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DE BELÉM AO CALVÁRIO - As Iniciações de Jesus


A Quinta Iniciação:

A RESSURREIÇÃO E ASCENSÃO

PENSAMENTO-CHAVE

“Fora do Cristo nós não sabemos que é nossa vida nem nossa morte; não sabemos que é Deus nem que somos nós mesmos.” (Pascal: Pensamentos.)

Esta iniciação é dividida em duas metades e não sabemos muito sobre nenhuma delas. O detalhe do episódio da Ressurreição, ou crise, na vida do Cristo, não foi narrado pelos escritores do Novo Testamento. Não lhes foi possível saber mais. Após a Crucificação eles relatam pouco da própria vida do Cristo, ou com que Ele esteve ocupado entre o tempo em que novamente se ergueu, até quando deixou a companhia dos Apóstolos e “ascendeu aos Céus” - uma expressão simbólica que pode significar muito pouco para nós. A iniciação crucial, de importância para que a humanidade atual a compreenda, é a quarta. Somente quando tivermos dominado o significado do serviço e do sacrifício, poderá o fato da imortalidade e seu verdadeiro sentido ser revelado para nós. Como o Cristo se elevou, quais os processos desenvolvidos, em que corpo exatamente apareceu, não podemos dizer. Os Apóstolos nos asseguram que parecia o corpo do qual se tinha previamente utilizado, mas se era o mesmo corpo, milagrosamente ressurreto; se era Seu corpo espiritual, que pareceria ser o mesmo aos olhos físicos daqueles que O amavam, ou se Ele construíra um corpo inteiramente novo, nas mesmas linhas gerais que o anterior, não nos é possível dizer; nem nos é possível afirmar que a visão dos discípulos não fosse supranormal ou que, através da intensificação de Sua divindade expressa, o Cristo tivesse estimulado de tal maneira sua visão interna que eles vissem de maneira clarividente, ou em uma outra dimensão. O fato importante foi que Ele de fato se ergueu, novamente, que foi visto por muitos, e que o fato de Sua ressurreição foi creditado nas mentes de Seus amigos e pelos dois ou três séculos após Sua partida.

A psicologia dos discípulos é a melhor prova que temos da realidade de sua convicção de que a morte não poderia deter o Salvador e que após a morte Ele esteve presente e convivendo com eles. É difícil alcançarmos esta alta conquista na consciência, que eles demonstraram. Aparentemente, o mundo deles tinha acabado na Cruz. Cristo aparentemente fracassara, e em vez de ser o divino Filho de Deus e Rei dos Judeus, não passava de um homem comum, condenado por traição e punido como um malfeitor comum. O que devem ter sofrido durante os três dias de Sua ausência não é difícil de imaginar. A ausência de esperança, o desespero, a perda de confiança neles próprios e de prestígio entre seus amigos; a causa pela qual tinham estado tão prontos a se dedicarem, ao errarem com Cristo de lugar a lugar na Terra Santa, tinha acabado e se abatido. Seu Líder estava desacreditado. Então, algo aconteceu que alterou toda a tendência do pensamento deles. Tudo que de confiança, esperança e propósito, fora perdido, foi restaurado e os primeiros poucos séculos da história cristã (antes que a teologia desviasse a interpretação, e assim alterasse o Evangelho do amor num culto de separação) nos revelou:

“... um grupo de homens e mulheres cheios de confiança, entusiasmo e coragem, prontos a enfrentar a perseguição e a morte, entusiásticos missionários. Que lhes deu este novo caráter? Não muito tempo antes, alguns deles tinham fugido assustados ante a primeira ameaça de perigo pessoal. Quando Jesus foi crucificado eles tinham perdido o último raio de esperança de que ele pudesse provar ser o Cristo. Ao ser colocado na tumba, o Cristianismo fora também enterrado e sepultado. Agora encontramos estes homens e mulheres, poucas semanas mais tarde, absolutamente mudados. Não que haja entre eles alguma tênue volta de esperança. Todos estão inteiramente certos de que Jesus é realmente o Cristo. Que aconteceu para causar tal transformação? A resposta deles é unânime: no terceiro dia, ele se levantou dentre os mortos.” (1)

“O Cristo se levantou”, é seu grito, e porque Ele se ergueu o reino de Deus pode continuar na terra, e Sua mensagem de amor pode ser amplamente distribuída. Eles sabem agora, passada toda controvérsia, que Ele superou a morte e que nos anos que estavam à frente veriam a morte ser vencida. Que eles esperavam um reino imediato e que esperavam ver de fato a imortalidade universalmente reconhecida, é evidente de seus escritos e seu entusiasmo. Que estavam enganados, quase dois milênios de Cristianismo o provaram. Não somos ainda cidadãos de um reino divino definitivamente manifestando-se na terra, o medo da morte é tão forte como sempre e o fato da imortalidade é ainda apenas uma fonte de especulação para milhões. Mas o que falhou foi o seu senso do tempo, e sua incapacidade para compreender os lentos processos da natureza. A evolução se movimenta lentamente, e somente hoje é que estamos verdadeiramente na iminência de demonstrar o reino de Deus na terra. Porque este é o fim de uma era, sabemos que não teremos de esperar muito tempo para que o poder que a morte tem sobre o ser humano e o terror que o anjo da morte inspira, desapareçam. Eles desaparecerão porque consideraremos a morte apenas como um outro degrau no caminho para a luz e a vida e compreenderemos que, como a vida do Cristo se expressa nos seres humanos e através deles, eles demonstrarão para nós, e no mundo, a realidade da imortalidade.

