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DE BELÉM AO CALVÁRIO - As Iniciações de Jesus


A Segunda Iniciação:

O BATISMO NO JORDÃO

PENSAMENTO CHAVE

“É um momento propício para praticar, seriamente, a vida cristã. . . Em momentos de catástrofe, um processo de purificação ascética tem lugar, sem o qual não pode haver vida espiritual alguma, nem para a sociedade, nem para o indivíduo.” (Freedom of the Spirit, de Nicholas Berdyaev, página 46.)

Parte 1

“Sempre que algo seja percebido e sentido, constitui uma experiência da alma; e sempre que se torne impossível distinguir entre um pensamento e um sentimento, ali está a alma. A alma significa unidade, unicidade e união entre o desejo interno e a realidade externa. À medida que o homem progride na aceitação do universo, da compatibilidade entre o que sente, como desejo interno, e o que percebe, como disposição externa, e à medida que se expandem ambos os elementos, a alma se dirige para a grandeza.” (1) (O grifo me pertence. A.A.B.)

A primeira iniciação se realizou. Cristo nasceu em Belém. A alma alcançou sua expressão externa e, agora, esta alma - o Cristo (como o representante histórico de tudo que uma alma pode ser), o iniciado individual - caminha para a grandeza. A missão do Salvador se inicia, definidamente, nesse momento, mas, em benefício dos que virão depois, Ele deve emitir a nota da purificação e adaptar-se aos requisitos do ritual, bem assim à tendência geral do pensamento de Sua época. O iniciado que tiver dado o primeiro passo deve por ênfase na purificação da natureza inferior, essencial para o preâmbulo da segunda iniciação. O batismo de João foi o símbolo desta purificação. Cristo submeteu-Se ao batismo, fazendo caso omisso dos protestos do Batista, dizendo-lhe: “Deixa, por agora, porque assim nos convém cumprir toda a Justiça”. (2)

Cristo alcançou a maturidade. A tradição revela que tinha trinta anos, quando foi batizado e começou sua breve, porém espetacular vida pública. Quem pode avaliar quanta verdade encerra isto, sob o ponto de vista histórico? Não tem real importância. O Cristo foi, é e sempre será. Falando simbolicamente, era necessário que Cristo completasse trinta anos, porque esse número é significativo, no que concerne à humanidade. Trinta significa o aperfeiçoamento dos três aspectos da personalidade - o corpo físico, a natureza emocional e a mente. Os três constituem o aspecto forma do homem e velam ou ocultam a alma. São, em realidade, o mecanismo de contato do homem com o mundo externo; o equipamento mediante o qual sua consciência se desperta e desenvolve. Em sua totalidade constituem o “mecanismo de resposta”, segundo os psicólogos. Sabemos que o homem é tanto um animal físico como um ser emocional e sensorial, e uma entidade pensante. Quando estas três partes da natureza inferior do homem funcionam harmonicamente, formando uma unidade para o uso do homem interior, dão como resultado uma personalidade integrada, ou um eu inferior eficiente. A isto dá testemunho o número trinta. Dez é o número da perfeição; e trinta é a perfeição nas três partes do equipamento da alma.

É oportuno recordar que, mediante esses três aspectos, (ou reflexos do ser divino), o homem se põe em relação com o universo existente, e portanto, com Deus, imanente na natureza. O corpo físico nos permite estabelecer contato com o mundo tangível, visível. A natureza emocional, sensorial, nos permite dizer: “Elevo meu coração ao Senhor”. A maioria das pessoas vive na essência do coração e no corpo sensorial e é mediante o coração que descobrimos nosso caminho para o Coração de Deus. Somente através do amor pode o Amor ser revelado. Quando, pelo correto uso e compreensão, a mente é definidamente dirigida e propriamente orientada, põe-se em harmonia com a Mente de Deus, a Mente Universal, o Propósito, o Plano e a Vontade de Deus. Através da mente iluminada do homem a Mente Divina é revelada. Assim, o homem é visto como feito “à imagem e semelhança de Deus”. (3)

Na segunda iniciação, o Cristo permaneceu diante de Deus, o Iniciador, com seus três aspectos purificados e amadurecidos; Seu mecanismo estava preparado e pronto para a tarefa, e, assim, capacitado para dar provas dessa purificação e da tensão de atitude que O capacitariam a levar a cabo, satisfatoriamente, Sua missão. Isto Ele teve que provar, diante de Deus e do homem, mediante a purificação que o batismo poderia dar, e através das subsequentes tentações, no deserto. Preparado para Sua obra, possuía o que o Dr. W. H. Sheldon (4) denominou “os três elementos principais para uma grande mente, isto é, “entusiasmo, visão interior intuitiva e um efetivo equipamento sistematizado", acrescentando, mais adiante, que os dois primeiros, “são os de maior importância, porque não podem ser adquiridos, se se tiver chegado à vida adulta sem eles”.

Cristo estava assim equipado.

Será conveniente estudar, de forma breve, o propósito para o qual Ele estava preparado. Vimos, no capítulo anterior, que este planeta, chamado Terra, é considerado por muitos cientistas modernos e eminentes, como único, provavelmente, em sua constituição e propósito. Aparentemente, ele oferece um condicionamento da vida que não existe em outro planeta. Isto pode, ou não, ser assim, e somente o desenvolvimento da consciência do homem poderá confirmar ou negar esta teoria da excepcionalidade. Ao observar a vida planetária vemos que, atualmente, a perspectiva em todos os reinos é desalentadora. Em todos eles há morte e enfermidade e, nos reinos animal e humano, não somente isto se verifica, senão também se observa violência de toda ordem. Na família humana, particularmente, a visão é dolorosa; tão pouco temos conseguido aprender do que o Cristo nos transmitiu e quase nada temos obtido dos processos purificadores da vida moderna. A vontade de melhorar pode ser apreciada operando na maioria dos setores que dizem respeito ao indivíduo, conquanto o impulso seja débil, ainda, em toda a humanidade. Não obstante, pode ser despertada, com o que nos capacitaremos das responsabilidades circundantes ao analisarmos, novamente, a mensagem de amor transmitida pelo Cristo.

Provavelmente, deve ser verdade que Cristo veio a nós com uma mensagem mais profunda e ampla que a de qualquer Mensageiro anterior proveniente do Centro, mas isto de modo algum diminui a condição e a tarefa d’Aqueles que o precederam. Ele veio em uma época crucial, em um período de crise mundial, encarnando em Si próprio um princípio cósmico - o do Amor, qualidade proeminente de Deus. Outros aspectos, qualidades e propósitos da natureza divina foram revelados em anteriores encarnações de Deus e apareceram na medida em que a raça chegava a uma etapa de seu desenvolvimento, na qual era possível uma reação correta. Zaratustra, para citar um desses Mensageiros, havia chamado a atenção do gênero humano para o fato dos dois princípios básicos existentes no mundo - o do bem e o do mal - acentuando, assim, as dualidades básicas da existência. Moisés revelou a Lei, exortando os homens a reconhecerem Deus como o princípio de Justiça, ainda que pareça uma justiça desprovida de Amor, para nós, os que vivemos depois da revelação dada pelo Cristo. Buda encarnou, em Si mesmo, o princípio da Sabedoria divina e, com clara visão do mundo das causas, viu a existência mortal tal qual era, assinalando-nos o caminho de saída. Todavia, o fundamental princípio do universo - o Amor - não tinha sido revelado antes da vinda do Cristo. Deus é amor e, na plenitude do tempo, esta destacada característica da natureza divina tinha que ser revelada, de tal modo que o homem pudesse captá-la. Assim é que o Cristo encarnou em Si mesmo o mais grandioso dos princípios cósmicos. Esta Lei do Amor se pode ver atuando no universo como a Lei de Atração, com tudo o que este termo implica - coerência, integração, posição e a marcha rítmica do nosso sistema solar; pode ser observada, também, na disposição de Deus em relação à humanidade, como o Cristo revelou. Esta função excepcional do Cristo, como guardião e revelador de um princípio cósmico, ou energia, acha-se por trás de tudo o que fez; foi a base e o resultado da perfeição que alcançara; este foi o incentivo e o impulso de Sua vida de serviço, e este é o princípio sobre o qual se funda o reino de Deus.

Que o paganismo não conhece meta nem propósito, é, hoje, para a maioria, uma afirmação que não resiste a uma investigação. Tudo o que transpirou, do passado, teve como meta o que ocorreu quando o Cristo apareceu; preparou a humanidade para a oportunidade que se lhe oferecia, constituindo os alicerces sobre os quais está fundado o presente. Similarmente, a iminente revelação do próximo século constituirá a base sobre a qual se apoiará o futuro e, para este propósito, tudo o que agora ocorre tem suprema importância.

Cristo não só estendeu a ponte entre o Oriente e o Ocidente, resumindo, em Si mesmo, tudo o que o Oriente tinha de valor como contribuição, como também deu à nossa civilização Ocidental (que, a essa época, ainda não havia surgido) os grandes ideais e o exemplo de sacrifício e de serviço que, hoje (dois mil anos depois de haver Ele caminhado entre os homens), estão se tornando a nota-chave das melhores mentes da era. A narração de como as ideias vieram e fizeram impacto na consciência humana, assim mudando o curso dos assuntos humanos, constitui o relato da história; mas, de forma curiosa, as ideias são o elemento imprevisível do futuro. Algum indivíduo, de destacada personalidade, sai das fileiras da raça, reflete e elabora alguma grandiosa e dinâmica ideia, baseada na verdade. Formula-a, em termos que podem ser compreendidos por seus semelhantes, chegando, eventualmente, a viver de acordo com ela. Surgem, então, novas tendências, incentivos e impulsos e, assim, se escreve a história. Pode-se dizer, com toda propriedade, que sem ideias não haveria história. Na enunciação de uma ideia cósmica e na capacidade de fazer dessa ideia um ideal de força dinâmica, o Cristo não foi superado por ninguém. Através de Sua vida deu-nos uma ideia que, com o tempo, se tornou o ideal do serviço, razão por que muitos governantes e pensadores do mundo dedicam sua atenção ao bem-estar de homens e nações. Que a técnica empregada e os métodos aplicados para a concretização do ideal pressentido e sonhado sejam, com frequência, indesejáveis e errôneos e produzam resultados cruéis e separatistas, de modo algum altera o fato de que, por trás de todos esses experimentos idealistas da raça, subsiste este grande ideal, divinamente inspirado e sintetizado para nós pelo Cristo, com Sua vida e Seu ensinamento.

O Cristo enunciou a mais grandiosa das ideias - a de que Deus é Amor e que esse amor podia manifestar-se em forma humana e, ao fazê-lo, estabeleceu uma possibilidade para todos os homens. Sua vida foi uma demonstração de uma perfeição tal, como o Mundo nunca havia visto.

