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OS TRABALHOS DE HÉRCULES


8º Trabalho

A Destruição da Hidra de Lerna
(Escorpião, 22 de outubro - 21 de novembro)

O Mito

[“Começando com Escorpião a definição do mito será escrita pelo Dr. Francis Merchant, uma vez que entre os papéis de A.A.B. não foram encontradas cópias dos trabalhos escritos pelo Tibetano. Ele usou o que havia de melhor para os detalhes da história, dispondo-a na cadência jâmbica do Velho Comentário. Outro material deixado por A.A.B. é usado como antes, com algumas necessárias condensações e nova redação.]

O Grande Ser Que Presidia, envolto em radiante calma, disse uma palavra. O Instrutor ouviu o comando dourado, e convocou Hércules, o filho de Deus que era também o filho do homem,

“A luz agora brilha no Portão de número oito”, disse o Instrutor. Na antiga Argos ocorreu uma seca. Amímona procurou a ajuda de Ne- tuno. Ele recomendou que ela batesse numa rocha, e quando ele o fez, começaram a correr três correntes cristalinas; mas logo uma hidra fez ali sua morada.
“Para além do Rio Amímona, fica o fétido pântano de Lerna. Neste pestilento lamaçal está a hidra, uma praga para as redondezas. Nove cabeças tem esta criatura, e uma delas é imortal. Prepara-te para lutar com esta asquerosa fera. Não penses que os meios comuns serão de valia; se uma cabeça for destruída, duas aparecerão em seu lugar”. Ansiosamente Hércules aguardava.
“Uma palavra de aconselhamento só, posso dar”, disse o Instrutor. “Nós nos elevamos, nos ajoelhando; conquistamos, nos rendendo; ganhamos, dando. Vai, oh! filho de Deus e filho do homem, e conquista”. Pelo Portão oito, então, Hércules passou.

O estagnado pântano de Lerna era um charco que desanimava quem dele se aproximasse. Seu mau cheiro poluía toda a atmosfera em um raio de sete milhas. Quando Hércules se aproximou, ele teve de fazer uma pausa, pois o simples odor por pouco o derrotava. As areias movediças eram uma ameaça e mais de uma vez Hércules rapidamente retirou seu pé para não ser sugado para dentro da terra que cedia.

Finalmente ele descobriu a cova onde vivia a monstruosa fera. Numa caverna de noite perpétua, jazia oculta a hidra. Dia e noite Hércules vagou pelo traiçoeiro pântano, aguardando um momento propício quando a fera se mostrasse. Em vão ele vigiava. O monstro permanecia dentro de sua fétida cova.

Recorrendo a um estratagema, Hércules embebeu suas setas em piche ardente e as despejou diretamente para o interior da caverna onde habitava a horrenda fera. Uma agitação e uma comoção então se seguiram.

A hidra, suas nove zangadas cabeças com uma respiração fumegante, emergiu. Sua cauda escamosa chicoteou furiosamente a água e a lama, salpicando Hércules. Com três braças de altura, o monstro ali estava, uma coisa de feiura tal que parecia como se tivesse sido feita de todos os piores pensamentos concebidos desde o começo dos tempos.

A hidra atacou Hércules e procurou envolver seus pés. Ele pulou para o lado e deu-lhe um golpe tão severo que logo decepou uma das cabeças. Mal esta horrorosa cabeça havia tocado o solo, quando duas cresceram em seu lugar. Repetidamente Hércules atacou o enraivecido monstro, mas ele ficava cada vez mais forte, não mais fraco, a cada assalto.

Então Hércules se lembrou do que lhe dissera o Instrutor, “nós nos levantamos, nos ajoelhando”. Pondo de lado sua clava, Hércules se ajoelhou, agarrou a hidra com suas mãos nuas e a ergueu. Suspensa no ar, sua força diminuiu. De joelhos, então, ele sustentou a hidra no alto, acima dele, para que o ar purificado e a luz pudesse fazer seu devido efeito. O monstro, forte na escuridão e no lodo, logo perdeu sua força quando os raios do sol e o toque do vento o atingiram.