A chave para a superação da morte e para os processos de compreensão do significado e da natureza da eternidade e da continuidade da vida somente poderá ser revelada com segurança, quando o amor tiver dominado a consciência humana e onde o bem de todos, e não o egoísta bem do indivíduo, vier a ser a suprema preocupação. Somente através do amor (e do serviço como a expressão do amor) pode a verdadeira mensagem do Cristo ser compreendida e os homens chegarem à alegre ressurreição. O amor nos torna mais humildes e ao mesmo tempo mais sábios. Ele penetra no coração da realidade e tem a faculdade de descobrir a verdade oculta por uma forma. Os primitivos cristãos eram simples desta maneira porque eles se amavam, porque amavam a Cristo e ao Cristo interno em cada um. O Dr. Grensted assinala isto nas seguintes palavras, dando-nos um belo resumo da atitude dos primitivos cristãos e de seu enfoque do Cristo e da vida no mundo, naqueles dias entusiásticos:

“Eles falavam em termos simples de Deus. Não pensavam de Jesus de Nazaré como um experimento crucial. Eles O conheciam como Amigo e Mestre, e lançavam todo o seu ser no entusiasmo de Sua amizade e serviço. Sua pregação eram as boas novas sobre Jesus. Admitiam que os homens já entendessem algo quando eles falavam de Deus, e, sem desafiar a herança que tinham recebido do Judaísmo, punham lado a lado com ele o Jesus a quem tinham conhecido vivo, morto e vivo novamente. Tinham participado muito mais do que uma vez, dos inexplicáveis milagres, curas e vozes e de um estranho domínio sobre a própria Natureza e, finalmente, uma conquista da morte. Se nos tivessem contado, e ao mundo, apenas estas coisas, teriam recebido crédito. Tais histórias sempre tiveram receptividade. E os homens ainda não teriam sabido mais nada sobre o significado de Deus. Mas sua experiência tinha sido a de uma Amizade tal, como o homem jamais conhecera, de desastrado fracasso e de uma capacidade de perdoar além de toda crença e de uma vida nova, livre, criativa. Nada de tudo isso fora da própria conquista deles. Sabiam que eram homens renovados, e sabiam que o modo de sua renovação fora o amor. Esta fora uma providência, um nascimento, maior e mais significativo do que qualquer coisa que os judeus jamais haviam atribuído ao Deus-Criador. Entretanto, eles não podiam admiti-lo senão ao Seu trabalho, uma vez que Deus, como toda sua tradição nacional ensinava, é Uno. Ela interpretava para eles, como poderíamos dizer da maneira mais cautelosa, a realidade criativa à qual eles, com todos os homens, haviam encarado com incerteza e mesmo com medo. Daí em diante a hipótese central que os homens chamam Deus foi conhecida como amor e, em toda parte, Ele se manifestou até o ponto em que o amor passara do Cristo para os membros da comunidade crista.” (2)

Cristo se levantara e, por Sua Ressurreição, provara que a humanidade tinha em si a semente da vida e que não havia morte para o homem que pudesse acompanhar os passos do Mestre.

No passado, estando inteiramente ocupados com a apreciação da Crucificação, conseguimos esquecer o fato da Ressurreição. Entretanto, no Dia da Páscoa, no mundo inteiro, os crentes de toda parte expressam sua crença no Cristo elevado e na vida de além-túmulo. Discutiu-se segundo muitos ângulos quanto à possibilidade de Sua ascensão e se Ele ascendeu como um ser humano ou como o Filho de Deus. Houve grande preocupação em provar que, porque Ele elevou-se novamente, também nós nos elevaremos, desde que acreditemos n’Ele. Para satisfazer à necessidade teológica de provar que Deus é amor, inventamos um lugar de disciplina que recebeu muitas denominações, tais como purgatório, ou os vários estágios das diferentes crenças no caminho dos espíritos que partiram, para os céus, porque tantos milhões morrem, ou morreram, sem jamais terem ouvido do Cristo. Por isso, a crença n’Ele como uma figura histórica não é possível para eles. Envolvemos tais doutrinas como a imortalidade condicional, e a expiação através do sangue de Jesus, num esforço para glorificar a personalidade de Jesus e salvaguardar os que acreditavam no Cristo e para reconciliar as interpretações humanas com a verdade dos Evangelhos. Ensinamos a doutrina do fogo do inferno e da punição eterna, e depois tentamos ajustá-la à crença geral de que Deus é amor.

Contudo, a verdade é que Cristo morreu e levantou-se novamente porque Ele era a divindade imanente num corpo humano. Através dos processos da evolução e da iniciação, Ele demonstrou-nos o significado e o propósito da vida divina presente n’Ele e em todos nós. Porque Cristo era humano, se levantou novamente. Porque era também divino, Ele se levantou novamente e, na representação do drama da ressurreição, Ele nos revelou aquele grande conceito da continuidade do desenvolvimento que foi sempre a tarefa dos Mistérios, de todos os tempos, revelar.

Repetidamente verificamos que os três episódios relatados nos Evangelhos não são acontecimentos isolados na vida de Jesus de Nazaré, mas que eles se tinham passado repetidamente nos lugares secretos dos Tempos dos Mistérios, desde a aurora dos tempos. Os Salvadores do passado foram todos sujeitos aos processos da morte, de alguma maneira, mas eles todos se ergueram novamente ou foram transladados para a glória. Nas cerimônias de iniciação, este sepultamento e ressurreição no final dos três dias era uma cerimônia familiar. A história nos conta de muitos desses Filhos de Deus que morreram e se ergueram novamente, para finalmente ascender aos Céus. Encontramos, por exemplo, que “as Exéquias de Adônis eram celebradas em Alexandria (no Egito) com extremo aparato. Sua imagem era carregada com grande solenidade até uma tumba, que servia aos fins de lhe serem prestadas as últimas honras. Antes de cantarem sua volta à vida, havia ritos fúnebres celebrados em honra ao seu sofrimento e à sua morte. A grande ferida que ele recebera era mostrada, assim como era exibido o ferimento provocado no Cristo, pela ponta da lança. A celebração de sua ressurreição fora fixada em 25 de março.” (3) Há a mesma lenda ligada aos nomes de Tammuz, de Zoroastro, de Esculápio. A este último, Ovídio dirigiu as seguintes palavras:

“Saudações, Grande Médico do mundo!
Saudações, poderoso Infante que no porvir
Curará as nações e defraudará o túmulo.
Rápido seja Teu crescimento,
Teus ilimitados triunfos Fazem crescer os reinos e aumentar a humanidade.

Tua ousada arte animará os mortos,
E atrairá sobre Tua culpada cabeça o trovão;
Então morrerás, mas da morada das trevas
Te elevarás vitorioso e serás por duas vezes Deus.” (4)

Essas palavras poderiam ter sido perfeitamente dirigidas a Cristo e servem para indicar a antiguidade do Ensinamento do Mistério que, com indissolúvel continuidade, revelou a divindade no homem e lhe mostrou o Caminho de um Salvador. Mas nos tempos antigos esses mistérios eram representados em segredo, e os rituais de iniciação eram somente administrados àqueles que eram considerados aptos a atravessar as cinco grandes experiências do Nascimento até a Ressurreição. A condição ímpar do trabalho do Cristo esteve no fato de que Ele foi o primeiro a representar os ritos cerimoniais e rituais de iniciação inteiros, publicamente, diante do mundo todo, dando assim à humanidade uma demonstração da divindade centrada numa só pessoa, de modo que todos pudessem ver, pudessem conhecer, crer e seguir Seus passos.

