Bom Senso e Senso de Humor no Caminho Iluminado
Fevereiro 2026
Segundo as lembranças de uma figura proeminente do movimento teosófico, em certa ocasião Helena Blavatsky foi abordada por um jovem voluntário com uma pergunta não respondida de uma discussão em grupo. A pergunta era: “Qual é a coisa mais importante e necessária no estudo da Teosofia?”
A resposta de Blavatsky foi: “Bom senso”. O voluntário então perguntou qual era a segunda coisa mais importante, ao que Blavatsky respondeu: “Um certo senso de humor”. Quando pressionada sobre a terceira coisa mais importante, Blavatsky retrucou: “Apenas MAIS bom senso!” (1)
Além de destacar o humor vibrante de H.P.B., sua resposta é fundamental para manter o equilíbrio psicológico e a perspectiva correta no caminho do desenvolvimento oculto. No entanto, embora a maioria das pessoas tenha uma compreensão inata do que é “bom senso”, esse ponto se torna cada vez mais esotérico quanto mais se reflete sobre ele. Os escritos de Alice Bailey referem-se ao "senso comum da mente" e à sua função de "analisar e sintetizar a informação transmitida pelos cinco sentidos". Mas a mente também pode ser usada como um órgão sensorial por si só, capaz de perceber coisas de um reino superior:
Existe um reino da alma, frequentemente chamado de reino de Deus, que na verdade é outro reino da natureza, um quinto reino. A entrada nesse reino é um processo tão natural quanto a transição da vida evolutiva de um reino da natureza para outro tem sido no processo da evolução. Quando os sentidos, e tudo o que eles transmitem, estão focados nesse “senso comum” que místicos como Mestre Eckhart atribuíam à mente, eles a enriquecem e a abrem para muitos estados de percepção. Quando essas atividades podem ser rejeitadas e a mente enriquecida e sensível pode por sua vez se refocalizar, ela se torna um mecanismo sensível (um sexto sentido, por assim dizer); ela registra as “coisas do reino de Deus” e se abre para a humanidade, em profunda meditação, estados de consciência e esferas de conhecimento anteriormente fechadas a eles, mas que fazem parte do Todo e do conteúdo do mundo, assim como qualquer outro campo de investigação. (2)
O desenvolvimento oculto exige que a mente trabalhe em duas direções para que os reinos interno e externo da existência possam se relacionar e serem percebidos como um todo unificado. Embora na literatura esotérica o mundo físico externo seja frequentemente considerado em termos de ilusão e jurisdição do Não-Eu, outra maneira de abordar o assunto é através da relatividade das perspectivas. Desse ângulo, um Logos em busca da libertação cósmica poderia considerar seu ambiente de forma semelhante, como o campo da ilusão e os sentidos através dos quais o percebe como "Não-Ser". O que constitui verdade e realidade para uma forma de vida pode constituir ilusão para outra, dependendo de seu estado de consciência e posição na escala evolutiva. E é nessa relação entre o Eu que percebe os sentidos e o campo de Conhecimento circundante que surge todo o problema do mal. Como explica a Dra. Anna Kingsford, a causa fundamental do mal é “a limitação da percepção”:
“...O mal é o resultado da Criação. Porque a Criação é o resultado da projeção do Espírito na matéria, e com essa projeção veio a primeira semente do mal... não existe mal puramente espiritual, mas o mal é o resultado da materialização do Espírito... Quanto às diferentes formas de mal... cada uma é o resultado da limitação do poder de perceber que o Universo inteiro nada mais é do que o Eu Superior... Portanto, é verdade que Deus criou o mal; também é verdade que Deus é Espírito e, sendo Espírito, Ele é incapaz de praticar o mal. Logo, o mal é pura e simplesmente o resultado da materialização de Deus. Isto é um grande mistério. Deus é a própria percepção. Deus é a percepção universal. Deus é o que vê e o que é visto. Se pudéssemos ver tudo, ouvir tudo, tocar tudo, etc., o mal não existiria, pois o mal provém da limitação da percepção. Tal limitação foi necessária para que Deus produzisse algo diferente de Deus. Tudo o que não é Deus deve ser menos que Deus. Portanto, sem o mal, Deus teria permanecido sozinho. Todas as coisas são Deus segundo a medida do Espírito que nelas existe.” (3)
Se o problema do mal deriva de uma limitação da percepção, então, inversamente, o bem deve derivar de uma percepção plena, e isso, em essência, é o que constitui o senso comum: é o sintetizador analítico de todos os estímulos em um todo coeso. Como discutido anteriormente, o senso comum denota equilíbrio psicológico e perspectiva correta, e esses dois atributos são mantidos pelo que Blavatsky considerava o segundo ponto mais importante no desenvolvimento do ocultismo: “o senso de humor”. Como sabemos o humor frequentemente provoca riso, como se o ego fosse temporariamente libertado de sua identificação com a forma para experimentar uma sensação de liberdade e a capacidade de ver as coisas de uma perspectiva mais distante e expandida. No caminho do discipulado, o bom humor é uma força de equilíbrio vital que ajuda o aspirante a dissipar ilusões e evitar os erros do fanatismo.
