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DE BELÉM AO CALVÁRIO - As Iniciações de Jesus


A Primeira Iniciação:

O NASCIMENTO EM BELÉM

PENSAMENTO CHAVE

“Aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.” (S. João, 3:3)

Parte 1

No exame das cinco iniciações maiores, procuraremos fazer três coisas. Primeiro, tentaremos compreender que o cristianismo é a flor e a frutificação das religiões do passado, sendo a última a surgir, com exceção da religião maometana. Vimos que a ênfase da religião cristã foi posta na unidade da família humana e também na missão singular do próprio Cristo. Cristo veio ensinar-nos o supremo valor do indivíduo, segundo foi claramente dito no capítulo anterior.

Poderia parecer que a ênfase posta pelos seguidores de Maomé na existência de Deus, o Supremo, o Uno e o Único, tivesse o caráter de um pronunciamento equilibrador, surgindo, como aconteceu no século XV, a fim de proteger o homem contra o esquecimento de Deus, à medida que se aproximava de sua própria divindade latente e essencial, como filho do Pai. O estudo das relações existentes entre estas diferentes crenças e a maneira como se preparam para isso e se complementam mutuamente, é de profundo interesse. Isto é sempre posto de lado pelos nossos teólogos ocidentais. O cristianismo pode manter em segredo, e assim o faz, o ensinamento sagrado, porém o herdou do passado. Pode personalizar-se, pela atuação do maior dos Mensageiros divinos, mas o caminho de cada Mensageiro já havia sido preparado de antemão, e Ele próprio tinha sido precedido por outros grandes Filhos de Deus. Sua palavra pode ser a Palavra vivificadora para a nossa civilização ocidental e encarnar a salvação que nos devia chegar, mas o Oriente dispunha de seus próprios mestres, assinalando-se que cada uma das civilizações passadas em nosso planeta teve seu Representante divino. Ao considerar, pois, a mensagem do cristianismo e sua contribuição excepcional, não olvidamos o passado, porque se o fizermos, jamais chegaremos a compreender a nossa própria fé.

Em segundo lugar, pensemos em termos de totalidade e nos conscientizemos de que as grandes expansões de consciência, a que nos referiremos constantemente, têm paralelos universais. Alguns destes desenvolvimentos raciais encontram-se na história do passado racial; outros se acham no futuro e um se acha no presente imediato. Na medida em que o equipamento físico e mecânico do homem se aperfeiçoa, a fim de enfrentar a expansão de sua consciência, ele é gradualmente levado a uma maior experiência da Imanência divina, a u’a melhor percepção da divina Transcendência e a registrar, com crescente e iluminado entendimento, a revelação que lhe é progressivamente apresentada para o desenvolvimento de sua educação e de sua cultura.

Estamos, agora, à beira do nascimento do Cristo racial e, das trevas do útero da matéria, o Cristo-Menino pode entrar na luz do reino de Deus. Espera-nos outra crise, e o Cristo já preparou a raça para isso porque, quando nasceu em Belém, não ocorreu, simplesmente, o nascimento de outro Instrutor e Mensageiro divino, mas o aparecimento de uma Individualidade Que, não somente sintetizou em Si mesma as realizações passadas do gênero humano, senão Que foi, também, o precursor do futuro, encarnando em Si próprio tudo o que era possível à humanidade realizar. O aparecimento do Cristo, na caverna de Belém, marcou a inauguração da possibilidade de um novo ciclo de desenvolvimento espiritual, tanto para a espécie humana como para o indivíduo.

Finalmente, consideraremos esses desenvolvimentos do ponto de vista do indivíduo e estudaremos aqueles episódios relatados nos Evangelhos, os quais dizem respeito, vitalmente, ao ser humano individual que, chegando ao final do longo e fatigante caminho da evolução, está preparado para representar, novamente, o mesmo drama, em sua própria experiência. Ele tem a oportunidade de passar da etapa do novo nascimento à da ressurreição final, pelo escarpado caminho do Monte Gólgota. No mais recôndito de seu ser, deve aprender o sentido das palavras do Cristo: “Necessário vos é nascer de novo”. (2) Também deve expressar a morte em vida, o que constitui a destacada mensagem de São Paulo. (3)

Cada um de nós deve comprovar isto por si mesmo, mais cedo ou mais tarde, porque “viver uma experiência religiosa é a única maneira válida de chegar à compreensão dos dogmas”. (4) Só seguindo o exemplo dos que já tenham realizado, aprenderemos o significado da realização. Unicamente vivendo de maneira divina, poderemos expressar a divindade oculta em nós. Isto envolve uma autoaplicação prática, que contêm sua própria recompensa; de começo, porém, deve-se levá-la avante, cegamente.

