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DE BELÉM AO CALVÁRIO - As Iniciações de Jesus


A Quarta Iniciação:

A CRUCIFICAÇÃO

PENSAMENTO-CHAVE

Uma névoa e um planeta,
Um cristal e uma célula,
U’a medusa e um lagarto
E cavernas onde os trogloditas vivem;
Depois um senso de lei e beleza,
E uma face voltada do chão
Alguns a chamam Evolução,
Outros a chamam Deus.

Como marés numa praia crescentes
Quando a lua está nova e fina,
Em nossos corações altos anseios
Chegam jorrando, ondulantes:
Vêm do místico oceano
Em cuja margem pé algum pisou,
Alguns a chamam Saudade,
Outros a chamam Deus.

Um piquete gelado no dever,
U’a mãe faminta por seu filho,
Sócrates bebendo cicuta,
Jesus no madeiro;
E milhões, humildes e anônimos, que
Palmilharam o duro caminho reto -
Alguns o Chamam Consagração,
Outros o chamam Deus.
(William Herbert Carruth)

Parte 1

Chegamos agora ao mistério central da Cristandade e à iniciação máxima à qual os homens, como seres humanos, podem aspirar. Da iniciação seguinte, a Ressurreição, e da Ascensão a ela ligada, não sabemos praticamente coisa alguma além do fato que o Cristo levantou-se dentre os mortos. A iniciação da Ressurreição está velada no silêncio. Tudo que está registrado é a reação daqueles que conheciam e amavam o Senhor e os efeitos posteriores sobre a história da Igreja Cristã. Mas a Crucificação sempre foi o episódio destacado e dramático sobre o qual se fundamentou a estrutura inteira da teologia cristã. Ela recebeu toda a ênfase. Milhões de palavras foram escritas a respeito, milhares de livros e comentários tentaram elucidar seu significado e explicar o que representava tal mistério. No decurso das épocas, milhares de pontos de vista foram apresentados à consideração dos homens. Houve muitos erros de interpretação, mas, também, muito do que é divinamente real foi expresso. Deus foi, muitas vezes, mal interpretado, e a interpretação do que o Cristo fez foi travestida em termos dos estreitos enfoques humanos. A maravilha do acontecimento no Monte do Calvário foi revelada através das iluminadas experiências do crente e daquele que sabe.

Surgiu uma nova ordem mundial quando o Cristo veio à terra e, desde então, nós temos avançado, na direção de uma Nova Era, quando os homens, inevitavelmente, viverão como irmãos, porque o Cristo morreu e a verdadeira natureza do reino de Deus encontrará expressão na terra. Disto, o progresso do passado é a garantia. O imediato deste acontecimento já é tenuemente compreendido por aqueles que, como disse o Cristo, têm olhos de ver e ouvidos de ouvir. Estamos avançando para a grandeza, inevitavelmente, e o Cristo deu ênfase a isso em Sua vida e obra. Ainda não alcançamos esta grandeza, mas podemos ver sinais dela. Já há indicações da vinda dessa nova era, e podem ser percebidos os contornos imprecisos de uma nova estrutura, social, mais próxima da ideal, baseada na humanidade aperfeiçoada. É esta perfeição que importa.

Uma das primeiras coisas que parece essencial reconhecer é o fato - o fato definido - que a Crucificação do Cristo deve ser elevada, do reino de sua aplicação puramente individual, para o reino do universal e do todo. Poderá, talvez, causar alguma consternação o fato de darmos ênfase à necessidade de compreendermos que a morte do Cristo histórico na Cruz não estava basicamente relacionada com cada homem em particular que afirme ter tido proveito dela. Foi um grande acontecimento cósmico. Suas implicações e seus resultados dizem respeito às massas da humanidade e não especificamente ao indivíduo. Somos muito induzidos a considerar como um assunto pessoal as muitas implicações do sacrifício do Cristo. O egoísmo do aspirante espiritual é, frequentemente, muito real.

É certamente evidente que - se abordarmos o assunto de maneira inteligente - o Cristo não morreu para que você e eu pudéssemos ir para o céu. Ele morreu como resultado da própria natureza do serviço que prestou, da nota que emitiu e porque Ele inaugurou uma nova era e disse aos homens como viver como filhos de Deus.

Considerando o relato sobre Jesus na Cruz é essencial, portanto, que o vejamos em termos mais amplos e gerais do que habitualmente ocorre. Os tratados e escritos sobre o assunto são, em sua maioria, controversos e polêmicos, via de regra defendendo ou atacando a evidência ou a teologia associada ao tema. Ou podem ser de uma natureza puramente mística ou sentimental, em tom e objeto, ocupando-se com a relação do indivíduo com a verdade ou com sua salvação pessoal no Cristo.

Mas, assim agindo, é possível que os elementos reais da narrativa e seu significado mais elevado se percam. Duas coisas emergem, todavia, da pesquisa e das discussões do século passado. Uma, é que a narrativa dos Evangelhos não é única, mas paralela às vidas de outros Filhos de Deus; em segundo lugar, que o Cristo foi único em Sua particular Pessoa e missão e que, de um ângulo específico, Seu aparecimento foi sem precedentes. Nenhum estudante de religião comparada discutirá o paralelismo do Cristo com os acontecimentos anteriores. Nenhum homem que tenha verdadeiramente investigado, sem preconceito, irá negar que o Cristo tenha sido parte integral de uma grande continuidade de revelação. Deus nunca “ficou sem testemunho.” (1) E a salvação da humanidade sempre esteve próxima do coração do Pai. Para citar um escritor que procura provar esta continuidade:

“Ao tempo da vida, ou do aparecimento registrado, de Jesus de Nazaré, e por alguns séculos antes, o mundo mediterrâneo e as suas vizinhanças haviam sido a cena de um grande número de credos e rituais pagãos. Havia templos sem fim, dedicados aos deuses, tais como Apoio ou Dionísio, entre os gregos, Hércules entre os romanos, Mitras entre os persas, Adônis e Arris na Síria e Frigia, Osíris, Isis e Horus no Egito, Baal e Astarte entre os Babilônios e Cartagineses, etc.. . Sociedades, grandes ou pequenas, crentes unidos e devotos no serviço ou nos cerimoniais relacionados às suas respectivas divindades, e nos credos que eles confessavam, ligados a essas deidades. E um fato extraordinariamente interessante para nós é que, apesar das grandes distâncias geográficas e diferenças raciais nos detalhes de suas práticas, as linhas gerais de seus credos e cerimoniais eram - se não idênticos - tão marcantemente similares.

“Não posso, naturalmente, esgotar o tema desses diferentes cultos, mas posso dizer, grosseiramente, que de todas ou quase todas as divindades acima mencionadas, dizia-se e acreditava-se que:

1 - Eram nascidos no dia de Natal, ou próximo dele.
2 - Eram nascidos de Mãe Virgem.
3 - E numa Caverna, ou Câmara Inferior.
4 - Levaram uma vida de serviço à Humanidade.
5 - E foram chamados de Condutores da Luz, Curadores, Mediadores, Salvadores, Libertadores.
6 - Foram, todavia, vencidos pelo Poder das Trevas.
7 - E desceram ao Inferno, ou Mundo Inferior.
8 - Ergueram-se novamente dentre os mortos e se tornaram pioneiros da humanidade no mundo Celestial.
9 - Fundaram Comunidades de Santos e Igrejas nas quais os discípulos foram recebidos pelo Batismo.
10 - E foram comemorados em refeições Eucarísticas.” (2)

Estes fatos podem ser conferidos por quem quiser e estiver suficientemente interessado em acompanhar o crescimento da doutrina dos Salvadores mundiais no idealismo mundial. Edward Carpenter continua, para dizer, no mesmo livro:

“O número de divindades pagãs (a maioria nascida de uma virgem e levada à morte de u’a maneira ou outra em seus esforços para salvar a humanidade) é tão grande que é difícil contá-las. O deus Krishna, na Índia, o deus Indra, no Nepal e Tibet, derramaram seu sangue para a salvação dos homens; Buda disse, segundo Max Muller, “Que todos os pecados do mundo caiam sobre mim, para que o mundo se liberte”; o Tien chinês, o Sagrado - ‘um com Deus e existindo com Ele desde toda eternidade’ - morreu para salvar o mundo; o egípcio Osíris foi chamado de Salvador, tal como Horus; assim também o persa Mitras; tal como o grego Hércules, que superou a Morte embora seu corpo tenha sido consumido na ardente vestimenta da mortalidade, livre da qual ele subiu ao céu. Da mesma maneira, o frígio Attis foi chamado Salvador e igualmente o sírio Tammuz ou Adônis - ambos, como já vimos, foram cravados ou amarrados a uma árvore e depois se ergueram de seus ataúdes ou esquifes. Prometeu, o maior e mais antigo benfeitor da humanidade, foi cravado nas mãos e nos pés, de braços estendidos nas rochas do Monte Cáucaso. Baco ou Dionísio, nascido da virgem Semeie para ser o Libertador da humanidade (Dionysus Eleutherios, como foi chamado), foi despedaçado, como Osíris. Mesmo no México distante, Quetzalcoatl, o Salvador, nasceu de uma virgem, foi tentado e jejuou durante quarenta dias, foi morto e na sua segunda vida parecia tão animado que (como é bem sabido) quando Cortez apareceu, os mexicanos, coitados, o saudaram como o deus que voltava! No Peru e entre os índios americanos, ao norte e ao sul do Equador, encontram-se lendas semelhantes.” (3)

Este livro não entrará na discussão a favor ou contra essas ideias. A única questão que nos importa é qual parte o Cristo realmente desempenhou como Salvador Mundial e em que consiste o inigualável e ímpar de Sua missão. Que era esse mundo, ao qual Ele veio; e qual o significado de Sua morte para o ser humano comum atual? Serão os fatos de Sua vida, historicamente verdadeiros; e terá havido um período em nossa história racial, em que Ele caminhou e falou e viveu uma vida humana comum? Terá Ele servido à sua raça e voltado à Fonte de onde veio?

O fato do Cristo não constitui problema para os que O conhecem. Eles se conscientizam, além de toda controvérsia, de que Ele existe. Eles sabem em Quem acreditaram. (4) Para eles, Sua realidade não pode ser posta à prova. Podem entre si diferir quanto à ênfase a ser posta sobre as várias interpretações teológicas da Sua biografia, mas ao Cristo eles conhecem e com Ele trilham o caminho da vida. Eles podem discutir sobre se era Deus ou homem, ou Deus-Homem, ou Homem-Deus, mas num ponto eles todos concordam e esse é, que Ele era Deus e Homem, manifestados num mesmo corpo. Podem lutar para perpetuar a memória do Cristo morto sobre a Cruz, ou podem esforçar-se para viver pela vida do Cristo elevado, mas à realidade do Cristo, mesmo, todos eles dão testemunho, e pela multidão de testemunhas o fato está seguramente estabelecido. Aquele que sabe não pode duvidar.

O cristianismo é o restabelecimento de uma doutrina muito antiga. Não é novo. É tão essencial à salvação e à felicidade do mundo que Deus sempre o proclamou. As narrativas do Evangelho merecem confiança e são verdadeiras, exatamente porque são integradas com a revelação espiritual do passado e estão sendo hoje reinterpretadas em termos do Cristo. Portanto, a humanidade, sendo mais evoluída e inteligente, aquela reinterpretação irá ao encontro da necessidade dessa humanidade mais pronta e adequadamente. Mas ela não é coisa nova, nem o Cristo jamais Se proclamou em tais termos. Ele previu uma nova era e uma vinda do reino de Deus. Fora da grande corrida do tempo e fora do alcance eoniano da consciência de Deus, somente hoje estamos começando a ver um mundo e uma humanidade prontos para a nova revelação - uma revelação que será baseada numa ética verdadeiramente cristã e em verdades cristãs vitais. Aquilo que o Cristo representou, a verdade que Ele encarna, é tão velha que nunca houve um tempo em que não estivesse presente como uma necessidade na consciência humana, e entretanto ela é tão nova que nunca haverá um tempo em que a estória do nascimento e morte de Salvador mundial deixe de ser da maior atualidade para o homem. Edward Carpenter assinala isto, lançando luz sobre este incessante e velho enfoque do amor de Deus e o desejo do homem na pessoa de um filho de Deus. Ele diz:

“Se o caráter histórico de Jesus, em qualquer grau, pudesse ser provado, dar-nos-ia razão para supor - o que eu pessoalmente sempre estive inclinado a acreditar - que houve também um núcleo histórico para tais personagens como Osíris, Mitras, Krishna, Hércules, Apolo e os demais. A questão, de fato, se estreita até isto. Terão havido, no curso da evolução humana, certos pontos nodais, por assim dizer, ou períodos em que as correntes psicológicas se reuniam e se condensavam para um novo começo e terá cada um de tais pontos, ou nodos, de condensação sido marcado pelo aparecimento de um homem (ou mulher) heroico e verdadeiro, fornecendo o ímpeto necessário à nova partida, e dando seu nome ao movimento resultante? Ou basta supor uma automática formação de tais nodos ou pontos de partida, sem a intervenção de qualquer especial herói ou gênio, e imaginar que em cada caso a tendência da humanidade, de criar mito tenha criado uma figura inspiradora e legendária e adorado a mesma por um longo período, daí por diante, como um deus?

“Como disse antes, esta é uma pergunta que, conquanto muito interessante, não é realmente muito importante. A coisa principal sendo que o espírito criativo e profético da humanidade tem de tempos em tempos envolvido aquelas figuras como idealizações de seu “desejo do coração” e posto um halo em torno de suas cabeças. Sua longa procissão se torna um trecho verdadeiro da História - a história da evolução do coração humano, e da consciência humana.” (5)

A Crucificação e a Cruz do Cristo são tão velhas quanto a própria humanidade. Ambas são símbolos do sacrifício eterno de Deus, ao assumir o aspecto forma da natureza e assim se tornar tanto Deus imanente como Deus transcendente.