Indo um passo além, o significado raiz da palavra “humor” revela muito sobre seu poder de equilíbrio. Ela evoluiu da palavra latina para “fluido corporal”; os antigos gregos acreditavam que havia quatro fluidos corporais principais ou humores associados a traços de personalidade específicos. Acreditava-se que a mistura desses quatro estados era responsável pelo temperamento geral de uma pessoa — o significado fundamental de temperamento sendo “misturar ou preparar para a condição apropriada, ajustar ou restaurar às proporções adequadas”. Nessa perspectiva, a doença resultava de um desequilíbrio dos quatro fluidos corporais, que exigia reequilíbrio para restaurar a saúde completa.
| Sanguíneo: | Sangue | Coração | Ar | Primavera | Quente e úmico | Júpter |
| Colérico: | Bílis amarela | Vesícula biliar | Fogo | Verão | Seco e quente | Marte |
| Fleumático: | Fleuma | Cérebro | Água | Otono | Úmido e frio | Lua |
| Melancólico | Bílis negra | Baço | Terra | Inverno | Frio e seco | Saturno |
Curiosamente, a Biblioteca Nacional de Medicina está hospedando uma exposição online que examina como a linguagem desses quatro humores permeia as obras literárias de Shakespeare: e lá está o seu humor. (*) Na época elisabetana, o “humorismo”, conforme ensinado pelos médicos na Grécia Antiga, ainda era a teoria médica predominante. De acordo com a exposição, os humores eram considerados “conectados a corpos celestes, estações do ano, partes do corpo e estágios da vida”. Transportados pela corrente sanguínea, eles geravam “as paixões essenciais de raiva, tristeza, esperança, e medo — emoções transmitidas com tanta força nas comédias e tragédias de Shakespeare”. A Biblioteca Nacional de Medicina encontra uma conexão entre a época de Shakespeare e a nossa no entendimento compartilhado de que “as emoções são baseadas na bioquímica e que medicamentos podem ser usados para aliviar o sofrimento mental”. Enquanto essa perspectiva limita a medicina ao âmbito dos efeitos, a pedagogia Waldorf adota uma abordagem mais causal para equilibrar os quatro temperamentos humanos, de acordo com os ensinamentos de Rudolf Steiner. [link 1] [link 2] “O temperamento”, disse Steiner, “reside entre as coisas que conectam um ser humano a uma linhagem ancestral e o que o ser humano traz consigo de encarnações anteriores”.
A pedagogia Waldorf dedica especial atenção à harmonização dos quatro
temperamentos no que poderia ser considerado um bom e saudável "senso de
humor" — a qualidade que H.P.B. considerava a segunda mais importante para o
treinamento esotérico. E quando isso se combina com a primeira e a terceira
coisas mais importantes — o bom senso — o discípulo é equipado com um
polo de equilíbrio psicológico, que garantirá uma passagem segura pelo
"caminho estreito e preciso" que leva ao reino da alma.
Em iluminado companheirismo grupal,
Grupo da Sede
ARCANE SCHOOL
Escola Arcana
___________
1. Sylvia Cranston, HPB: La extraordinaria vida e influencia de
Helena Blavatsky, pág. 337.
2. A.A. Bailey, Do Intelecto à Intuição, p. 125.
3. Dra. Anna Kingsford, The Theosophist, Vol. XXIX, p. 50. (Citado em Um
Tratado sobre o Fogo Cósmico, nota 261, p. 835, O Problema do Mal.)
* A influência dos quatro humores na forma como Shakespeare criou alguns de
seus personagens mais famosos é discutida por um historiador cultural neste
link:
* Biblioteca Nacional de Medicina
Link 1: Rudolf Steiner
Linl 2: Rudolf Steiner