Convulsivamente ele se debateu, um estremecimento passando por sua asquerosa estrutura. Seus esforços foram enfraquecendo pouco a pouco, até a vitória surgir. As nove cabeças caíram, depois, com as bocas escancaradas e olhos esbugalhados tombaram ao chão. Mas somente quando elas jaziam sem vida Hércules percebeu a cabeça mística que era imortal.

Então Hércules decepou a cabeça imortal da hidra e a sepultou, ainda ferozmente sibilando sob uma rocha.

Voltando, Hércules se apresentou ao Instrutor, “Conseguiste a vitória”, disse o Instrutor. “A luz que brilha no Portão oitavo está agora misturada com a tua própria luz”. Francis Merchant

Introdução

Mais uma vez encontramos variações nas versões do mito e não temos mais os elementos sobre o mito pelo Tibetano, para guiar-nos. A história de que a nona cabeça era a cabeça imortal parece derivada da clara afirmação do Tibetano de que havia três vezes três, ou nove testes. A versão usada por Francis Merchant no mito parece mais aceitável, ou seja, que as nove cabeças foram destruídas e então, a cabeça mística, imortal, apareceu. Mais tarde, a afirmação de que essa grande cabeça foi “sepultada sob uma rocha” dá campo para muitas reflexões. Talvez o uso da frase, “oculta sob a rocha da vontade”, seja revelador. Todas as versões afirmam que ela foi assim sepultada.

Alguns relatos dizem que Hércules queimou as cabeças, e que o fogo divino seria de fato necessário para essa destruição. Todavia, é impossível negar a poderosa representação do discípulo mundial neste supremo teste, mergulhado até os joelhos na humildade e erguendo o monstro (todos os males acumulados, erros, fracassos de seu longo passado) no ar do espírito, onde, por sua própria natureza, a hidra não podia viver, e assim foi abatida e morreu. O uso do fogo, no esforço preliminar, ainda conserva no quadro aquele símbolo.

Enquanto o sexo, sob a prova da unificação dos opostos e da dupla regência de Marte, tem seu lugar especial, a ênfase desta faceta única não é suficientemente inclusiva. Todos os pares de opostos têm de ser unificados neste grande signo, um signo avançado do discípulo integrado, consciente; não um signo sórdido do homem não evoluído, como muitas vezes se pensa. Mais uma vez, é preciso ler cuidadosamente e distinguir entre as pessoas na roda comum e os discípulos na roda reversa. Tudo isso submetido à avaliação e reflexão do leitor, não pela autoridade imposta.

Análise Psicológica do Mito

Foi dito a Hércules que encontrasse a hidra de nove cabeças que vivia num fétido e úmido pântano.

Este monstro tem sua contraparte subjetiva. Ele habita nas cavernas da mente. Na escuridão e lama dos recessos obscuros da mente, ele floresce.

Profundamente alojada nas regiões subterrâneas do subconsciente, ora calma, ora explodindo em tumultuado frenesi, a fera estabelece morada permanente. Não é fácil descobrir sua existência. Muito tempo se passa antes que o indivíduo se dê conta de que ele está nutrindo e sustentando uma criatura tão feroz. Os dardos ardentes da aspiração flamejante devem ser disparados antes que sua presença se revele.

Lutar contra um inimigo tão formidável é de fato uma tarefa heroica para um filho do homem, mesmo que ele seja também um filho de Deus. Uma cabeça decepada, e eis que outra cresce em seu lugar. Toda vez que um desejo ou pensamento baixo é eliminado, outros tomam o seu lugar.

Hércules faz três coisas: ele reconhece a existência da hidra, procura pacientemente por ela, e finalmente a destrói. E necessário ter discriminação para reconhecer sua existência; paciência para descobrir sua toca; humildade para trazer lodosos fragmentos do subconsciente à superfície, e expô-los à luz da sabedoria.

Enquanto Hércules lutou no pântano, em meio à lama e às areias movediças, ele foi incapaz de dominar a hidra. Ele teve de erguer o monstro no ar; isto é, deslocar seu problema para outra dimensão, para poder resolvê-lo. Com toda humildade, ajoelhando-se na lama, ele teve de examinar seu dilema à luz da sabedoria e na elevada atmosfera do pensamento que buscava. Dessas considerações, podemos deduzir que as respostas para muitos de nossos problemas somente vêm quando um novo foco de atenção é alcançado, uma nova perspectiva estabelecida.