A história da humanidade é, portanto, a história desta busca individual da expressão e luz divinas e da realização final do novo nascimento, que libera o homem para a prestação do serviço no reino de Deus. Através das idades, indivíduos de toda parte passaram por essas cinco expansões de consciência e entraram em uma vida mais profunda de serviço mais fecundo e pleno. Gradualmente, seu sentido de divindade cresceu e sua percepção da Vida divina, imanente na natureza, os levou ao reconhecimento da correlativa verdade de Deus transcendente. Deus no indivíduo, e Deus em Cristo. Deus em todas as formas e Deus, a vida animadora do cosmo; e, contudo, um Deus que, conscientemente, anima tanto um universo como alenta um homem, bem como o mais diminuto átomo da substância. A evolução deste reconhecimento da divindade no homem foi lenta e gradual; porém, em certas etapas da história racial (como na história do homem individual), houve momentos críticos e surgiram crises que foram transcendidas, cada definida iniciação proporcionando à raça uma compreensão mais ampla. Hoje, o gênero humano está sendo preparado para essa transição e para uma nova focalização da consciência em uma dimensão superior, em um campo de experiência mais opulento. A humanidade está preparada para subir outro degrau, na escada evolutiva. Encontrando-nos frente a uma situação tão particular e com uma experiência tão sem paralelo, não nos deve surpreender a atual situação caótica. Assustamo-nos ante a possibilidade de darmos outro passo adiante; estamos, no entanto, preparados para outra iniciação, a ponto de ampliar nosso horizonte e transpor uma porta aberta que nos leva a um aposento mais amplo. Tudo que ocorre, no momento, não indica fracasso, nem confusão insensível, nem cego transtorno. É, antes, um processo de destruição temporária, para uma mais perfeita reconstrução, constituindo a analogia, na vida racial, das provas e tentativas, que sempre chegam ao discípulo que se prepara para a iniciação. Visando a isto, o cristianismo preparou um considerável número de seres humanos. A nova interpretação e a próxima revelação são iminentes.

Esta revitalização futura da natureza interna e essencial da humanidade, com a consequente reorganização dos assuntos mundiais e da vida humana, pressentem-na e esperam-na os pensadores da raça, isolando, constantemente, a atual oportunidade. A expectativa na raça assume grandes proporções. Nas palavras de um antigo aforismo mexicano, “Sempre haverá no centro uma nova Palavra”. Toda forma tem seu centro positivo de vida. Todo organismo está construído em torno de um núcleo central de força. Há um centro, em nosso universo, do qual surgiu a Palavra que trouxe à existência nosso sistema solar organizado tal como é hoje e, nele, o planeta em que vivemos, com suas miríades de formas de vida.

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.

“Ele estava no princípio com Deus.

“Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.

“Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens.

“Estava no mundo e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu”. (5)

O que é verdade em relação ao Todo, também o é em relação à parte. Cada civilização, como expressão da consciência humana, tem seu Verbo, sua Palavra. Faz dois mil anos, um Verbo se “fez carne” por nós e em torno desse centro dinâmico de vida espiritual gravita o nosso mundo ocidental. No que concerne aos resultados, pouco importa que aceitemos ou duvidemos deste fato, pois, como disse o Dr. Albert Schweitzer:

"O fundamento histórico do cristianismo, tal como o racionalismo, o liberalismo e a teologia moderna o consideram, já não existe; o que não significa, entretanto, que o cristianismo haja perdido seu fundamento histórico. O trabalho que a teologia histórica acreditou devesse realizar e agora vê desabar, no instante próximo de seu término, é somente uma camada externa, como de terracota, do verdadeiro fundamento histórico indestrutível que independe de qualquer conhecimento e comprovação histórica, visto que, simplesmente porque está ali, subsiste.