Vimos que o Cristo deve ser reconhecido, antes de tudo, no sentido cósmico. O Cristo cósmico existiu desde toda eternidade. Este Cristo cósmico é a divindade, ou espírito, crucificado no espaço. Ele personifica a imolação ou sacrifício do espírito na cruz da matéria, forma, ou substância, para que todas as formas divinas, inclusive a humana, possam viver. Isto foi sempre reconhecido pelas crenças, assim chamadas, pagãs. Se o simbolismo da cruz for rastreado até o passado distante, verificar-se-á que ele precede o Cristianismo em milhares de anos e que, finalmente, os quatro braços da cruz serão vistos desaparecendo, deixando apenas a figura do Homem Celestial vivo com Seus braços estendidos no espaço. O norte, o sul, o leste e o oeste representam o Cristo cósmico no que é chamada a “cruz fixa dos céus”. Sobre esta cruz Deus é eternamente crucificado.

“Misticamente se fala do céu como do Templo e da eterna consciência de Deus. Seu altar é o sol, cujos quatro braços, ou raios, representam os quatro cantos, ou a cruz cardeal do universo, que se tornaram os quatro signos fixos do Zodíaco, e como os quatro poderosos signos dos animais sagrados, são tanto cósmicos quanto espirituais. . . . Estes quatro são conhecidos como os animais consagrados do Zodíaco, ao passo que os signos mesmos representam os elementos fundamentais básicos da vida, Fogo, Terra, Ar e Água.” (6)

Estes quatro signos são Touro, Leão, Escorpião e Aquário, e eles constituem proeminentemente a cruz da alma, a cruz sobre a qual a segunda Pessoa da divina Trindade é crucificada. O Cristo personificou, em Sua missão, estes quatro aspectos e, como o Cristo cósmico, Ele exemplificou, em Sua Pessoa, as qualidades que cada signo representava. Mesmo o homem primitivo, não evoluído e ignorante, era consciente do significado do espírito cósmico, imolado na matéria e crucificado sobre a cruz de quatro braços. Estes quatro signos se encontram, fora de dúvida, na Bíblia, e são considerados em nossa crença cristã, como os quatro animais sagrados. O Profeta Ezequiel se refere a eles nas palavras:

“E a semelhança dos seus rostos era como o rosto de homem; e à mão direita todos os quatro tinham rosto de leão, e à mão esquerda todos os quatro tinham rosto de boi; e também rosto de águia todos os quatro.” (7)

E novamente no Livro da Revelação, encontramos a mesma simbologia astrológica:

“E havia diante do trono um como mar de vidro, semelhante ao cristal. E no meio do trono, e ao redor do trono, quatro animais cheios de olhos, por diante e por detrás.

“E o primeiro animal era semelhante a um leão, e o segundo animal semelhante a um bezerro, e tinha o terceiro animal o rosto como de homem, e o quarto animal era semelhante a uma águia voando.” (8)

A “face do homem” é o antigo signo de Aquário, o signo do homem carregando o cântaro, ao qual o Cristo se referiu quando enviou Seus discípulos à cidade, dizendo, “Eis que, quando entrardes na cidade, encontrareis um homem, levando um cântaro d’água; segui-o até a casa em que ele entrar.” (9) Este é o signo zodiacal no qual nós estamos entrando. Poderia ser também para indicar que isto é astronomicamente verdadeiro e não, simplesmente, um pronunciamento dos astrólogos. O símbolo que representa o signo zodiacal é o do Leão. Este signo é o símbolo da individualidade e, sob sua influência, a raça chega à autoconsciência e os homens podem atuar como indivíduos. Cristo, em Seu ensinamento, deu ênfase ao significado do indivíduo e em Sua vida demonstrou o supremo valor do indivíduo, seu aperfeiçoamento, seu serviço e seu sacrifício final nos interesses do todo. A constelação Áquila é sempre considerada como intercambiável com o signo do Escorpião, a serpente e é, por isso, frequentemente usada nesta conexão ao se considerar a cruz fixa do Salvador cósmico. Escorpião é a serpente da ilusão da qual a natureza do Cristo finalmente nos liberta, e é às ilusórias tentações desta serpente Scorpio que Adão sucumbiu no jardim do Éden. A “face do boi” é o símbolo bíblico para o signo do Touro, que foi a religião imediatamente precedente à revelação judaica e que encontrou seus expoentes no Egito e nos Mistérios Mitraicos. Sobre esta cruz fixa todos os Salvadores mundiais, sem excetuar o Cristo do Ocidente, foram eternamente crucificados, como para recordar ao homem o propósito divino baseado no sacrifício divino.

Os primitivos Pais reconheceram esta verdade e compreenderam que a estória escrita nos céus tinha uma relação definida com a humanidade e com a evolução das almas humanas. Clemente de Alexandria nos conta que “o caminho das almas para a ascensão se situa entre os doze signos do zodíaco” e os festivais da igreja, hoje, são baseados, não nas datas históricas em conexão com as principais figuras religiosas aos quais se referem, mas nos tempos e nas estações. Vimos como, no Nascimento em Belém, a data foi fixada astronomicamente, cerca de quatro séculos depois do nascimento do Cristo. A combinação da Virgem com a Estrela do Oriente (Sirius) e os Três Reis (simbolizados pelo cinto de Orion) foram o fator determinante. A Virgem foi vista no oriente, com a linha do horizonte passando por seu centro, e este é um dos fatores determinantes da doutrina do nascimento da mãe Virgem.

Outro exemplo pode ser dado para ilustrar os fundamentos astrológicos de nossos festivais cristãos. Há dois festivais conservados na Igreja Católica Romana e nas Igrejas Anglicanas superiores, chamados a Ascensão da Virgem e o Nascimento da Virgem Maria. Um é celebrado a 15 de agosto e o outro a 8 de setembro. Cada ano, o sol pode ser visto entrando no signo da Virgem por ocasião da Ascensão, e a constelação inteira é envolvida e deixa de ser visível pela radiante glória do sol. Em torno de 8 de setembro a constelação da Virgem pode ser novamente vista, reaparecendo ao emergir dos raios do sol. Isto é chamado o nascimento da Virgem.

O dia da Páscoa é sempre decidido astronomicamente. Estes fatos impõem a mais cuidadosa consideração. Esta informação deveria estar nas mãos dos povos cristãos, porque então e somente então, poderão eles chegar à plena e clara compreensão do que o Cristo, em Sua natureza cósmica, veio fazer na Terra. Aquele acontecimento foi de uma importância muito maior do que simplesmente garantir a salvação de qualquer ser humano individual. Significou muito mais do que uma base de crença em seu futuro celestial, para muitos milhões de pessoas. A encarnação do Cristo, à parte de seu valor histórico e à parte da chave que Ele emitiu, assinalou o fechamento de um grande ciclo cósmico, mas marcou também a abertura daquela porta para o reino que, até então, somente tinha sido aberta ocasionalmente, para permitir a entrada daqueles filhos de Deus que houvessem triunfado sobre a matéria. Após o advento do Cristo a porta permaneceu amplamente aberta por todo o tempo e o reino de Deus começou a se formar na Terra. Nos longos processos de tempo, quatro grandes expressões da vida divina, quatro formas de Deus imanente na natureza apareceram em nosso planeta. Nós as chamamos de quatro reinos da natureza. Elas constituem, simbolicamente, o reflexo planetário dos quatros braços da cruz zodiacal sobre os quais o Cristo cósmico pode ser visto, crucificado. No decorrer dos séculos os seres humanos simbolizaram o Cristo cósmico imolado na cruz da matéria e, assim, perpetuaram na consciência da raça o conhecimento daquele acontecimento; assim, num sentido planetário, os quatro reinos da natureza fazem o mesmo, retratando o espírito de Deus estendido sobre uma cruz da forma material, para tornar possível, finalmente, o aparecimento do reino de Deus na Terra. Isto conota a espiritualização da matéria e da forma, a elevação da matéria para o céu e a libertação de Deus, da crucificação cósmica. O poeta Joseph Plunkett, torna isto claro, de maneira bela, nos seguintes versos:

“Vejo Seu sangue sobre a rosa E a glória de Seus olhos nas estrelas,
Seu corpo, entre as neves eternas brilha,
Suas lágrimas caem dos céus.
Vejo Sua face em toda flor,
O trovão e o canto dos pássaros
São apenas Sua voz — e, esculpidas por Seu poder,
As rochas são Suas palavras escritas.
Todos os caminhos por Seus pés são percorridos,
Seu forte coração movimenta o mar que eternamente bate,
Sua coroa de espinhos é torcida com todo espinho,
Sua cruz é toda árvore.” (10)

O maravilhoso da missão do Cristo está no fato de que, embora fosse um, numa longa continuidade de homens divinos perfeitos, Ele teve uma missão especial. Ele resumiu em Si próprio e trouxe a uma conclusão a apresentação simbólica do eterno sacrifício de Deus na cruz fixa dos céus, ao qual as estrelas testemunham e a história da religião, tendo-o ocultado tão bem, hoje recusa reconhecê-lo. O Homem Celestial pende hoje nos Céus, como Ele esteve desde a criação do sistema solar e, como disse o Cristo, “Eu, quando for levantado da terra, atrairei todos os homens a Mim”, (11) e não só todos os homens, mas finalmente todas as formas de vida em todos os reinos oferecerão sua vida, não como um sacrifício imposto, mas como uma oferenda voluntária para a glória final de Deus. “Aquele que perder a sua vida por amor a mim, achá-la-á”, (12) é um fato muitas vezes esquecido e com uma significação definida na história da crucificação em suas implicações mais amplas. É, todavia, através da conquista do último dos reinos em manifestação, o humano, que a cruz e seu propósito se completam, e a isto a morte do Cristo dá testemunho.

Mas o ponto importante não é Sua morte, embora ela fosse um ponto culminante no processo evolutivo, e sim a subsequente Ressurreição, simbolizando, como o fez, a formação e a precipitação sobre a Terra, de um novo reino no qual os homens e todas as formas estariam livres da morte - um reino do qual o Homem liberto da Cruz pudesse ser o símbolo. Temos assim completo o círculo inteiro, desde o Homem no espaço, com seus braços estendidos em forma de uma cruz, através da sequencia dos Salvadores crucificados, contando-nos, uma vez após outra, o que Deus fizera pelo universo, até chegarmos ao culminante Filho de Deus Que conduziu o simbolismo até o plano físico, em todos os seus estágios. Ele então ergueu-se dentre os mortos para nos contar que a longa tarefa da evolução chegara à sua fase final - se assim o escolhermos e se estivermos prontos para fazer como Ele fez - pago o preço e, passando através dos portões da morte, alcançar uma alegre ressurreição. S. Paulo procurou nos familiarizar com esta verdade, embora suas palavras tenham sido tão frequentemente distorcidas através da tradução e da má interpretação teológica:

“Espero conhecer o Cristo e o poder que existe em Sua ressurreição, e participar de Seu sofrimento e até morrer como Ele morreu; na esperança de que eu possa alcançar a ressurreição dos mortos. Não digo que já tenha ganho este conhecimento, ou alcançado a perfeição, mas prossigo.” (13)

Não parece, desta passagem, que S. Paulo considerava suficiente para a salvação, simplesmente crer que o Cristo tivesse morrido por nossos pecados.

Permitam-me afirmar aqui, breve e sucintamente, o que deveria realmente ter transpirado quando Cristo morreu na Cruz. Ele abandonou o aspecto forma e identificou-Se como Homem com o aspecto vida da Deidade. Ele libertou-nos, assim, do lado forma da vida, da religião e da matéria, e demonstrou para nós a possibilidade de estar no mundo e entretanto não ser do mundo,(14) vivendo como almas, libertos das tramas e limitações da carne, enquanto caminhando pela terra. A humanidade está cansada da morte, até as profundezas de seu ser. Seu único descanso está na crença de que a última vitória será sobre a morte, e que algum dia a morte será abolida. Sobre isto nos deteremos mais precisamente em nosso próximo capítulo, mas, de passagem, pode-se dizer que a raça está tão imbuída com o pensamento da morte, que tem sido a linha de menor resistência para a teologia pôr ênfase na morte do Cristo e omitir-se de dar a principal ênfase na renovação da vida, da qual aquela morte foi o prelúdio. Esta prática acabará porque o mundo de hoje exige um Cristo vivo em vez de um Salvador morto. Ele exige um ideal tão universal em suas implicações - tão inclusivo do tempo e espaço e vida - que as constantes explicações e as infinitas tentativas em fazer a teologia conformar-se com as exigências de uma verdade vital profundamente sentida não serão mais necessárias. O mundo ultrapassou o pensamento de um Deus vingativo que exige um sacrifício de sangue. As pessoas inteligentes, hoje, devem concordar que “... o pensamento moderno não se choca com as primitivas ideias cristãs; mas com relação à propiciação para essas más inclinações, o caso é diferente. Não podemos mais aceitar a assustadora doutrina teológica que, por alguma razão mística, um sacrifício propiciatório fosse necessário. Isto ultraja tanto nossa concepção de Deus como onipotente, quanto nossa concepção de Deus como amor universal.” (15) A Humanidade aceitará o pensamento de um Deus que tenha amado tanto ao mundo, que enviou Seu Filho para nos dar a expressão final do sacrifício cósmico e para nos dizer, como Ele o fez sobre a Cruz: “Está consumado.” (16) Podemos agora “entrar no gozo do Senhor.” (17) Os homens estão aprendendo a amar, e repudiarão e repudiam uma teologia que faz de Deus uma força de dureza e crueldade no mundo, sem paralelo entre os homens.

A tendência inteira da vida humana é para repudiar aqueles antigos dogmas que foram baseados no medo e, em seu lugar, corajosamente encarar os fatos e as responsabilidades que são inerentes em seu direito espiritual pelo nascimento.