É-nos dito que uma das cabeças da hidra é imortal. Isto implicaria que toda dificuldade, por mais terrível que possa parecer, contém uma joia de grande valor. Nenhuma tentativa para dominar a natureza inferior e descobrir aquela joia, jamais será fútil.

A cabeça imortal, separada do corpo da hidra, é sepultada sob uma rocha. Isto implica que a energia concentrada que cria um problema ainda permanece, purificada, redirecionada, e aumentada após a vitória ter sido conquistada. Tal poder deve então ser corretamente canalizado e controlado. Sob a rocha da vontade persistente, a cabeça imortal se toma uma fonte de poder.

As Nove Cabeças da Hidra

A tarefa atribuída a Hércules tinha nove facetas. Cada cabeça da hidra representa um dos problemas que assaltam a pessoa corajosa que busca conquistar o domínio de si mesmo. Três dessas cabeças simbolizam os apetites associados com o sexo, conforto e dinheiro. A trinca seguinte diz respeito às paixões do medo, ódio e desejo de poder. As últimas três cabeças representam os vícios da mente não iluminada: orgulho, separatividade e crueldade. (ver Astrologia Esotérica, pg. 205 e seguinte)

As dimensões da tarefa que Hércules empreendeu são assim claramente aparentes. Ele teve de aprender a arte de transmutar as energias que tão frequentemente precipitam os seres humanos em tragédias catastróficas. As nove forças que desde o princípio dos tempos trouxeram indizível destruição entre os filhos dos homens, tiveram de ser redirecionadas e transmutadas.

Os homens ainda aspiram à conquista espiritual que Hércules teve êxito em alcançar. Os problemas que surgem do mau uso da energia conhecida como sexual ocupam nossa atenção a cada instante. O amor ao conforto, à luxúria e às posses externas ainda cresce. A luta pelo dinheiro como um fim em vez de um meio reduz as vidas de incontáveis homens e mulheres. Assim, a tarefa de destruir as primeiras três cabeças continua a desafiar as forças da humanidade, milhares de anos depois de Hércules haver realizado seu extraordinário feito.

As três qualidades do caráter que Hércules tinha de expressar eram a humildade, a coragem e a discriminação: humildade, para ver seu compromisso objetivamente e reconhecer suas falhas; coragem, para atacar o monstro que jazia enroscado nas raízes de sua natureza; discriminação, para descobrir uma técnica para enfrentar seu inimigo mortal.

Desvelar a cloaca dos desejos inferiores e impulsos egoístas que apodrecem na natureza subconsciente tem sido o trabalho da moderna psicanálise. A técnica desta última traz os dados insípidos dos impulsos reprimidos à superfície, é verdade, mas muitas vezes para neste ponto. O indivíduo se conscientiza de que um monstro jaz oculto nas áreas subterrâneas da consciência; entretanto, sente-se frustrado e confuso ao tentar lidar com esse formidável inimigo.

Hércules invoca uma luz mais brilhante do que a da mente que analisa. Ele procura elevar seu problema a uma dimensão maior, em vez de agitar-se infinitamente no pantanal do subconsciente. Tentando ver seu dilema à luz daquela sabedoria a que chamamos de alma, ele a enfrenta a partir de um novo ângulo de visão. Assim o fazendo, ele quebra o poder da hidra, e finalmente subjuga a fera.

O Combate à Hidra: Versão Moderna

Uma consideração dos nove problemas com que se defronta a pessoa nos dias atuais ao procurar matar a hidra poderia lançar luz nas estranhas forças em atuação nesse barril de explosivos, a mente humana.

1. Sexo. A afetação vitoriana e a lascívia psicanalítica são ambas indesejáveis. Sexo é uma energia. Ele pode ser inibido sem restrições ou sublimado. A repressão ou inibição não são soluções verdadeiras; a promiscuidade amaldiçoa a vida e torna um homem escravo de uma paixão que o domina. A sublimação envolve o uso da energia sexual numa tentativa criativa.

