As Nações como Organismos Psicológicos Vivos
Boa Vontade Mundial

Em 1958, Carl Jung escreveu que, apesar de possuir “um conhecimento íntimo do homem moderno em seu contexto nacional”, não conseguia “reunir a coragem” para confrontar o mais “desajeitado” dos problemas psicológicos: a questão da psique nacional. Era “desajeitada”, argumentava Jung, porque propor até mesmo os princípios mais rudimentares de uma psicologia das nações exigiria a libertação do “preconceito nacional”, que, em sua visão, “causa dificuldades quase insuperáveis para o intelecto racional”. (1)

Quase setenta anos depois, o problema da psique nacional permanece em grande parte inexplorado e, portanto, vulnerável a uma dicotomia simplista. Por um lado, o caráter nacional é frequentemente reduzido a clichês populares, usados principalmente para enfatizar a diferença e a divisão. Por outro, é sublimado em uma retórica vaga, ressurgindo principalmente em momentos de crise ou mobilização coletiva. Essa última tendência pode explicar por que a imaginação do público se comove quando um líder fala da “alma de uma nação”, como fez o ex-presidente Joe Biden ao discursar para os americanos no “solo sagrado” do Independence Hall. (2)

Mesmo que um pensador da estatura de Jung se sentisse incapaz de abordar essa questão, a urgência do nosso tempo nos impele a fazê-lo coletivamente, indo além da dicotomia acima em direção a uma reflexão mais profunda e a uma ação significativa. Pois o futuro das nações — e, portanto, da humanidade — pode não depender apenas do crescimento econômico, de relações internacionais pacíficas ou da sustentabilidade. Pode também depender da nossa capacidade de refletir profundamente sobre a psique nacional dentro do contexto mais amplo da evolução humana.

Para prosseguir com essa reflexão, podemos retornar a Jung e a dois de seus contemporâneos — Roberto Assagioli e Abraham Maslow — recorrendo também aos Ensinamentos da Sabedoria articulados por Alice Bailey, e propor uma hipótese de trabalho: a de que uma nação não é meramente uma estrutura legal ou uma entidade geográfica, mas um organismo psicológico vivo. Assim, uma nação possui tanto uma personalidade, expressa por meio da cultura, hábitos, instituições e comportamentos, quanto uma Alma, um reservatório de qualidades espirituais que se tornam a fonte de inspiração para mitos fundadores, narrativas compartilhadas e aspirações coletivas.

A Alma contém potencial latente, bem como a capacidade de crescimento, transformação e autorrealização. A função da personalidade é servir como veículo através do qual esse potencial se expressa no mundo material. Como um indivíduo, uma nação está, portanto, engajada em uma jornada contínua rumo à autorrealização: um processo constante com o objetivo de expressar o potencial da Alma por meio da personalidade.

Se esse processo é exigente para um indivíduo, é exponencialmente mais complexo para uma nação. Requer, em primeiro lugar, uma fase de integração da personalidade: o reconhecimento e a coordenação de pontos fortes e distorções, e de forças conscientes e inconscientes, para que um senso coerente de identidade coletiva possa emergir. Isso seria seguido pela integração Alma-personalidade, na qual uma força orientadora remodelaria gradualmente o veículo até que ele seja capaz de expressar as qualidades da Alma.

Assagioli ofereceu uma estrutura prática para esse processo dual sob a rubrica de Psicossíntese. Embora focada principalmente no desenvolvimento individual, ele sugeriu explicitamente que a Psicossíntese poderia ser aplicada a grupos e nações. Uma Psicossíntese de nações envolveria a conexão consciente de diversas comunidades, instituições e forças sociais para que possam trabalhar harmoniosamente em direção à síntese. Isso não implica uniformidade ou padronização, mas sim unidade na diversidade — uma expressão da unidade mais profunda que subjaz à vida humana.

Tal transformação requer um ambiente coletivo apropriado, e é aqui que o conceito de eupsiquia de Maslow se torna relevante. Derivado do grego eu (“bom”) e psyche (“alma” ou “mente”), e ecoando propositalmente a noção de utopia, eupsiquia refere-se a um ambiente social que permite aos indivíduos expressar valores inatos como a verdade, a bondade e a beleza. A eupsiquia descreve as condições sociais que permitem o desenvolvimento do potencial da Alma: uma atmosfera que fomenta o crescimento psicológico, cultural e moral. (3) Mais importante ainda, refere-se a uma sociedade que incentiva um alto nível de “sinergia” (4) entre suas partes constituintes, tornando-se, na prática, um agente ativo no processo de integração.

