e no ambiente, sem temor nem favoritismos. Ajudará pensar nesses debates como um serviço e acreditar que seu interesse e entusiasmo não podem deixar de surtir efeito.

2. Se possível, reúna pessoas para debater e estudar uma futura estrutura para o mundo, ou para colaborar com as pessoas já envolvidas nesta tarefa. Considere essas reuniões como uma contribuição precisa para moldar a opinião pública, e como um método de construção daquele reservatório de força-pensamento que aqueles que se dedicam à tarefa de reconstrução poderão utilizar. Se, pelo menos, duas pessoas colaborarem com você neste assunto, o esforço não será perdido nem inútil, porque ajudarão a modificar o conteúdo do pensamento do mundo, e a impressionar outras mentes, mesmo que não saibam.

3. Estenda seu interesse a outros países e procure compreender os diversos problemas que eles enfrentam. Muitas pessoas conhecem outras nestes países estrangeiros, e podem elaborar listas com seus nomes e endereços. Quando a guerra acabar e as vias de comunicação estiverem liberadas de novo, vocês poderão estabelecer contato com elas, tentar localizá-las por quaisquer meios disponíveis e, então, quando encontradas, fortalecê-las com o conhecimento de sua boa vontade ou interesse e cooperando com elas durante o período de reconstrução. Por muito insignificante que tenha sido o contato anterior, nutram-no pelo pensamento e pela oração e, mais tarde, pela comunicação direta. Assim, uma grande rede de relacionamentos será estabelecida, a qual servirá para fundir um novo mundo em um todo harmonioso e compreensivo.

4. Reze constantemente, e às suas preces acrescente meditação e reflexão. Por trás desta estrutura e configuração do mundo está Aquele que é a origem, a Energia motivadora, sua Vontade central, seu Criador vivo, seu Deus. Procurem chegar até essa vontade central ou ponto de Vida por meio da oração, fusionando-se assim com o objetivo divino que pressentem e identificando a sua vontade com a Vontade divina. Esta Vontade-para-o-bem central pode ser alcançada pelo homem cuja própria vontade-para-o-bem é uma experiência prática, viva. Quanto mais se expressar essa boa vontade, tanto mais facilmente descobrirão o Plano divino e colaborarão com ele e serão guiados pela mão de Deus nos assuntos do mundo. O verdadeiro trabalho de reconstrução será realizado por aqueles que, no silêncio de seus próprios corações, caminharem com Deus e aprenderem Seus métodos.

5. Encontre duas outras pessoas para trabalhar com vocês. Há uma potência única neste triplo relacionamento. O próprio Deus, segundo os textos sagrados do mundo, atua como uma Trindade de bondade. E vocês, em sua pequena esfera, podem fazer o mesmo, encontrando duas outras pessoas de ideias afins, que formarão um triângulo de boa vontade, de luz e de interação espiritual. Cada um dos que colaborarem com vocês poderão, por sua vez, fazer o mesmo. E assim, uma grande rede de boa vontade pode se estender por todo o mundo. Por intermédio desta rede, as Forças da Luz poderão atuar, e vocês, em seu lugar e esfera, terão prestado ajuda e assistência.

6. Descubram e estudem os métodos, as técnicas e os objetivos dos diferentes grupos e organizações interessadas na reconstrução do mundo. Talvez não estejam de acordo com todos eles, com seus planos ou métodos de trabalho, mas todos são necessários. Os tipos de homens são muitos, as raças e as condições variadas, e os problemas a resolver exigirão inúmeras maneiras de trabalhar. Todos podem exercer seu papel, se estiverem fundamentados na verdadeira boa vontade e isentos de fanatismo. O fanático é um perigo onde quer que se encontre, porque só vê um lado da questão, sendo incapaz de apreciar os diferentes pontos de vista. Ele não admite que todos são necessários. A colaboração é a chave para a expressão da boa vontade, e no futuro período de reabilitação, a colaboração será a principal necessidade. Mantenham um registro de todos os grupos, de seus dirigentes, objetivos e programas. Será útil quando terminar a guerra. Estabeleçam com eles relações de ajuda e amizade, no melhor das possibilidades.