A transmutação das energias humanas abre um campo de especulação e experimentação. Na ciência física, a energia do movimento pode ser transformada em eletricidade, e a do calor em movimento. Até que ponto, então, podem ser redirecionadas as energias humanas? Antes de tudo, a energia da matéria, representada pelo alimento, é obviamente usada para produzir a energia do movimento. Poderá a impulsionadora energia das emoções ser, por analogia, recanalizada para a atividade do pensamento? Poderá a energia das agitadas paixões encontrar expressão como uma aspiração? Poderão os impulsos e compulsões da natureza humana ser de tal maneira transmutados que se possam transformar em forças benéficas? Poderá a energia que produz o pensamento ser utilizada como o poder de síntese que resulte em um senso de identificação com todas as coisas vivas?

A experiência de Hércules indica que tais possibilidades existem, e que aquele que subjugar a hidra das paixões e a mente separativa deverá resolver problemas dessa natureza.

2. Conforto. Um eterno senso de insatisfação impulsiona o homem para níveis cada vez mais altos da conquista espiritual. O conforto é muitas vezes um freio a tal conquista. Obstruído e inativado pelo enganoso senso de conforto, o espírito fenece.

O prisioneiro do conforto afunda-se de volta na apatia, esquecendo-se das lutas e tentativas que temperam a aguçada lâmina da aspiração espiritual. A vontade de buscar, o impulso que conduz à solução do mistério da vida, é oposto à inclinação narcisista de fazer do conforto um motivo central na vida.

3. Dinheiro. A acumulação do dinheiro é uma paixão fundamental que jaz por trás das atividades dos povos e das nações. Os valores éticos e humanos são desprezados na louca tentativa de juntar o ouro que confere poder. Inevitavelmente, as escolhas são determinadas pelas considerações do dinheiro em vez de pelas convicções espirituais ou princípios éticos. O impulso para acumular a riqueza é insaciável. Não importa quanto uma pessoa possa ter, ainda avidamente necessita mais.

Um efeito paralisante desta fome de distorção mental é a egocentralização. O indivíduo sofrendo desta aflição muitas vezes deseja receber e não dar nada. O estado do universo é determinado por ele pelo que consegue adquirir. Ele se considera como um ponto terminal, e não admite qualquer responsabilidade em conferir a outros os benefícios que ele próprio recebeu.

Não seria para a riqueza intelectual e o tesouro espiritual que deveríamos dirigir nossos esforços? Eles podem ser partilhados com todos, e aquele que dá tudo o que tem, se sente mais rico do que era antes. O impulso para adquirir bens materiais pode algum dia ser transmutado no desejo de acumular conhecimento e a vontade de adquirir as joias do espírito.

4. Medo. Os fantasmas do medo atormentam os filhos dos homens de inúmeras maneiras. Essas formas ilusórias tornam o homem perplexo e o assustam, agindo como grilhões em seus pés e uma pedra de moinho em seus pescoços. Muitas pessoas encolhem-se covardemente quando assombradas pelos angustiantes medos do ridículo, do desconhecido, do fracasso, da velhice, do ocaso e da morte.

Podem os medos ser eliminados? A experiência de Hércules sugere que podem ser superados pela elevação da consciência a um ponto de integração superior. Quando a vida de uma pessoa é refocalizada na direção de um propósito mais elevado, as sombras ameaçadoras do medo são pressionadas de volta para a periferia do pensamento. Enquanto os indefinidos monstros do medo espreitam no crepúsculo do subconsciente, elas terão o poder de fazer empalidecer a face e congelar o coração. Um soldado, ao tentar derrotar o inimigo, arrisca a própria vida. A mãe, arrebatando seu filho do perigo, esquece seus próprios medos. O motorista, descendo uma estrada em alta velocidade, põe em perigo a vida e corre atrás da aventura. Essas pessoas focalizaram sua atenção acima do ponto onde o medo é encontrado. O indivíduo que se orienta espiritualmente centraliza seu pensamento em um nível muito rarefeito para se deparar com o medo.