Seguindo a hipótese acima, os estágios de integração da personalidade nacional e de integração Alma-personalidade podem ser descritos da seguinte forma:

1. Estágio embrionário. A população é governada em grande parte pela consciência coletiva e pelo instinto de rebanho. Os indivíduos buscam proteção por meio do sentimento de pertencimento, mas há pouca integração genuína entre os grupos. A religião pode oferecer coesão limitada em certos níveis, mas o país ainda não pode ser considerado uma nação no sentido psicológico pleno.

2. Movimento em direção à integração. Grupos de pensadores iluministas começam a surgir e a influenciar a população em geral. A reflexão individual é estimulada, embora permaneça predominantemente emocional em vez de reflexiva. O impulso em direção à unidade é alimentado principalmente pelo patriotismo.

3. Integração da personalidade. Diferentes grupos e comunidades começam a se coordenar em torno de um senso compartilhado de identidade. As fronteiras e instituições nacionais são fortalecidas, e um número suficiente de indivíduos desenvolve autoconsciência, expressando os traços da personalidade coletiva — traços que podem ser expansivos ou limitadores. A nação se afirma internacionalmente, por meio da expansão, da competição ou do comércio. O sucesso e o orgulho muitas vezes levam à arrogância, reforçada pela propaganda.

À medida que essa fase se desenrola, chega-se a um ponto em que o fluxo de integração encontra resistência e a rigidez se instala, dando lugar a um processo de cristalização. Crises sociais, políticas e econômicas se acumulam, minando a confiança nas instituições. A colaboração enfraquece, o individualismo domina e o ideal de cidadania perde o sentido. Em resposta, partes da população tentam reviver o que é idealizado como as formas “mais gloriosas” do passado. O patriotismo degenera em nacionalismo extremo, caracterizado por uma identidade rígida e pela busca de bodes expiatórios entre estrangeiros ou minorias.

No nível individual, este ponto diz respeito à crise existencial que pode preceder o despertar espiritual. A ambição perde o sentido, o desejo diminui e surge um vazio interior. A crise leva o indivíduo à introspecção — uma virada que pode ser entendida como uma invocação das energias da Alma, seja consciente ou inconscientemente. Se a crise for resolvida, a luz da Alma gradualmente desponta no interior, revelando os próximos passos do processo.

A mesma dinâmica se aplica em nível nacional. Hoje, muitos países parecem estar no estágio de cristalização, que, sem uma visão espiritual orientadora, pode culminar em implosão. No entanto, quando os cidadãos respondem a um ideal compartilhado, inspirado pela Alma da nação, a transição para o próximo estágio pode emergir.

4. Alinhamento e contato com a Alma. Guiada por cidadãos iluminados que articulam um ideal convincente, a nação se compromete conscientemente a incorporá-lo.

Esses estágios não se desenrolam de forma uniforme. Em qualquer nação, indivíduos e grupos existem em diferentes níveis de consciência. Enquanto alguns indivíduos permanecem apegados a estágios anteriores e resistem à mudança, outros estão se preparando para o alinhamento da alma.

Aqueles que vislumbram e trabalham em direção ao quarto estágio são o que Assagioli chamou de “o grupo dos melhores cidadãos” (5): indivíduos que servem conscientemente à nação, resistindo à inércia, à fragmentação e à regressão nostálgica. Eles se assemelham muito ao que Bailey denominou “o Novo Grupo de Servidores do Mundo” — homens e mulheres motivados por um reconhecimento intuitivo do destino compartilhado da humanidade.

Como aqueles que se reconhecem como parte desse grupo podem contribuir para essas tarefas? O primeiro obstáculo é aquele identificado por Jung: o preconceito nacional. Mesmo quando sutil ou inconsciente, ele distorce a percepção e limita o pensamento inclusivo. Contudo, o preconceito é apenas um sintoma superficial. Subjacente a ele reside o medo — medo da perda, da mudança, do desconhecido e, em última instância, da dissolução da identidade.