“Jesus representa algo para nosso mundo, porque uma poderosa corrente de influência espiritual surgiu d’Ele e penetrou, também, em nossa era. Este fato não pode ser negado nem confirmado pelo conhecimento histórico”. (6)

A Palavra sempre foi emitida para permitir à raça ver e reconhecer o próximo passo a dar. Cristo fez que o homem a ouvisse no passado, e o mesmo Cristo fará que o homem possa ouvi-la, novamente. Algum dia, como todos os maçons sabem, estas Palavras, pronunciadas periodicamente, serão substituídas por uma PALAVRA, conhecida por eles como “a Palavra Perdida”. Quando, finalmente, se enuncie essa Palavra, a humanidade poderá ascender ao mais alto píncaro da realização humana. A divindade oculta brilhará, então, em toda a sua glória, por meio da raça. Provavelmente, já teremos alcançado o ápice da conquista material. Agora, nos chega a oportunidade para que o Eu sutil divino se manifeste, por intermédio da experiência do que chamamos “o novo nascimento” e que o cristianismo sempre ensinou. O efeito de tudo o que está agora ocorrendo na terra é trazer à tona o que está oculto no coração humano, revelando, diante de nossos olhos, a nova visão. Poderemos então passar pelo portal da Nova Era, para um mundo que será caracterizado por uma compreensão mais profunda das realidades vitais e uma apreciação mais real e mais elevada dos valores. A Palavra deve ser emitida, novamente a partir do centro - o Centro nos Céus, e o centro em todo coração humano. Cada alma individual deve ouvi-la por si mesma. Cada um de nós tem que passar por essa experiência em que sabemos que somos o “Verbo feito carne”; e até que a experiência de Belém faça parte de nossa consciência individual, como almas, isto permanecerá como mito. Ela pode converter-se em uma realidade - a mais estupenda realidade, na experiência da alma.

Não posso deter-me para definir a palavra “alma”. Um extrato de uma obra do Dr. B. Bosanquet (7) expressa a ideia, em termos que a vinculam às implicações cósmicas. Uma alma isolada é impossível, disse o autor:

“A Alma - emprego o termo em seu sentido mais geral para assinalar o centro de experiência que, como um microcosmo, adquiriu, ou está adquirindo, um caráter próprio e uma persistência relativa - não deve ser comparada, por um lado, a um agente independente de exteriorização constitutiva e, de outra parte, como representante da vida do absoluto. Nossa ideia foi, desde o princípio... que a alma é certa porção da exteriorização, que “adquire vida” ao centralizar-se na mente. Quando falamos da alma, como vontade que modela as circunstâncias de maneira criativa, temos outra expressão do microcosmo, incluindo o centro cujas circunstâncias o envolvem, remodelando-se e reformando a si mesmo. Por outra parte, é um fio ou fibra da vida absoluta. . ., uma corrente, ou onda, dentro dela, de longitude, intensidade e separatividade variáveis, da grande massa líquida na qual se move”. (o grifo é da autora, A. A. Bailey)

O que esta alma é, quando se revela e manifesta (ainda que através das limitações da carne), o Cristo o expressou de forma clara. O que é parcial em nós é completo n’Ele, um fato, em toda a sua expressão. O Cristo nos uniu a Si, por meio de Sua humanidade aperfeiçoada; uniu-nos a Deus por meio de Sua divindade expressada.

Dois pensamentos devem ser tidos em conta, por todos nós, no momento atual, se não quisermos submergir-nos no aparente caos mundial, perdendo, assim, nossa perspectiva. Um deles é que cada época proporciona com a experiência individual, não obstante conservar, em toda sua beleza, sua própria saída. Isto é o que quis dizer Cristo, quando expressou: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. (8) Ele sabia que sintetizava, em Si mesmo, a alma do passado e o espírito do futuro. E o que é certo, em relação ao Cristo, o é, igualmente, a respeito de Seu ensinamento. O cristianismo abarca o passado e inclui os melhores elementos religiosos.