Parte 2

Quando a Igreja puser sua ênfase no Cristo vivo e quando ela reconhecer que suas formas e cerimônias, seus festivais e rituais são herdados de um passado muito antigo, teremos então o surgimento de uma nova religião que será tão divorciada da forma e do passado, como o reino de Deus é divorciado da matéria e da natureza do corpo. A religião ortodoxa, como um todo, pode ser considerada como uma cruz sobre a qual crucificamos o Cristo; ela serviu aos seus fins como guardiã dos tempos e preservadora das antigas formas, mas precisa entrar na nova vida e passar pela ressurreição se pretende ir ao encontro das necessidades da humanidade de hoje, profundamente espiritual. “As nações, como os indivíduos”, nos é dito, “são feitas, não somente do que adquirem mas do que renunciam, e isto é verdadeiro também da religião do tempo atual.” (18) Sua forma deve ser sacrificada na Cruz do Cristo para que possa ressurgir na vida vital e verdadeira, para satisfazer às necessidades dos povos. Que seu tema seja um Cristo vivo, e não um Salvador morto. Cristo morreu. Sobre isso não há engano. O Cristo da história passou pelos portões da morte por nós. O Cristo cósmico está ainda morrendo sobre a Cruz da Matéria. Lá Ele pende, preso, até que o último exausto peregrino encontre seu caminho de volta para casa. (19) O Cristo planetário, a vida dos quatro reinos da natureza, foi crucificado nos quatro braços da Cruz planetária através dos tempos. Mas o fim deste período da crucificação está perto, para nós. A humanidade pode descer da cruz, como fez o Cristo, e entrar no reino de Deus, um espírito vivo. Os filhos de Deus estão prontos para se manifestarem. Hoje, como nunca antes:

“O Próprio Espírito testemunha, com nossos próprios espíritos, que nós somos filhos de Deus; e se filhos, então também seus herdeiros - herdeiros de Deus e coerdeiros com o Cristo; se na verdade compartilhamos dos sofrimentos do Cristo, para compartilhar também de Sua glória. . .

“Toda a criação está ansiosa, desejosa de ver a manifestação dos filhos de Deus. Pois a Criação ficou sujeita à futilidade, não por sua própria escolha, mas pela vontade dAquele que assim a sujeitou; entretanto, com a esperança de que finalmente a própria Criação fosse libertada da servidão para gozar a liberdade que vem com a glória dos filhos de Deus.

“Pois nós sabemos que a Criação inteira se contorce nas dores do parto até este momento. E mais do que isso, embora possuamos o Espírito como uma antecipação da bem-aventurança, entretanto nós mesmos também gememos enquanto esperamos pela plena filiação na redenção de nossos corpos.” (20)

Nós estamos nos dirigindo para esta glorificação de Deus. Alguns dos filhos dos homens já a alcançaram, através da conscientização de sua divindade.

É interessante notar como os dois grandes ramos do cristianismo ortodoxo, o oriental, expresso através da Igreja Grega, e o ocidental, expresso pela Igreja Católica Romana e as Igrejas Protestantes, preservaram dois grandes conceitos que o espírito da raça necessitava em sua grande jornada evolutiva, ao se afastar de Deus e ao voltar para Deus. A Igreja Grega sempre deu ênfase ao Cristo levantado. A ocidental sempre deu ênfase ao Salvador crucificado. O cristianismo oriental encara a ressurreição como seu ensinamento central.

A necessidade de uma morte para as coisas materiais, a tendência do homem ao pecado e para esquecer Deus e a necessidade de uma mudança do coração ou da intenção, foram a contribuição do cristianismo ocidental às crenças religiosas do mundo. Mas ficamos tão preocupados com o problema do pecado que nos esquecemos de nossa divindade; e fomos tão intensamente individuais em nossas consciências que imaginamos um Salvador Que deu Sua vida por nós como indivíduos, crendo que se Ele nunca tivesse morrido nós nunca poderíamos entrar no paraíso. Sobre estas verdades o cristianismo oriental pôs pouca ênfase, salientando o Cristo vivo e a natureza divina do homem. Seguramente, somente quando o melhor das duas linhas de verdades apresentadas for reunido e então reinterpretado, chegaremos ao conceito básico sobre o qual nos poderemos apoiar sem hesitação, e também com a certeza de que será inclusivo o suficiente para ser realmente divino. O pecado existe, e há sacrifício envolvido no processo de ajustar nossas naturezas pecadoras. Há morte na vida, e uma necessidade de “morrer diariamente”, (21) como diz S. Paulo, para podermos viver. Cristo morreu por todos que tinham sua existência na forma, deixando-nos um exemplo para que pudéssemos seguir os Seus passos. Mas nós, no ocidente, esquecemos a Transfiguração e perdemos contato com a divindade e deveríamos agora nos aprontar para aceitar do cristianismo oriental aquilo que este, desde há tanto tempo, aceitou.

Esta gnose sempre esteve no mundo. Muito antes do Cristo ter vindo, a divindade do homem foi afirmada e as encarnações divinas reconhecidas.

Os próprios gnósticos afirmavam ser os guardiães de uma revelação que não era exclusivamente deles, mas que estivera sempre presente no mundo. G.R.S. Mead, uma autoridade nestes assuntos, assinala que: “A afirmação destes Gnósticos foi praticamente que a boa nova do Cristo (o Christos) foi a consumação da doutrina interna das Instituições dos Mistérios de todas as nações; o fim de todas elas sendo a revelação do Mistério do Homem. No Cristo o Mistério do Homem foi desvelado.” (22)

Em vista do fato comprovado de que houve uma continuidade da revelação e de que o Cristo foi um da longa linha de Filhos de Deus em manifestação, em quê diferiram dos demais, Sua Pessoa e Sua missão? Podemos e devemos concordar com Pfleger, quando ele diz: “A Encarnação de Deus no Cristo é apenas uma teofania maior e mais perfeita numa série de outras teofanias mais imperfeitas, que prepararam o caminho para ela modelando a natureza humana que os recebeu... A Encarnação não é um milagre no sentido cru e restrito do termo, não mais do que a Ressurreição, união interna da matéria com o espírito, é estranha à ordem universal da existência.” (23) Em que, portanto, a missão do Cristo diferiu das dos demais?

A diferença está no ponto de evolução que a própria humanidade alcançara. No ciclo que o Cristo inaugurou, os homens se tornaram estritamente humanos. Até aquela Encarnação sempre houveram aqueles que, tendo alcançado a humanidade, haviam depois passado adiante para demonstrar a divindade. Mas agora a humanidade inteira está a ponto de fazer o mesmo. Embora hoje os homens sejam predominantemente animais-emocionais, entretanto, devido ao êxito do processo evolutivo - levando, como fez, aos nossos amplos sistemas educacionais e a um alto nível geral de percepção mental - os homens alcançaram o ponto em que as próprias massas, dado o encorajamento apropriado, poderão “entrar no reino de Deus.” Quem poderá dizer que não é esta compreensão, quão nebulosa e incerta ela possa ser, a que impulsiona a inquietação universal e a ampla determinação por melhores condições? Que, de início, interpretemos o reino de Deus em termos do material, é inevitável, mas é um sinal espiritual e de esperança que estejamos hoje tão ocupados limpando a casa e assim tentando elevar o nível de nossa civilização. O Cristo encarnou quando, pela primeira vez, a humanidade foi um todo completo, na medida em que o lado forma de sua natureza foi considerado como manifestando todas as qualidades - físicas, psíquicas e mentais - as quais distinguem o animal homem. Ele nos trouxe u’a manifestação do que poderia ser o homem perfeito que, considerando aquele lado forma como o templo de Deus, mas reconhecendo sua divindade inata, esforça-se para trazê-la ao primeiro plano, primeiramente em sua própria consciência, depois diante do mundo. Isto, Cristo fez. Os mistérios sempre haviam sido revelados ao indivíduo que se ajustasse para penetrar num arcano ou templo oculto, mas o Cristo revelou-os à humanidade como um todo e representou o drama inteiro do Deus-Homem diante da raça. Esta foi Sua maior conquista e isto esquecemos - o Cristo vivo - na ênfase que pusemos sobre o próprio homem, em sua relação a si mesmo como um pecador, e a Deus como Aquele contra Quem ele pecou.

Novamente, toda grande organização, ou religião grupal, ou culto de qualquer espécie, originou-se de uma pessoa e daquela pessoa a ideia se espalhou pelo mundo, reunindo adeptos com o passar do tempo. Cristo, desta maneira, precipitou o reino de Deus na terra. Este sempre existira nas alturas celestiais. Ele o materializou, fazendo com que se tornasse um fato na consciência dos homens.

A preparação para o Reino e a chegada do tempo em que os homens, em grande número, pudessem ser iniciados nos mistérios, exigiam deles um reconhecimento da inutilidade e do pecado, que somente o desenvolvimento da mente poderia dar. A era cristã foi uma era de desenvolvimento mental. Foi também uma era em que se pôs muita ênfase no pecado e na má ação. Não há consciência do pecado entre os animais, embora possa haver indicações de uma consciência entre os animais domésticos, devido à sua associação com o homem. A mente produz o poder de analisar e de observar, de diferenciar e distinguir; e assim, com o advento do desenvolvimento mental houve, por muito tempo, um sentimento crescente de pecado, de contrição e de uma atitude quase abjeta ante o Criador, produzindo na humanidade aquele complexo de inferioridade fortemente marcante com o qual os psicólogos da atualidade se têm de haver. Contra esse sentimento de pecado, com seus concomitantes de expiação, propiciação e o sacrifício de Cristo por nós, houve uma revolta; e neste reação, verdadeiramente salubre, há a tendência normal de se ir longe demais. Felizmente, nós nunca somos capazes de nos afastarmos demais da divindade; e que nós, como uma raça, nos lançaremos de volta, para um estado de maior espiritualidade do que nunca antes, é a sincera crença de todos os que sabem. A teologia se excedeu com seu complexo de “miserável pecador” e dando ênfase à necessidade de purificação pelo sangue. Este ensinamento da purificação pelo sangue dos bois e dos carneiros (ou cordeiros) era parte dos antigos mistérios e foi herdada por nós, inicialmente, dos Mistérios de Mitras. Estes mistérios, por sua vez, herdaram o ensinamento e assim formularam sua doutrina, que o cristianismo absorveu. Quando o sol estava no signo zodiacal do Touro, o Boi, o sacrifício do boi foi oferecido como uma antecipação daquilo que o Cristo viria mais tarde revelar. Quando o sol passou (na precessão dos equinócios) para o signo seguinte, o do Carneiro, vimos que o carneiro era sacrificado e o bode expiatório enviado para as selvas. Cristo nasceu no signo seguinte, dos Peixes, e é por essa razão que comemos peixe na Sexta-feira Santa, em comemoração de Sua vinda. Tertuliano, um dos primeiros Pais da Igreja, fala de Jesus Cristo como do “Grande Peixe” e de nós, Seus seguidores, como os “pequenos peixes.” Tais fatos são bem conhecidos, como o extrato seguinte indicará:

“As cerimônias de purificação por aspersão do noviço e pelo banho com sangue dos bois e dos carneiros eram difundidas e encontradas nos ritos de Mitras. Por esta purificação, um homem ‘tornava a nascer’ e a expressão do Cristo, ‘lavado no sangue do Carneiro’ é, sem dúvida, um reflexo dessa ideia, sendo clara a referência nas palavras da Epístola aos Hebreus: ‘Não é possível que o sangue dos bois e dos bodes tenha lavado os pecados.’ Nesta passagem, o escritor prossegue para dizer: ‘tendo a ousadia de entrar no mais sagrado pelo sangue de Jesus, por um caminho novo e vivo que ele consagrou para nós através do véu, isto é, de sua carne. . . aproximemo-nos. . . tendo nossos corações purificados de uma consciência má e nossos corpos lavados com água pura.’ Mas quando aprendemos que a cerimônia da iniciação Mitraica consistia em entrar ousadamente num misterioso subterrâneo ‘santo dos santos’ com os olhos vendados e ali aspergidos com sangue e lavados com água, é claro que o autor da Epístola estava pensando naqueles ritos Mitraicos com os quais todos, naquele tempo, deveriam estar tão familiarizados.” (24)

Cristo veio para abolir esses sacrifícios ao nos mostrar o verdadeiro significado deles e, em Sua Pessoa como homem perfeito, Ele morreu a morte da Cruz para nos mostrar (tanto na forma figurada, como através da demonstração real) que a divindade somente pode manifestar-se e verdadeiramente expressar-se, quando o homem, como homem, houver morrido, para que o Cristo oculto possa viver. A natureza carnal inferior (como S. Paulo gostava de chamá-la) deve morrer para que a natureza divina superior possa exibir-se em toda a sua beleza. O ser inferior deve morrer para que o ser superior se possa manifestar na terra. Cristo tinha de morrer para que, uma vez por todas, a humanidade aprendesse a lição de que, pelo sacrifício da natureza humana, o aspecto divino poderia ser “salvo.” Assim, o Cristo sintetizou em Si Próprio o significado de todos os sacrifícios mundiais do passado. Aquela misteriosa verdade que somente fora revelada ao iniciado treinado e merecedor de confiança quando este estava pronto para a quarta iniciação, foi demonstrada por Cristo ao mundo dos homens. Ele morreu por todos para que todos pudessem viver. Mas esta não é a doutrina do sacrifício expiatório, que foi, predominantemente, a interpretação de S. Paulo, da Crucificação, mas a doutrina que o Próprio Cristo ensinou - a doutrina da divina imanência (ver S. João, XVII) e a doutrina do Deus-Homem.