As mesmas histórias são relatadas a respeito de Hércules, de Baldur, de Mitras, de Baco e de Osíris, para mencionar apenas uns poucos de um grande número. Um dos primitivos Pais da Igreja, Firmicus Maternus, nos relata que os mistérios de Osíris guardavam estreita semelhança com os ensinamentos cristãos e que após a ressurreição de Osíris seus amigos se regozijam juntos, dizendo, “Nós o encontramos.” Annie Besant põe isso em destaque numa iluminadora passagem:

“Nos Mistérios Cristãos - como nos antigos Egípcios, Caldeus, e outros, - havia um simbolismo externo que expressava os estágios pelos quais o homem estava passando. Ele era levado a uma câmara de Iniciação, e era estendido no chão com os braços estendidos, algumas vezes sobre uma cruz de madeira, outras vezes meramente no chão de pedra, na postura de um homem crucificado. Ele era então tocado com o tirso sobre o coração - a ‘lança’ da crucificação e, deixando o corpo, penetrava nos mundos do além, o corpo caindo num profundo transe, a morte do crucificado. O corpo era então colocado num sarcófago de pedra e ali deixado, cuidadosamente guardado. Neste intervalo o próprio candidato se encontrava primeiro atravessando as estranhas e obscuras regiões chamadas “o coração da terra”, e em seguida o monte celestial, onde ele se revestia do perfeito corpo da bem-aventurança, agora plenamente organizado como um veículo de consciência. Nele, ele voltava ao corpo de carne, para reanimá-lo. A cruz sustentando aquele corpo, ou o corpo rígido e em transe, se não tivesse sido usada uma cruz, era retirado do sarcófago e colocado sobre uma superfície inclinada, de frente para o leste, pronto para o nascer do sol no terceiro dia. No momento em que os raios de sol tocavam sua face, o Cristo, o perfeito Iniciado ou Mestre, reentrava no corpo, glorificando-o pelo corpo de bem-aventurança que Ele usava, mudando o corpo de carne pelo contato com o corpo de bem-aventurança, emprestando-lhe novas propriedades, novos poderes, novas capacidades, transmutando-o à Sua semelhança. Essa era a Ressurreição do Cristo e, dali em diante, o próprio corpo de carne se achava modificado, e adquiria uma nova natureza.” (5)

Assim nós vemos que a história da ressurreição é muito antiga e que Deus sempre sustentou diante da humanidade, através dos Mistérios e através de Seus Filhos iluminados, o fato da imortalidade, como diante de nosso mundo cristão, através da morte e ressurreição de Seu amado Filho, Jesus Cristo.

Todo este problema da morte e imortalidade está atualmente ocupando a atenção de um público muito numeroso. A Guerra Mundial trouxe o fato da morte perante a consciência pública de uma forma nova. Dificilmente terá havido uma família, em mais de vinte nações, que não tenha sido marcada pela morte, de uma maneira ou de outra. O mundo passou por um processo de morte e, na atualidade, o Mistério da Ressurreição se está tornando um tema da maior importância nas mentes dos homens. O pensamento da Ressurreição está-se aproximando e seu significado tem sido a ideia central da Fraternidade Maçônica durante o decorrer dos tempos, formando o ponto focal do trabalho do sublime Terceiro Grau. Em íntima relação com esta “elevação” maçônica, pode ser situado um pequeno e pouco conhecido sermão do Buda, no qual Ele ensina a Seus discípulos os “cinco pontos da Amizade” e assim relaciona estes cinco pontos, as cinco crises na vida do Cristo e os cinco pontos da lenda maçônica. Todas essas referências servem para mostrar a continuidade da revelação da qual a Ressurreição (com sua subsequente Ascensão), foi o acontecimento culminante para o Ocidente.

A principal necessidade da Cristandade de hoje é dar ênfase ao Cristo vivo, levantado. Já discutimos demais sobre a morte do Cristo, procurando impor um Cristo estreito e sectário ao mundo. Alimentamos os fogos da separatividade com nossas divisões cristãs, igrejas, seitas e “ismos.” “Seu nome é legião” e a maioria delas é fundada com base em alguma apresentação sectária do Cristo morto e dos aspectos primitivos de Sua história. Unamo-nos agora com base no Cristo elevado - o Cristo vivo hoje, Cristo fonte de inspiração e fundador do reino de Deus; Cristo, o Cristo cósmico, eternamente sobre a Cruz, entretanto eternamente vivo; Cristo, o Salvador histórico, o fundador do Cristianismo, vigiando sua Igreja; Cristo, o místico, o Cristo mítico, representando nos quadros dos Evangelhos os episódios do desenvolvimento, de modo que todos os vivos possam aprendê-lo e segui-lo; e Cristo, vivo hoje em cada coração humano, a garantia da e a aspiração pela divindade, que a humanidade tão constantemente exibe. Devido à presença do Cristo no homem, a convicção da divindade e da consequente imortalidade do homem parecem ser inerentes à consciência humana. Ela inevitavelmente ocupará cada vez mais a atenção do homem, até que seja demonstrada e comprovada; enquanto isso, foi demonstrado que algo aparentemente persiste além da morte física. O fato da imortalidade ainda não foi comprovado, embora ele constitua uma crença básica nas mentes de milhões, e onde tal crença é universalmente encontrada, deve indubitavelmente haver uma base.

A questão inteira da imortalidade está intimamente ligada com o problema da divindade e do mundo invisível, subjetivo, que parece estar por detrás do tangível e visível, frequentemente fazendo sentir sua presença. Trabalhando, por conseguinte, sobre a premissa do não visto e invisível, é provável que finalmente penetremos nele e descubramos que ele sempre esteve conosco, mas que estivemos cegos e incapazes de reconhecer sua presença. Alguns sempre o fizeram, e suas notas ecoam, fortalecendo nossa crença, alimentando nossa esperança e nos garantindo a experiência final.