A alma do homem se acha ante os portais da revelação e ele deve aprender que esta revelação virá aperfeiçoada, através do mesmo homem. Browning expressa isto, nestes bem conhecidos versos:

“Mora ele, assim, em tudo,
Desde o rudimentar começo da vida até finalizar No homem - a consumação deste esquema
Do Ser, a finalização desta esfera
De vida: cujos atributos foram disseminados
Por onde quer que seja, sobre o mundo visível,
Almejam ser combinados, ínfimos fragmentos
Destinados a unir-se em algum maravilhoso todo,
Qualidades imperfeitas espalhadas por toda criação,
Sugerindo uma criatura ainda incriada,
Algum ponto, onde todos esses raios dispersos podem unir-se,
Convergindo nas faculdades do homem.
........................................................................
Quando toda a raça for perfeita,
Quer dizer, como homem; tudo que foi destinado ao gênero humano,
E, pelo homem produzido até agora, chegou ao seu fim:
Porém, no homem completo se inicia, novamente,
Uma tendência para Deus. As predições auguraram
A Aproximação do Homem; no eu do homem surgem
Augustas antecipações, símbolos, tipos
De tênue esplendor, sempre existentes
Nesse eterno círculo perseguido pela vida.
Pois os homens começam a cruzar os limites da sua natureza,
Descobrindo novas esperanças e obrigações que, rapidamente, suplantam
Suas próprias alegrias e pesares; chegam a ser demasiadamente amplos
Para os estreitos credos do certo e do errado que se desvanecem
Ante a imensurável sede do bem; enquanto
A paz surge neles, mais e mais.
Estes homens se encontram mesmo agora na terra,
Serenos, em meio das criaturas semiformadas que os rodeiam,
Que devem ser salvas por eles e unir-se a eles”. (9)

O Homem, o ser humano, alma encarnada, está em vésperas de dar esse passo adiante que produzirá o primeiro dos grandes desenvolvimentos, denominado “o novo nascimento”. Uma vez experimentado isto, a vida do Cristo-Menino se acrescentará e o impulso estabelecido o levará avante, pelo Caminho que vai de um píncaro elevado de realização a outro, até que ele se converta em um iluminado portador de Luz e possa alumiar o caminho dos outros homens. Os iluminados sempre têm levado a raça para diante; os conhecedores, os místicos e os santos, invariavelmente, têm revelado os pináculos das possibilidades individuais e raciais.

O Caminho que vai desde o Nascimento, em Belém, até o Monte da Crucificação, é duro e difícil; porém, é percorrido em regozijo pelo Cristo e por aqueles que têm sintonizado sua consciência com a d’Ele. O gozo da vida física se transforma no gozo da compreensão e novos valores, novos desejos e um novo amor, substituem os antigos.

O Nascimento em Belém marcou o começo do longo caminho da tragédia do Salvador. Fez d’Ele “o homem de dores, experimentado em trabalhos”. (10) Foi o princípio do fim, assinalando Sua iniciação aos estados superiores de consciência. Isto está evidenciado no Evangelho.

Parte 2

Antes de nos referirmos, em forma definida, a essas grandes iniciações, seria válido abordar, ainda que sucintamente, um ou dois pontos relacionados com o assunto, como um todo. Transmite-se, no momento, tanto ensinamento especializado sem fundamento, sobre o assunto, e tão grande é o interesse geral que inspira, que se torna necessário, com urgência, pensar com clareza e chamar a atenção para certos fatores, frequentemente desprezados. Neste ponto caberia perguntar: “Quem é o iniciador? Quem poderá ser escolhido para apresentar-se perante Ele e receber a iniciação?”

Nunca é demais acentuar, com clareza, que o primeiro iniciador com que o homem se defronta é, sempre, a sua própria alma. Muitos instrutores e escolas esotéricas dirigem seus ensinamentos e seus aspirantes para algum grande Mestre, supondo-se que este os preparará para este passo, sem cuja ajuda nenhum progresso é possível. Esquecem-se, no entanto, que nem ao menos é possível a tal Mestre entrar em contato com qualquer ser humano enquanto este não haja estabelecido um claro e definido contato com sua própria alma. É no nível de percepção da própria alma que se situam aqueles que nos podem ajudar, e antes de havermos penetrado nesse nível, como indivíduos, é impossível conseguirmos um contato inteligente com aqueles que ali atuam normalmente. A iniciação está relacionada com a consciência e é simplesmente uma palavra que empregamos para expressar a transição que o homem pode estabelecer, da consciência do quarto reino - o humano, para o quinto reino, ou espiritual, o reino de Deus. Cristo veio para revelar-nos o caminho que conduz a este reino.