5. Ódio. O ódio está enraizado na negação. É o oposto do desejo de união. Elevado a uma dimensão superior, o ódio se transmuta em repúdio a tudo o que é irreal. Quando o ódio é despido de todo conteúdo emocional, ele pode tornar-se uma energia que leva um homem a rejeitar a forma, em favor da vida que a anima. No arco inferior, ele é seguramente destruidor; no superior, quando totalmente purificado, ele pode ser visto como o lado anverso do amor.

6. Desejo de poder. Durante os últimos séculos o homem libertou a energia do poder muito mais do que a do amor. O resultado foi o desequilíbrio. O poder, quando dissociado do amor, é uma força corruptora. Muitas tragédias nas relações humanas resultam do descontrolado desejo de dominar as vidas dos outros, de prescrever e regular sua conduta. Aquele que substitui as considerações do poder pelos princípios éticos engenha uma aspiração perpétua. Os altos ideais que têm servido como faróis ao longo do século, a fraternidade, a cooperação, o idealismo, brilham tenuemente enquanto o poder é o fator determinante na sociedade.

7. Orgulho. As paredes construídas pelo orgulho encarceram o homem com mais segurança do que as barras de uma prisão. Aprisionado pelas pesadas correntes dos pensamentos da exaltação em si mesmo, ele olha para os outros seres humanos com condescendência. Assim ele enfraquece os laços que unem todos os homens em indissolúvel fraternidade. Pondo-se à parte, ele avança mais e mais para além do círculo das afinidades humanas.

Hércules cai de joelhos ao lutar com a hidra, simbolizando nesta atitude o espírito de humildade que deve ser alcançado. A exaltação das inclinações da personalidade deve ser substituída pela expressão das tendências ao autossacrifício.

8. Separatividade. A mente analítica divide e subdivide, premiando a parte sobre o todo. Uma ênfase maior é posta nas indicações da diversidade em vez de no fato dominante da unidade. Tal pensamento fragmentado milita contra o impulso para a síntese.

A atitude separatista é mais consciente das diferenças entre os homens do que das similaridades; ela concebe a religião como uma série de unidades antagônicas em vez de uma expressão única do impulso espiritual; para ela, a oposição de classes na sociedade é mais importante do que a humanidade comum que faz dos homens, irmãos; ele encara a terra como uma série de nações díspares, em vez de como um mundo só.

Hércules tinha de ver a hidra como um monstro, não como uma fera com nove diferentes cabeças. Enquanto ele procurou decepá-las uma a uma, ele continuou a lutar sem êxito. Quando, finalmente, ele lidou com o monstro como uma unidade, conquistou a vitória.

9. Crueldade. A satisfação que os homens experimentam ao ferir outros homens é um testemunho da existência das más tendências que corroem a mente. O prazer em causar o sofrimento em nossos semelhantes é uma doença. Esta feia cabeça da hidra deve ser destruída de uma vez por todas antes que um homem se possa declarar como um ser humanizado. A vida moderna oferece muitos exemplos de brutalidade e atrevida crueldade. Em muitas famílias, crianças sensíveis são escarnecidas, ridicularizadas e depreciadas pelos que se recusam a se darem ao trabalho de compreendê-las; maridos e esposas estão diariamente proclamando-se em divórcio apelando para o argumento de que são vítimas de crueldade mental; as cortes e hospitais produzem evidência cumulativa do prazer em se atormentar reciprocamente. “Nós o fazemos pela excitação”, disse recentemente um adolescente, “não pelo dinheiro”.

Quando esse monstro da crueldade é sustentado no alto, no ar, à luz da razão e da compaixão, ele perde sua força. A tarefa de traduzir a energia da crueldade por compaixão ativa ainda permanece. Em dois testes Hércules “matou” quando ele deveria ter amado, mas em Escorpião ele alcançou sua transformação arrancando de sua própria natureza as raízes da tendência que o poderia ter inutilizado para as demais empresas.

Esta é a conquista espiritual de Hércules, psicologicamente falando, neste trabalho. Ele a admitiu luz no sombrio recesso do subconsciente, atracou-se com as monstruosas forças que chafurdam no subliminar lodo e venceu os inimigos de sua própria casa. Um processo de limpeza teve lugar, e Hércules agora está pronto para encetar a nova tarefa na qual terá de demonstrar sua habilidade para controlar os poderes e potências da mente.