Como então reconheceremos a verdade ou realidade, ao encontrá-la? Como saberemos que uma doutrina é de Deus, ou não? É tão fácil cometer enganos, crer no que queremos crer, e nos enganarmos no desejo de ter nossas próprias ideias apoiadas por outras mentes. As palavras do Dr. Streeter têm aqui uma nota definida de encorajamento porque elas indicam requisitos que podemos atender:

“Mesmo o enganar a Si mesmo, a última fortaleza do inimigo, perderá seu poder à proporção que o indivíduo se submeta a certas condições que (sob o ponto de vista dos escritores bíblicos) devem ser atendidas para qualificá-lo para a recepção de uma mensagem autêntica do Divino - seja ao nível do profeta que cria uma era, seja da pessoa simples corretamente dirigida no caminho do dever diário.
“Elas são principalmente quatro:

“1) Agradar-me-ia ser para a Eterna Divindade o que a própria mão direita é para um homem!’ A absoluta devoção ou entrega do ser ao Divino. Aqui estou, envia-me’, dizia Isaías; e quando Cristo dirigiu aos seus primeiros seguidores as palavras “Segui-me”, contaram-nos que eles deixaram tudo e O seguiram.

“2) O autoconhecimento e a consequente admissão de fracasso. A promessa ‘Guiar-vos-ei com meu olho’ no Salmo acima citado, é dada ao homem que confessou sua iniquidade e desta maneira estabeleceu uma correta relação com Deus. A primeira resposta de Isaías ao chamado divino foi aquele relance de autoconhecimento que traz de volta ao homem uma convicção de inutilidade e pecado: ‘Sou um homem de lábios sujos’...

“3) ‘Ficai. . . até que do alto sejais revestidos de poder’ (Lucas, XXIV, 49). Mas esta vida de poder, um instinto de poder com amor e alegria e paz, somente pode ser vivida continuamente com dificuldade, exceto numa comunidade na qual o contato mútuo, o encorajamento mútuo e a confissão mútua de fracasso são fáceis...

“4) A entrada em tal vida e tal comunidade envolve alguma medida de sofrimento, sacrifício, ou humilhação. ‘E qualquer que não levar sua própria cruz, e não vier após mim, não pode ser meu discípulo’ (Lucas XIV.27). Talvez não seja por acaso que já no Velho Testamento a promessa ‘Teus ouvidos ouvirão uma palavra por detrás de ti, dizendo Este é o caminho, entrai nele’, é precedida pelas palavras ‘e embora o Senhor vos dê o pão da adversidade e a água da aflição.”’ (6)

É preciso coragem para enfrentar o fato da morte e formular com decisão as próprias crenças sobre o assunto. É um fato estatístico que cerca de cinquenta milhões de pessoas morrem anualmente. Cinquenta milhões de pessoas são mais do que a população inteira da Grã-Bretanha e constituem um grande grupo de seres humanos que fazem a grande aventura. Se é assim, o estabelecimento da verdade da Ressurreição de Cristo e a verdade da imortalidade são de importância muito maior do que o indivíduo possa pregar. Estamos muito aptos a estudar esses problemas quer sob o ponto de vista científico, quer sob o ponto de vista individual e puramente egoísta. A morte é o único acontecimento que podemos predizer com absoluta certeza e entretanto é o acontecimento sobre o qual a maioria dos seres humanos se recusa a pensar, absolutamente, até que se tenham de deparar com o fato iminente e pessoal. As pessoas encaram a morte de muitas diferentes maneiras; algumas trazem para a aventura um sentimento de autopiedade e ficam tão ocupadas com o que têm de deixar atrás de si, o que vai acabar para elas, e a renúncia a tudo que juntaram na vida, que o verdadeiro significado do inevitável futuro deixa de prender sua atenção. Outros a encaram com coragem, fazendo o melhor do que não se pode fugir, e encaram a face da morte com uma atitude galante porque não há mais que possam fazer. Seu orgulho ajuda-os a ir ao encontro do evento. Outros ainda se recusam inteiramente a considerar a possibilidade; hipnotizam-se em uma condição na qual o pensamento da morte não encontra qualquer possibilidade de acolhida em suas consciências e não considerarão sua possibilidade, de modo que, quando ela chega, apanha-os desprevenidos; ficam sem qualquer ajuda e se mostram incapazes de fazer qualquer coisa além de simplesmente morrer. A atitude cristã, via de regra, é mais definidamente uma aceitação da vontade de Deus, com a resolução de encarar o acontecimento, portanto, como o melhor dos acontecimentos, mesmo que assim não pareça, sob o ângulo do meio ambiente e das circunstâncias. Uma firme crença em Deus e Seu predestinado propósito para o indivíduo leva-os triunfantemente através dos portões da morte, mas se alguém lhes disser que esta é simplesmente uma outra forma do fatalismo do pensador Oriental e uma crença fixa num inalterável destino, não o considerariam verdadeiro. Escondem-se por trás do nome de Deus..

A morte pode, todavia, ser mais do que essas coisas, e pode ser encarada de uma forma diferente. Pode-se fazê-la ter um lugar na vida e no pensamento, e nós podemos nos preparar para ela como algo de que não se pode escapar, mas que é simplesmente a que traz as Mudanças. Assim, tornamos o processo da morte uma parte planejada de nosso propósito inteiro da vida. Nós podemos viver com a consciência da imortalidade, e isto dará um novo colorido e beleza à vida; nós podemos alimentar a consciência de nossa futura transição e viver na expectativa de sua maravilha. A morte assim encarada, considerada como um prelúdio para uma experiência de vida seguinte, adquire um significado diferente. Ela se torna uma experiência mística, uma forma de iniciação, encontrando seu ponto culminante na Crucificação. Todas as prévias renúncias menores nos preparam para a grande renúncia; todas as mortes anteriores não passam do prelúdio para o estupendo episódio da morte. A morte nos traz alívio - temporário, talvez, embora finalmente permanente - da natureza corporal, da existência no plano físico e sua experiência visível. É uma libertação da limitação; e quer se acredite (como milhões o fazem) que a morte seja somente um interlúdio numa vida de firme acumulação de experiência, quer que seja o fim de todas essas experiências (como muitos outros milhões sustentam), não se pode negar o fato que ela marca uma definitiva transição de um estado de consciência para outro. Se alguém acreditar na imortalidade e na alma, esta transição pode estimular uma intensificação da consciência; enquanto que, se o ponto de vista materialista dominar, pode indicar o fim da existência consciente. A questão crucial é, por conseguinte: Será aquilo a que chamamos alma, imortal? Qual é o significado da imortalidade?

É urgente hoje que recuperemos alguma forma de fé no mundo subjetivo interno, e em nossa relação com ele. Sobre isto se deverá elevar ou cair o êxito do trabalho e da mensagem do Cristo. Estes são os dias em que tudo está sendo posto em dúvida - e o fato da alma e sua imortalidade talvez mais do que tudo. Este é um estágio necessário e valioso, contanto que continuemos procurando respostas para tais perguntas.