Esta alma iniciadora, como já vimos, é denominada de diversos modos em O Novo Testamento e, nas demais religiões, tem uma terminologia adequada à época e ao temperamento do aspirante. Onde o discípulo Cristão fala de que “Cristo em vós esperança é de Glória (11) o discípulo oriental pode falar do Eu ou de Atman. As modernas escolas de pensamento falam do ego, ou eu superior, homem verdadeiro, ou entidade espiritual, ao passo que no Antigo Testamento se faz referência ao “Anjo da Presença”. Poder-se-ia compilar uma longa lista de sinônimos, porém, para os fins a que temos em vista, limitar-nos-emos à palavra “alma”, pelo seu amplo emprego no Ocidente.

A alma imortal, no homem, prepara-o para a primeira iniciação porque é esta alma que se manifesta na terra como o “Cristo-Menino” e que aparece no homem. Este é o novo nascimento. O que se esteve gerando, lentamente, no homem, chega, por fim, ao nascimento e o Cristo, ou alma, nasce conscientemente. O gérmen do Cristo vivente sempre esteve presente, embora oculto em cada ser humano. Mas, a seu devido tempo e período, a alma infantil faz o seu aparecimento e a primeira das cinco iniciações se torna possível. A tarefa prossegue e a vida crística se desenvolve no homem, até que têm lugar a segunda e a terceira iniciações. Nesta etapa, como muitos creem, somos iniciados por intermédio do Cristo e, em plena consciência vigil, o iniciado permanece ante Sua Presença e O vê, frente a frente. Browning expressa esta verdade, em seu grande poema, dizendo:

“Ó Saul, será
um Rosto como o meu rosto, o de quem te recebe; a um Homem como eu
amarás e por Ele serás amado, sempre: U’a mão como esta te abrirá os portais da nova vida!
Vê o Cristo diante de ti!”

Depois da terceira iniciação, a Transfiguração, quando a personalidade passou a ser subordinada à alma, ou o Cristo imanente, e a glória do Senhor pode brilhar através da carne, enfrentamos a suprema realização da Crucificação e da Ressurreição. Depois, foi-nos dito, esse Ser misterioso, a Quem O Antigo Testamento se refere como Melquizedec, ou o Ancião dos Dias, desempenhará Sua parte e nos iniciará em mistérios ainda mais elevados. Dele se disse que:

“Este Melquizedec, Rei de Belém, Sacerdote do Deus Altíssimo . . . era, em primeiro lugar, como Seu Nome o indica, Rei da Justiça e, além disso, Rei de Salém (isto é, Rei da Paz). Sem pai, nem mãe, ou genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida. . . permanece um Sacerdote para sempre”. (12)

Ele é Quem recebe o iniciado e supervisiona as transições superiores de consciência, as quais constituem a recompensa das provas passadas com êxito. É Aquele, cuja “estrela brilha”, quando o iniciado entra na luz.

Há, portanto, três iniciadores: primeiro, a própria alma do homem; segundo, o Cristo da História e, finalmente, o Ancião dos Dias, Aquele em Quem “vivemos, nos movemos e temos o nosso Ser”. (13)