7. Descubram os homens e mulheres de boa vontade entre as pessoas que os cercam e façam uma lista com seus nomes. Sejam espiritualmente empreendedores neste assunto, e descubram-nos. Feito isto, interessem-se pelo que fazem e procurem fazer com que colaborem em sua linha de atividade. Registrem os nomes e endereços dessas pessoas, acrescentando as capacidades e as funções que desempenham, tendo assim uma lista de correio. Então, terão consciência de que existe um grupo com o qual é possível contar, que trabalhará com espírito de boa vontade e para a reconstrução do mundo. Posteriormente estas listas poderão ser reunidas, se considerado conveniente, formando uma vasta lista de correspondência, que incluirá pessoas de todos os países que trabalham de acordo com as linhas indicadas, chegando-se a elas de maneira simultânea. Assim formarão um corpo de opinião pública sincronizada, forte o suficiente para moldar ideias, influenciar as massas, e ajudar os governantes mundiais em uma ação correta e apropriada.

8. Sobretudo, e como resultado das sugestões acima, façam planos definidos para a reabilitação - física, psicológica e espiritual - das crianças de todos os países. Elas foram vítimas da perversidade. Façam com que agora, ao contrário, recebam boa vontade amorosa. Os problemas da reabilitação econômica, do restabelecimento das fronteiras territoriais, da desmobilização dos exércitos e da consequente recolocação no mercado de trabalho dos desmobilizados, e da reconstrução do mundo são de profunda importância e exigem a ajuda de peritos. O problema das crianças, porém, como já assinalei, está na base de toda necessidade de reconstrução do mundo, é mais importante que todos os outros problemas, ultrapassa as barreiras raciais e nacionais, e evoca o melhor em todo coração humano. As crianças têm prioridade sobre todos os homens.

Portanto, faço um chamado a todos aqueles a quem posso alcançar por meio deste artigo, para que concentrem seu principal esforço - mental, espiritual e prático - para se preparar para ajudar as crianças da Europa e de outros países, que tanto sofreram nas mãos das Potências do Eixo. Isto tomará muito tempo e um cuidadoso planejamento; necessitará da colaboração de peritos treinados no cuidado da criança, médicos, clínicos, cirurgiões, psicólogos, educadores e também enfermeiras. Será preciso muito dinheiro para que os preparativos sejam eficazes, para enviar pessoal competente aos países despossuídos e em ruínas, e executar o trabalho em campo. Exigirá também uma compaixão amorosa e muita paciência. No entanto, é a possibilidade mais importante que se apresenta aos homens e mulheres de boa vontade; é a atividade fundamental da nova governança do mundo, pois ela deve ser instaurada no interesse das crianças de hoje. São elas que habitarão este novo mundo, expressarão os novos ideais, e legarão a seus filhos aquilo pelo que lutamos e morremos, o melhor que herdamos e conseguimos salvar para eles. O pensamento das crianças nos países subjugados não deteve a marcha dos soldados de Hitler; o caráter sagrado do lar e as necessidades morais e físicas das crianças não despertaram a menor compaixão nos jovens treinados pelo sistema nazista de educação; a relação entre mãe e filho não entravou os cálculos dos agentes alemães, que separavam os filhos de seus pais e os deixavam à deriva em um mundo de massacre ou em um estabelecimento público. A crueldade planejada deve ser remediada pelos homens e mulheres de boa vontade e corações amorosos.

9. Comecem agora a reservar, quaisquer que sejam as exigências da personalidade, pequenas somas que possam ser poupadas e que vão se juntar para o trabalho de reconstrução. Se todos puderem fazê-lo, será possível participar do trabalho sem impor uma carga muito pesada aos outros. Cuidem para que este sacrifício e os fundos resultantes sejam invioláveis entre as suas mãos até o momento, no futuro, em que decidirem empregá-los.

São estas as sugestões práticas, possíveis neste momento particular. São de natureza geral e, basicamente, individuais. Todo o esquema de reconstrução está ainda na etapa de formação do pensamento. O procedimento a ser seguido hoje é se auto educar e despertar todos aqueles com quem entramos em contato. Exigirá o estudo e a consideração inteligente de métodos para atender esta necessidade, e descobrir aqueles que, independente da nacionalidade ou religião, possam colaborar nas diversas fases do trabalho de reconstrução. Para este trabalho de preparação, todos podem participar.

Esta tarefa conclama a todos nós e muitas vozes nos chamam para isso; milhares de pessoas tiveram o mesmo sonho e a mesma visão, acreditaram nas possibilidades divinas latentes em todo coração humano, e sabem, acima de toda controvérsia, que o egoísmo e a ganância universal levaram o mundo à sua atual situação desesperada. Sabem também que a partilha altruísta e a compreensão cooperadora entre os homens de boa vontade de todas as partes podem construir um novo mundo, introduzir uma vida mais bela, e restaurar o que a própria humanidade destruiu. O melhor ainda está por vir. Podemos nos apoiar o fato reconhecido de que a história da raça humana foi, no transcurso das eras, de um constante avanço para a luz.

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