A alma, que é o Cristo oculto em todos nós, é o mediador entre o espírito (o Pai) e o ser humano. Cristo enfatizou isto, quando chamou a atenção sobre a divindade essencial do homem, falando de Deus como “nosso Pai”, tal como era o Pai do Cristo. Era a luz que veio mostrar, e que viu também nos demais (oculta e velada), exortando-nos a que deixássemos brilhar essa luz. (5) Desafiou-nos a mostrar a perfeição, que Ele encarnou, e ordenou que a demonstrássemos. Provou-nos o que era possível, e pediu que o expressássemos. Nesta forma excepcional de revelação o Cristo não tem igual, porque foi o mais grandioso, elevado e verdadeiro dos mensageiros que apareceram neste mundo, mas não porque - atrever-me-ei a dizê-lo? - fosse o mais grandioso dos que podiam vir. Ninguém deve se atrever a limitar a Deus, assim. De acordo com a revelação evolutiva sobre a natureza da divindade, parece que o Cristo foi a culminação do passado e a indicação do futuro. Acaso não será possível que haja aspectos e características da natureza divina, dos quais ainda não tenhamos, até agora, a mais remota capacidade para conceber? Não será provável que o nosso mecanismo sensorial seja ainda inadequado para captar a plenitude de Deus? Não ocorrerá, talvez, que o nosso mecanismo de percepção requeira um maior desenvolvimento evolutivo, antes que outras características divinas e espirituais possam ser reveladas, sem perigo para nós, e em nós? Poderá haver futuras revelações, de tão estupenda beleza e maravilha, que nem sequer possamos formar a menor ideia de seu possível delineamento. Do contrário, Deus estaria limitado e estático, incapacitado de fazer mais do que fez. Como ousar dizer que é possível, para nós humanos, visualizar os limites da natureza divina? Como pode o intelecto humano arrogantemente crer que lhe seja possível, ainda que por intermédio de Cristo, reconhecer os objetivos finais da Vontade de Deus? A história do desenvolvimento da consciência humana prova que a verdade tem sido revelada em forma progressiva e que essa brilhante galáxia dos Instrutores do Mundo deu uma interpretação da Divindade cada vez mais ampla, alcançando, no transcurso do tempo, a um maior e crescente número. O Cristo nos deu a revelação mais elevada e abrangente a que a humana consciência pode responder, até a era atual. Mas, como nos atreveremos a dizer que para Deus nada mais é possível fazer, ao nos dispormos a recebê-lo? Para isso nos preparamos, rapidamente. Até o próprio Cristo disse a Seus discípulos: “Aquele que crê em mim, esse também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas”. (6) Ou estas palavras expressam uma verdade, ou toda a estrutura de nossa crença vem abaixo. Algo mais deve revelar-se, ou a história do passado perde seus fundamentos; as crenças antigas perdem sua significação; e teremos alcançado um impasse que até o próprio Deus pareceria incapaz de transcender. Isto não podemos aceitar.

O Cristo cósmico, o Cristo místico, o Cristo histórico e o Cristo individual existem para toda a eternidade, razão por que a revelação pode ser progressiva. Se pudermos crer que Deus inclui todas as formas e o que estas revelam, à medida que se desenvolvem as nossas faculdades e melhora o nosso mecanismo de contato, poderemos, seguramente, perceber mais da divindade do que temos conseguido até agora e ser dignos, posteriormente, de uma revelação maior. Somente as nossas limitações, como seres humanos, impedem-nos de ver tudo o que deve ser visto.

O novo nascimento nos levou a um ponto onde nos tornamos conscientes de um novo mundo de luz e de ser. Mediante o processo daquela iniciação, convertemo-nos em cidadãos do reino de Deus que o Cristo veio estabelecer como uma realidade na consciência do homem; pelo novo nascimento, passamos a um mundo regido por uma série de leis superiores, espirituais, e novos objetivos se abrem diante de nós, surgem novos aspectos de nossa oculta natureza espiritual e começamos a descobrir, em nós mesmos, o delineamento de um novo ser, com diferentes gostos, desejos, ideais e métodos de atividade mundana.

Falamos muito da unificação que o Cristo realizou dentro de Si mesmo e para o homem. Reconhecemos a unidade que experimentou com o Pai, e também, que nos exortou a uma unidade divina similar. Todavia, não será possível que haja estabelecido uma síntese mais ampla que a do indivíduo e Deus, a síntese do Reino de Deus?

Que significam essas palavras? Temos falado do Reino dos Céus em termos de separação. Ou estamos nesse reino, ou fora dele. Diz-se que devemos sair do reino dos homens (controlado pelo mundo, pelo diabo e a carne) e entrar em outro, descrito como totalmente diferente. Entretanto, é de fato assim? Todos os aspectos dos três reinos subumanos - animal, vegetal e mineral - se encontram no homem; e à sua síntese, mais outro fator, o intelecto divino, chamamos o reino humano. O homem unifica, em si, as chamadas manifestações inferiores da divindade. Nos reinos subumanos da natureza encontramos três tipos principais de consciência: O reino mineral, com seu poder de discriminação subjetiva, sua capacidade de crescer, e sua radioatividade ultérrima; o reino vegetal, com sua sensibilidade e seu mecanismo de resposta em desenvolvimento, sensível à luz solar, ao calor e ao frio, como a qualquer condição climática circundante; o reino animal, com sua consciência grandemente acrescentada; sua capacidade de livre movimento e de contatos mais amplos, graças à sua natureza instintiva. O reino humano encarna todos esses tipos de percepção - consciência, sensibilidade, instinto - além dessa misteriosa faculdade humana a que chamamos “a mente”, e resumimos todas essas qualidades herdadas, na palavra “autoconsciência”.

Entretanto, na experiência do ser humano inteligente há um lento e nebuloso reconhecimento de que existe algo ainda mais grandioso e de maior valor, fora de si mesmo. O homem é sensibilizado para uma série de contatos mais sutis, para impressões a que denomina espirituais, ideais ou místicas. Outro tipo de consciência começa a germinar nele e, quando tem lugar o nascimento em Belém, esta consciência se põe de manifesto e é reconhecida. Tão logo o ser humano começa a sintetizar, em si mesmo, todo o seu passado, agregando sua própria constituição peculiar e suas qualidades, começam a surgir e a se demonstrar nele qualidades que não são humanas.

Os membros do reino de Deus encarnarão, seguramente, a herança dos quatro reinos, do mesmo modo que o homem encarna a herança de três. Esta cidadania superior envolve a expressão da consciência crística, que é a consciência grupal, da relação da parte com o todo (algo acentuado, continuamente, pelo Cristo), e do humano com o divino. O resultado desta conscientização deve ser, seguramente, de acordo com o esquema evolutivo, o aparecimento de um outro reino da natureza. Esta é a grande tarefa do Cristo. Pelo poder de sua divindade realizada, constituiu-se no homem, que reuniu, em Si mesmo, o melhor de tudo o que havia sido e revelou, também, o que poderia ser. Ele enfeixou, em uma unidade funcional, o superior e o inferior, fazendo disso o “homem novo”. Fundou o reino de Deus na terra e realizou uma síntese de todos os reinos da natureza, provocando, assim, o aparecimento de um quinto reino. Podemos resumir as unificações alcançadas, do seguinte modo:

1. Unificou, em Si mesmo, de forma perfeita, os aspectos físico, emocional e mental do homem, comprovando, deste modo, a existência do indivíduo perfeito.

2. Unificou, em Si mesmo, alma e corpo, os aspectos superior e inferior, produzindo, assim, uma encarnação divina.

3. Unificou, em Si mesmo, o melhor de todos os reinos da natureza, mineral, vegetal e animal que, em sua síntese, formam o humano, com o intelecto ativo.

4. Amalgamou esta síntese com um fator espiritual superior, levando ao nascimento um outro reino da natureza, o quinto.

Havendo o Cristo criado, em Si mesmo, uma unificação após outra, em benefício da humanidade, aparece diante de João Batista e passa pela segunda iniciação, a da purificação, nas águas do Jordão. Pelo processo do batismo e pelas tentações que se seguiram, o Cristo evidenciou sua maturidade, enfrentou Sua missão e demonstrou ao mundo Sua Pureza e Seu Poder.

A terceira iniciação, a da Transfiguração, deu testemunho da unificação que o Cristo realizara entre corpo e alma. A integração era completa e a consequente iluminação tornou-se evidente para os Seus discípulos. Apareceu diante deles como Filho do Homem e Filho de Deus e, lhes havendo provado Quem era, encarou a morte que o esperava, assim como o interveniente serviço que realizaria.

Na quarta iniciação demonstrou esta integração, não só como Homem-Deus, senão também como Aquele que abarcava, em sua consciência, o inteiro mundo dos homens. Unificou-se com a humanidade, retratando a efetividade dessa divina energia que O capacitou para dizer, com toda a verdade: “E eu, quando for levantado da Terra, atrairei todos a Mim”. (7) Foi levantado, da Terra ao Céu, e durante dois mil anos Suas palavras têm permanecido inalteráveis.

Parte 2

“Então veio Jesus da Galileia ter com João, junto do Jordão, para ser batizado por ele. Mas João opunha-se-lhe, dizendo: Eu ca­reço ser batizado por ti, e vens Tu a mim?

“Jesus porém respondendo, disse-lhe: Deixa por agora, porque assim convém cumprir toda a justiça”. Então ele o permitiu.

“E sendo Jesus batizado, saiu logo da água e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba, e vindo sobre ele.

“E eis que uma voz dos céus dizia: “Este é meu filho amado, em que me comprazo”. (8)

Nestas simples palavras se narra a história desta iniciação. A Nota-chave é a purificação, encerrando um período de preparação, de silencioso serviço e inaugurando um ciclo de fatigante atividade. A purificação de natureza inferior é um requisito que a igreja cristã sempre acentuou, como também a crença hindu. O Cristo proclamou este ideal diante de Seus discípulos e dos outros homens, quando disse: “Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus”. (9)

Em um antigo tratado sobre meditação, Os Aforismos de Ioga, de Patanjali, encontramos que o Mestre proclama: “Pela purificação chega, também, a quietude do espírito. . . e a capacidade de ver o Eu”. (10) A purificação é de muitas espécies e graus. Há pureza física e pureza moral e há, também, essa pureza magnética que faz do homem um canal de força espiritual. Há pureza psíquica, coisa muito rara de achar, e pureza mental. A palavra “pureza” vem do sânscrito pur, liberdade de impureza; de limitação e do aprisionamento do espírito nas cadeias da matéria. Não pode haver conquista espiritual, sem purificação; não há possibilidade de se ver e manifestar a divindade, sem passar pelas águas purificadoras. No mundo de hoje se está efetuando uma grande limpeza. Uma “purificação ascética” e uma abstinência forçada de muitas coisas consideradas, até agora, desejáveis, têm lugar no mundo atual e ninguém pode escapar delas. Isto se deve ao desmoronamento do sistema econômico e a tantos outros sistemas ineficazes para o mundo moderno. A purificação nos está sendo imposta e, consequentemente, deve produzir-se um sentido mais real dos valores. Uma limpeza dos ideais errôneos, uma purificação racial dos padrões desonestos e objetivos indesejáveis está sendo poderosamente aplicada, nesta época. Talvez isto signifique que muitos indivíduos da raça baixem, hoje, ao Jordão, e entrem em suas águas purificadoras. Uma purificação ascética, autoaplicada, e o reconhecimento de seu valor pelos pioneiros da família humana, poderá ser bem sucedida em conduzi-los ao portal da iniciação.

Temos, também, neste episódio, uma interessante analogia, quanto ao que está sucedendo à raça, atualmente, sob o ponto de vista astrológico. Estamos entrando no signo de Aquário, o Portador de Água. Simbolicamente, ele representa a pureza e a relação grupais, a universalidade de experiência e as águas vertidas sobre todos. Quando começamos a entrar neste signo, faz mais ou menos duzentos anos, a água pela primeira vez tornou-se de interesse e uso geral para fins sanitários e de irrigação. Assim, foi possível o controle e a utilização da água, como meio de transporte, em ampla escala mundial. O emprego da água, em nossos lares é, agora, tão universal, que dificilmente podemos entender o que pode ter sido o mundo antes de seu uso.

O Cristo, nesta grande iniciação, entrou na corrente, e as águas passaram sobre Ele. Na índia, esta iniciação é chamada “entrar na corrente”, e se considera que, quem a recebe, demonstra pureza física e psíquica. Ao tratar desta iniciação devemos recordar que, na história narrada no Evangelho, faz-se referência a dois tipos de batismo:

“Respondeu João, dizendo a todos: “Eu, na verdade, batizo-vos com água, mas eis que vem aquele que é mais poderoso do que eu, a quem não sou digno de desatar a correia das alparcas; esse vos batizará em Espírito Santo e com fogo”. (11)

Há, por conseguinte, dois tipos de batismo:

1. O de João Batista, que é o batismo pela água.
2. O de Jesus, o Cristo, que é o batismo do Espírito Santo e do fogo.

Nesses dois símbolos está resumida grande parte da história do desenvolvimento humano, e o trabalho comum, de João Batista e de Jesus, produziu uma síntese que assinala o objetivo imediato de nosso esforço racial. O simbolismo é exato, de acordo com o antigo ensinamento dos mistérios. Um estudo consciencioso desta interpretação simbólica de uma verdade fundamental beneficiará, grandemente, os investigadores de todos os países, e a compreensão do significado dos símbolos empregados arrojaria muita luz sobre a realidade.