O cristianismo herdou muitas de suas interpretações, e os instrutores e intérpretes dos tempos do cristianismo primitivo não eram mais livres da escravidão das antigas crenças do que nós, das interpretações dadas ao Cristianismo durante os últimos dois mil anos. Cristo ensinou-nos que devemos morrer para vivermos como Deuses, e por isso Ele morreu. Ele reuniu em Si Próprio todas as tradições do passado, pois Ele “não somente cumpriu as Escrituras judaicas, mas também deu cumprimento às do mundo pagão e nisso consistia a grande atração do Cristianismo primitivo. N’Ele, uma dúzia de Deuses sombrios se condensava numa realidade aproximada; e em Sua crucificação as velhas histórias dos terríveis sofrimentos e mortes sacrificiais se transformaram em realidade e ganharam significado direto.” (25) Mas Sua morte foi também o ato de consumação de uma vida de sacrifício e serviço e o fruto lógico de Seu ensinamento. Os pioneiros e aqueles que revelam aos homens o passo seguinte, aqueles que surgem como intérpretes do Plano divino, são inevitavelmente repudiados e usualmente morrem como resultado de seus corajosos pronunciamentos. A esta regra Cristo não fez exceção. “Pensadores cristãos avançados consideram agora a crucificação de nosso Senhor como o supremo sacrifício feito por Ele em prol dos princípios de Seu ensinamento. Foi o ato de coroação de Sua heroica vida, e dá um exemplo tão sublime à humanidade que se diz que a meditação sobre o mesmo produz uma condição de unificação com a Fonte de toda bondade.” (26)

Como é, então, que hoje se dá tanta ênfase ao sacrifício de sangue do Cristo e à ideia do pecado? Parece que duas causas são responsáveis por isso:

1. A ideia herdada do sacrifício de sangue. Como o Dr. Rashdall nos diz:

“Os vários autores dos livros canônicos estavam, de fato, tão habituados às ideias pré-cristãs, do sacrifício expiatório e do holocausto, que o aceitaram sem ir às raízes do assunto. Mas esta imprecisão não era do agrado dos Pais do Cristianismo primitivo. No século II A.D., Irineu e, depois dele, outros escritores, explicaram a doutrina pelo que é chamada a ‘Teoria do Resgate’, que estabelece que o Diabo era o Senhor legal da humanidade devido à queda de Adão e que Deus, sendo incapaz, com justiça, de tomar os indivíduos de Satã sem lhe pagar um resgate - por eles - ofereceu em troca Seu próprio Filho encarnado.” (27)

Neste pensamento temos uma clara demonstração do modo pelo qual todas as ideias (intuitivamente percebidas e infalivelmente corretas) são distorcidas. As mentes e noções preconcebidas dos homens colorem-nas. A ideia se torna o ideal, serve a um propósito útil e conduz os homens adiante (como a ideia do sacrifício sempre aproximou os homens de Deus) até se tornar um ídolo e, consequentemente, limitadora e falsa.

2. O crescimento da consciência do pecado na raça, devido à sua crescente sensibilidade ao divino e seu consequente reconhecimento das fraquezas e do relativo mal da natureza humana inferior.

Vimos que um dos fatores responsáveis pelo complexo de pecado do Ocidente, foi o desenvolvimento da faculdade da mente e consequente ampliação da consciência, possibilidade de ter um senso de valores e (como resultado disso) a capacidade de ver as naturezas, superior e inferior, em mútua oposição. Quando o ser superior, com seus valores e seu alcance de contatos, é constatado instintivamente e o ser inferior, com seus valores menores e seu mais material alcance de atividade é também compreendido, segue-se, necessariamente, que um senso de divisão e de fracasso se desenvolve; os homens se conscientizam de sua falta de realização; tornam-se conscientes de Deus e da humanidade, do mundo, da carne e do diabo, mas ao mesmo tempo, do reino de Deus. À medida que o homem evolui, suas definições se alteram e os assim chamados pecados grosseiros do homem não evoluído e as falhas e fracassos do cidadão ‘bem comportado’ comum dos tempos modernos envolvem diferentes atitudes de mente e julgamento e enfoques punitivos certamente diversos. À proporção que nosso senso de Deus muda e se desenvolve e que nos aproximamos da realidade, nossa inteira visão da nossa própria vida e de nossos semelhantes fica apta para se alterar e ampliar e se torna mais divina, como também mais humana. É uma característica humana ter consciência do pecado e compreender que, quando um homem ofende, ele deve, de uma maneira ou de outra, pagar um preço. O germe da mente, mesmo na infante humanidade, dá origem a esta compreensão, mas levou cerca de dois mil anos de cristianismo para elevar o pecado a uma posição de tal importância que ele viesse a ocupar (como ainda o faz) um lugar capital no pensamento de toda a humanidade. Temos uma situação em que a lei, a Igreja e os educadores da raça estão quase inteiramente ocupados com o pecado e como impedi-lo. Seria o caso de algumas vezes imaginarmos como o mundo seria, hoje, se os expoentes do cristianismo se tivessem ocupado com o tema do amor e do serviço amoroso em vez de com esta ênfase, constantemente reiterada, ao sacrifício do sangue e à maldade do homem.

O tema do pecado acompanha natural e normalmente a história da humanidade; e o esforço para expiá-lo, na forma do sacrifício animal, sempre esteve presente. A crença numa divindade irada, que impunha punições por tudo que fosse feito pelo homem contra um irmão, e que exigia um preço por tudo que fosse dado ao homem como resultado dos processos naturais da terra, é tão velha quanto o próprio homem. Ela passou por muitas fases. A ideia de um Deus Cuja natureza é o amor batalhou, durante séculos, com a ideia de um Deus Cuja natureza é o ódio. A destacada contribuição do Cristo ao progresso mundial foi Sua afirmação, pela palavra e pelo exemplo, do pensamento que Deus é amor e não uma divindade enraivecida, impingindo um tributo enciumado. A batalha ainda se trava entre esta antiga crença e a verdade do amor de Deus que o Cristo expressou, e que Shri Krishna também encarnou. Mas a crença num Deus ciumento e irado está ainda fortemente arraigada. Ela está enraizada na consciência da raça e somente hoje nós estamos lentamente começando a compreender uma diferente expressão da divindade. Nossa interpretação do pecado e sua penalidade foi falha, mas a realidade do amor de Deus pode agora ser alcançada e assim compensar a desastrosa doutrina de um Deus irado Que enviou Seu Filho para ser a propiciação para o mal do mundo. Talvez o Calvinismo seja a melhor e mais pura interpretação desta crença e uma breve demonstração do conceito que aquela doutrina teológica apresenta, em termos inteligíveis.

“O calvinismo é construído sobre o dogma da absoluta soberania de Deus, incluindo a onipotência, a onisciência e a eterna justiça - uma doutrina cristã comum, mas desenvolvida pelos calvinistas com incansável lógica, até extremas conclusões. O calvinismo é muitas vezes resumido em cinco pontos. 1) Todo ser humano como descendente de Adão (que todos os cristãos daquele tempo supunham ser um caráter histórico) é culpado, desde o nascimento, do pecado original, em adição a posteriores pecados cometidos durante a própria vida. Um homem nada pode fazer para remover seu próprio pecado e culpa; o que somente pode ser feito pela graça de Deus, misericordiosamente outorgada a ele pelo holocausto do Cristo e sem nenhum mérito da parte daquele; 2) assim, somente aquelas determinadas pessoas podem ser salvas (redenção particular); 3) a quem Deus faz um chamado eficaz, fortalecendo suas vontades e capacitando-a para aceitar a salvação; 4) quem será, e quem não será salvo é assim uma questão de escolha divina, ou predestinação; 5) Deus nunca faltará àqueles que eleger: eles jamais cairão da salvação final (perseverança dos santos). Os calvinistas insistiam com grande calor e se esforçavam com muita sutileza para demonstrar que sua doutrina plenamente garante a liberdade humana e que Deus não é, de modo algum, responsável pelo pecado humano.” (28)

Em vista, portanto, desta ênfase sobre o pecado humano e como resultado do antigo hábito de oferecer sacrifício a Deus, a verdadeira missão de Cristo ficou ignorada por muito tempo. Em vez de ser reconhecido como encarnando em Si Próprio uma eterna esperança para a raça, Ele foi incorporado ao antigo sistema de sacrifícios e os antigos hábitos de pensamento eram muito fortes para a nova ideia que Ele vinha trazer. O pecado e o sacrifício suplantavam e expulsavam o amor e o serviço que Ele procurou trazer à nossa atenção através de Sua vida e Suas palavras. É também por isso que, do ângulo psicológico, o cristianismo produziu homens tão tristes, esgotados e conscientes do pecado. Cristo, o sacrifício para o pecado, e a Cruz de Cristo como instrumento de Sua morte, absorveram a atenção dos homens, ao passo que Cristo, o homem perfeito e Cristo, o Filho de Deus, receberam menor ênfase. O significado cósmico da cruz foi inteiramente esquecido (ou jamais conhecido) no ocidente.

A salvação não está principalmente relacionada com o pecado. O pecado é um sintoma de uma condição e, quando um homem está “verdadeiramente salvo”, aquela condição é compensada e com ela a natureza incidental pecaminosa. Foi isto que o Cristo veio fazer - mostrar-nos a natureza da vida “salva”; demonstrar-nos a qualidade do Ser eterno que existe em todo homem; esta é a lição da Crucificação e da Ressurreição: a natureza inferior deve morrer para que a superior possa manifestar-se e a eterna alma imortal em todo homem deve erguer-se do túmulo da matéria. É interessante seguir a ideia de que os homens precisam sofrer neste mundo como resultado do pecado. No oriente, onde as doutrinas da reencarnação e do carma têm influência, um homem sofre por suas próprias ações e pecados e “produz sua própria salvação, com medo e temor.” (29) No ensinamento judaico um homem sofre pelos pecados de seus ancestrais e de sua nação, e assim dá substância à verdade que somente agora começa a se tornar um fato conhecido - a verdade da herança física. Sob o ensinamento cristão, Cristo, o homem perfeito, sofre com Deus, porque Deus amou tanto o mundo que, imanente neste como é, Ele não pode divorciar-Se das consequências da fragilidade e da ignorância humanas. Assim a humanidade dá um propósito à dor e, assim, o mal é finalmente derrotado.

O pensamento e ideia do sacrifício pelos pecados das pessoas não foi a ideia original e básica. Originalmente, a infante humanidade oferecia sacrifícios a Deus para apaziguar Sua ira, descarregada nos elementos através das tempestades e terremotos e cataclismos. Quando, instintivamente, os homens se voltaram uns para os outros, quando eles se ofenderam e se feriram reciprocamente e assim transgrediram uma compreensão tenuemente sentida das relações e do intercâmbio humanos, o sacrifício foi novamente oferecido a Deus para que Ele também não ferisse a humanidade. Assim, pouco a pouco, a ideia cresceu até que, por fim, o conceito da salvação pudesse ser brevemente resumido nos seguintes termos:

1. Os homens são salvos da ira de Deus nos fenômenos naturais, através dos sacrifícios animais, precedidos nos tempos ainda mais antigos pelo sacrifício dos frutos da terra.

2. Os homens são salvos da ira de Deus e uns dos outros pelo sacrifício daquilo que é valioso, conduzindo finalmente aos sacrifícios humanos.

3. Os homens são salvos pelo sacrifício de um reconhecido Filho de Deus, daí o sacrifício expiatório, pela qual os muitos Salvadores mundiais crucificados prepararam o caminho para Cristo.

4. Os homens são definitivamente salvos do castigo eterno, pela morte de Cristo na Cruz, o pecador culpado de uma palavra má sendo tão responsável pela morte do Cristo como o pior assassino.

5. Finalmente, a gradual emergência do reconhecimento de que nós somos salvos pelo Cristo vivo levantado - historicamente nos apresentando uma meta e presente em cada um de nós como a eterna onisciente alma do homem.

Hoje é o Cristo levantado que está emergindo na vanguarda da consciência dos homens e devido a isto nós estamos caminhando em direção a um período de maior espiritualidade e de uma expressão da religião mais autêntica do que em qualquer outro tempo na história da humanidade. A consciência religiosa é a persistente expressão do homem espiritual interno, o Cristo interno; e nenhum acontecimento exterior terreno, e nenhuma situação nacional, pouco importante quão temporariamente material possa parecer em seus objetivos, poderá empanar ou obliterar a Presença de Deus em nós. Estamos aprendendo que aquela Presença somente pode ser libertada em nós pela morte da natureza inferior, e isto é o que Cristo sempre proclamou para nós, de Sua Cruz. Estamos crescentemente compreendendo que a “solidariedade de Seus sofrimentos” significa que nós subimos à cruz com Ele e compartilhamos constantemente da experiência da Crucificação. Estamos chegando ao conhecimento de que o fator determinante na vida humana é o amor, e que “Deus é amor.” (30) Cristo veio para nos mostrar que o amor era o poder motivador do universo. Ele sofreu e morreu porque Ele amava e se preocupava bastante com os seres humanos para demonstrar-lhes o Caminho que deviam buscar - desde a caverna do Nascimento até o monte da Transfiguração e daí até a agonia da Crucificação - se é que eles também devem compartilhar da vida da humanidade e se tornarem, por sua vez, salvadores de seus semelhantes.

Como então definiremos o pecado? Primeiro, olhemos as palavras que são usadas na Bíblia e nos trabalhos e comentários teológicos que tratam do tema do pecado, da transgressão, da iniquidade, do mal, da separatividade. Todas essas são expressões da relação do homem para com Deus e com seus semelhantes e, de acordo com o Novo Testamento, estes termos - Deus e nossos semelhantes - são intercambiáveis. Que significam estas palavras?

O verdadeiro significado da palavra pecado é muito obscuro. Significa literalmente “aquele que é.” (31) Literalmente, portanto, aquele que existe, na medida que ele se dispõe contra o aspecto divino oculto em si próprio, é um pecador. Algumas palavras do Dr. Grensted são iluminadores a respeito. Diz ele:

“‘Os homens se afastaram de Deus’, diz Athanasius, ‘quando eles começaram a dar atenção a si mesmos.’ Agostinho identifica o pecado com o amor a si mesmo. O Dr. Williams argumentou que o princípio subjacente do qual surge o pecado deve ser buscado na “autoasserção do indivíduo contra o rebanho”, um princípio que nós somente podemos designar pelos inadequados títulos de egoísmo, falta de amor e ódio. ‘E o Dr. Kirk declara que o pecado pode ser considerado como começando com a preocupação consigo mesmo.”’ (32)

Estes pensamentos nos trazem diretamente ao problema central do pecado que é (em última análise) o problema da dualidade essencial do homem, antes dele ter feito a unificação que o Cristo simbolizou. Quando o homem, antes de despertar para sua natureza dual, faz aquilo que é errado e pecaminoso, não podemos e não o consideramos como um pecador - a não ser que sejamos tão ultrapassados que acreditemos na doutrina que todo homem está irremediavelmente perdido a menos que seja “salvo” no sentido ortodoxo do termo. Para S. Jaime, o pecado é a ação contra o conhecimento e ele diz, “àquele que saber fazer o bem, e não o faz, para esse é pecado.” (33) Aí nós temos uma verdadeira definição do pecado. É agir contra a luz e o conhecimento e deliberadamente fazer aquilo que sabemos estar errado e ser indesejável. Onde não houver tal conhecimento não poderá haver pecado; por isso os animais são considerados como livres de pecado, e os homens, agindo em igual ignorância, deveriam ser igualmente considerados. Mas no momento em que um homem se torna consciente de que ele é duas pessoas numa só forma, de que ele é Deus e homem, então a responsabilidade firmemente cresce, o pecado se torna possível, e é aqui que o aspecto mistério do pecado se introduz. Ele consiste na relação entre o “homem oculto do coração” (34) e o homem exterior, tangível. Cada um tem sua própria vida e seu próprio campo de experiência. Cada um, por conseguinte, permanece um mistério para o outro. A unificação consiste em ligar a relação entre estes dois, e quando os desejos do “homem oculto” são violados, o pecado ocorre.