Aplicação à Vida
(Condensação de uma conferência de A. A. B.)

Escorpião é o trabalho que de certos ângulos nos tem absorvido e nos absorverão por longo tempo porque, diferentemente de Hércules, ainda não vencemos a hidra. Na maioria, estamos ainda ocupados com os métodos fúteis com que ele fez as primeiras tentativas neste teste.

Este é primariamente o problema da humanidade, mas individualmente estamos tão profundamente ocupados com a nossa própria evolução que nos esquecemos de uma visão mais abrangente. Se pretendermos escalar até o topo da montanha em Capricórnio, precisamos perder de vista a personalidade e começar a atuar como almas.

Em meus momentos mais elevados eu teoricamente sei quais deveriam ser minhas atitudes e ações, mas continuo a me confundir. Por que? Por uma lei fundamental, que tudo na natureza evolui sequencialmente, passo a passo, linha após linha, preceito após preceito. Poderia ser uma experiência devastadora, se eu corrigisse minha personalidade de maneira tão rápida que a força toda de minha alma pudesse atuar. Eu seria derrubada pela força e pela luz, pela onisciência e onipotência de minha alma, Eu não saberia quê fazer com o que eu iria dispor. Isso não quer dizer que tudo o que eu teria a fazer seria sentar-me e deixar a lei agir, repousar sobre meus remos e a evolução me conduzindo, até que em algum momento eu alcançasse a conquista espiritual. Significa que atualmente eu me encontro no campo de batalha, Kurukshetra, e que irei enfrentar esta hidra em Escorpião, pois é com este trabalho que a humanidade hoje está absorvida.

O verdadeiro teste de Escorpião nunca tem lugar antes que o estudante fique coordenado, antes que a mente, a natureza emocional e a natureza física esteja funcionando como uma unidade. Então o homem entra em Escorpião onde seu equilíbrio é subvertido e o desejo parece exagerado, quando ele pensava que se havia livrado dele. Ele é fluídico, e ele pensava que estava equilibrado. A mente, que ele estava certo de estar começando a controlar a sua personalidade não parece agir. Ao estudarmos Hércules, nós nos vemos. Lembrem-se de que há três coisas que o estudante tem de fazer em Escorpião. Ele tem de demonstrar, não para a Hierarquia, não para o observador, mas para si próprio, que ele tem de superar a grande ilusão; que a matéria, a forma, não mais pode detê-lo. Hércules tinha de demonstrar para ele que a forma era simplesmente um canal de expressão pelo qual ele contataria um grande campo de manifestação divina. Lendo alguns livros sobre a religião poder-se-ia chegar à conclusão de que a forma, a emoção e a mente são coisas más, indesejáveis, das quais nos deveríamos livrar. Para minha mente, é fundamental reter o pensamento que se eu me livrar da forma física, fico sem meios de contato com a expressão divina, porque Deus está em meu próximo, no mundo físico, tangível, no qual eu vivo, e se eu não tiver forma, nenhum dos meus cinco sentidos, eu me isolo de Deus em uma forma. A personalidade não é para ser morta, nem pisoteada; ela deve ser reconhecida como um triplo canal de expressão para três aspectos divinos. Tudo depende de se nós usamos a tríplice personalidade para fins egoístas ou divinos. A grande ilusão é a utilização daquela personalidade para fins egoístas. Para resumir a história inteira, no signo de Escorpião, o Ego está determinado a matar o pequenino ego para ensinar-lhe o significado da ressurreição.

Que é a Morte?

Há três signos de morte no zodíaco; três grandes mortes ocorrem à medida que avançamos a volta do campo da vida. Em Câncer nós temos a morte do ser elemental (especificamente, o homem) para que o ser humano possa vir à existência. Através do Zodíaco sempre podemos dizer “Aqui está a morte para que...”

Sempre, a morte é uma entrada em uma vida mais plena, uma realização e um enfoque mais amplos. É a morte da personalidade para que a alma possa assumir a personalidade e expressar a vida por seu intermédio. Em Peixes nós temos a crucificação, a morte de um salvador mundial porque ele cumpriu com perfeição sua função.