Na evolução da raça desenvolve-se, primeiramente, a natureza sensorial, cujo símbolo sempre foi a água. A natureza fluída das emoções e a mudança constante entre o prazer e a dor, as tormentas que surgem no mundo do sentimento, e a paz e a calma que podem descer sobre um homem, fazem da água o símbolo mais adequado para este sutil mundo interior da natureza inferior em que vive a maioria e na qual a nossa consciência está focalizada predominantemente. O homem ou a mulher comuns, são, especialmente, uma mescla das naturezas física e emocional; todas as raças anteriores apresentam esta característica e é provável que, na antiga Atlântida, a civilização estivesse inteiramente centrada nos sentimentos e desejos, nas emoções e - nos tipos mais avançados da raça - na vida do coração. João Batista, portanto, ministrou o batismo pela água, o qual dava testemunho da purificação da natureza emocional, que sempre deve ser o passo preliminar à purificação pelo fogo.

O batismo no Jordão simboliza a purificação da consciência no homem, do mesmo modo que o Cristo e Seu batismo simbolizaram, para nós, o divino no homem e a purificação que se segue à atividade desse espírito divino, na natureza inferior. A consciência, com seu chamado ao reconhecimento dos valores superiores, das verdades mais profundas e do nascimento à vida, leva-nos ao Jordão. Por isso, o Cristo foi ali para “cumprir toda a Justiça”. Esta experiência sempre precede ao batismo em Cristo e pelo Cristo.

O batismo de João foi um passo no caminho para o centro, sendo aplicado em forma mais geral que o batismo de Jesus, porque muito poucos estão preparados para a segunda iniciação. Constitui uma preparação preliminar para aquele batismo final, porque a purificação da natureza emocional deve preceder, no tempo, à purificação da natureza mental, assim como, na evolução da raça (e também da criança), desenvolve-se, primeiro, o homem sensorial e sensível, para depois a mente iniciar uma vida ativa. O batismo que o Cristo dá a Seus seguidores concerne à purificação da mente pelo fogo. O fogo, de acordo com o simbolismo universal da religião, representa sempre a natureza mental. O batismo pelo fogo é o do Espírito Santo.

Assim, Jesus foi de Nazaré e da Galileia, para dar o passo seguinte que convinha à Sua experiência. Como resultado desta experiência, na vida, e de sua consagração interior, estava pronto para a iniciação seguinte, recebida no rio Jordão. Jordão significa “o que desce” e, também, segundo alguns comentaristas, “o que divide”, assim como um rio divide e separa as terras. No simbolismo esotérico, a palavra “rio” indica, frequentemente, discriminação. Vimos que a água simboliza a natureza emocional e que a purificação, no Jordão, pelo batismo, tipifica a total purificação de todos os sentimentos, dos anelos e dessa vida de desejos que constitui o fator determinante na maioria das pessoas. A primeira iniciação simboliza a consagração do corpo físico e da vida do plano físico, à alma. A segunda iniciação representa o controle obtido, e a consagração, à divindade, da natureza de desejos, com suas reações emocionais e sua potente “vida de desejos”.

Um novo fator surge agora: a faculdade discriminadora da mente. Por seu intermédio, o discípulo pode controlar a vida mental e dedicá-la à vida no reino de Deus, consumada na terceira iniciação. Pelo correto emprego da mente, o discípulo faz a correta escolha e equilibra (sabiamente) os inumeráveis pares de opostos.

Passamos pela iniciação do Nascimento quase que inconscientemente. A plena significação do que se realizou, não se faz evidente; somos “crianças em Cristo” e, como tal, vivemos e nos submetemos a disciplinas, chegando, gradualmente, à maturidade. Mas há uma época, na vida de todo iniciado, em que se deve fazer a escolha, e o Cristo também teve que defrontar-se com ela. Antes de se poder enfrentar um futuro de serviço, conscientemente empreendido, deve-se realizar um total e puro rompimento interno com o passado, sabendo que, a partir desse momento, já nada será igual.

Esta iniciação marcou uma tremenda mudança na vida de Jesus de Nazaré. Até essa data, durante trinta anos, havia sido, simplesmente, o carpinteiro do pequeno povoado e o filho de Seus pais.

Era uma personalidade que fazia muito bem em uma pequena esfera. Depois da purificação no Jordão, porém, havendo “cumprido toda a justiça” (12), transformou-se no Cristo e andou por Seu país, servindo à humanidade e proferindo as palavras que modelaram, durante séculos, nossa civilização ocidental. A cada um de nós deve chegar esta mesma grande expansão que ocorre quando estamos em condições de receber a segunda iniciação. Nossa vida de desejos deve, então, ser confrontada com opções essenciais que só a mente nos permite manejar de forma adequada.

Segundo a Crudens Concordance, João significa “o que Deus deu”, e nos três nomes que aparecem juntos neste episódio - João, Jesus e Cristo - está sintetizada toda a história do aspirante consagrado: João, simbolizando o aspecto divino, profundamente oculto no homem, que o impulsiona a alcançar a pureza necessária; Jesus, neste caso, simbolizando o discípulo consagrado, ou o iniciado preparado para o processo que constituirá o sinete de sua purificação; o Cristo, o divino imanente Filho de Deus, que pode agora manifestar-se em Jesus, porque Ele se submeteu ao batismo de João. Essa submissão e completa purificação trouxeram sua recompensa.

Foi nessa iniciação que Deus Mesmo proclamou que Seu Filho era o Único, por Quem “se comprazia”. Toda iniciação é, simplesmente, um reconhecimento. É falsa a ideia, comum em muitas escolas dos mistérios e de esoterismo, de que a iniciação envolve uma cerimônia misteriosa, onde, por intermédio do iniciador e do cetro da iniciação mudam, em definitivo, as condições do aspirante, o qual a partir dali, será diferente e mudará. Uma iniciação tem lugar sempre que o homem, por seu esforço próprio, converte-se em um iniciado. Então, havendo conquistado “o Reino dos Céus pela força” (13),  e “operado sua salvação com temor e tremor” (14),  seu estado espiritual é reconhecido, de imediato, por seus pares, e se lhe confere a iniciação.

Duas coisas sucedem na iniciação: o iniciado descobre os seus irmãos iniciados, com os quais pode associar-se, e também a missão que se lhe confiou. Dá-se conta de sua divindade, em um sentido novo e real, não simplesmente como uma profunda esperança espiritual, ou possibilidade hipotética, ou um anelo de seu coração. Sabe que é filho de Deus, sendo, portanto, reconhecido como tal. Este foi o caso surpreendente de Jesus Cristo. Sua tarefa surgiu, com todas as suas terríveis implicações, ante Seus olhos, por cuja causa foi, sem dúvida, levado a internar-se no deserto. A ânsia de solidão; a busca daquela quietude, em que a reflexão e a determinação podem revigorar-se mutuamente, foi o resultado natural desse reconhecimento. Viu o que devia fazer - servir, sofrer e fundar o reino de Deus. A expansão de consciência foi imediata e profunda. O professor Schweitzer diz, a respeito:

“Acerca do anterior desenvolvimento de Jesus nada sabemos. Tudo queda na obscuridade. Só uma coisa é certa: em Seu batismo lhe foi revelado o segredo de Sua existência, isto é, que Ele era Aquele a quem Deus havido destinado Ser o Messias. Com esta revelação, ficou completo e não necessitou de ulteriores desenvolvimentos. Porque, então, ele ficou certo de que, até o iminente advento da era messiânica, em que revelaria Sua gloriosa dignidade, devia trabalhar para o Reino, como o Messias oculto, ou desconhecido, bem como provar a Si mesmo e purificar-se, conjuntamente com Seus amigos, para Sua Dor final”. (15)

Para Jesus, como homem, foi, provavelmente, um descobrimento intranquilizador. Escuros presságios do caminho que Ele poderia ter de palmilhar, deveriam ter-se, algumas vezes, atravessado em Sua mente, porém todas as suas implicações e a imagem da senda que tinha à frente não poderiam assomar à Sua consciência, em toda sua plenitude, até haver passado a segunda iniciação, na qual Sua purificação foi total. Então, defrontou-se com a vida de serviço e com as dificuldades que esperam todo consciente filho de Deus. O mesmo autor diz:

“Na consciência messiânica de Jesus, a ideia do sofrimento adquiriu, no que a Ele se refere, uma misteriosa significação. O messianismo, do qual se tornou consciente em Seu batismo, não era uma possessão, nem um simples objeto de expectativa, porém, no conceito escatológico, dava-se por feito que, mediante a prova de sofrimento, devia converter-se no que Deus lhe havia destinado que fosse. Sua consciência messiânica nunca se afastou da ideia da Paixão. O sofrimento é o caminho para a revelação do Messianismo”. (16)

A vida inteira do Cristo foi uma prolongada via dolorosa, porém, sempre esteve iluminada pela luz de Sua alma e pelo reconhecimento do Pai. Embora, conforme registra O Novo Testamento, Sua vida se dividisse em períodos e ciclos definidos e embora, obviamente, os detalhes do que devia fazer somente Lhe fossem revelados progressivamente, toda Sua vida constituiu um grande sacrifício, uma grande experiência e um propósito definido. Este objetivo determinado e esta consagração do homem total a um ideal, indicam as condições do estado de iniciação. Todos os acontecimentos da vida estão relacionados com o cumprimento da tarefa da vida, a qual adquire verdadeira significação. Esta é a lição que todos nós, não iniciados e aspirantes, podemos agora aprender. Podemos começar a dizer: “Quando contemplo o passado, a vida não é para mim uma sucessão de experiências, senão uma grande experiência, iluminada, aqui e ali, por momentos de revelação”. (17)

Esta iluminação se faz mais constante, à medida que passa o tempo. O antigo instrutor hindu, Patânjali, ensinava que a iluminação é sétupla e vai progredindo por etapas sucessivas. (18) É como se tratássemos, mentalmente, das sete iluminações que chegam aos filhos de Deus que estão no processo de despertar suas divinas oportunidades: a iluminação, que chega quando nos decidimos a palmilhar o Caminho probacionário e preparar-nos para a iniciação. Então a luz é lançada sobre a distante visão e obtemos um vislumbre fugaz de nossa meta. Depois, a luz reverte sobre nós mesmos e obtemos uma visão do que somos e do que podemos ser, entrando, então, no Caminho do discipulado ou - empregando a terminologia bíblica - iniciamos a longa jornada a Belém. Há, então, as cinco iniciações, que estamos estudando, cada uma das quais marca um aumento da luz que brilha em nosso caminho e desenvolve essa radiação interna, que capacita a todos os filhos de Deus a dizer, com Cristo, “Eu sou a Luz do Mundo” (19) e a obedecer ao Seu comando, quando diz: “Assim resplandeça vossa luz diante dos homens, para que vejam”. (20)  Esta luz, em suas sete etapas, revela Deus - Deus na natureza, Deus em Cristo, Deus no homem. É a causa da visão mística sobre a qual tanto se tem escrito e ensinado, como sempre testemunharam as vidas dos santos de Deus, em ambos os hemisférios.