Esse medo é apenas um sintoma de uma questão ainda mais profunda — nosso apego à ilusão da separação e da diferença, e nossa resistência à realidade da vida como um processo constante. Apegamo-nos à ilusão de identidades fixas e narrativas estáveis, apesar de a própria vida ser definida por processos e transformações constantes. Projetada coletivamente, essa resistência torna-se uma força poderosa que molda a história da humanidade, alimentando a ilusão de que a regressão a estágios anteriores de desenvolvimento é possível.

Uma tarefa central do “grupo dos melhores cidadãos”, portanto, é ajudar a mudar a orientação coletiva do medo para a confiança, da fixação para o raciocínio criativo e da exclusão para a síntese. Isso requer substituir o orgulho nacional pela humildade fundamentada no autoconhecimento, reconhecendo os pontos fortes e as limitações de uma nação, afirmando o valor de outras culturas e reconhecendo a interdependência. Dessa forma, esse grupo participará ativamente da cura das feridas psicológicas, morais e culturais que inibem a evolução nacional.

Em um esforço paralelo, esse grupo pode assumir um papel de liderança na orientação da sociedade por meio de uma reflexão contínua em todos os campos e em torno de uma questão fundamental: O que esta nação pode oferecer ao mundo em termos de qualidades espirituais? Essa questão desloca a atenção da competição para a contribuição e da autoafirmação para o serviço. Ela convida cada nação a identificar os valores que está singularmente em posição de incorporar, quaisquer que sejam. Também ajuda a nação a articular uma visão de seu futuro e a desenvolver um Modelo Ideal fundamentado nas qualidades espirituais de sua alma — um modelo que serve tanto como uma invocação dessas qualidades quanto como um roteiro para incorporá-las.

Ao liderarem o processo de integração nacional da Alma e da personalidade, o “grupo dos melhores cidadãos” prepara o terreno para o próximo passo evolutivo: a integração como Uma Humanidade. A autorrealização nacional culmina, portanto, não na dominação ou no isolamento, mas na participação consciente na evolução compartilhada da humanidade.

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(1) Cartas de C.G. Jung. Vol. 2, 1951-1961. Gerhard Adler et al. eds. Londres: Routledge, 1976. pp. 430-433.

(2) https://millercenter.org/the-presidency/presidential-speeches/september-1-2022-remarks-continued-battle-soul-nation.

(3])Maslow, A. “Eupsychia. The Good Society”. Journal of Humanistic Psychology 1, 2 (1961) p. 6.

(4) Maslow, A. The farther reachs of human nature. London: Penguin, 1971. p. 213.

(5) Citado por Uta Gabbay em Awaken the Will to Love: A Guide to Personal and Collective Transformation through Meditation and Psychosynthesis. Publicação independente, 2018. p.78.

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(EE) Eupsiquia, conceito cunhado por Abraham Maslow, refere-se à "melhor sociedade possível" que seres humanos saudáveis poderiam criar, focada na autorrealização, crescimento pessoal e valores humanos elevados. Diferente de utopia, a eupsiquia é uma utopia realista, baseada na possibilidade de que indivíduos evoluídos construam ambientes mais humanos, saudáveis e produtivos.

Principais Aspectos da Eupsiquia (Maslow):

1 - Definição: Originada do grego eu (bom/bem) e psyche (alma/mente), descreve uma cultura ou comunidade voltada para a saúde mental e o potencial humano.
2 - Foco na Autorrealização: Uma sociedade eupsíquica é projetada para que os membros alcancem seu "self" - essência interior, gostos e valores.
3 - Ambiente de Trabalho e Social: O conceito aplica-se à construção de ambientes de trabalho mais produtivos e saudáveis.
4 - Ideais: Maslow propôs a "Rede Eupsiquiana" para fomentar a cooperação e a superação de limitações humanas (guerra, ódio).
5 - Transcendência: A eupsiquia liga-se a uma visão otimista de crescimento contínuo e conexão humana.

O termo também é utilizado em contextos de psicologia clínica e organizacional para descrever centros de atendimento focados no autoconhecimento e desenvolvimento.

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