Muitos podem considerar esses “distúrbios morais” como oportunas indicações de uma saída da condição estática em todos os reinos do pensamento humano que marcaram a primeira parte do último século, e que hoje estamos na iminência de uma nova era de valores espirituais mais verdadeiros. Mas as estruturas mais novas da fé e da conduta devem ter seus fundamentos no melhor que o passado tem a oferecer. Os ideais que o Cristo enunciou ainda permanecem os mais elevados jamais dados na continuidade da revelação, e Ele Próprio nos preparou para o afloramento daquelas verdades que marcarão o tempo do fim e a vitória sobre o último inimigo, cujo nome é Morte.

Esta contestação da crença, e esta derrubada com uma esperança inerente deverão continuar até que se tenha ganho segurança, a crença se tenha tornado conhecimento, e a fé, certeza.

O homem sabe, sem controvérsia, que há um objetivo maior do que suas intenções mais medíocres e que uma vida existe que abrangerá seu mais amplo alcance, capacitando-o finalmente a conquistar seu ideal mais elevado, embora somente tenuemente percebido. Uma apreciação da Ressurreição poderá dar uma certeza maior, contanto que tenhamos em mente a longa continuidade da revelação dada por Deus, e nos conscientizemos de que podemos saber pouco por enquanto, além do fato de que os Filhos de Deus morreram e novamente se ergueram, e que por trás desse fato se acha uma causa básica.

Os tibetanos falam do processo da morte como o da “entrada na clara luz fria.” (7) É possível que a morte possa ser melhor considerada como a experiência que nos liberta da ilusão da forma; e isto traz claramente a nossas mentes a consciência de que quando falamos da morte estamos nos referindo a um processo que diz respeito à natureza material, ao corpo, com suas faculdades psíquicas e seus processos mentais. Isto, portanto, pode ser reduzido a uma interrogação quanto a se somos o corpo e nada mais do que o corpo, ou se a antiga escritura da Índia estava certa ao assinalar que:

“Certa é a morte do que nasceu, e certo é o nascimento do que morre; portanto, não vos deixeis lamentar num assunto que é inevitável... Este senhor do corpo habita sempre imortal no corpo de cada um.” (8)

Um moderno poeta cristão expressou a mesma ideia nas seguintes belas palavras:

“A morte é para a vida como o mármore para o escultor,
Espera pelo toque que deixa a alma partir livre;
A morte é aquele momento em que o nadador sente
A rápida dor do mergulho na piscina,
Seguida pelo riso onde as borbulhas fluem
Da água dividida e o sol
As transforma em cristal; a vida e a luz são uma só.” (9)

Poderia aqui ser pertinente indagar que procuramos ver permanecer? Uma análise da própria atitude quanto à questão inteira da morte e da imortalidade pode frequentemente servir para tirar a mente da indefinição e do que é vago, com sua base no medo, na inércia mental e no pensamento confuso. As seguintes questões, por conseguinte, vêm à mente e impõem consideração.

Como sabemos que o processo da morte produz tais definidas modificações em nossa consciência, que demonstrem ser fatais para nós, como seres animados dotados de percepção, e torna fútil todo prévio esforço de pensamento, desenvolvimento e compreensão? A maravilha da Ressurreição do Cristo, na medida em que Sua Personalidade esteve em jogo, consistiu no fato que, depois de ter passado pela morte e novamente se erguido, Ele foi essencialmente a mesma Pessoa, somente com poderes acrescentados. Não poderá ser o mesmo conosco? Não será que a morte simplesmente remova a limitação num sentido físico, deixando-nos com sensibilidades ampliadas e um senso mais claro de valores? Esta vida nos modelou com certas definidas expressões de forma e qualidade e estas, certa ou erradamente, constituem aquilo que é o Ego, aquilo que é o homem real, considerado do ângulo da vida humana. Há algo em nós que recusa a identificação final com a forma física, em que pese o que a ciência e o inexperiente possam nos dizer. Um Ego intuitivo, substancial interno, repudia firme e universalmente a aniquilação e sustenta firmemente a crença de que a busca, o objetivo e os valores percebidos e pelos quais lutamos, devem levar a algum lugar, em algum momento, de alguma maneira, e provam seu próprio valor. Qualquer outro ponto de vista peca pela falta absoluta de um inteligente plano na existência e leva ao desespero que S. Paulo expressou nas palavras: “Se nesta vida só tivermos esperança no Cristo, somos os mais miseráveis de todos os homens”. (10) Estamos certamente a caminho de algo valioso e dinâmico; de outro modo, a vida é um processo fútil de errar sem destino; de cuidar de um corpo e educar u’a mente que não valem para coisa alguma, e não têm valor para Deus nem para os homens. Isto, nós sabemos, não pode ser o caso.

É a prolongação do valor, daquilo que vale à pena, e a continuação do incentivo persistente, interno, divino, para progredir, criar e beneficiar os demais que parecem, aos que já alcançaram o ponto onde o pensamento é consecutivamente possível, conter a pista para o problema da imortalidade. A história inteira do Cristo vai provar isto. Ele provou, durante toda Sua vida de consagrado serviço e devoção aos Seus semelhantes que Ele tinha alcançado o ponto, em Sua evolução, no qual tinha algo a contribuir para o bem do todo; Ele alcançara altitude na escada evolutiva e Sua humanidade fora perdida de vista na divindade que Ele expressava. Ele tinha aquilo que representava valor para oferecer a Deus e ao homem e Ele o oferecera sobre a Cruz. Custou-Lhe a vida, fazer Sua contribuição para a fonte do corpo todo, mas Ele o fez. Devido ao valor do que Ele alcançara, e ao valor da vivência de Sua contribuição, Ele pode demonstrar a imortalidade. É o valor imortal que sobrevive, e onde aquele valor existe a alma não necessita mais da escola da experiência humana.