Às vezes nos perguntamos, quem terá sido o primeiro homem a receber o primeiro e débil vislumbre (alcançado com tênue luz interna) da infinita possibilidade que o esperava. Teve um vislumbre de Deus e, desde esse momento, a luz percebida foi-se intensificando, cada vez mais. Uma antiga lenda (quem pode dizer que não esteja baseada na realidade?) diz que Jesus de Nazaré foi o primeiro em nossa humanidade, em um nebuloso e remoto passado, a receber esse frágil clarão e que Ele, pelo persistente e constante esforço dirigido, foi o primeiro de nossa humanidade que emergiu à própria Luz de Deus. São Paulo talvez se referisse a esta verdade, quando falou de Cristo como “o primogênito entre muitos irmãos”. (21) Seja esta lenda verdadeira ou não, o Cristo entrou na luz porque Ele era luz; e a história do homem foi uma iluminação, gradualmente crescente, até que hoje a radiação se encontra em toda parte.

Nesta inerente e divina luz latente e contudo ainda emanando de Deus, o Cristo teve a visão que Lhe demonstrou Sua Filiação, Seu Messianismo e o caminho do Seu sofrimento. Esta visão é a herança e a revelação de cada discípulo individual. Esta revelação mística pode ser percebida e, uma vez efetivada, constitui um fato - muitas vezes inexplicável, porém uma realidade, definidamente clara e iniludível. Proporciona ao iniciado a confiança e o poder para seguir adiante. É efetiva em nossa experiência e é raiz de toda a nossa futura consistência e serviço. É também inexpugnável. Sobre esta base marchamos, valentemente, do conhecido para o desconhecido. É finalmente, inefável, porque sublinha a nossa divindade, por estar fundamentada sobre a qualidade divina, emanando de Deus. É um vislumbre do reino de Deus e uma revelação do caminho que devemos percorrer, em nosso roteiro para Ele. Constitui uma expansão que nos permite compreender que “o Reino de Deus é um estado da alma, que provém do espírito e se reflete no corpo”. (22)

O primeiro passo para este reino dá-se por meio do Novo nascimento e o segundo passo é através do batismo da Purificação. É um processo de aquisição das características do reino e de gradual conquista daquela maturidade que caracteriza o cidadão desse reino. O Cristo o testemunhou no batismo, quando ele alcançou a maturidade, dando-nos um exemplo e, mediante Sua passagem triunfal pelas provas das três tentações, demonstrou a pureza necessária.

A criança em Cristo, o menino pequeno, o homem maduro, o homem perfeito! Pela experiência de Belém, nasce o menino. O infante cresce, até chegar à maturidade e se manifesta em sua pureza e poder, no batismo. Apresenta-se, na Transfiguração, como o homem maduro e, na Cruz, representa o perfeito Filho de Deus. Uma iniciação constitui aquele momento em que o homem sente e sabe, através de cada parte de seu ser, que a vida é realidade e que a realidade é vida. Por um breve instante, sua consciência é toda abarcante; não somente possui a visão e ouve a palavra de reconhecimento, mas sabe, também, que a visão é de si mesmo e que a palavra é ele próprio feito carne.

Esse é o fator essencial. Uma iniciação é um intenso clarão de iluminação, lançado sobre o rio da existência, constituindo uma experiência total. Nada há nela de indefinido; e o iniciado já não é o mesmo em sua consciência.

No rio Jordão, a luz dos Céus se espargiu sobre o Cristo e Seu Pai pronunciou as palavras que ressoaram através das idades e evocaram a resposta de todos os aspirantes ao reino. O espírito de Deus desceu sobre Ele, em forma de uma pomba. A pomba foi sempre o símbolo da paz. Por duas razões foi o sinal escolhido para esta iniciação. A água, como vimos, é o símbolo da natureza emocional que, uma vez purificada pela iniciação, converte-se em um límpido e tranquilo lago, capaz de refletir a natureza divina, em toda sua pureza. Assim, em forma de pomba, a paz de Deus desceu sobre Jesus.

Em segundo lugar, as dualidades essenciais da existência estão ilustradas na Bíblia. O Velho Testamento personifica o homem natural inferior, o aspecto virgem Maria, que leva, em si, a promessa do Messias, d’Aquele que virá; O Novo Testamento representa o homem espiritual, Deus feito carne e o nascimento daquilo que a natureza material carregou e ocultou, em si, durante tanto tempo. O Antigo Testamento começa com o aparecimento do corvo na época da fundação do velho mundo, como podemos começar a saber. O Novo Testamento abre com o aparecimento de uma pomba, o primeiro, um símbolo das águas turbulentas e a segunda, o símbolo das águas da paz. Por intermédio do Cristo e pelo desenvolvimento da vida crística em cada ser humano, chegará a “paz que excede todo o entendimento” (23).

De pé, nas águas do Jordão, o Cristo enfrentou o mundo como Homem. De pé, sobre o cimo da montanha da Transfiguração, enfrentou o Mundo como Deus. Mas, na iniciação do batismo, ele ficou a igual altura de Seus irmãos, manifestando pureza e paz. Recordemos que, “do ponto de vista dos demais, só é original o homem que pode conduzi-los mais além do que já sabem; porém isto ele não pode fazer, enquanto não possuir os mesmos conhecimentos que eles”. (24) Isto deve ser lembrado. O Cristo foi purificado; mas, diante dele, estavam as tentações. Tinha que chegar e ser, em Sua consciência (seja sofrendo de novo as antigas provas e experiências, seja pela recuperação delas), igual a nós, em todas as coisas - no pecado, na debilidade da fraqueza humana e, também, nos triunfos e realizações humanas. O Cristo tinha que demonstrar Sua grandeza moral, assim como Sua divindade e Sua perfeição, como o homem que chegara à maturidade. Tinha que passar pelas provas a que todo candidato a cidadão do reino deve submeter-se, quando chamado a provar sua capacidade para obter os privilégios desse reino, do qual a igreja é o símbolo externo e visível e, ainda que imperfeita e débil na interpretação de seus ensinamentos essenciais, mesmo assim simboliza a forma do reino de Deus. Mas este não é o reino dos teólogos. Não se entra nela pela mera aceitação das crenças formais. Entram nele os que passaram pelo novo nascimento e baixaram ao Jordão.

A cidadania deste reino foi julgada na Pessoa do Cristo e por isso Ele buscou o deserto, para ser tentado pelo demônio.

Parte 3

Neste episódio íntimo da vida de Jesus Cristo talvez tenhamos a primeira visualização real dos processos levados a cabo no mais recôndito de Sua mente. As palavras que seguem iniciam a história e são significativas:

“E houve uma voz dos céus que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo. Então, Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo.” (25)

O relato da tentação no deserto gera grandes controvérsias. Muitas questões foram propostas e o crente fervoroso experimentou muita agonia na alma, ao tratar de reconciliar o senso comum, a divindade de Cristo e o diabo. Teria sido possível que o Cristo, em realidade, fosse tentado, e neste caso, poderia Ele ter caído em pecado? Fez frente a essas tentações como o onipotente Filho de Deus, ou o fez como homem, sujeito, portanto, a tentações? Que se quer significar pelo diabo? E qual era a relação do Cristo com o mal? Se esta narração a respeito do deserto nunca houvesse sido contada, qual seria a nossa atitude em relação ao Cristo? Que ocorreu realmente, na consciência do Cristo, quando se achava no deserto? Com que fim se nos permite compartilhar com Ele esta experiência?

Muitas destas interrogações surgem na mente do homem inteligente, e numerosos têm sido os comentários escritos para estabelecer o ponto de vista particular de cada pensador. Não é o propósito deste livro tratar do difícil tema do mal, nem definir as vezes em que o Cristo atuava como homem e quando o fazia como Filho de Deus. Alguns creem que foram simultâneos ambos os procedimentos e que “era o próprio Deus de Deus” (26) e, ao mesmo tempo, essencial e completamente humano. As pessoas afirmam estas coisas, porém tendem a olvidar as implicações. Afirmam, com decisão, seu ponto de vista; porém evitam levar sua atitude a uma conclusão lógica. O que se infere é que se nos permite conhecer a tentação para aprender, como seres humanos, uma lição necessária; estudemos, portanto, esta história, do ângulo da humanidade do Cristo, nunca esquecendo que Ele havia aprendido a obedecer ao espírito divino, à alma no homem, e que controlava Seu corpo de manifestação.

Cristo, “como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado”. (27) Ele adotou um corpo humano e esteve sujeito às condições humanas, como nós também estamos. Sofreu e agonizou; sentiu irritabilidade; foi condicionado pelo Seu corpo, pelo Seu meio ambiente e pela época, como todos nós. Mas por haver aprendido a dominar-se, e porque a roda da vida havia terminado para Ele, podia enfrentar esta experiência, enfrentar o mal e triunfar. Desse modo, ensinou-nos a enfrentar a tentação; mostrou-nos o que devemos esperar, como discípulos que se preparam para a iniciação, bem como o método pelo qual se converte o mal em bem. Enfrentou a tentação, não com uma grande técnica, ou nova revelação. Simplesmente, recorreu ao que sabia, ao que se Lhe havia dito e ensinado. Encarou a tentação, cada vez, com a frase: “Está escrito” (28) , e não empregou novos poderes para combater o diabo. Apenas utilizou os conhecimentos que possuía. Não empregou os poderes divinos para vencer o diabo. Simplesmente, empregou os que todos possuímos - o conhecimento adquirido e as milenárias regras. Triunfou, porque havia aprendido a vencer a Si mesmo. Era o Senhor das condições daquela época, porque tinha aprendido a dominar a Si mesmo.

Esse domínio, exercido pela alma, pode estar totalmente ao nosso alcance imediato, porém, o comando do Cristo tem vigência eterna: “Sede vós, pois, perfeitos”; (29) e, algum dia, também nós enfrentaremos as tentações no deserto e sairemos, como Ele, sem mácula e vencedores. Tal experiência é inevitável para todos, e ninguém pode escapar a ela. Cristo não a evitou e nós tão pouco assim o faremos. “É a possibilidade de ser tentado que demonstra a verdadeira grandeza da natureza humana”, diz o Dr. Selbie (30) “Sem isso, seriamos, simplesmente, criaturas imorais... É pela capacidade de escolher entre os fins e as ações que a eles conduzem que surge a possibilidade do pecado”. Isto exige ser considerado mais do que superficialmente. A própria humanidade está comprometida nesta narração do deserto. O mundo das coisas materiais, dos desejos e da ambição foi desdobrado ante o Cristo e, por haver reagido como Ele o fez, sem que nenhum desses aspectos da vida pudesse afetá-Lo, também nós poderemos libertar-nos, assegurando nossa vitória final. Cristo obteve a vitória como homem. Também nós podemos fazer o mesmo.

A este triunfo da alma sobre a matéria, e da realidade sobre o irreal, deu testemunho o Cristo, na experiência do deserto; e todos os que seguem os Seus passos marcham para a mesma meta. O triunfo que alcançou será o nosso, quando enfrentarmos o problema com o mesmo espírito com que Ele o fez, vertendo-lhe a luz da alma e apoiando-se na passada experiência.

Na iniciação do Batismo ficaram demonstradas, perante o homem, a pureza e a libertação de todo o mal, pelo Cristo. Agora, elas devem passar por uma prova diferente. Das multidões e da experiência, Cristo passou à solidão e durante quarenta dias e noites esteve só consigo mesmo, permanecendo entre Deus e o diabo. De que agente se valeu esta força maligna para chegar até Ele? Mediante Sua própria natureza humana; mediante a solidão, a fome e Suas próprias visões, o Cristo foi abandonado a Si mesmo e, ali, no silêncio do deserto, sozinho com os Seus pensamentos e desejos, foi provado em todas as partes de Sua natureza que podiam ser vulneráveis... “Como Ele é, somos nós também neste mundo”, (31) vulneráveis em todos os pontos. A dificuldade da maioria reside em que somos vulneráveis em muitas coisas sem importância e estamos sujeitos a cair ante qualquer situação trivial. O crucial da contingência, no que ao Cristo concerne, foi que as três tentações eram as provas máximas, envolvendo os três aspectos da natureza inferior. Foram tentações sintéticas. Não havia nelas nada de trivial ou insignificante, senão, o conjunto das forças do tríplice homem inferior físico, emocional e mental em um último esforço para subjugar o Filho de Deus. O mal está assim constituído e algum dia teremos que enfrentar esta prova, este mal triplo, este diabo, como Cristo o enfrentou. Três vezes foi tentado e três vezes resistiu, e só depois que pôde rejeitar a capacidade de reagir à forma e ao benefício material, foi-Lhe possível entregar-se ao Seu serviço ao mundo, e chegar ao Monte da Transfiguração. Um dos grandes pensadores, no campo da interpretação cristã de nossos dias, nos diz que “Todos os que estão destinados ao Reino devem obter o perdão pelas culpas cometidas no eon terrestre, enfrentando, firmemente, o poder mundial, quando se concentra em si mesmo para o ataque final. Pois, através desta culpa, ainda estavam sujeitos ao poder do ateísmo; ela constitui um contrapeso que retarda o estabelecimento do Reino”. (32)

Cristo enfrentou este último ataque e saiu vitorioso, garantindo, assim, nossa vitória final.