Quando estes dois aspectos do homem são unidos e funcionam juntos como uma unidade, e quando o homem espiritual controla as atividades do homem carnal, o pecado se torna impossível e o homem se encaminha para a grandeza.

A palavra “transgressão” significa cruzar uma fronteira; envolve o deslocamento de um marco, como é chamado na Maçonaria, ou a violação de um dos princípios básicos da vida. Há certas coisas que são reconhecidas por todos como tendo uma relação controladora para o homem. Uma compilação de princípios, tal como os Dez Mandamentos, poderia ser citada como uma ilustração deste ponto. Eles constituem os limites que os costumes antigos, os hábitos corretos ordenados e a ordem social impuseram à humanidade. Cruzar esses limites que o homem, por sua experiência, instituiu para si mesmo, e aos quais Deus concedeu divino reconhecimento, é transgredir, e para cada transgressão há uma inevitável penalidade. Nós pagamos o preço da ignorância cada vez e assim aprendemos a não pecar; nós somos punidos quando não mantemos as regras, e, com o tempo, aprendemos a não transgredi-las. Instintivamente conservamos certas regras; provavelmente porque temos muitas vezes pago o preço, e certamente por que nos preocupamos muito com nossas reputações e com a opinião pública para transgredi-las, agora. Há limites que o cidadão comum de mente correta não cruza. Quando o faz, une-se ao grande grupo de pecadores. A ação controlada em cada departamento da vida humana é o ideal e esta ação deve ser baseada no motivo justo, impulsionada pelo propósito altruísta e levada adiante na força do homem espiritual interno, o “homem oculto do coração.”

“Iniquidade” é uma palavra com um significado semelhantemente inócuo. Significa, simplesmente, uma desigualdade, um desequilíbrio. Um homem iníquo é, pois, tecnicamente, um homem desequilibrado, alguém que tolera algum desequilíbrio em sua vida diária. Uma definição como esta é amplamente inclusiva, e mesmo que não nos consideremos como pecadores e transgressores, certamente nos incluiremos na categoria daqueles cujas vidas mostram certas desigualdades na conduta. Não somos sempre os mesmos. Somos fluídos em nossa expressão da vida. Alguns dias somos uma coisa e outros dias outra e, devido a esta falta de equilíbrio, nós somos pessoas iníquas no sentido verdadeiro da palavra. Tais coisas devem ser lembradas, pois elas impedem aquele terrível pecado, o da satisfação própria.

A questão do mal é muito grande para elucidar até o final, mas ele poderia ser simplesmente definido como a adesão ao que devêramos ter expelido, o tomar aquilo que devêramos ter deixado para trás. O mal é, para a maioria, simples e unicamente um esforço para nos identificarmos com o lado forma da vida quando temos capacidade para a consciência da alma; e a retidão é a firme direção do pensamento e da vida para a alma, levando àquelas atividades que são espirituais, inofensivas e úteis. Este sentido do mal e esta reação ao bem está novamente latente no relacionamento entre as duas metades da natureza humana - o espiritual e o estritamente humano. Quando voltamos a luz de nossa consciência despertada para a natureza inferior, e então deliberadamente fazemos, “na luz”, aquelas coisas que são determinadas e vitalizadas a partir dos níveis inferiores de nossa existência, estamos jogando o peso de nosso conhecimento para o lado do mal e estamos retroagindo. Não é sempre expedito do ponto de vista do “homem carnal” fazer, ou rejeitar, certas coisas e, quando escolhemos o inferior, e o praticamos, fazendo uma escolha específica, então o mal que está em nós domina.

Está gradualmente despertando na consciência humana que uma atitude separativa tem em si os elementos do pecado e do mal. Quando somos separativos em nossas atitudes ou fazemos qualquer coisa que produza a separação, estamos transgredindo uma lei fundamental de Deus. Na verdade, estamos quebrando a Lei do Amor, que não conhece qualquer separação, mas vê somente unidade e síntese, fraternidade e inter-relação em toda parte. Aqui jaz nosso maior problema. Nosso estudo com relação ao pecado e ao mal servirá, como diz o Dr. Grensted,..

“principalmente para revelar o caráter fundamental de nosso problema, que resulta de um fracasso na fé e de uma recusa em amar. Os psicólogos não escapam desta visão do pecado quando lidam com ele como doença moral, pois sua única esperança de tratar com êxito tal doença moral está na tentativa de despertar as reservas pessoais latentes do ego, através de processos, por sua vez, pessoais. Onde, como em algumas das psicoses maiores, este apelo não pode ser feito, não há nenhuma esperança humana de cura. A chave para a cura psicológica está na transferência e ali está o paralelo mais próximo possível entre esta e a maneira cristã do perdão. Ambos os métodos são totalmente pessoais, ambos dependem de um reajustamento das relações que começam no sacerdote ou no médico e passam para cada relação do meio social.” (35) [Os itálicos são meus. A.A.B.]

O senso de responsabilidade pelas ações individuais cresce à medida que se avança de estágio a estágio no Caminho da Evolução. Nos estágios iniciais há pouca ou nenhuma responsabilidade. Há pouco ou nenhum conhecimento, nenhum senso de relação com Deus e muito pouco senso de relação com a humanidade. É este senso de separatividade, esta ênfase no bem pessoal e individual que pertence à natureza do pecado. O amor é unidade, unificação e síntese. A separatividade é ódio, solidão e divisão. Mas o homem, sendo divino em sua natureza, tem de amar, e o problema tem sido que ele tem amado erradamente. Nos estágios iniciais de seu desenvolvimento ele situa seu amor na direção errada e, voltando as costas para o amor a Deus, que é da própria natureza de sua própria alma, ele ama aquilo que está conectado com o lado forma da vida e não com o lado vida da forma.

O pecado é, pois, uma clara violação da Lei do Amor, como o demonstramos em nossa relação com Deus ou com nosso irmão, um filho de Deus. É o fazer aquelas coisas do interesse puramente egoísta que traz o sofrimento àqueles que temos em nossa vizinhança imediata, ou ao grupo ao qual possamos estar filiados - um grupo familiar, um grupo social, um grupo comercial, ou apenas o grupo de seres humanos ao qual nosso destino geral nos lança.

Isto nos traz à compreensão de que, em última análise, o pecado significa a relação errada com outros seres humanos. Foi o senso desta relação errada que nos dias primitivos da história da humanidade deu origem ao sacrifício dos bens materiais no altar, pois o homem primitivo parecia sentir que, fazendo uma oferenda a Deus, ele era bem sucedido na tentativa de redimir seu caráter com seus semelhantes.

Está começando a despertar na raça, hoje, que o único pecado real é ferir um outro ser humano. O pecado é o mau uso de nossas relações recíprocas e não há escapatória para estas relações. Elas existem. Nós vivemos num mundo de homens e nossas vidas são vividas em contato com outros seres humanos. O caminho pelo qual lidamos com este problema diário demonstra, ou nossa divindade, ou nossa falha natureza inferior. Nossa tarefa na vida é expressar a divindade. E essa divindade se manifesta da mesma maneira que a divindade do Cristo se expressou; em viver inofensivamente e no serviço contínuo aos nossos semelhantes; numa cuidadosa observação das palavras e ações para evitar que, de algum modo, “ofendamos um desses pequeninos;” (36) no compartilhar com o Cristo da urgência que Ele sentiu, de satisfazer às necessidades mundiais e de representar o papel de um salvador dos homens. É gloriosamente verdadeiro que este conceito básico da Divindade começa a dominar a humanidade.

A maior tarefa de Cristo foi o estabelecimento do reino de Deus na terra. Ele nos mostrou o caminho pelo qual a humanidade poderia entrar naquele reino - sujeitando a natureza inferior à morte da cruz, e elevando-se pelo poder do Cristo interno. Cada um de nós tem que trilhar o caminho da cruz sozinho e entrar no reino de Deus pelo direito da conquista. Mas o caminho é achado no serviço aos nossos semelhantes e a morte de Cristo, vista de um ângulo, foi o resultado lógico do serviço que Ele tinha de prestar. O serviço, a dor, a dificuldade e a cruz - tais são as recompensas do homem que põe a humanidade primeiro e a si próprio em segundo lugar. Mas tendo feito assim, ele descobre que a porta para o reino está toda aberta e que ele pode entrar. Mas tem de primeiro sofrer. É o Caminho.

É através do supremo serviço e sacrifício que nos tornamos seguidores do Cristo e ganhamos o direito de entrar no Seu reino, porque não entramos sozinhos. Este é o elemento subjetivo em todas as aspirações religiosas, e isto todos os filhos de Deus compreenderam e ensinaram. O homem triunfa através da morte e do sacrifício.

Aquele Espírito super-humano, Cristo, fez isto perfeitamente. Nele não havia pecado porque Ele tinha perfeitamente transcendido o efêmero ser inferior. Sua personalidade estava subordinada à Sua divindade. As leis da transgressão não O atingiam, porque Ele não cruzava as fronteiras e não infringia nenhum princípio. Ele encarnava em Si Próprio o princípio do amor e por isso não Lhe era possível, no estágio evolutivo que alcançara, ferir um ser humano. Ele era perfeitamente ajustado e tinha conquistado aquele equilíbrio que O libertara de todos os impactos inferiores e O libertara para ascender ao trono de Deus. Para Ele não havia submissão ao inferior e aquilo que era humanamente desejável mas divinamente rejeitado. O mal, por conseguinte, passara por Ele, mas entre ambos não havia transações. Ele, “como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado.” (37) Ele não conhecia separatividade. Homens ricos, publicanos, pescadores, professores eruditos, prostitutas e o povo simples eram todos Seus amigos e a “grande heresia da separatividade” foi completamente superada por Seu espírito tudo-inclusivo. Assim Ele cumpriu a lei do passado, pondo ênfase ao tipo para a humanidade do futuro, e penetrou por nós no véu, deixando-nos um exemplo para que seguíssemos os Seus passos - um exemplo de sacrifício até a morte, de serviço prestado incessantemente, de esquecimento-próprio, e de um heroísmo que O conduziu de ponto a ponto pelo caminho e de altitude a altitude, até que nenhuma cadeia pudesse contê-lo (nem mesmo as barreiras da morte). Ele permanece o eterno Homem-Deus, o Salvador do mundo. Na perfeição Ele cumpriu a vontade de Deus e nos disse as palavras que nos dão uma simples regra com uma grande recompensa: “Se alguém quiser fazer a vontade Dele, pela mesma doutrina conhecerá se ela é de Deus.” (38)

A simplicidade desta instrução é quase desconcertante. Somos instados a simplesmente fazer a vontade de Deus e então a verdade ser-nos-á revelada. Havia ocasiões, na vida do Cristo, como no Jardim do Gethsemane, em que Ele lutou consigo mesmo para cumprir a vontade de Deus. Houve momentos em que Sua carne humana tremeu diante das perspectivas que se abriam diante de Si. Ele, por conseguinte, conhecia a dificuldade desta regra simples.

Parte 3

Ao voltarmos nossa atenção para a história da Crucificação, é óbvio que não há necessidade de tornar a contar seus detalhes. Ela é tão bem conhecida e tão familiar que as palavras em que se apoia podem significar pouco. O relato da entrada triunfante do Cristo em Jerusalém, de sua reunião com os discípulos no andar superior, lá comungando com eles do pão e do vinho, e a deserção daqueles que supostamente o amavam, com Sua subsequente agonia no Jardim do Gethsemane, é tão familiar para nós como nossos próprios nomes, e muito menos atraente. Aquela é a tragédia do Cristo. Ele fez tanto e foi tão pouco reconhecido. Levou vinte séculos para começarmos a compreendê-Lo e à Sua missão e carreira. A própria Crucificação foi apenas uma consumação antecipada e aguardada daquela carreira. Não era possível qualquer outro final. Ele estava predeterminado desde o começo e realmente datava do tempo em que, após a iniciação do Batismo, Ele começou a servir à humanidade, a ensinar e pregar as boas novas do reino de Deus. Aquele era Seu tema, e nós nos esquecemos dele para pregar a Personalidade de Jesus Cristo, um tema que Ele Próprio ignorava e que Lhe parecia de pouca importância em face dos valores maiores envolvidos. Esta é, novamente, a tragédia do Cristo. Ele tem um conjunto de valores e o mundo tem outro.