Este pensamento dá origem à questão: Que é, por conseguinte, que procuramos ver sobreviver? Que parte de nós consideramos como desejavelmente imortal? Que, em cada um de nós, exige permanência? Certamente nenhum de nós procura ver o corpo físico ressurreto, nem estamos ansiosos para nos vermos novamente escravizados e confinados pelo atual veículo limitador no qual a maioria se encontra. Seu valor parece inadequado para a experiência da ressurreição e para o dom da imortalidade. Nem estamos desejosos, certamente, de ver a mesma natureza psíquica, com seu agregado de humores e sentimentos e reações sensitivas à condição do meio ambiente, nos dominar novamente. Igualmente certo, nenhum de nós terá prazer em contemplar a velha ideia de um paraíso açucarado onde passamos nosso tempo revestidos de alvas roupagens, cantando e falando sobre assuntos religiosos. Já ultrapassamos essas ideias, e a elas o Próprio Cristo se referiu, refutando-as diretamente. Ele Se ergueu dentre os mortos e entrou numa vida de serviço ativo aumentado. Os “outros carneiros”, que Ele tinha de reunir deveriam ser procurados e pastoreados; (11) Seus discípulos deviam ser treinados e ensinados; Seus seguidores deveriam ser guiados e ajudados; o reino de Deus devia ser organizado na terra. E ainda o Cristo erguido se movimenta entre nós, muitas vezes não reconhecido, mas ocupado com a tarefa da salvação e do serviço mundiais. Não há paraíso de paz e repouso e inatividade para o Cristo, enquanto permanecemos não salvos; não haverá nenhum, seguramente, para aqueles de nós que procuramos seguir Suas pegadas.

Quando a vida de um homem tenha ganho significação, então ele está pronto para trilhar o caminho probacionário e da purificação, na preparação para os mistérios; à medida que sua significação e influência aumentam, ele pode passar, estágio após estágio, através do processo de iniciação, e trilhar o caminho da santidade. Ele pode “nascer em Belém”, porque o germe daquilo que é dinâmico e vivo é despertado e ganha potência e significação e deve, por conseguinte, fazer seu aparecimento; ele pode passar pelas águas da purificação e atingir o topo da montanha da transfiguração, onde aquilo que é de valor brilha em toda sua glória. Tendo alcançado aquele momento de experiência elevada e aquilo que ele tem realmente valioso sendo reconhecido por Deus como tal, ele está pronto e só então, para oferecer sua vida no altar do sacrifício e do serviço, e pode volver sua face para subir a Jerusalém, para ser crucificado. É o inevitável fim para aquilo que é de valor. É o subjacente propósito de todo o processo de aperfeiçoamento, já que há, agora, algo que vale à pena ser oferecido. Mas embora isto possa ser o fim da expressão do valor físico, é essencialmente o momento do triunfo do valor, e a demonstração de sua imortalidade. Porque aquilo que tem valor, a beleza divina e oculta que a experiência da vida e a iniciação serviram para revelar, não pode morrer. Ela é essencialmente imortal e deve viver. Esta é a verdadeira ressurreição do corpo. Quando a consciência do valor e do valioso reconhecimento do alcance do homem, assim como do que consegue, são considerados, a vida de serviço (levando à morte) e a da ressurreição (levando à plena cidadania no reino de Deus) começam a ganhar em significado. O corpo que agora temos é relativamente inútil; a soma total dos humores e reações mentais aos quais agora nos submetemos não tem valor para nenhum de nós; o ambiente no qual vivemos e nos movemos não tem em si certamente nada que garanta sua infinita perpetuação. Em resumo, uma continuação do eu pessoal em algum céu que seja a extensão de nossa própria consciência individual, e o conceito de uma eternidade infinita vivida com o próprio, não tem, para a maioria de nós, qualquer atração. Entretanto, um aspecto do ser anseia pela imortalidade e pelo senso de infinidade. A “infinita prolongação no tempo da própria carreira” levou a muita confusão de pensamento. Poucos de nós, se seriamente chamados a considerar o problema e responder seriamente, sentiríamos que, como indivíduos, deveríamos exigir medidas para nossa infinita permanência. Um senso de verdade e justiça nos poderia conduzir honestamente à conclusão de que nosso valor para o universo é praticamente nulo. E, entretanto, sabemos que há um valor e uma razão por trás de toda nossa experiência de vida e que o mundo fenomênico, do qual somos indubitavelmente parte, vela ou esconde algo de infinito valor, do qual somos também parte.

Procuramos ter certeza de que aqueles a quem amamos e prezamos não se percam. Procuramos compartilhar com eles algum estado de felicidade que tenha em si valores mais verdadeiros do que qualquer que tenhamos conhecido na terra; procuramos prolongar, no tempo e no espaço, o estado familiar que amamos e estimulamos. Desejamos uma compensação pelo que suportamos, e a conscientização de que tudo teve um propósito e valeu à pena. É este anseio, esta crença, esta determinação em persistir, que jaz por trás de toda conquista e que é o incentivo e o impulso sobre os quais baseamos todo esforço. Sócrates assinalou este argumento básico para a imortalidade quando disse que “ninguém sabe o que é a morte, e se ela não é a maior de todas as boas coisas. Entretanto, ela é temida como se fosse o supremo mal. . . Quando a morte se aproxima do homem, aquilo que é mortal, nele, se assusta; aquilo que é imortal e incorruptível se retira intacto.”

Três pensamentos são importantes ao considerarmos este problema de valor, que é tão peculiarmente evidenciado pelo Cristo, e que foi a verdadeira razão pela qual Ele se ergueu novamente. Sua imortalidade se baseava em Sua divindade. Sua divindade se expressava através da forma humana, e naquela forma evidenciou valor, destino, serviço e propósito. Todos esses Ele demonstrou perfeitamente e por isso nem a morte pôde retê-Lo, nem as cadeias da tumba impedir Sua libertação.

O primeiro pensamento é que a imortalidade é a salvaguarda daquilo com que realmente nos importamos. O fator sobre o qual pomos ênfase em nossas vidas diárias sobrevive e funciona em algum nível de consciência. Devemos atingir, e finalmente o conseguimos, o que exigimos. Quando nos ocupamos com aquilo que é eterno no valor, então a vida eterna, livre das limitações da carne, é nossa. Dean Inge nos diz que “na proporção que nós nos podemos identificar com os valores absolutos, estaremos certos da imortalidade.” O que realmente nos interessa, então, em nossos momentos mais elevados, quando livres das ilusões da natureza emocional, determina nossa vida imortal.