O diabo se aproximou de Jesus quando havia passado os quarenta dias de comunhão solitária. Não se disse o que o Cristo fez, durante esses quarenta dias. Nada sabemos de Seu pensamento e determinações; de Suas realizações e consagração, nessa época. Ele enfrentou o futuro sozinho e encarou, ao final, as provas que O liberaram do poder de Sua natureza humana.

À medida que estudamos a vida de Jesus, surge, cada vez com mais clareza, esta solidão. As grandes almas são sempre solitárias. Trilham desacompanhadas as partes mais difíceis do longo caminho de retorno. Cristo sempre esteve só. Seu espírito O levava, constantemente, ao isolamento. “Os grandes conceitos religiosos que povoam a imaginação da humanidade civilizada são cenas de solidão: Prometeu, acorrentado na rocha; Maomé, perquirido no deserto; as meditações de Buda; o Homem solitário na Cruz. Pertence ao mais fundo do espírito religioso, o sentir-se abandonado de todos, até de Deus.” (33)

Cristo alternava Sua vida entre a multidão, que Ele amava, e o silêncio dos lugares solitários. Primeiramente, compartiu a vida cotidiana da experiência familiar, onde as intimidades da personalidade podem, tão penosamente, aprisionar a alma; depois, passou ao solitário deserto e se encontrou só. Regressou, e começou Sua vida pública, até que a notoriedade, o ruído e o clamor dessa vida foram substituídos pelo profundo e interno silêncio da Cruz, onde, abandonado por todos, passou a escura noite da alma, completamente só. Entretanto, é nesses momentos de completo silêncio, quando a alma queda abandonada a si mesma, sem ninguém que a ajude, sem mão estendida que a auxilie nem voz que a reconforte, que essas revelações chegam e essa clara percepção se desenvolve, a qual permite o surgimento de um Salvador para ajudar o mundo.

Cristo foi tentado pelo diabo. É necessário, em uma obra como esta, interpretar o diabo? Não se torna evidente que, no mundo atual existem dois conceitos dominantes, ambos considerados como fatores, na consciência dos jovens, determinando, portanto suas crenças ulteriores - o diabo e São Nicolau, ou Papai Noel? Estes nomes encarnam ideias opostas. Cada qual simboliza um dos maiores problemas que o homem deve resolver, em sua vida diária. São chamados de “pares de opostos” pelos filósofos orientais, e, certamente, é a maneira pela qual o homem maneja ambos os aspectos da vida, e sua atitude subjetiva em relação a eles, que determina se sua vida reage ao bem ou ao mal. O diabo é o símbolo do que não é humanamente divino, porque as coisas más, praticadas pelo homem, quando feitas por um animal, não seriam consideradas más. Um homem ou uma raposa, por exemplo, podem assaltar um galinheiro; em um caso, se atenta contra uma lei moral, enquanto que, no outro, um instinto natural é seguido. Um animal pode matar o outro, em um acesso de fúria, ou em defesa de sua fêmea; porém, quando um homem faz o mesmo, é apontado como assassino, e devidamente punido.

Papai Noel é a encarnação do altruísmo; é o símbolo da dádiva e do espírito crístico; ele é, portanto, para o homem, uma recordação de Deus, assim como essa outra ficção da imaginação, o diabo, com chifres e cauda, é a recordação do que não é Deus, do que não é divino.

“A chave, no-la dá a mitologia. Os mitos exigem uma séria interpretação, em correspondência com a realidade objetiva. Não se deve tratá-los como poesia pura, sem nenhuma verdade positiva por detrás deles, como um mero jogo da imaginação! A vestidura que envolve a substância poderá ser tão fabulosa, tão fantástica, tão inconsistente e pitoresca, quanto se queira. Mas isso não altera o fato de que a mitologia popular nos fala de uma realidade invisível e de “personagens” misteriosos (“personagens”, lembrem-se, não forças) em ação em toda parte. Tudo vive e possui uma alma. O mundo está repleto de espíritos, de almas. Os mitos falam deles. Quem inventou esses mitos? Ninguém. Porque as invenções são arbitrárias, são ficções. Esses contos, porém, são aceitos por quem os relata, e por seu auditório, como verdades inquestionáveis. A psicologia do homem primitivo o impulsiona a considerar as coisas de forma “mágica”. O que em nossa psicologia mais individual e mais desenvolvida se converteu num “subconsciente” onde a vida coletiva de nossos antepassados ainda está atuando, constitui a psicologia normal do primitivo, um estado de “sonambulismo natural”, com suas formas características de sensibilidade, telepatia, segunda visão, uma captação direta, semelhante à do artista quando observa o todo em suas partes, o essencial na multiplicidade de detalhes”. (34)

Isto é testemunhado pelos símbolos de Papai Noel e do diabo - já que são encarnações das dualidades primordiais no reino da qualidade. Toda a existência do homem, como homem, transcorre oscilando entre estes pares de opostos, até que, com o tempo, ele alcance o equilíbrio e, desde então, marche para o que é divino. Poderia ser proveitoso para todos nós se, às vezes, refletíssemos extensa e profundamente sobre esses dois extremos da existência humana, o bem e o mal, a luz e as trevas, a vida e a forma, o espírito e a matéria, o eu e o não-eu, o real e o irreal, a verdade e a falsidade, o certo e o errado, o prazer e a dor, o anelo e a inércia, a alma e a personalidade, o Cristo e o diabo. Nos dois últimos resume-se o problema das três tentações. Estas dualidades se têm definido, também, como as qualidades do que é finito e infinito, sendo uma, a característica do homem, e a outra, a de Deus. O que faz ressaltar a nossa natureza finita corresponde à humanidade e o que é abrangente pertence a Deus. Ao estudar estas três tentações, veremos com clareza as diferenças entre as dualidades. Cristo, nas tentações, não podia contradizer a Si mesmo; e assim, identificando-Se com a perfeição, representa um ser Humano, que “está no mundo e, contudo, não é do mundo”, (35) tentado pelo diabo mas, não obstante, livre de reagir, erroneamente, às insinuações dele. Era uma alma livre, isto é, uma alma divina, sem as traves do desejo nem a contaminação da carne e suas tentações, liberado dos pecados dos processos mentais. Essa é a vontade de Deus para cada um e para todos nós, a respeito do que, disse o citado autor: “Não pode haver liberdade ... a não ser que a vontade divina seja genuinamente una com a dos seres finitos, em uma só personalidade”. (36) Cristo foi uma Personalidade assim. O Bem é o oposto do mal, e a atitude do Cristo, para com o diabo, foi de uma oposição inabalável. Com isto, aclarou o ponto e realizou o que todas as almas podem fazer. Aqui, como indiquei anteriormente, está Sua excepcionalidade e diferença - que consiste no fato fundamental de haver empregado aqueles métodos para servir, triunfar e sacrificar-se, que estão ao alcance de qualquer um de nós. No passado, muitos deram sua vida por outros; muitos enfrentaram o mal com decisiva oposição; muitos dedicaram sua vida ao serviço; porém, ninguém o fez com a plenitude e perfeição do Cristo.

Sua grandeza, que nunca pode ser suficientemente reiterada, reside em Sua universalidade. O Dr. Bosanquet se refere a este tema da personalidade do modo seguinte:

“Meu argumento é que nossa verdadeira personalidade reside em nossa maior solidez, e que ao desejar seu desenvolvimento e satisfação, almejamos que se amplie nossa verdadeira individualidade, com a correspondente diminuição de nossa exclusividade formal. . . Talvez repliquem que a verdadeira individualidade - grandeza de alcance e organização - aumenta a distinção pessoal e, também, a compreensão. Sem dúvida, será assim, porém a exclusividade decresce. Os grandes homens do mundo não nascem, simplesmente, de seus pais terrenos. Neles se enfocam países e eras inteiras... Ao desejar uma perfeição altamente desenvolvida, estamos almejando ser algo que já não pode identificar-se com a vida terrena, nem com os incidentes que lhe são próprios”. (37)

Se estas palavras forem estudadas em conexão com as tentações de Cristo, surgirá a maravilha do que Ele fez, e nos alentará a nós, Seus irmãos menores, igualmente filhos de Deus.

Portanto, como homem íntegro e entretanto totalmente divino, Cristo empreendeu a batalha final com o diabo. Como ser humano, em quem o espírito divino se expressava plenamente, enfrentou o diabo em Sua própria humanidade (separadamente de Deus), e venceu. Não tratemos de separar a ambos - Deus e o homem - quando pensamos em Cristo. Alguns pensadores dão ênfase à Sua humanidade e ignoram Sua divindade.

Nisto cometem, sem dúvida, um erro. Outros acentuam Sua divindade e consideram errados e blasfemos àqueles que O colocam em pé de igualdade com os outros seres humanos. Se, porém, considerarmos o Cristo como a florescência da raça humana, porque o espírito divino tinha pleno controle e se manifestou por meio da forma humana, de maneira alguma diminuímos Sua pessoa e Suas realizações. Quanto mais os homens avançarem, na Senda da Evolução, tanto mais se farão conscientes de sua divindade e da Paternidade de Deus. Ao mesmo tempo, quanto mais profundamente valorizarem a Cristo, mais se convencerão de Sua divindade perfeita e de Sua missão, e mais humildemente tratarão de seguir Seus passos, sabendo que é o Mestre de Mestres, e Deus de Deus mesmo, e o Instrutor de Anjos e homens.

Essa divindade perfeita deve ser provada e aprovada. Tem, agora, que demonstrar a Deus, ao diabo e à humanidade, a natureza de Sua realização e de que maneira os poderes de natureza inferior podem ser superados pelos poderes da alma. Essas tentações podem ser facilmente compreendidas por todos os aspirantes e discípulos, porque envolvem provas universais que se aplicam à natureza humana, da qual todos participamos e com a qual todos lutamos, de alguma forma ou medida. Não interessa se o fazemos impulsionados por nossa consciência, pelo controle de nossa natureza superior ou pela clara luz da divindade. Isto, todos os discípulos sempre têm reconhecido.