Fizemos da Crucificação uma tragédia, enquanto que a verdadeira tragédia foi nosso fracasso em reconhecer seu significado real. A agonia no Jardim de Gethsemane foi baseada no fato de que Ele não fora compreendido. Muitos homens morreram de mortes violentas. Nisto, o Cristo não foi de modo algum diferente de milhares de outros homens de visão mais ampla e reformadores em todos os tempos. Muitas pessoas passaram pela experiência do Gethsemane e oraram com o mesmo fervor que o Cristo para que se cumprisse a vontade de Deus. Muitos homens foram abandonados por aqueles de quem se poderia esperar a compreensão e participação no trabalho e serviço considerados. Em nenhum desses aspectos o Cristo terá sido realmente exclusivo. Mas Seu sofrimento foi baseado em Sua visão ímpar. A falta de compreensão das pessoas e as interpretações distorcidas que os futuros teólogos dariam à Sua mensagem, devem certamente ter sido uma parte de previsão, como igualmente o conhecimento de que a ênfase conferida a Ele como o Salvador do mundo retardaria em séculos a materialização do reino de Deus na terra, que era Sua missão fundar. Cristo veio para que toda a humanidade pudesse ter “vida... mais abundantemente.” (39) De tal maneira interpretamos Suas palavras que somente os “salvos” são creditados com o terem dado os passos necessários em direção àquela vida. Mas a vida abundante certamente não é uma vida para ser vivida futuramente, em algum distante paraíso onde os que são crentes gozarão uma vida exclusiva de felicidade, ao passo que o resto dos filhos de Deus será deixado de fora. A Cruz teve a finalidade de indicar a linha de demarcação entre o reino dos homens e o reino de Deus, entre um grande reino da natureza que já havia alcançado a maturidade e um outro reino da natureza que podia agora entrar em seu ciclo de atividade. O reino humano tinha evoluído até o ponto de ter produzido o Cristo e aqueles outros filhos de Deus cujas vidas deram constante testemunho da natureza divina.

Cristo assumiu o antigo símbolo e carga da cruz, e, tomando Seu lugar ao lado de todos os anteriores Salvadores crucificados, encarnou em Si Próprio o imediato e o cósmico, o passado e o futuro, cobrindo a Cruz no monte fora de Jerusalém (cujo nome significa “visão da paz”), assim chamando a atenção para a fundação do reino para o qual morreu. A obra tinha sido completada e naquele estranho pequeno país chamado Terra Santa, uma estreita faixa de território entre os dois hemisférios, o Oriente e o Ocidente, Leste e Oeste, Cristo subiu à Cruz e fixou os limites entre o reino de Deus e os reinos do mundo, entre o mundo dos homens e o mundo Espírito. Assim ele levou a um clímax os antigos Mistérios, que haviam profetizado a vinda daquele reino e instituiu os Mistérios do reino de Deus.

O esforço para fazer chegar à perfeição a vontade de Deus acabou com a mais completa vida que tinha sido vivida na terra. A tentativa para fundar o reino, predestinado desde todos os tempos, e o antagonismo que isto evocou, levou Cristo ao lugar da crucificação. A dureza dos corações humanos, a fraqueza de seu amor e o fracasso deles em perceber a visão, quebrou o coração do Salvador do mundo - um Salvador porque Ele abriu a porta para o reino.

É tempo da Igreja despertar para sua verdadeira missão, que é materializar o reino de Deus na terra, hoje, aqui e agora. Já passou o tempo em que podíamos pôr ênfase num futuro e vindouro reino. As pessoas não estão mais interessadas num possível estado celestial ou num provável inferno. Elas necessitam aprender que o reino está aqui e precisa expressar-se na terra; ele consiste daqueles que cumprem a vontade de Deus a qualquer custo, como fez Cristo, e que podem amar-se uns aos outros como Cristo nos amou. O caminho para aquele reino é o caminho que Cristo trilhou. Ele envolve o sacrifício do eu pessoal pelo bem do mundo, e o serviço à humanidade em lugar do serviço aos próprios desejos. No curso da enunciação dessas novas verdades concernentes ao amor e ao serviço Cristo perdeu sua vida. Canon Streeter nos conta que “o significado e o valor da morte do Cristo ressaltam de sua qualidade interior. É a expressão no ato externo de uma autodedicação livremente escolhida, sem reclamação e sem reserva, ao mais alto serviço a Deus e ao homem. O sofrimento incidental a este auto-oferecimento é moralmente criativo.” (40)

Não será, quem sabe, a Crucificação de Cristo, com seus grandes eventos precedentes - a comunhão e a experiência do Gethsemane - uma tragédia baseada no conflito entre o amor e o ódio? Não será a intenção deste livro diminuir o acontecimento mundial que teve lugar no Calvário. Mas hoje, ao se olhar para trás para aquele acontecimento, uma certa verdade começa a emergir, e esta é que nós temos interpretado aquele sacrifício e aquela morte em termos puramente egoístas. Nós nos ocupamos com nosso interesse individual no assunto. Demos ênfase à importância de nossa salvação individual e sentimos ser ela de tremenda importância. Mas a visão mundial e o que Cristo estava destinado a fazer pela humanidade através dos tempos, e a atitude de Deus para com os seres humanos desde os tempos mais remotos, durante a vida do Cristo na Palestina e daí até o tempo atual, estão subordinados ao fator de nossa crença ou não-crença na eficácia da Crucificação no Calvario para salvar nossas almas individuais. Entretanto, em Sua conversa com o ladrão arrependido Cristo admitiu-o no reino de Deus com base no seu reconhecimento do divino. Cristo ainda não havia morrido e o sacrifício de sangue do Cristo ainda não ocorrera. Foi quase como se Cristo tivesse previsto a volta que a teologia iria fazer com relação à Sua morte e tivesse tentado contrabalançá-la, fazendo do reconhecimento do ladrão agonizante um dos acontecimentos marcantes em Sua morte. Ele não fez qualquer referência à remissão dos pecados através de Seu sangue, como condição para aquela admissão.

A questão principal foi a questão entre o amor e o ódio. Somente S. João, o Apóstolo amado, o mais próximo a Jesus, a compreendeu realmente; e em suas Epístolas a ênfase é inteiramente sobre o amor, não se encontrando, ali, em parte alguma, a usual interpretação ortodoxa. Somente amor e ódio; o desejo de viver como filhos de Deus e a inclinação para viver como seres humanos comuns: nisso repousa a distinção entre o cidadão do reino de Deus e um membro da família humana. Foi amor que Cristo procurou expressar, mas o que tem caracterizado a aplicação oficial de Seu ensinamento, em todos os tempos, é o ódio, separatividade e guerra, culminando na Guerra Mundial. Cristo morreu para trazer ao nosso conhecimento que o caminho para se entrar no reino de Deus era o do amor e do serviço. Ele serviu e amou, produziu milagres e reuniu os pobres e famintos. Ele os alimentou e procurou por todos os meios possíveis chamar a atenção para o princípio do amor como a principal característica da divindade, somente para verificar que esta vida de serviço amoroso Lhe trouxe problemas e finalmente a morte na Cruz.

Temos lutado pela doutrina teológica da Imaculada Concepção. Temos lutado pelas doutrinas pelas quais os homens serão salvos. Temos lutado pela questão do batismo, e pela expiação. Temos lutado pelo fato e pela negação da imortalidade, e pelo que o homem precisa fazer para a ressurreição dos mortos. Temos considerado metade do mundo como perdida e somente o crente cristão como salvo; no entanto, o tempo todo Cristo nos disse que é o amor, o caminho que leva ao reino e que o fato da presença da divindade em cada um de nós nos torna elegíveis para aquele reino. Temos omitido a compreensão de que “O sacrifício expiatório é a harmonizadora desarmonia alheia pelo poder de uma presença espiritual, a qual produz a grande transmutação; o mal é absorvido e transmutado no bem, ou equilibrado.” (41) Isto constitui a tentativa do Cristo, e o fato de Sua Presença é o meio harmonizador da vida. Os homens não são salvos pela crença na formulação de um dogma teológico, mas pelo fato de Sua Presença viva, do Cristo vivo imediato. A compreensão do fato da presença de Deus no coração humano é a base da visão mística, ao passo que o conhecimento de que somos filhos de Deus nos dá a força para seguir as pegadas do Salvador, de Belém ao Calvário. O que finalmente reorganizará nossa vida humana será a presença, no mundo, daqueles que conhecem o Cristo como seu exemplo e reconhecem que possuem a mesma vida divina, assim como a afirmação da lei básica do reino de Deus, a Lei do Amor, salvará finalmente o mundo. É a substituição da vida do mundo, da carne e do diabo pela vida do Cristo, que injetará um significado e um valor à vida.

Um sentimento de fracasso do amor constituiu o principal problema na agonia do Jardim; foi este senso de árduo trabalho com as forças do mundo que capacitou o Cristo a unir-se em companhia de todos os Seus irmãos. Os homens fracassaram, com ele, da mesma forma como fracassam conosco. No momento em que Ele mais necessitava de compreensão e de toda a força que o companheirismo proporciona, Seus mais chegados e queridos, ou desertaram, ou dormiram, alheios à Sua agonia mental. “O conflito de Prometeu é a luta que tem lugar na mente humana entre o anelo pela compreensão e o impulso imediatamente mais próximo daquelas afeições e desejos vivos que são condicionados pela boa vontade e o apoio dos semelhantes; os desejos de felicidade dos que amamos; de alívio da dor e do desapontamento nas mentes que não podem compreender o sonho interior; e de calorosa reafirmação das honrarias mundanas. Este conflito é a rocha contra a qual a mente religiosa se afunda e se rompe contra si mesma.” (42) Sobre esta rocha o Cristo não afunda, mas Ele teve Seus momentos de mais intensa agonia, somente encontrando alívio na compreensão da Paternidade de Deus e seu corolário, a fraternidade do homem. “Pai”, Ele disse. Foi este senso de unidade com Deus e Seus semelhantes humanos que O conduziu a instituir a Última Ceia, a originar aquele serviço da comunhão, cujo simbolismo foi tão desastradamente perdido na prática teológica. A nota-chave daquele serviço da comunhão foi o companheirismo. “Somente assim é que Jesus cria o companheirismo entre nós. Não é como um símbolo que ele assim faz... na medida que nós, reciprocamente, e com ele, formos uma só vontade, para colocar o Reino de Deus sobre tudo e para servir em favor desta fé e esperança, na medida em que houver companheirismo entre ele e nós e os homens de todas as gerações que viveram e vivem no mesmo pensamento.” (43)

Parte 4

1. “Pai, perdoai-os; pois eles não sabem o que fazem.” (44)
2. “Hoje estarás comigo no Paraíso.” (45)
3. “Mulher, eis aí o teu filho! Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe.!” (46)
4. “Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?” (47)
5. “Tenho sede.” (48)
6. “Está consumado. ” (49)
7. “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito.” (50)

O pensamento do reino coloriu tudo que Ele disse na Cruz. A Palavra de Poder que emanou da Cruz foi pronunciada pelo Próprio Jesus Cristo e não, desta vez, pelo Pai. Cristo pronunciou uma palavra sétupla, e naquela palavra resumiu para nós a Palavra que inaugurou o reino de Deus. Cada uma de Suas exclamações tinha relação com aquele reino e não com a relação usual pequena, pessoal ou egoísta que tantas vezes lhes temos atribuído. Que eram aquelas sete palavras? Consideremo-las, conscientizando-nos, ao fazê-lo, de que as causas que lhes deram origem produziram a manifestação do reino de Deus na terra.

Em todo caso, as sete palavras foram, ou interpretadas como tendo uma aplicação individual em conexão com a pessoa para quem eram supostamente dirigidas, ou como tendo um significado pessoal para o Próprio Cristo. Temos sempre lido a Bíblia desta maneira, com o significado pessoal em nossas mentes. Mas estas palavras do Cristo são de importância muito grande para serem assim interpretadas. Elas têm um significado muito mais amplo do que o habitualmente dado. O maravilhoso de tudo que Ele disse (como é o maravilhoso de todas as escrituras mundiais) é que as palavras podem ter vários significados. Chegou o tempo em que o significado que o Cristo nos deu deveria ser mais geralmente compreendido por nós à luz do reino de Deus e com uma conotação mais ampla do que a individual. Suas palavras foram Palavras de Poder, evocando e invocando, potentes e dinâmicas.

Uma das primeiras coisas que vêm à consciência ao estudarmos a primeira palavra da Cruz foi o fato que Jesus pediu a Seu Pai que perdoasse às pessoas que O crucificavam; Ele não considerou então, evidentemente, Sua morte na Cruz como adequada àquela necessidade. Não havia remissão dos pecados através do derramamento de sangue; mas havia a necessidade de pedir o perdão de Deus pelo pecado cometido. Os dois fatos que vêm à tona nesta palavra são a Paternidade de Deus e o fato de que a ignorância, se produtora do malfeito, não faz do homem culpado e, por conseguinte, punível. O pecado e a ignorância são frequentemente termos sinônimos, mas o pecado é reconhecido como tal por aqueles que sabem e que não são ignorantes. Onde há ignorância não há pecado. Nesta palavra da Cruz o Cristo nos diz duas coisas:

1. Que Deus é nosso Pai e que nos aproximamos Dele por intermédio do Cristo. É o homem interno oculto do coração, o não conscientizado Cristo que se pode aproximar do Pai. Cristo tinha ganho este direito devido à Sua comprovada divindade e porque ele havia passado pela terceira iniciação, a Transfiguração; quando nós também estivermos transfigurados (pois somente o Cristo transfigurado pode ser crucificado) então também poderemos invocar o Pai e clamar pelo espírito, que é Deus, a vida de todas as formas, para ajustar os relacionamentos e alcançar aquele perdão que é a própria essência da vida mesma.

2. Aquele perdão é o resultado da vida. Esta é uma verdade dura de aceitar, para o crente ocidental. Ele está tão acostumado a se apoiar na atividade do Cristo num distante passado. O perdão é, todavia, um resultado de processos vivos que trazem ajustamento, causam restituição e produzem aquela atitude na qual um homem não é mais ignorante e, por conseguinte, não precisa mais de perdão. A vida e a experiência fazem isso para nós e nada pode impedir o processo. Não é uma crença teológica que nos põe bem com Deus, mas uma atitude para com a vida e uma atitude para com o Cristo que habita no coração humano. Nós aprendemos através da dor e do sofrimento (isto é, através da experiência) a não pecar. Nós pagamos o preço de nossos erros e pecados e deixamos de praticá-los. Nós chegamos finalmente ao ponto em que não mais cometemos nossos erros anteriores nem mais cometemos nossos antigos pecados. Pois sofremos e nos angustiamos e aprendemos que o pecado traz retribuição e causa sofrimento. Mas o sofrimento tem sua utilidade, como Cristo sabia. Em Sua Pessoa Ele não só era o histórico Jesus A quem conhecemos e amamos, mas também o símbolo para nós, do Cristo cósmico, Deus sofrendo através dos sofrimentos dos Seus seres criados.

