Súplica
JCBernardes
De repente, sem saber por quê, lembrei-me do “Seigneur de Notre-Dame” e, com a sua aquiescência, me embrenhei num universo paralelo e assustador. Tudo muito estranho, mas cuidadosamente reconhecível. Embora uma paisagem devastada, escurecida, como um deserto sem areia, sem nada, havia a sensação de que algo ainda poderia ser reconstruído ou reconquistado.
Meu Deus! Como isso pôde ter ocorrido? Ao controlar a escala, percebi se tratar do nosso Mundo. Esfacelado, em ruínas.
Ao tentar andar, tive medo. Vários abismos se abriam ao mesmo tempo. Com dificuldade, recostei-me junto a uma grande rocha escura. Aí a escuridão lançou o seu manto sobre tudo. Preciso redobrar os cuidados, os abismos se abrem por todos os lados. Permaneci imóvel por algum tempo e notei que a rocha e tudo começaram a se balançar levemente. Aterrorizante.
Meu Deus! Permita-me apenas solicitar-Lhe não deixar tudo desabar. O nosso mundo é muito valioso para o seu Reino. Em louvor a este valor, ainda podemos reconstruí-lo. É o nosso grito. Permita-nos.
O balanço vagarosamente se acomodou. Senti-me mais seguro. A mente se organizou e os pensamentos ficaram mais claros.
Agora de pé, ao lado da rocha, imaginei uma ponte que me levasse para além daquele mundo paralelo para a realidade da vida, e naquela realidade conclamar todos para a reconstrução de tudo. Com isto em mente, recostei-me de novo na rocha e sentei-me. Não demorou muito, adormeci e tudo mudou.
Diante dos meus olhos jazia a escuridão. O abismo que não tem margem nem cume estava ali, desolado, imenso; e nada se movia.
Senti-me perdido na infinitude muda da escuridão. No fundo, através da sombra, um véu impenetrável, vislumbrava-se Deus como uma estrela sombria.
Gritei:
- Minha alma, ó minha alma! É extremamente necessário, atravessar este abismo onde não há margem, para que nesta noite possamos caminhar até Deus, construir uma ponte gigantesca sobre todos esses abismos.
Quem poderia fazer isso! – Gritei novamente – Ninguém! Oh, meu Deus! É aterrorizante! Choro!
Um fantasma branco surgiu diante de mim enquanto eu lançava um olhar alarmado para a escuridão. Ele tinha a forma de uma lágrima; a testa de uma virgem com mãos de criança. Assemelhava-se ao lírio protegido por sua brancura. Suas mãos unidas emitiam luz.
Mostrou-me o abismo para onde toda a poeira vai, tão profundo que nenhum eco jamais o responde; e me disse: "Se quiseres, construirei a ponte."
Ergui minha pálpebra em direção a esse pálido estranho. "Qual é o teu nome?", perguntei. Ele me respondeu: "Oração."
Acordei suado e meio tonto. Aos poucos, voltei-me para a realidade.
Meu Deus! Como a Sua misericórdia é avassaladora.
Com os corações repletos de Amor e Vontade para o Bem, oremos e meditemos profundamente pela reconstrução do nosso Mundo:
“Meu Senhor e meu Deus, meu Pai Santíssimo no Céu...”