Consideraremos essas três tentações, segundo a ordem indicada por São Mateus, que difere da de São Lucas. São Marcos, simplesmente menciona que o Cristo foi tentado pelo diabo e São João nem se refere a elas. As três tentações provaram os três aspectos da natureza humana inferior - físico, emocional, ou de desejos, e mental. Lemos que:

“E tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, depois teve fome; e chegando-se a ele o tentador, disse: Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem em pão. Ele porém, respondendo disse: Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”. (38)

Existem dois fatos muito interessantes, relacionados com essas tentações. Cada uma das frases, nos lábios do diabo, começa com “Se”, e a resposta de Cristo começa com “Está escrito”. Essas duas expressões vinculam os três episódios, dando a chave de todo o processo. A tentação final é a dúvida. A prova que todos temos que enfrentar, finalmente, e que culminou na vida de Cristo, até Seu triunfo na Cruz, é a prova de nossa divindade. Somos divinos? Como devem expressar-se os nossos poderes divinos? Que podemos fazer, ou não fazer, por sermos filhos de Deus? Que os detalhes de cada dificuldade, de cada prova e experiência, possam diferir, é de relativa importância. Tão pouco interessa que as provas estejam centralizadas em um ou outro aspecto de nossa natureza inferior. O que está posto à prova é o anelo de toda uma vida para com a divindade. Ao homem pouco evoluído o problema da divindade como um todo não se apresenta. Ele pode estar preocupado, apenas, com o detalhe, com o problema no panorama imediato de sua vida. Esta, ele maneja, ou não, conforme o caso, à luz da consciência. Para o discípulo, o detalhe assume menor importância e a verdade geral de sua filiação começa, pouco a pouco, a interessá-lo. Ele maneja, então, as condições de sua vida, a partir do ponto de vista dessa teoria. Para um perfeito filho de Deus, como o Cristo, ou para o homem que se aproxima da perfeição, o problema deve ser encarado em sua totalidade e o problema da vida deve ser considerado a partir do ângulo da divindade mesma. Tal foi o caso do Cristo e tais eram as implicações ocultas, no triplo “Se” do diabo.

Parece-me que erramos, ao interpretar toda a verdade do ponto de vista do homem medíocre, e é o que se fez, correta ou equivocadamente. A verdade pode ser interpretada de muitas maneiras. Os que são, simplesmente, seres físicos emocionais e, portanto, de pouca visão, requerem a proteção da teologia, apesar de suas imperfeições e declarações dogmáticas insustentáveis. Necessitam desta assistência; razão por que a responsabilidade daqueles que ministram os dogmas às “criancinhas” da raça, é muito grande. A verdade deve também ser dada em forma mais ampla, e com um conteúdo mais geral, àqueles que começam a viver, conscientemente, como almas, aos quais se pode assim confiar que verão o significado atrás do símbolo e a significação por trás da aparência externa da teologia. A verdade, para os perfeitos filhos de Deus, deve ser algo que esteja mais além de nossos sonhos, com uma significação tão profunda e de tão grande alcance, que se torna fútil toda especulação a respeito, visto que se trata de algo que deve ser experimentado e não imaginado; alguma coisa em que nos haveremos de aprofundar e não, simplesmente, visualizar.

Cada réplica de Cristo deve ser considerada nesta forma tríplice. Ele diz “Está escrito”, e os irrefletidos e de mente estreita consideram esta afirmativa como uma aprovação à inspiração verbal das Escrituras. Mas, sem dúvida, o Cristo não se referia apenas às antigas assertivas das Escrituras judaicas, por belas que fossem. As possibilidades de erro são demasiado grandes para justificarem nossa inquestionável aceitação de toda palavra, em qualquer das escrituras do mundo. Quando se analisam os processos de tradução, isto se evidencia com absoluta clareza. Cristo quis significar algo muito mais profundo que “a Bíblia o diz”. Quis dizer que o sinal de Deus estava nEle, que Ele era o Verbo, e que esse Verbo era a expressão da verdade. É o Verbo da alma (influxo da divindade), o que determina a nossa atitude na tentação e a nossa resposta ao problema apresentado pelo diabo. Se essa Palavra é distante, profundamente oculta pelo véu da forma, somente se escutarão sons distorcidos e o Verbo não será suficientemente potente para resistir ao diabo. A Palavra está escrita na carne, por mais desfigurada - e quase invisível - que possa estar em virtude da atividade da natureza inferior; é na mente que Ela é pronunciada, trazendo iluminação e percepção internas, ainda que a visão esteja distorcida e a luz seja pouco perceptível. Porém, a Palavra está ali. Algum dia, cada um de nós dirá, poderosamente, “Está escrito” e verá aquela Palavra expressa em toda parte da nossa natureza humana, como indivíduos, e - em época ainda distante - na humanidade mesma. Esta é a “Palavra perdida”, da tradição maçônica.

A filosofia oriental refere-se, frequentemente, a quatro esferas da vida, ou a quatro problemas que todos os discípulos e aspirantes devem enfrentar, as quais constituem, em sua totalidade, o mundo em que vivemos. Há o mundo de Maya, o mundo da miragem, e o mundo da ilusão, bem como esse misterioso “Morador do Umbral”, a que se refere Bulwer Lytton, em Zanoni. A esses quatro o Cristo enfrentou e venceu, na experiência do deserto.

Maya refere-se ao mundo das forças físicas, em que vivemos, e a primeira tentação é concernente a este mundo. A ciência moderna diz que não existe nada, visível ou invisível, que não seja energia, e que toda forma é, simplesmente, um agregado de unidades de energia, em constante e incessante movimento, ao qual nos temos de adaptar, e “no qual vivemos, nos movemos e temos o nosso ser”. (39) Tal é a forma externa da Deidade e somos parte dela. Maya é de caráter vital, e pouco sabemos de seus efeitos, no plano físico (com tudo o que o termo compreende), e no ser humano.

A “miragem” refere-se ao mundo do ser emocional e do desejo, onde moram todas as formas. Esta miragem matiza nossas vidas e produz falsos valores, desejos equívocos e desnecessárias pseudonecessidades, preocupações, ansiedades e cuidados; mas a miragem é antiga, e nos mantém tão aferrados a ela, que é quase impossível dela nos livrarmos. Os desejos dos homens, com o correr dos séculos, criaram uma situação ante a qual recuamos empalidecidos; a desenfreada natureza de nossos anelos e desejos e os efeitos da miragem sobre o indivíduo proporcionam material aos laboratórios psicológicos; a vida de desejos da raça foi erroneamente orientada e o desejo humano se voltou para o plano material, produzindo esse mundo de miragem no qual, habitualmente, todos lutamos. É a mais potente de nossas ilusões ou errôneas orientações. Mas, uma vez que se lance a luz da alma sobre ela, dissipa-se gradualmente esse miasma de forças. Este trabalho constitui a principal tarefa dos aspirantes aos mistérios.

A “ilusão” é a mais mental em seus impactos. Concerne às ideias, pelas quais vivemos, e à vida mental que, mais ou menos (embora quase sempre menos), rege as nossas tarefas cotidianas. Veremos, quando considerarmos estas três tentações, e como, na primeira delas, o Cristo foi afrontado por maya, com forças físicas de tal poder que o diabo pôde aproveitar-se delas, em seu intento de confundir o Cristo. Veremos como, na segunda tentação, o Cristo foi tentado pela miragem, com a submissão de sua vital vida espiritual ao engano e ao emprego emocional de Seus poderes divinos. O pecado da mente, o orgulho, foi posto em atividade pelo diabo na terceira tentação e, seguramente, apresentada ao Cristo a ilusão do poder temporal, para ser empregado com bons propósitos. Deste modo, os três aspectos da natureza de Cristo, com suas prováveis fraquezas internas, foram postos a prova e por meio deles, derramou-se sobre Ele toda a miragem, maya e ilusão mundiais. Assim teve Ele que se defrontar com o Morador no Umbral, sinônimo do eu inferior pessoal, considerado como um todo unificado, como é o caso em pessoas adiantadas, discípulos e iniciados. Nestas três palavras - maya, miragem e ilusão - temos sinônimos da carne, do mundo e do diabo, tríplice prova que deve ser enfrentada por todo filho de Deus ao se aproximar da libertação.

“Se sois Filho de Deus, dizei que estas pedras se convertam em pão.” Empreguemos nossos poderes divinos para fins físicos e pessoais: Anteponhamos a natureza física e material a tudo. Saciemos a nossa fome, qualquer que seja, e façamos assim, porque somos divinos. Usemos nossos poderes divinos para obter boa saúde, prosperidade financeira, há muito desejada, e popularidade; e todas essas demais condições e situações de natureza física que desejamos. Somos filhos de Deus e temos direito a todas estas coisas. Ordena que estas pedras se convertam em pão para satisfazer nossa suposta necessidade. Tais foram os plausíveis argumentos, então empregados, e que ainda hoje muitos instrutores e escolas de pensamento empregam. Tais são, particularmente, as tentações dos aspirantes do mundo atual. Muitos instrutores e grupos procederam de acordo com esta teoria; e, coisa curiosa, assim o fazem com toda a sinceridade, totalmente convencidos da justeza de sua posição. As tentações que atingem as almas mais avançadas do mundo, são de caráter mais sutil. No emprego dos poderes divinos para a realização e satisfação puramente pessoais, as necessidades físicas podem apresentar-se de maneira tal que pareçam, realmente, justas. Entretanto, não vivemos só de pão, mas da vida espiritual que (vindo de Deus), aflui ao homem inferior e constitui a sua vida. Esta é a primeira verdade a ser compreendida. Deve-se dar ênfase a essa vida da alma e a esse contato interno. A cura do corpo físico, quando está enfermo, poderá ser satisfatória para o indivíduo; porém, viver como alma, é de importância maior. Pôr ênfase sobre uma divindade que deve expressar-se, satisfazendo unicamente a uma necessidade física, em sentido econômico, por exemplo, limita decisivamente a divindade, em um de seus atributos. Quando vivemos como alma; quando a nossa vida interna se orienta para Deus, não pelo que podemos receber, mas por havermos desenvolvido o sentido de divindade; então, as forças da vida divina afluirão através de nós e produzirão o necessário. Isto não trará, necessariamente, a total imunidade às enfermidades, nem produzirá a afluência de meios financeiros; porém, produzirá um abrandamento da natureza inferior; estimulará a tendência ao desprendimento de si mesmo; ao altruísmo, que colocará os outros em primeiro lugar; à sabedoria, que se ocupa em ensinar e ajudar o próximo e à eliminação do ódio e da desconfiança, com o que a vida se tornará mais prazerosa para os que estão associados conosco, e uma bondade e inclusividade que não deixarão lugar para o eu separado. É possível, ainda que não inevitavelmente, que este tipo de natureza interna traga, como resultado, um corpo são e a libertação dos males físicos. No tempo e no espaço, em determinada vida, e em um definido momento, a enfermidade tem o seu valor e pode ser uma benção muito desejável. A pobreza e a dificuldade financeira podem restabelecer o perdido senso dos valores e enriquecer o coração, enchendo-o de compaixão. O dinheiro e a saúde podem significar o desastre para muitos. O emprego do poder divino para fins egoístas e a afirmação da natureza divina a fim de obter a saúde individual, parecem uma prostituição da realidade e constituem a tentação que o Cristo enfrentou, vitoriosamente. Vivemos pela vida de Deus. Deixemos que esta vida flua, “mais abundantemente”, sobre nós, e nos convertemos, como o Cristo, em centros viventes de energia radiante, para servir ao mundo. Provavelmente, desfrutaremos de uma melhor saúde física, porque não estaremos tão preocupados conosco. A libertação da autocentralização é uma das primeiras leis da boa saúde.

O problema da cura, que absorve a atenção de milhares de pessoas nesta época, é demasiadamente amplo para ser tratado aqui e é muito mais complexo do que o curador comum, ou os grupos que se dedicam à cura, supõem. Somente assinalarei duas coisas:

Uma, é que a afirmação de que toda enfermidade resulta de pensamentos errôneos não deve ser aceita com muito açodamento. Existem muitas enfermidades nos outros reinos da natureza; os animais, vegetais e minerais sofrem de doenças como os seres humanos e estes reinos precedem o aparecimento da família humana sobre a terra. Outra, é a afirmação do que somos divinos, e que isto nos dá o direito a uma boa saúde; o que pode ser verdade, quando se expressa, realmente, a divindade, porém, ela não se expressa apenas pela afirmação, mas pelo contato consciente e inteligentemente organizado, com a alma. Isto traz, como resultado, uma vida como a do Cristo, só preocupada e interessada pelas demais, sem pensar no eu.

Cristo foi tentado a utilizar Seus poderes divinos com fins egoístas, pela sutil reiteração de Sua divindade, a qual se funda na universalidade da Palavra. Talvez seja apropriado, aqui, recordar que, na cruz, Cristo foi vilipendiado com as palavras: “A outros salvou, a Si mesmo não pode salvar.” (40) A ilusão, ou maya, da natureza física, não o podia prender; dela, Ele se livrou.