A justiça pode ser perdão quando os fatos do caso são corretamente compreendidos, e nesta pergunta do Salvador crucificado temos o reconhecimento da Lei de Justiça, e não da Retribuição, em um ato diante do qual o mundo inteiro permanece horrorizado. Este trabalho do perdão é o velho trabalho da alma na matéria ou forma. O crente oriental chama a isto carma. O crente ocidental fala da Lei de Causa e Efeito. Ambos, todavia, lidam com a elaboração, por um homem, da salvação de sua própria alma, e o constante pagamento do preço que o ignorante paga pelos erros e as assim chamados pecados cometidos. Um homem que deliberadamente peca contra a luz e o conhecimento é raro. A maior parte dos “pecadores” é de simples ignorantes. “Eles não sabem o que fazem.”

Então o Cristo voltou-se para um pecador, para um homem que tinha sido condenado do mal feito aos olhos do mundo - e que tinha ele mesmo reconhecido a correção do julgamento e de sua punição. Ele afirmou que recebera a devida recompensa pelos seus pecados, mas ao mesmo tempo havia algo na qualidade de Jesus que prendera sua atenção e o forçara a admitir que este terceiro Malfeitor “nenhum mal fizera.” O fator que permitiu sua admissão ao paraíso foi duplo. Ele reconheceu a divindade do Cristo. “Senhor”, ele disse. E ele também compreendeu qual era a missão do Cristo - fundar um reino. “Lembra-te de mim quando entrares no teu reino.” O significado destas palavras é eterno e universal, pois o homem que reconhece a divindade e que ao mesmo tempo é sensível do reino está pronto para tirar proveito das palavras, “Hoje estarás comigo no paraíso.”

Na primeira palavra da Cruz, Jesus considerou a ignorância e a fraqueza do homem. Estava tão indefeso quanto uma criancinha e em Suas palavras Ele testemunhou a realidade da primeira iniciação e o tempo em que Ele era uma “criança em Cristo.” Os paralelos entre os dois episódios são significativos. A ignorância, a inocência e o consequente desajustamento dos seres humanos evocaram de Jesus o apelo para que o perdão fosse concedido. Mas quando a experiência da vida desempenhou sua parte, temos novamente a “criança em Cristo”, ignorante das leis do reino espiritual, entretanto liberto das trevas e da ignorância do reino humano.

Na segunda palavra da Cruz temos o reconhecimento do episódio do Batismo, que significava pureza e libertação através da purificação das águas da vida. As águas do Batismo de João o libertaram da escravidão da vida da personalidade. Mas o Batismo ao qual o Cristo se submeteu por intermédio do poder de Sua Própria vida, e ao qual nós também estamos sujeitos através da vida do Cristo dentro de nós, foi o Batismo de fogo e do sofrimento, que encontra sua culminância de dor na Cruz. Aquele clímax de sofrimento, para o homem que pode suportar até o fim, foi sua entrada no “paraíso” - um nome com a conotação de bem-aventurança. Três palavras são usadas para expressar este poder de gozar - felicidade, alegria e bem-aventurança. Felicidade tem uma conotação puramente física e diz respeito à nossa vida física e suas relações; alegria é da natureza da alma e se reflete na felicidade. Mas bem-aventurança, que é da natureza de Deus Mesmo, é uma expressão da divindade e do espírito. A felicidade poderia ser considerada como a recompensa do novo nascimento, pois ela tem um significado físico, e nós estamos certos de que Cristo conheceu a felicidade, muito embora Ele fosse um “homem dos sofrimentos”; a alegria, sendo mais especialmente da alma, alcança sua consumação na Transfiguração. Embora o Cristo estivesse “familiarizado com o sofrimento”, Ele conheceu a alegria em sua essência, pois a “alegria do Senhor é nossa força”, e é a alma, o Cristo em todo ser humano, que é força e alegria e amor. Ele conheceu também a bem-aventurança pois, na Crucificação, a bem-aventurança, que é a recompensa do triunfo da alma, era Sua.

Assim, nessas duas Palavras de poder “Pai, perdoai-os, pois não sabem o que fazem”, e “Hoje estarás comigo no paraíso”, temos os significados das primeiras duas iniciações resumidas para nós.

Chegamos agora ao extraordinário e muito debatido episódio entre Cristo e Sua mãe, resumido nas palavras: “Mulher, eis teu filho”, e seguidas pelas palavras ditas ao discípulo amado: “Eis tua mãe.” Que significavam estas palavras? Sob o Cristo estavam as duas pessoas que mais significavam para Ele, e da agonia da Cruz Ele lhes transmitia uma mensagem especial, ligando-os um ao outro. Nossa apreciação das iniciações anteriores pode tornar claro o significado. João simboliza a personalidade que está alcançando a perfeição e cuja natureza está-se tornando irradiada pelo amor divino, a principal característica da segunda Pessoa da divina Trindade, a alma, o filho de Deus, cuja natureza é amor. Como vimos, Maria representa a terceira Pessoa da Trindade, o aspecto material da natureza que anima e nutre o filho e lhe dá a luz em Belém. Nessas palavras Cristo, utilizando o simbolismo dessas duas pessoas, relaciona-as uma com a outra, e praticamente diz: Filho, reconhece quem deve dar-te à luz em Belém, aquela que abriga e guarda a vida de Cristo. Para Sua mãe, Ele diz: Reconhece que na personalidade desenvolvida há latente o Cristo criança. A matéria, ou a virgem Maria, é glorificada através de seu filho. Por isso as palavras de Cristo contêm uma referência definida à terceira iniciação, a da Transfiguração.

Assim, em Suas primeiras três Palavras da Cruz Ele se refere às primeiras três iniciações e recorda às nossas mentes a síntese revelada em Si Próprio e os estágios que deveremos percorrer se quisermos seguir Seus passos. É possível também que na consciência do Salvador crucificado estivesse o pensamento de que a própria matéria, sendo divina, seria capaz de sofrimento infinito; e nessas palavras fora torcido d’Ele o reconhecimento de que, embora Deus sofra na Pessoa de Seu Filho, Ele também sofre com semelhante agonia na pessoa daquela mãe do Filho, a forma material que Lhe deu à luz. Cristo fica a meio caminho entre os dois - a mãe e o Pai. Esse é Seu problema, e aí se encontra o problema de todo ser humano. Cristo reúne os dois - o aspecto matéria e o aspecto espírito - e a união desses dois produz o filho. Este é o problema da humanidade e a oportunidade da humanidade.

A quarta Palavra da Cruz nos admite a um dos momentos mais íntimos da vida do Cristo - um momento que tem uma relação definida com o reino, tal como as três Palavras anteriores. A intromissão neste episódio de Sua vida sempre causa hesitação, porque é uma das mais profundas e mais secretas e talvez mais sagradas fases de Sua vida na terra. Lemos que houve “trevas na face da terra” por três horas. Este é um interlúdio extremamente significativo. Da Cruz, sozinho e nas trevas, Ele simbolizou tudo que estava encarnado nesta trágica e agoniada Palavra. O número três é, naturalmente, um dos mais importantes e sagrados. Ele representa a divindade e também a humanidade perfeita. Cristo, o Homem perfeito, pendeu da Cruz por “três horas”, e naquele espaço de tempo cada um dos três aspectos de Sua natureza foi levado ao ponto mais alto de sua capacidade de conscientização e ao consequente sofrimento. No fim, esta tripla personalidade deu vazão ao grito, “Meu Deus, Meu Deus, por que me desamparaste?”

Cristo tinha atravessado todos os episódios culminantes do ajustamento. A experiência da Transfiguração se tinha recém encerrado. Não nos esqueçamos desse fato. Naquela experiência Deus tinha estado próximo, e o Cristo transfigurado, em Sua iniciação, parecera ligar Deus e o homem. Ele acabara de exclamar a Palavra que tinha dado testemunho à relação da natureza corpórea, o aspecto Maria, com a personalidade, na pessoa de S. João - o símbolo de uma personalidade levada a um estado muito alto de perfeição e realização. Então, por três longas horas Ele se debateu nas trevas com o problema da relação de Deus e a alma. Espírito e alma tinham de se fundir em uma grande unidade - assim como Ele já tinha fundido a alma e o corpo, e dado testemunho àquela consumação na Transfiguração. Repentinamente, Ele descobria que toda a conquista do passado, tudo que Ele fizera, era apenas o prelúdio para uma outra que Ele deveria fazer como ser humano; e lá na Cruz, em plena luz da publicidade, Ele teve de renunciar àquilo que Ele tinha até então sustentado, Sua alma, e se conscientizar por um breve instante que nesta renúncia tudo estava em jogo. Mesmo a consciência de que Ele era o Filho de Deus, a alma encarnada na carne (pela qual Ele lutara e se tinha sacrificado) deveria desaparecer deixando-O privado de todos os contatos. Todo senso de sentimento e todas as possíveis reações não conseguiram encher o vazio sentido. Parecia que fora abandonado, não somente pela humanidade, mas por Deus. Aquilo em que Ele confiava, a divindade da qual se sentira seguro, demonstrou estar relacionada com o sentimento. Aquele sentimento Ele deveria também transcender. Deveria, pois, renunciar a tudo.

Foi através desta experiência que Cristo iluminou a trilha até o próprio coração de Deus Mesmo. Somente quando a alma aprende a permanecer só, segura da divindade, e entretanto sem qualquer reconhecimento exterior daquela divindade, pode o próprio centro da vida espiritual ser reconhecido como estável e eterno. Foi nesta experiência que Cristo Se ajustou para a iniciação da Ressurreição e assim provou para Si Mesmo, e para nós, que Deus existia, e que a imortalidade da divindade é um fato estabelecido e inalterável. Esta experiência da solidão, de ser privado de tudo que protege, tudo que até então fora considerado como essencial ao próprio ser, é o sinete da realização. Os discípulos costumam esquecer isso e muitos por alguns instantes se perguntam, ao ouvir o Cristo, assim velando Sua agonia, se Ele não estaria sendo “em todos os pontos tentado como nós somos”, e se neste momento Ele não teria descido aos mais fundos recessos do vale e sentido aquela absoluta solidão que é a recompensa daqueles que sobem o monte da Cruz, no Gólgota.

Embora cada filho de Deus nos diferentes estágios em seu caminho iniciático se prepare para esta solidão final através de fases de extrema rejeição, quando a crise final vem ele deve experimentar momentos de solidão tais, que ele não os poderia previamente conceber. Ele segue as pegadas de seu Mestre, sendo crucificado diante dos homens e abandonado, tanto por seus semelhantes, como pela confortadora presença do ser divino em quem aprendeu a confiar. Entretanto, porque Cristo penetrou assim no lugar das trevas exteriores e se sentiu abandonado por todos que até então tinham significado tanto para Ele, quer sob o ângulo humano quer sob o divino, Ele nos capacitou a avaliar o valor da experiência e nos mostrou que somente através deste lugar das trevas exteriores que os místicos justamente chamaram da “escura noite da alma”, podemos verdadeiramente entrar na abençoada convivência do reino. Muitos livros foram escritos sobre esta experiência, mas ela é rara - muito mais rara do que a literatura dos místicos nos fazia crer. Ela se tornará mais frequente, à medida que mais e mais homens cruzarem os portões do sofrimento e da morte e penetrarem no reino. Cristo pendeu entre o céu e a terra, e embora fosse cercado pelas multidões e apesar de a Seus pés terem permanecido aqueles a quem Ele amara, Ele estava extremamente só. É a solidão ainda que acompanhado, o absoluto senso de estar abandonado ainda que cercado por aqueles que parecem compreender e ajudar, que constitui a treva. A luz da Transfiguração é subitamente coberta; e devido à intensidade daquela luz, a noite parece mais escura. Mas é nas trevas que conhecemos Deus.

Quatro Palavras de Poder tinham sido agora emitidas pelo Cristo. Ele proferira a Palavra para o plano da vida diária, a Palavra do perdão, e nela Ele indicara o princípio sobre o qual Deus trabalha em relação ao mal feito pelos homens. Onde há ignorância e não desconfiança ou má intenção, então o perdão é assegurado, pois o pecado consiste de ação definida em face da voz de aviso da consciência. Ele pronunciara a Palavra que trouxe paz ao ladrão agonizante, e lhe disse que lhe estavam assegurados, não somente o perdão, mas a paz e a felicidade. Ele emitira a Palavra que reuniu os dois aspectos que estavam sendo simbolicamente crucificados na Cruz - matéria e alma, a matéria da forma e a natureza inferior aperfeiçoada. Estas são as três Palavras dos planos físico, emocional e mental, em que o homem habitualmente vive. O sacrifício da natureza inferior inteira fora completado e houve silêncio e trevas por três horas. Então foi emitida aquela estupenda Palavra que indicava ter o Cristo alcançado o estágio do sacrifício final, e que mesmo a consciência da divindade, a consciência da própria alma, com sua força e poder, sua luz e compreensão, também deveriam ser postos sobre o altar. Ele deveria submeter-se à experiência de uma renúncia extrema a tudo que constituíra Seu próprio ser. Isto provocou o grito de protesto e a queixa: “Meu Deus, meu Deus! Por que me desamparaste?”

Depois seguiram-se três Palavras de uma qualidade inteiramente diferente. Nas palavras “Tenho sede”, Ele expressou o poder motivador de todo Salvador. Isto foi mal interpretado pelos circunstantes, que naturalmente lhe deram uma conotação física; mas certamente tinha uma significação mais profunda, e deveria referir-se àquela sede divina que penetra na consciência de todo filho de Deus que alcançou a divindade e que indica sua decisão de assumir a tarefa do Salvador. É característico de todos os que a alcançaram, não poderem descansar satisfeitos com a conquista que lhes trouxe liberação e libertação, mas imediatamente reorientam-se para o mundo dos homens e permanecem com a humanidade, trabalhando pela salvação dos seres humanos até que todos os filhos de Deus tenham encontrado seu caminho de volta para a casa do Pai. Esta sede pelas almas dos homens forçou o Cristo a abrir a porta do reino e a conservá-la aberta Ele Próprio, para que pudéssemos galgar o vestíbulo por Sua mão e Sua ajuda. Esta é a redenção, e esta redenção todos nós compartilhamos, não do ângulo egoísta de nossa salvação pessoal, mas pela consciência de que, ao redimirmos somos redimidos, ao salvarmos somos nós mesmos salvos e, ao ajudarmos os demais a conquistarem-no, nós também somos admitidos no reino. Mas este é o caminho da Crucificação. Somente quando podemos emitir as cinco Palavras de Poder compreendemos realmente o significado de Deus e de Seu amor. O caminho do Salvador se torna então nosso caminho. A vida e o propósito de Deus são assim revelados.