Estas ideias são úteis porque, através delas, compreendemos que, das cinco iniciações, três parecem ser, e em verdade o são, de suprema importância. Na vida de Cristo há episódios que representam grandes etapas de conquista, todos culminando ciclos e principiando outros novos, tais sejam, a primeira iniciação, o Nascimento; a terceira iniciação, a Transfiguração; e a quinta, a Ressurreição. Existe, na natureza, um misterioso valor, relacionado com as iniciações primeira, terceira e quinta - o começo, o ponto médio e a consumação final, Como já se disse, “são os intervalos, não somente entre a nota básica, a terceira maior e a quinta perfeita, ou os que distinguem a colcheia da semicolcheia, que nos permitem compor uma sinfonia, ou uma canção”. Entre esses elevados pontos, de cujos intervalos fornece detalhes o Evangelho, continua a tarefa que torna possíveis as realizações seguintes. Neste livro consideramos, especialmente, a técnica da entrada no reino de Deus. Tal reino existe e nascer nele é tão inevitável quanto o nascimento na família humana. O procedimento segue uma sequencia, desde a gestação até que, “na plenitude do tempo”, nasça o Cristo-Menino; a alma começa a manifestar-se na terra e a vida do discípulo e do iniciado principia. Ele passa de etapa a etapa, até dominar todas as leis do reino espiritual. Pelo nascimento, pelo serviço e sacrifício, o iniciado se torna um cidadão desse reino e isto constitui um processo tão natural, relacionado com sua vida interna, como os processos físicos são relacionados com sua vida externa, como ser humano. Ambos seguem juntos, porém a realidade interna vem, finalmente, à manifestação, mediante o sacrifício do humano ao divino.

O iniciado não é, simplesmente, um homem bom. O mundo está cheio de homens bons que, provavelmente, estão muito longe de ser iniciados. Tampouco, é um devoto bem intencionado. O iniciado é um homem que agregou uma sensata compreensão intelectual às qualidades básicas de uma sã devoção e caráter moral. Por meio da disciplina, coordenou sua natureza inferior - a personalidade, e por isso mesmo é “um recipiente útil para uso do dono”, (14) sendo esse dono sua própria alma. Ele sabe que anda em um mundo de ilusão, mas que está preparando a si mesmo, enquanto caminha à luz de sua alma, conscientizando-se de que, ao servir a seus semelhantes e ao negar a si mesmo, se torna apto para apresentar-se ante o portal da Iniciação. Nesse caminho, conhece aqueles que, como ele, estão aprendendo a ser cidadãos desse reino.

Este tem sido o conhecimento, e a mensagem, de todos os verdadeiros cristãos, no transcurso dos séculos, cujo conjunto dá testemunho à realidade do reino, como, também, certifica o fato de que, aqueles que realmente o buscam, podem achá-lo e os que indagam sobre sua existência não ficarão desapontados. O caminho para o reino se acha mediante perguntas e respostas, buscando e encontrando, obedecendo à voz interna, que só se pode escutar quando todas as demais vozes silenciam.

Quando ouvimos essa voz, alcançamos a consciência das possibilidades futuras e damos o passo inicial para a primeira iniciação, que nos leva a Belém, e a descobrir e conhecer o Cristo. Encontramos Deus dentro de nós mesmos. Na caverna do coração se pode sentir o pulsar da vida divina. O homem descobre que é um, entre um vasto número de indivíduos que passaram pela mesma experiência e, mediante o processo da iniciação, ele promove o nascimento de Cristo. A “vida do menino”, recém nascido no reino de Deus, começa com as lutas e as experiências que o levarão, gradualmente, de uma iniciação a outra, até ele próprio também se realizar. Então, ele também se converte em um instrutor e numa expressão da divindade e segue as pegadas do Salvador, servindo à raça, emitindo a nota necessária e ajudando outros a alcançarem o nível por ele conseguido. A senda do serviço e a colaboração com a vontade divina se convertem no propósito de sua vida.

Nem todos os iniciados podem alcançar a altitude atingida pelo Cristo. Sua missão foi única e, também, cósmica. Para os discípulos do mundo, porém, é possível a experiência de cada uma das etapas da iluminação, segundo as descreve o Evangelho. Em consequência, ao resumir as ideias concernentes ao novo nascimento no reino, com o qual tantos se defrontam nesta época, deve-se ter em conta que:

“Na primeira grande Iniciação, o Cristo nasce no discípulo. É então que este conscientiza pela primeira vez, em si mesmo, a afluência do Amor divino e experimenta a maravilhosa mudança que o faz sentir-se uno com tudo o que vive. Este é o “Segundo Nascimento”, de que se regozijam todos os seres celestiais, porque ele nasce no “Reino dos Céus”, como um dos “pequeninos”, como uma “criança”, nomes sempre aplicados aos novos Iniciados. Tal é o significado das palavras de Jesus, as de que um homem deve tornar-se uma criança para entrar no “Reino”. (15)