Hoje, o Aspirante Mundial, a humanidade, enfrenta esta tentação. Seu problema é econômico; refere-se, específica e fundamentalmente, ao pão, do mesmo modo que, falando simbolicamente, o problema de Cristo era o do alimento. O mundo enfrenta um problema material. Verdade é que não há meio de se escapar dele: e igualmente certo é que o homem precisa alimentar-se. Sobre que bases este problema se solucionará? Seremos considerados demasiadamente idealistas e teóricos, místicos e visionários, se, como Cristo, nos apoiarmos sobre os fundamentos da vida e adotarmos a posição de que, se o homem se reajustar e se orientar como ser espiritual, assim o seu problema será automaticamente resolvido? Sem dúvida alguma, assim nos considerarão. Se sentimos, como muitos sentem, atualmente, que a solução do problema está em uma reavaliação da vida e em uma reeducação segundo os princípios subjacentes do viver, estaremos tão desviados e deveremos ser considerados insensatos? Muitos nos considerarão assim. A solução do problema do homem, porém, em termos exclusivos de atendimento às suas necessidades físicas, servirá tão somente para afundá-lo, mais ainda, no lodo do materialismo. Suprir totalmente suas necessidades, em termos de pão e manteiga, pode ser muito bom, e o é; porém deve-se acrescentar algo mais, que satisfará ao homem por inteiro, não simplesmente ao seu corpo e aos seus desejos. Existem coisas essencialmente importantes para ele, de maior interesse e valor, que as relacionadas com a forma, ainda que passem despercebidas. O Cristo dedicou muito pouco de Seu tempo em alimentar as multidões, porém, muito se esmerou em ensinar-lhe as regras do reino de Deus. Podemos confiar em que os homens se apossem do que queiram. Isto mesmo o fazem hoje, em toda parte. Mas as coisas que realmente importam precisam ser enfatizadas e ensinadas, simultaneamente, ou o fim será desastroso. Quando tivermos expurgado a morada humana de abusos, como proclamam muitos revolucionários em todos os países, a menos que essa morada fique embelezada e que seus moradores possuam ideias baseadas nas essencialidades divinas, seu estado será pior que o anterior. Sete diabos podem entrar na casa, de acordo com a parábola de Cristo. (41) A não ser que Deus more na casa, depois de limpa, e que as nossas reavaliações e ajustes nacionais levem ao lazer e à paz de espírito em que a alma do homem possa florescer, iremos para desastres ainda piores.

“Não só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.”

“Então o diabo O levou à santa cidade e O pôs sobre o pináculo do templo, e Lhe disse: “Se és Filho de Deus lança-te abaixo; porque está escrito: A seus anjos mandará por ti, e em suas mãos te sustentarão, para que não tropeces com teu pé na pedra. Jesus lhe disse; Está escrito também, “Não tentarás o Senhor teu Deus.” (42)

É essencial, para a compreensão exata desta tentação, recordar nossa anterior advertência, que as passagens da Bíblia devem ser interpretadas segundo o ponto de vista das almas envolvidas. Cristo enfrenta o diabo, no terreno de Sua natureza divina. Se és o Filho de Deus, aproveita a paternidade do mesmo Deus, e lança-te. Esta tentação difere da primeira, ainda que pareça personificar o mesmo tipo de prova. Temos a chave na resposta de Cristo, firmando-se em Sua divindade, coisa que não fez na tentação anterior. O diabo cita as escrituras para seus próprios fins. Também leva o Cristo ao Lugar Sagrado, o campo de batalha, e é nele que o diabo semeia a dúvida. A miragem da dúvida desce sobre o Cristo. Faminto, solitário, cansado de conflitos, é tentado a duvidar até das raízes mesmas de Seu ser. Não descreio que o Cristo tenha sido assaltado pela dúvida. Os primeiros vestígios da miragem que desceu sobre Ele, como uma grande treva, na Crucificação, então o assaltaram. Era Ele o Filho de Deus? Antes de mais nada, teria mesmo que cumprir uma missão? Sua atitude era autoilusória? Valia a pena tudo isso? Foi atacado onde era mais forte, e nisto reside a potência desta tentação.

Em uma antiga escritura da Índia, O Bhagavad Gita, Arjuna, o discípulo, enfrenta idêntico problema. Vê-se envolvido em uma grande batalha, deflagrada entre dois ramos de uma mesma família - na realidade, entre o eu superior e o eu inferior - e ele, também, duvida do que deve fazer. Deverá continuar a batalha e a prova, e, assim, triunfar como alma? Deverá afirmar sua divindade e vencer o inferior, o não divino? Em um comentário, estas palavras ocorrem:

“Há um significado espiritual, em tudo isto, e a situação de Arjuna foi bem escolhida, a fim de extrair grandes verdades espirituais. Arjuna representa o eu pessoal inferior, que começa a ter consciência do Eu Superior. Sensibilizado e inflamado pela luz espiritual do eu superior, conquanto desalentado e aterrorizado, compreende o que deve significar a obediência ao Eu Superior. A contenda dos irmãos se concentra, agora, em uma única natureza, na vida de um só homem. Deve eclodir uma guerra dentro de si mesmo, uma guerra longa e penosa, para a vida da Alma. Só um valor superior, aliado à fé e à aspiração, faz possível a contenda, e ainda assim haverá desfalecimento e desalento.” (43)

Alguém mais elevado que Arjuna (que simboliza o discípulo, em seu caminho para a perfeição), enfrentou um problema semelhante, com valentia, fé e aspiração, porém a indagação foi a mesma: É a vida da alma uma realidade? Serei divino? O Cristo enfrentou este problema sem desânimo e triunfou, porque empregou uma afirmação de tal poder (devido a que estabelecia uma verdade), que o diabo, momentaneamente, não pôde alcançá-lo. Provavelmente, o Cristo respondeu: “Sou o Filho de Deus. Tu não me tentarás”. Apoiou-se em Sua divindade, e venceu a dúvida.

É interessante constatar que a humanidade de hoje está embargada pela miragem da dúvida. A dúvida está em toda parte. É um assunto emocional. O intelecto claro, frio, analítico e sintético não duvida, nesse sentido. Interroga e espera. Todavia, é no Lugar Sagrado, com amplo conhecimento do que está escrito e, frequentemente, depois da vitória, que a dúvida desce sobre o discípulo. Talvez, afinal de contas, aquele sentimento de divindade que até então sustentou o discípulo seja, em si mesmo, miragem e não realidade. O discípulo não pode duvidar que viveu uma experiência de natureza divina e sobrenatural. Houve momentos em que surgiu “uma sensação de ter acesso ao Divino, tão diferente de outras experiências quão original e inexplicável, como o Sexo ou a sensação da Beleza - como fome ou sede” (44) porque, indubitavelmente, “no coração de cada religião e em todas as religiões, há uma experiência única, que não se deve considerar como uma evolução de outra experiência”. (45) Entretanto, talvez isso também seja, simplesmente, fenomênico e não real; algo que passa, sem uma base imortal; algo que se experimenta como parte da miragem mundial, porém que não perdura, nem pode perdurar. Talvez Deus seja, unicamente, um nome para designar tudo o que existe e, para a alma consciente individual, não haja qualquer persistência definida, nenhuma divindade essencial, nem nada real - só um momentâneo clarão do conhecimento. Ponhamos à prova este sentido da divindade e vejamos se, com a mudança da destruição física, permanece algo que seja espiritual e imortal.

Estudando o modo como o Cristo enfrentou esta tentação, inclinamo-nos a crer (havendo o Cristo afirmado a Sua crença em Sua Própria Divindade) que, simplesmente, ignorou a tentação. Seu método era tão breve e conciso, e permanece sem desenvolvimento quanto ao detalhe. O caminho de saída, nesta particular tentação, é dual: reconhecê-la pelo que é, irreal, simplesmente uma miragem que não tem existência verdadeira nem duradoura, assim como uma ilusão que nos assalta; e em seguida, estribar-se na experiência de Deus. Se, por um breve minuto, tivermos estado na presença de Deus, conscientemente, isso é real. Se a presença de Deus, no coração humano, em qualquer momento, por um instante tiver sido uma realidade, então, apoiemo-nos nessa experiência conhecida e sentida e recusemos tratar dos detalhes da miragem da dúvida, da emoção, da depressão ou da cegueira em que possamos ver-nos envoltos, momentaneamente.

Mas a dúvida, hoje, só pode ser eliminada no mundo, quando os homens aplicarem aos problemas da humanidade, de Deus e da alma, não somente a clara e fria luz do intelecto, iluminado pela intuição, senão também o poder da passada experiência. Se o sentido de Deus persistiu no mundo desde idades incalculáveis; e se o testemunho dos místicos e dos Santos, dos videntes e Salvadores de todos os tempos, por histórico e verificável - como é - então, esse testemunho, com toda a sua riqueza e universalidade, constitui um fato tão científico, como qualquer outro. Vivemos em uma época em que o fato científico parece possuir a atração de uma miragem. Ciclos de misticismo, ciclos de filosofia, ciclos de expressão científica, ciclos de cru materialismo - tal é o caminho cíclico que percorremos, e tal é nossa história. Todavia, de forma persistente e através de todos eles, estende-se o fio do Plano de Deus. Firmemente, de permeio a tudo, a alma do homem marcha de um desenvolvimento de consciência a outro, e o nosso conceito de divindade adquire, constantemente, maior riqueza e realidade. Neste fato pode a humanidade apoiar-se: a alma divina do homem. Neste fato se apoiou Cristo, quando o diabo, pela segunda vez, tentou-O.

“Novamente O transportou o diabo a um monte muito alto; e Lhe mostrou todos os reinos do mundo e a glória deles. E disse-Lhe: “Tudo isto te darei se, prostado, me adorares. Então disse-lhe Jesus: Vai-te Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás e só a Ele servirás”. (46)

Cristo foi provado em Sua natureza física, e triunfou. Foi provado em Sua natureza emocional de desejos, e descobrimos que nem as forças da natureza física nem as miragens que a natureza emocional-sensorial inevitavelmente traz, desviaram-nO, o mínimo que fosse, da senda da vida e da plena expressão espirituais. Todos os Seus desejos se dirigiram para Deus; toda atividade de Sua natureza estava corretamente ajustada e divinamente expressa. Ele devia conhecer este triunfo, e este conhecimento levava, em si, as sementes da tentação final. Havia triunfado sobre o materialismo e a dúvida. Sabia que o aspecto forma da vida não podia atraí-lO e lutou, denodadamente, até obter o pleno reconhecimento de Sua divindade. Por isso, conquistara os pontos extremos de Sua natureza, os aspectos superior e inferior. Expressava, agora, a qualidade da divindade. A realidade divina, que sentia, e da qual dependia, era poderosa para penetrar em maya e dissipar a miragem. Só permanecia o desejo puro - o desejo de Deus. Ele havia sido provado em dois aspectos de Sua natureza - o material e o divino - e, como Homem-Deus, vencera o mal. Fundamentalmente, ambas as tentações correspondiam ao desejo. O chamado é para total ausência de desejos pessoais.

Assim, em Cristo, o desejo se transmutou em poder, ainda que a vitória obtida conduzisse a acontecimentos que continham a possibilidade de perigo. Cristo foi provado, depois, no campo do poder. Um caráter desenvolvido a um alto grau de perfeição, que estabeleceu uma unidade entre a fonte do poder, a alma, e o instrumento de poder, o eu inferior pessoal, produz o que chamamos uma personalidade. Essa personalidade pode constituir uma verdadeira fonte de perigo para o seu possuidor. O senso do poder, o conhecimento do que se realizou; a compreensão de sua capacidade e a habilidade percebida para dirigir os outros, porque dirigimos a nós mesmos, contêm o gérmen da tentação e, aqui, precisamente, foi onde o diabo intentou burlar o Cristo. Causa-nos assombro quando se nos diz que um caráter íntegro pode ser fonte de dificuldades. Dificuldades de um tipo peculiar, no sentido de que as coisas que faz e as palavras que pronuncia uma pessoa muito evoluída, cujo caráter é notavelmente íntegro e cuja personalidade está cabalmente desenvolvida, podem causar muito dano - ainda quando o móvel seja correto, ou aparente sê-lo. Tais pessoas manejam muito mais poder que a gente comum.