São esta sede, que compartilhamos com o Salvador, e a necessidade mundial (da qual a nossa própria é parte, embora relativamente incidental), que nos unem a Ele. É a “solidariedade de Seus sofrimentos” que Ele nos chama, e o apelo que ouvimos quando ele a ouve. Este aspecto da Cruz e de sua lição foi sintetizado nas seguintes palavras, que exigem nossa cuidadosa atenção, e nossa consequente consagração ao serviço da Cruz, que é o serviço à humanidade.

“Quando Eu. . . me voltei daquela visão, Cristo crucificado por nós, para olhar para as mais dolorosas e espantosas contradições da vida, não me deparei como em intercâmbio com meus semelhantes pelas frias superficialidades que caem tão facilmente dos lábios daqueles cujos corações nunca conheceram nenhuma dor real, nem cujas vidas um choque. Não me disseram que todas as coisas foram determinadas para o melhor, nem asseguraram que as importantíssimas disparidades da vida eram apenas aparentes, mas me deparei com os olhos e a expressão d’Aquele que estava verdadeiramente identificado com o sofrimento, por um olhar de solene reconhecimento, tal como pode ocorrer entre amigos que suportaram entre si algum estranho e secreto sofrimento e ficam através dele unidos numa ligação que não pode ser rompida.” (51)

Então irrompeu sobre a consciência do Cristo a maravilha da consumação. Ela fora bem sucedida, de modo que, com plena consciência do significado da afirmação, ele pode dizer, “Está consumado.” Ele fizera aquilo para que encarnara. O portão para o reino permaneceu aberto. A fronteira entre o mundo e o reino estava claramente definida. Ele nos dera um exemplo de serviço incomparável na história. Ele nos mostrou o caminho que deveríamos percorrer. Ele nos tinha demonstrado a natureza da perfeição. Não havia mais que pudesse fazer então, portanto, ouvimos o triunfante grito, “Está consumado.”

Somente mais uma Palavra de Poder veio das trevas que encobriam o Cristo agonizante. O momento de Sua morte fora prefaciado pelas palavras, “Pai, em Tuas mãos entrego meu espírito.” Sua primeira e sua última palavras começam com o apelo: “Pai” - pois sempre somos os filhos de Deus, e “Se filhos, então herdeiros; herdeiros de Deus, e coerdeiros com o Cristo; se assim é que sofremos com Ele, que possamos ser também glorificados juntos”; (52) coerdeiros da glória, mas também coerdeiros no sofrimento que deve ser nosso se o mundo deve ser salvo e a humanidade como um todo deve penetrar no reino. O reino existe. Através do trabalho do Cristo e de Sua Presença viva em todos nós existe hoje, ainda que subjetivamente, mas aguardando imediata tangível expressão...

“Um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação; um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos e em todos.” (53)

Mais adiante, em palavras usadas pelo Cristo, o salmista diz, “Em tuas mãos entrego meu espírito, pois tu me redimiste.” (54) A implicação aqui é clara. É o espírito de vida no Cristo e em nós, que nos torna filhos de Deus e é aquela filiação (com sua qualidade do divino) que garante nossa realização final e a entrada no reino do espírito. O sinal dado é expresso nas palavras: “E eis que o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo.” (55) O acesso a Deus estava estabelecido e as forças espirituais internas puderam sair sem obstáculos à sua manifestação. Este foi um ato de Deus, um estupendo reconhecimento pelo Pai, do que Seu Filho fizera. Espírito e matéria eram um, agora. Todas as barreiras de separação foram abolidas e o homem e Deus podiam encontrar-se e manter o intercâmbio.

Numa antiga escritura da Índia lemos estas palavras, ditas há milhares de anos, entretanto passíveis de aplicação numa forma muito significativa para este ato do Cristo, que O ligou não somente a nós e a todos os crentes passados, anteriores ao Seu advento, mas ao Cristo Cósmico, tão inequivocamente dizendo, aqui:

“Brahma, o autofulgente, meditava. Ele ponderava... Vamos, deixe-me sacrificar-me nas coisas vivas e todas as coisas vivas em Mim... Ele assim adquiriu grandeza, autofulgência, propriedade e domínio.”

Ao concluir este capítulo sobre a Crucificação, vejamos qual foi realmente o propósito do sacrifício do Cristo. Por que ele morreu? O Evangelho de S. João no-lo diz muito claramente, e entretanto muito pouca ênfase se põe na afirmação. Somente hoje estamos começando a compreender o significado do que Ele fez. Somente hoje está começando a nascer nas mentes daqueles cuja intuição já despertou, a maravilha de Seu sacrifício. Ele veio fundamentalmente fazer duas coisas, sobre as quais já tocamos: primeiro de tudo, Ele veio fundar, ou materializar na terra, o reino de Deus; segundo, mostrar-nos que significava o amor de Deus e como ele se expressava no serviço e no eterno sacrifício da divindade sobre a cruz da matéria. Cristo permaneceu como um símbolo e também como um exemplo. Ele nos revelou a Mente de Deus e nos mostrou o padrão sobre o qual deveríamos modelar nossas vidas.

O reino e o serviço! Estas são as notas-chaves que têm hoje em si aquele poder reagrupador que os crentes do mundo exigem. O Cristo compartilhou-os conosco, como um ser humano, o caminho da experiência mundial. Ele subiu à Cruz e nos mostrou, em Seu sacrifício e exemplo, quê tínhamos a fazer. Compartilhou conosco o caminho da vida porque nada havia mais a fazer, para Ele, uma vez que era um ser humano. Mas ele lançou sobre esta experiência de vida a luz radiante da própria divindade, dizendo-nos também para “deixarmos nossa luz brilhar.” (56)

Ele Se proclamou Homem e depois nos disse que éramos os filhos de Deus. Ele estava conosco, então, e Ele está conosco agora, pois Ele está em nós todo o tempo, embora muitas vezes sem ser reconhecido ou aproximado.

A principal lição com a qual nos confrontamos é o fato de que “... a natureza humana, como a conhecemos, não pode alcançar felicidade sem sofrimento, nem perfeição sem o autossacrifício.” (57) Para nós o reino constitui a visão, mas para Cristo ele era uma realidade. O serviço do reino é nosso dever e também nosso método de nos libertarmos das malhas da experiência humana. Temos que alcançar isto; devemos compreender que somente encontraremos libertação no serviço do reino. Fomos por muito tempo contidos pelos dogmas do passado e há hoje uma natural revolta contra a ideia da salvação individual através do sacrifício do sangue do Cristo. Este último é o ensinamento mais externo e mais óbvio - mas é o significado interno que realmente nos diz respeito, e este nós somente poderemos perceber quando nós mesmos chegarmos face a face com aquele que habita o íntimo. À medida que as formas exteriores perdem seu poder, frequentemente ocorre que a verdadeira significação surge. Isto cada um tem de provar para si mesmo. Frequentemente o medo nos impede de sermos fiéis e de enfrentarmos os fatos. É essencial que hoje encaremos o problema da relação do Cristo com o mundo moderno e ousemos ver a verdade, sem qualquer preconceito teológico. Nossa experiência pessoal do Cristo não sofrerá neste processo. Nenhum enfoque moderno e nenhuma teologia pode afastar o Cristo da alma que O tenha conhecido uma vez. Isso está fora dos limites do viável. Mas é bem possível que possamos encontrar falhas na interpretação teológica ortodoxa comum. É bem possível que o Cristo seja muito mais includente do que fomos induzidos a crer, e que o coração de Deus Pai seja muito mais bondoso do que aqueles que procuraram interpretá-lo. Temos pregado um Deus do amor e temos espalhado a doutrina do ódio. Temos ensinado que o Cristo morreu para salvar o mundo e temos tentado mostrar que somente os crentes poderiam ser salvos - embora milhões vivam e morram sem jamais ter ouvido falar no Cristo. Vivemos num mundo caótico, esforçando-nos em construir um reino de Deus divorciado da vida diária corrente e da situação econômica geral, e ao mesmo tempo postulamos um distante paraíso que poderemos algum dia alcançar. Mas Cristo fundou um reino na terra, no qual todos os filhos de Deus teriam igual oportunidade para se expressarem como filhos do Pai. Isto, muitos cristãos acham impossível aceitar, e algumas das melhores mentes desta época têm repudiado a ideia.

A salvação individual é certamente egoísta em seu interesse e sua origem. Devemos servir para sermos salvos e somente poderemos servir inteligentemente se acreditarmos na divindade de todos os homens e também no principal serviço do Cristo à raça. O reino é um reino de servidores, pois cada alma salva deve sem compromisso juntar-se às fileiras daqueles que incessantemente servem aos seus semelhantes. O Dr. Schweitzer, cuja visão do reino de Deus é tão rara e real, aponta para esta verdade e suas gradações de reconhecimento nas seguintes palavras:

“Os estágios descendentes do serviço correspondem aos estágios ascendentes de mando.

1. Qualquer que entre vós quiser ser grande, será vosso serviçal. Marcos X.43.
2. E qualquer que dentre vós quiser ser o primeiro, será servo de todos (os outros). Marcos, X.44.
3. Por isso o Filho do Homem esperava o posto do mais alto mando porque Ele “não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos.” Marcos, X.45.

“O clímax é duplo. O serviço dos Discípulos se estendia somente ao seu círculo: o serviço de Jesus, a um número ilimitado, isto é, a todos que se deveriam beneficiar de seu sofrimento e morte. No caso dos Discípulos era meramente uma questão de submissão altruísta; no caso de Jesus, significava o amargo sofrimento da morte. Ambos contam como serviço, considerando que estabelecem uma exigência para uma posição de mando no Reino.” (58)

O amor é o começo e o amor o fim, e no amor servimos e agimos. A longa jornada termina, assim, na glória da renúncia do desejo pessoal e na dedicação ao serviço vivo.

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Notas:

 (1) - Atos, XIV, 17.  (30) - I, S. João, IV, 8.
 (2) - Pagan and Christian Creeds, por Edward Carpenter, págs. 20, 21.  (31) - Webster - Unabridged Dictionary.
 (3) - Pagan and Christian Creeds, por Edward Carpenter, págs. 129, 130.  (32) - Psychology and God, por L. W. Grensted, pág. 136.
 (4) - II Tim., I, 12.  (33) - S. Jaime, IV, 17.
 (5) - Pagan and Christian Creeds, por Edward Carpenter, págs. 217, 218.  (34) - I, S. Pedro, III, 4.
 (6) - The Celestial Ship of lhe North, por E. V. Straiton, Vol. 1, pág. 104.  (35) - Psychology and God, por L. W. Grensted, pág. 199.
 (7) - Ezequiel, I, 10.  (36) - S. Lucas, XVII, 2.
 (8) - Rev. IV, 6, 7.  (37) - Heb., IV, 15.
 (9) - S. Lucas, XXII, 10.  (38) - S. João, VII, 17.
 (10) - Citado em “The Testament of Man, por Arthur Stanley, pág. 498.  (39) - S. João, X, 10.
 (11) - S. João, XII, 32.  (40) - O Buda e o Cristo, por B. H. Streeter, pág. 215.
 (12) - S. Mateus, X, 39.  (41) - Some Mystical Adventures, por G.R.S. Mead, pág. 161.
 (13) - FiL, III, 10, 11, Tradução de Weymouth.  (42) - Psychology and lhe Promethean Will, por W. H. Sheldon, págs. 85, 86.
 (14) - S. João, XVII, 16.  (43) - The Myslery of lhe Kingdom of God, por Albert Schweitzer, pág. 56.
 (15) - The Paganism in Our Christianity, por Arthur Weigall, pág. 152.  (44) - S. Lucas, XXIII, 34.
 (16) - S. João, XIX, 30.  (45) - S. Lucas, XXIII, 43.
 (17) - S. Mateus, XXV, 21.  (46) - S. João, XIX, 26.
 (18) - The Supreme Spiritual Ideal, Sir Radhakrishnan, Hibbert Journal, Outubro 1936.  (47) - S. Mateus, XXVII, 46.
 (19) - Doutrina Secreta, Vol. I, pág. 229.  (48) - S. João, XIX, 28.
 (20) - Romanos, VIII, 16-24, Tradução de Weymouth.  (49) - S. João, XIX, 30.
 (21) - I Cor. XV, 31.  (50) - S. Lucas, XXIII, 43.
 (22) - Thrice-Createst Hermes, por G.R.S. Mead, Vol. I, pág. 141.  (51) - Colloquia Crucis, por Dora Greenwell, pág. 14f.
 (23) - Wrestlers with Christ, por Karl Pfleger, pág. 242.  (52) - Romans, VIII, 17.
 (24) - The Paganism in Our Christianily, por Arthur Weigall, pág. 132, 133.  (53) - Efésios, IV, 4, 5, 6.
 (25) - The Paganism in Our Christianity, por Arthur Weigall, pág. 158.  (54) - Salmos, XXXI, 5.
 (26) - The Paganism in Our Christianity, por Arthur Weigall, pág. 166.  (55) - S. Mateus, XXVII, 51.
 (27) - The Idea of Atonement, por H. Rashdall, pág. 248.  (56) - S. Mateus, V, 16.
 (28) - A Student’s Philosophy of Religion, por W. K. Wright, pág. 178.  (57) - Mirage and Truth, por M. B. D’Arcy, S.J., pág. 179.
 (29) - Fil. II, 12.  (58) 58 - The Mystery of lhe Kingdom of God, por Albert Schweitzer, pág. 75.

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