A questão se apresenta, pois, relativamente ao que ocorre quando o senso de valores está distorcido ou temporariamente deixa de existir. Numa tentativa de resolver esta questão, milhões de pessoas aceitaram a doutrina Oriental do renascimento, que afirma ser o mundo o “vale de fazer almas”, como Keats o chamou, e que ensina que nós voltamos e tornamos a voltar à vida física, até que chegue o tempo em que nossos valores estejam propriamente ajustados e possamos atravessar as cinco iniciações até a libertação. Muito do ensinamento dado nos livros ocultistas e esotéricos está distorcido e fantasiado, mas é evidente ao estudante sem preconceitos que há muito a ser dito sobre a doutrina do renascimento. Em última análise, se se deve finalmente alcançar a perfeição, a questão é meramente de tempo e lugar. O cristão pode crer numa perfeição súbita através do processo da própria morte, ou numa aceitação mental da morte de Jesus, que ele chama de “conversão”; ele pode considerar a morte como a porta para um lugar de disciplina e desenvolvimento a que ele chama de “purgatório”, onde se desenvolve um processo de purificação; ou ele pode acreditar que os próprios ajustamentos celestiais são feitos e expansões de consciência têm lugar, que o tornam um homem diferente do que ele era antes. O oriental pode crer que a terra provê adequadas facilidades para o treinamento e os processos de desenvolvimento, e que voltamos e tornamos a voltar, até alcançarmos a perfeição. O objetivo permanece um só. A meta é idêntica. A escola está num lugar diferente e a consciência se desenvolve em várias localidades. Mas isto é tudo. Platão afirmou que:

“Confinada no corpo como numa prisão... a alma procura sua prístina esfera de pura racionalidade buscando a vida filosófica, pensando no universal, amando e vivendo de acordo com a razão. A vida física é apenas um episódio na eterna carreira da alma, que precede o nascimento e prossegue além da morte. A vida na carne é uma trial provação; a morte, a libertação e a volta ao destino da alma; para outro período de provação, ou para o reino da razão pura.”

Em algum lugar, consciente e voluntariamente, devemos aprender a entrar e trabalhar no mundo dos valores, e assim nos ajustarmos para a cidadania no reino de Deus. Foi a demonstração disso que Cristo deu.

O segundo pensamento a ser considerado é que o esforço do homem, sua luta para conquistar, seu senso de Deus, inato e verdadeiro, seu constante esforço para melhorar as condições e para dominar a Si mesmo tão bem quanto o mundo natural, deve ter um objetivo; de outro modo, tudo que vemos acontecendo à nossa volta fica vazio, fútil e sem sentido. Foi este domínio sobre Si Mesmo e sobre os elementos da natureza, e a firme direção de Seu propósito, que conduziu o Cristo de ponto a ponto e O capacitou a abrir a porta para o reino e a erguê-Lo dos mortos, “as primícias dos que dormem.” (12)

O propósito deve subjazer à dor. Um objetivo deve ser percebido sob toda atividade humana. O idealismo dos líderes da raça não pode ser sempre uma alucinação. A conscientização de Deus deve ter alguma base nos fatos. Os seres humanos estão convencidos de que a injustiça aparente do mundo provê legítima certeza de um porvir no qual a integridade do propósito divino seja reivindicada. Há uma crença básica de que o bem e o mal estão em combate na natureza humana e que o bem deve inevitavelmente triunfar. O homem vem afirmando isso em todos os tempos. A humanidade desenvolveu muitas teorias para elucidar o homem e seu futuro, a sua preparação para a vida do além e a sua razão aqui na terra. Com o detalhe destas teorias não nos precisamos ocupar, nem há tempo. Elas são em si próprias prova do fato da imortalidade e da divindade humanas. Ele intuiu a possibilidade última e não descansará enquanto não a atingir. Quer seja a pluralidade das vidas em nosso planeta, conduzindo a uma perfeição última, quer seja a teoria budista levando ao Nirvana, o objetivo é o mesmo. Esta última teoria é belamente resumida num livro que trata das doutrinas secretas da filosofia tibetana:

“. .. Quando os Senhores da Compaixão tiverem civilizado espiritualmente a Terra e a transformado num Paraíso, será revelado aos Peregrinos o Caminho Infinito que leva ao Coração do Universo. O homem, então não mais homem, transcenderá a Natureza e, impessoal, contudo conscientemente, em unidade com todos os Iluminados, ajudará a cumprir a Lei da Evolução Superior, da qual o Nirvana é apenas o começo.” (13) Aqui temos a ideia do reino de Deus aparecendo na terra porque a humanidade estará espiritualmente civilizada, e a conquista da perfeição que o Cristo inculcou.

Há também a doutrina da eterna recorrência, na qual tanto Nietzsche quanto Heine acreditavam, com sua ênfase numa existência terrestre, incessante, recorrente, de cada unidade de força, até que uma alma tenha evoluído. A opressiva doutrina de nossa sobrevivência como influências perpetuadas na raça à qual pertencemos também foi desenvolvida, dando ênfase a um altruísmo que é admirável, mas é também a negação do individual. As doutrinas cristãs ortodoxas são em número de três e consistem da doutrina da retribuição eterna, da restauração universal e da imortalidade condicional. A estas devemos acrescentar as especulações dos Espiritualistas, com suas várias esferas, correspondendo de algum modo aos mundos sutis, sete em número, dos teósofos e dos rosacruzes; e também a extrema teoria da aniquilação, que não encontra muita resposta nas mentes sadias. O valor de todas essas doutrinas consiste em atrair a atenção para o eterno interesse do homem no além, e suas muitas especulações quanto ao seu futuro e à sua imortalidade.

Cristo morreu e se levantou novamente. Ele vive. E algumas pessoas no mundo de hoje não necessitam de provas para este fato. Elas sabem que Ele está vivo e que, porque Ele vive, nós viveremos também. Em nós está o mesmo germe da vida essencial que, Nele, floresceu até a perfeição, superpondo-se à tendência à morte inerente no homem natural. Seguramente, então, podemos dizer que a imortalidade consiste, para nós, de três estágios:

Primeiro, como aquela vivência que nós denominamos de impulso para evoluir, o impulso para progredir, para levar adiante, viver e saber que se está vivo. Este é o incentivo por detrás da determinação do homem em se identificar como indivíduo, com seu próprio ciclo de vida, com seu próprio inato propósito e seu eterno futuro.