Que é, precisamente, um caráter íntegro, e como se produz? Em primeiro lugar, naturalmente, ele é produzido pela roda da vida, e a experiência na Galileia; em seguida, pelo esforço consciente e pela disciplina autoiniciada; finalmente, pelos processos de integração dos vários aspectos da natureza inferior, em um todo sintético, em uma unidade, para um propósito determinado.

No caso de Cristo, na terceira tentação, Seus “propósitos ou valores conscientes” foram postos à prova. Sua integridade devia ser solapada, se fosse possível, obrigando a unidade, por Ele representada, a se desintegrar. Se isto fosse obtido e se as normas que Ele estabeleceu, pudessem ser anuladas, Sua missão estava destinada a fracassar, desde o princípio. Se houvesse podido ser enganado pela ilusão do poder; se a ambição de natureza pessoal se tivesse desenvolvido em Sua consciência, a fundação do reino de Deus poderia ser, indefinidamente, retardada. Esta tentação foi um ataque à raiz mesma da personalidade. A mente, o fator integrador, com sua faculdade de pensar com clareza, de formular propósitos definidos e de escolher, estava à prova. Essas tentações não assaltam aos que estão pouco evoluídos e, devido à fortaleza do caráter implicado, são do tipo mais iracundo e as mais difíceis de manejar. O desígnio do diabo se dirigia à ambição de Cristo. A ambição é, por excelência, o problema do aspirante e do discípulo evoluídos - ambição pessoal, desejo de popularidade, ambição mundana e intelectual e poder ditatorial sobre os demais. A sutileza desta tentação reside no fato de que vai dirigida a um nível correto. Dá a entender - tal é a implicação - que seria bom para o mundo dos assuntos humanos, se ele todo pertencesse a Cristo. Pelo simples reconhecimento do poder do diabo (a força material do mundo), como sendo supremo, aquele controle sobre os reinos do mundo poderia ser outorgado ao Cristo. Ofereceu-se-Lhe, como recompensa de um mero reconhecimento - oferecimento este feito quando Ele estava só, no cimo da montanha, sem que ninguém O visse - do poder que o diabo representava ou simbolizava, o tríplice mundo da vida externa. Se o Cristo houvesse ainda que brevemente, caído e reverenciado esse grande poder, os reinos deste mundo, e suas glórias, seriam Seus; e sabemos suficientemente a respeito d’Ele, para compreender que, nesse gesto, não teria havido qualquer resquício do egoísmo, se fosse induzido a fazê-lo. Que se interpôs entre Ele e a aceitação desta oportunidade? Sua resposta o indica, claramente, mas deve ser entendida. O que interferiu foi Seu conhecimento de que Deus era Uno, que Deus era Tudo. O diabo Lhe mostrou uma imagem da diversidade, de muitos reinos, de muita divisão, da multiplicidade, da pluralidade, de unidades separadas. Cristo veio para unificar, para unir e reunir, em um, todos os reinos, todas as raças e todos os homens, de modo que as palavras de São Paulo poderiam ser verdadeiras, de fato:

“Há um só corpo e um só Espírito como também fostes chamados em uma só esperança de vossa vocação; um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e um Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos e em todos.” (47)

Se Cristo houvesse sucumbido às seduções do diabo e se pelo aparente motivo correto e amor à humanidade, tivesse aceitado o dom oferecido, essas palavras nunca teriam sido cumpridas, como certamente se cumprirão, em uma época, talvez não muito remota, como o presente momento caótico poderia fazer supor. Cristo sustentou Seus valores e não variou Seu propósito. A ilusão do poder não pode afetá-lo. O real estava tão aferrado à Sua mente que o irreal e o imediato não puderam alienar Sua consciência. Viu o quadro em sua totalidade. Viu um mundo em que não podia existir dualidade, mas só unidade, e de Seus esforços para trazer à existência o mundo do futuro Ele não podia ser desviado.

Onde existe esta visão, os valores e realizações menores não podem deter o coração ardoroso. Onde se pode conceber o todo como uma possibilidade, a parte se encaixa no lugar que lhe corresponde. Onde o propósito de Deus se revela claramente à mente do vidente, os motivos ou fins menores e as pequenas ambições e desejos do que é pessoal, desvanecem-se. Ao final do caminho da evolução está a consumação, o reino de Deus, não assim os reinos do mundo. São parte de um todo futuro e se fundirão, mais adiante, em uma síntese espiritual. Mas esse reino, como veremos no capítulo final, quando sintetizarmos os resultados da iniciação, não nasce da ambição do esforço, nem do desejo pessoais. Chega, antes, pela submersão da parte no todo e do indivíduo no grupo. Todavia, isto se realiza, voluntária e inteligentemente, sem detrimento do prestígio pessoal, nem do sentido de utilidade, ou identidade. Não é imposto nem exigido pelo grupo, estado ou reino, como, com frequência, hoje ocorre. O Dr. van der Leeuw diz:

“Se queremos entrar no reino, essa atitude deve mudar pela do Cristo, cujo amor se fez radiante, prodigalizando-se e sempre emitido para o mundo que o rodeia, quer mereça ou não, cuja vida está centralizada no divino, comum a todos. NEle não encontramos o menor resquício de uma personalidade separada, que luta pela Sua própria existência ou Seu engrandecimento; esvaziou o cálice de Sua existência de tudo o que é pessoal e o encheu com o vinho da vida divina, compartilhada por todos. Por nosso contínuo esforço, possivelmente inconsciente, podemos manter um centro de vida separada, denominado personalidade. Para seguirmos o Cristo, teremos que abandonar a laboriosa luta pela afirmação pessoal, no desejo de sermos a vida do Todo em vez da vida da parte. Somente assim poderemos entrar no Reino onde a separatividade não existe.” (48)

A tentação de Cristo consistia em um reconhecimento obrigatório da dualidade. Para Ele, porém, havia um só reino e um só caminho em direção a esse reino e um Deus Que, embora de modo lento e seguro, estava trazendo aquele reino à existência. Sua missão era revelar o método pelo qual se podia realizar a unidade; proclamar esse amor todo-envolvente e essa técnica de unificação que todos os que estudam Sua vida e reagem diante de Seu espírito, podem seguir. Por isso, não podia cair no erro da diversidade. Não podia identificar-Se com a multiplicidade, quando havia abarcado, em Sua consciência, como Deus, a síntese maior. Pope, em seu famoso Ensaio Sobre o Homem, pressentiu isto e o expressou em palavras ao alcance de todos:

“Deus ama, do todo às partes, porém a alma humana
Deve elevar-se do individual à totalidade.
O amor próprio só serve para despertar a mente virtuosa,
Como o seixo agita o plácido lago;
Movido o centro, imediatamente um círculo se produz,
Ainda outro e ainda um outro aparece;
Abarcam, primeiro, o amigo, o vizinho, o parente; e
Logo a sua pátria; depois, toda a raça humana;
Mais e mais amplos são os transbordamentos da mente;
Incluem as criaturas, de toda espécie;
A terra sorri, plena de infinitas bênçãos,
E o céu contempla tua imagem, em seu seio.”

Então, o diabo O abandona. Nada mais podia fazer, e o Cristo “voltou à Galileia”, (49) para, empreender, de novo, a rotina do viver cotidiano. A experiência da Galileia não pode ser evitada por nenhum Filho de Deus encarnado. Cristo fez, então, três coisas: Primeiro, ouvindo que João Batista fora encarcerado, tomou a si a tarefa que este havia iniciado e continuou pregando o arrependimento. Segundo, selecionou, cuidadosamente, aqueles que iam trabalhar com Ele, tendo que instruí-los, para levarem a termo a missão do reino, e iniciou, então, o acrescentado serviço, que constitui sempre o sinal dado ao mundo de que um homem chegou a ser mais inclusivo e recebeu outra iniciação. Ainda que o mundo não reconheça, no momento, esse sinal, não voltará a ser o mesmo mundo de antes da iniciação ser recebida e o serviço prestado.

O aparecimento de um iniciado no campo do mundo torna esse campo diferente.

Cristo fez o bem em toda parte, “ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda enfermidade e doença, no povo.” (50) Havia registrado, perante Deus, o homem e perante Si mesmo, Sua perfeição. Havia saído da experiência, no deserto, e passado pela prova e pela experiência, justificando, totalmente, Sua divindade. Sabia que era Deus, pois havia demonstrado a Si mesmo o divino de Sua humanidade. Entretanto, como ocorre com todos os Filhos de Deus que se liberam, não podia deter-se até nos haver mostrado o caminho. Tinha que transmitir-nos a grande energia do Amor de Deus.

Perfeito, servindo e com pleno conhecimento de Sua missão, o Cristo entra, agora, em um período de trabalho ativo, que deve preceder a iniciação seguinte, a da Transfiguração.

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Notas:

(1) - Psychology and the Promethean Will, de W. H. Sheldon, pág. 130. (26) - Athanasian Creed.
(2) - Mateus, 3:15. (27) - Hebreus, 4:15.
(3) - Gênesis, 1:26. (28) - S. Mateus, 4:4, 7, 10.
(4) - Psychology and the Promethean will, pág. 135. (29) - S. Mateus, 5:48.
(5) - Mateus, 5:16. (30) - Psychology of Religions, pelo Dr. Selbie, p. 228.
(6) - João, 14:12. (31) - I João, 4:17.
(7) - João, 12:32 (32) - The Mystery of the Kingdom of God, por Albert Schweitzer, pág. 235.
(8) - Mateus, 3:13-17. (33) - Religion in the Making, de A. N. Whitehead, pág. 9.
(9) - Mateus, 5:8. (34) - Religions of Mankind, de Otto Karrer, págs. 121, 122.
(10) - Aforismos de Ioga de Patanjali, Livro II, Af. 41. (35) - João, 17:16.
(11) - Lucas, 3:16. (36) - The Value and Destiny of the Individual, pelo Dr. B. Bosanquet, p. 245.
(12) - Mateus, 3:15. (37) - The Value and Destiny of the Individual, pelo Dr. B. Bosanquet, p. 284, 285.
(13) - Mateus, 11:12. (38) - Mateus, 4:2, 3, 4.
(14) - Filipenses, 2:12. (39) - Atos, 17:28.
(15) - The Mystery of the Kingdom of God, pág. 354. (40) - Mateus, 27:42.
(16) - The Mystery of the Kingdom of God, pág. 223. (41) - Mateus, 12:45.
(17) - A pilgrims Quest for lhe Absolule, de Lord Conway of Allinglon, pág. 8. (42) - Mateus, 4:5, 6, 7.
(18) - Aforismos de Yoga, de Palânjali, Livro II, Af. 27. (43) - The Bhagavad Gita, comentário por Charles Johnston, pág. 26.
(19) - João, 8:12. (44) - The Divinity in Man, de J. W. Graham, pág. 88.
(20) - Mateus, 5:16. (45) - The Divinity in Man, de J. W. Graham, pág. 89.
(21) - Romanos, 8:29. (46) - Mateus, 4:8, 9, 10.
(22) - The Religion of Love, pelo Grão-duque Alexandre da Rússia. (47) - Eph., 4:4, 5, 6.
(23) - Filipenses, 4:7. (48) - Dramatic History of Christian Faith, pelo Dr. Vander Leeuw, pág. 19.
(24) - The Recovery of Truth, de Hermann Keyserling, pág. 216. (49) - Mateus, 4:12.
(25) - Mateus, 3:17; 4:1. (50) - Mateus, 4: 17-24

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