Na astrologia a morte pode significar muitas coisas. Talvez possa significar que iremos morrer. Esta é uma interpretação. Talvez que iremos morrer devido a uma velha emoção. Ela partiu - “morte”. Algumas ideias cristalizadas, por muito tempo conservadas, dogmas que governaram nossas atividades até agora simplesmente acabaram e nos perguntamos de que maneira um dia pudéramos ter pensado assim. Aquela linha de pensamento morreu. É válido lançar mão do retrato grande e aprender a interpretá-lo nos vários aspectos da personalidade.

Escorpião, o Signo da Magia

Magia não significa fazer coisas curiosas; a verdadeira magia é a expressão da alma através da forma: A magia negra é o uso da forma para alcançarmos o que quisermos para a forma. A magia negra é o egoísmo sem adulteração. A magia branca é o uso da alma para fins de elevação da humanidade, utilizando a personalidade. Por que é Escorpião o signo da magia? Um antigo livro diz: “Virgem é a feiticeira, ela prepara os ingredientes que são pesados nos pratos da Balança, e em Escorpião o trabalho mágico é desenvolvido”. Em termos dos aspirantes isso significa que em Virgem eu terei descoberto o Cristo em mim mesmo, que no passar do tempo minha natureza forma alimentou um Cristo; na Balança eu flutuo entre os pares de opostos, a forma e a natureza crística, até que conquisto o equilíbrio e o Cristo e a matéria se acham num estado de equilíbrio. Em Escorpião eu sou testado para ver quem vai triunfar, a forma ou o Cristo, o Eu Superior ou o eu inferior o real ou o irreal, a verdade ou a ilusão. Isto é o que está embutido na história de Escorpião.

As Constelações e as Estrelas

Touro, que é o oposto de Escorpião, é o signo do desejo expresso predominantemente no plano físico como sexo. No coração de Escorpião encontramos Antares, uma das quatro estrelas reais, uma estrela vermelha. Vermelho é a cor do desejo e esta é a mais rubra estrela nos céus; simboliza aquele vermelho do desejo que subjaz a toda manifestação da vida divina.

Em Gêmeos, ao colher as maçãs douradas, Hércules também lutou com Antares. Aqui novamente em Escorpião estamos diante da estrela vermelha. Por que? Porque o problema da humanidade neste nosso grande sistema solar é o da atração entre os opostos (significando desejo). Aquila, a águia, é intercambiável com Escorpião. A águia tem muito a ver com os Estados Unidos e a seta de Sagitário, o signo seguinte, é também dominante no selo dos Estados Unidos. Aquila, a águia, é o pássaro fora do tempo e do espaço e ao lutar com a hidra, Hércules olha para o alto, vê a águia e se lembra de que ele veio à encarnação e que voará de volta para onde veio.

Há três constelações conectadas com este signo que são extraordinariamente interessantes. Primeiro, há Serpens, a serpente da ilusão, a serpente que encontramos no Genesis, que iludiu Eva. A segunda é Ophiucus, o homem que luta com a serpente. O antigo zodíaco exibe a serpente nas mãos desse homem. Ele a agarra com ambas as mãos e pisa em seu coração, que é a estrela vermelha do desejo. Ao fazer isso, ele olha na direção da constelação que vimos em Balança, coroa. Assim nós vemos a personalidade, simbolizada por Ophiucus, lutando com a serpente da ilusão, a coroa à qual ele aspira, conservada diante dele.

A terceira constelação é chamada Hércules e representa o aspirante olhando, não para a coroa, mas para a águia, Aquila. A personalidade olha para a coroa, mas diz, “Estou enfrentando um tempo tão difícil, mas algum dia terei minha coroa”, Hércules, o discípulo, não está preocupado com a coroa, ele olha para a águia, o aspecto espiritual. Ele se ocupa com aquele maravilhoso símbolo da luz emergindo, que torna toda vitória possível.

Mantenha seu olhar na águia; atraia o fogo; não olhe para o chão; centre-se na divindade. Alice A. Bailey

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