Em segundo lugar, como aquela consciência dinâmica espiritual que se manifesta na reorientação para a eternidade e os valores eternos, que é a característica marcante do homem que está pronto a dar os passos necessários para demonstrar sua vida espiritual e agir como um imortal. Então, a ressurreição que está adiante dele e que o Cristo expressou, é vista como sendo algo diferente do que anteriormente se supunha. A seguinte definição da verdadeira ressurreição, tal como começa a surgir diante dos olhos do homem que desperta para a glória do Senhor em seu próprio coração e imanente em toda forma, encontra lugar:

“A ressurreição não é o levantar dos mortos de seus túmulos, mas a passagem da morte da autoabsorção para a vida do amor altruísta, a transição das trevas do individualismo egoísta para a luz do espírito universal, da falsidade para a verdade, da escravidão do mundo para a liberdade do eterno. A criação ‘geme e trabalha sofrendo’ para ser libertada da prisão da corrupção para a liberdade da glória dos filhos de Deus!” (14)

O terceiro e último pensamento que deve receber ênfase é o de que somos ressurretos para a vida eterna e nos tornamos da companhia dos imortais ao nos ajustarmos para nos tornarmos cooperadores do Cristo no reino. É quando perdemos a consciência do individual separatista e nos tornamos divinamente conscientes do todo do qual somos parte, que aprendemos a lição final da vida e “não precisamos mais voltar.” É a morte do individual e a perda da consciência pessoal que tememos e nos apavora. Nós não percebemos que quando a visão do reino é nossa, quando a criação inteira brilha diante de nossos olhos, é aquele Todo que nos importa e perdemos de vista nossos eus pessoais.

A ressurreição, portanto, poderia ser definida como a persistência no futuro daquilo que é o divino aspecto, e que está integrado com a vida e a consciência daquela totalidade a que chamamos Deus. Aquela vida e aquela consciência fluem através de todas as partes da manifestação divina, o mundo natural. Os reinos da natureza evoluíram um a um e, ao assim fazerem, expressaram algum aspecto de Sua vida à medida que ela informa e anima Sua criação. Um a um, eles firmemente progrediram da consciência inerte e do ritmo lento e pesado do reino mineral, e revelaram sequencialmente mais e mais da divina natureza oculta, até chegarmos ao homem cuja consciência é de uma ordem muito mais elevada e cuja divina expressão é aquela da Divindade autoconsciente e autodeterminada. Das formas automáticas de consciência, a vida de Deus conduziu as formas de vida através da consciência sensível, até a consciência instintiva do animal; depois ela prosseguiu até o reino humano, onde a consciência de si mesmo domina, até os membros mais elevados daquele reino começarem a mostrar uma disposição para a divindade. Os tênues, fracos sinais de um reino ainda mais elevado podem agora ser vistos, no qual a consciência própria dará lugar à consciência grupal e o homem saberá que ele é identificado com o Todo, e não simplesmente um indivíduo autossuficiente. Então a vida do corpo todo de Deus poderá fluir conscientemente para e através dele, e a vida de Deus se torna sua vida e ele ressuscita para a vida eterna.

Portanto, a tendência dos assuntos humanos atualmente em direção à síntese, à cooperação, à fusão e à amalgamação, é um sinal do avançado estágio que a humanidade alcançou. É uma poderosa promessa e indica que a ressurreição para a vida, da qual todos os Filhos de Deus, em todos os tempos, deram testemunho, é agora uma possibilidade geral. A humanidade de hoje, como um todo, olha para a vida porque seus valores são reais, sua integridade está sendo firmemente assegurada, e as indicações mundiais (tal como manifestadas através das nações e grupos) são orientadas para a síntese e a cooperação. O atual tumulto mundial é apenas o resultado deste processo de reorientação, e tem seu paralelo no processo da “conversão” cristã e nos ajustamentos incidentais àquele acontecimento, que usualmente alteram e rearrumam o programa inteiro da vida humana. O programa mundial está assim sendo reajustado e o imediato resultado é o caos. Mas a nova direção está assegurada e nada pode impedir o progresso da entrada da humanidade na vida. Daí a crise mundial - os reajustamentos, a tendência à fusão e à síntese. A nova raça, que é imortal, está vindo à existência, e, entretanto, ela é a mesma raça num ponto novo e mais elevado de realização. A Grande Expectativa então é que o Nascimento na Raça Imortal possa ocorrer aqui e agora, como já foi conscientizado por aqueles da humanidade que se tornaram Divinos.

O reino de Deus caminha para sua consecução. O propósito da vida, morte e ressurreição de Cristo, está na iminência de alcançar consumação. Um novo reino está vindo à existência; um quinto reino da natureza se está materializando e já tem um núcleo funcionando na terra em corpos físicos. Por isso, vamos saudar a aspiração e a luta do tempo atual, pois são um sinal da ressurreição. Compreendamos a sublevação e o caos, pois a humanidade irrompe do túmulo do egoísmo e do individualismo e vem para o lugar da luz viva e da unidade, pois é a ressurreição. Penetremos nas trevas com aquela luz que nós temos e vejamos a humanidade se agitar, os ossos mortos voltando à vida, descartando-se as ataduras e bandagens, já que a força espiritual e a vida jorram na raça dos homens, pois esta é a ressurreição.

Somos privilegiados por estar presentes num momento de grande crise para a raça. Estamos presenciando o nascimento de uma raça nova e imortal. Uma raça na qual o germe da imortalidade irá florir, e na qual a divindade poderá expressar-se através da transfiguração da humanidade. Aquilo que tem valor está vindo à superfície. Sempre esteve ali, mas hoje pode ser visto, anunciando a consumação do trabalho do Cristo e trazendo à realização Sua visão.

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Notas:

(1) - The Valley and Beyond, por Anthony C. Deane, pág. 72. (8) - O Bhagavad Gita, II, 26, 29, tradução de F. V. Lorenz, Editora “O PENSAMENTO”.
(2) - Psychology and God, por L. W. Grensted, pág. 237. (9) - The Modernists, por Robert Norwood, pág. 57, Sócrates.
(3) - Metamorfoses de Ovídio - versão de Addison, citada na Diegesis de Taylor, pág. 148. (10) - I Cor., XV, 19.
(4) - Origin of Religious Belief, Dupius, pág. 161. (11) - S. João, X, 16.
(5) - Esoleric Christianity, por Annie Besant, págs. 247, 248, 249. (12) - I Cor., XV, 20.
(6) - The God Who Speaks, por H. Streeter, págs. 175, 176. (13) - Tibetan Yoga an Secret Doctrines, editado por W. Y. Evans-Wentz, pág. 12.
(7) - The Tibetan Book of the Dead, por W. Y. Evans-Wentz, pág. 29. (14) - The Supreme Spiritual Ideal, por S. Radhakrishna, Hibbert Journal, outu¬bro, 1936.

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