A mesma autora, em outra passagem de seu livro, diz:

“O segundo nascimento” é um outro termo muito conhecido para designar a Iniciação. Na Índia, até agora se chama “duas vezes nascidos” aos pertencentes às castas superiores, e a cerimônia que os converte a esta condição é a de uma Iniciação - que nestes tempos modernos é mero engodo, não obstante representar “as figuras das coisas celestiais”. (16) Quando Jesus se dirige a Nicodemos, afirma que “o que não nasceu de novo não pode ver o reino de Deus” e refere-se a este nascimento como de “água e Espírito”. (17) Esta é a primeira iniciação, seguindo-se-lhe a “do Espírito Santo e do fogo”, (18) isto é, o batismo do Iniciado, em sua maturidade, já que o primeiro é o do nascimento, que lhe dá as boas-vindas como a “Criança” que entra no reino. (19) Que era inteiramente familiar esta imagem entre os místicos judeus, evidencia-se na surpresa que manifesta Jesus, quando Nicodemos revela não entender a fraseologia mística de Seu Interlocutor: “És tu mestre de Israel e não sabes isto?” (20)

Os discípulos do mundo, desta época, enfrentam estas possíveis culminâncias de realização. Assim também se encontra o fatigado discípulo mundial, a humanidade como um todo, esgotada e aturdida, perplexa e intranquila, ainda que consciente das divinas potencialidades e dos grandes sonhos, visões e ideais que evocam uma esperança e rechaçam uma derrota, representando a garantia do êxito final. A voz de todos os Salvadores do mundo e o exemplo do Cristo indicam, à humanidade o Caminho que deve trilhar. Isto nos afasta do superficial e do material, elevando-nos do mundo da irrealidade ao mundo da realidade. “O homem está farto de uma vida separada do seu centro religioso e começará a busca de um novo equilíbrio religioso, de um aprofundamento espiritual; em nenhum aspecto de sua atividade pode levar adiante de maneira superficial uma vida puramente externa”. 21 O profundo chama o profundo e, das trevas dessas profundezas, pela dor e pelo sofrimento, surgirá o Cristo-Menino, e a humanidade, como um todo, estará preparada para a grande transição que a levará ao reino de Deus.

O homem pode agora entrar no reino e começar a história espiritual. Até o momento presente, a história foi preparatória. Somente agora, pela primeira vez, a raça está em condições de dar o grande passo, na senda do discipulado e da purificação, que precede o caminho da iniciação. Os indivíduos surgiram da massa e ascenderam ao pináculo da realização, escalando a montanha da iniciação. Atualmente, isto é possível para a maioria. A voz dos que já a conquistaram, a clarinada dos que já se iniciaram nos mistérios do reino de Deus, possibilita o novo passo. O momento é único e urgente. O chamado é para o indivíduo, porém ressoa, também pela primeira vez na história, aos ouvidos da multidão, porque a massa está preparada para responder.

Tal é a situação atual. As vozes dos indivíduos que penetraram no reino chamam a multidão em termos claros e isto é seguro, embora para alguns a iniciação da humanidade pareça um processo lento. As antigas verdades, enunciadas pelos Instrutores e Salvadores mundiais, estão sendo reinterpretadas para satisfazer às antigas necessidades, em novos termos e em forma mais vital. Os Condutores, que moldam os espíritos dos homens, estão mantendo os portais abertos de par em par e a humanidade se verá obrigada a transpô-los, rapidamente, se escutar o chamado; fá-lo-á inevitavelmente, porém, quer o ouça, quer não.

O nosso tema surge, pois, gradualmente, em nossa consciência. Vemos que deve ser abordado de dois ângulos principais. Antes de tudo, estudaremos essas cinco iniciações de Jesus, do ponto de vista do aspirante individual, para pôr de manifesto que, como filhos de Deus, podemos participar do que o Cristo realizou. Uma das coisas interessantes que se apresentarão, ao estudarmos a vida do Cristo e observarmos como o Plano divino, naquela vida, se foi registrando progressivamente, em Sua consciência, é que, a principio, Ele mal pode perceber o que devia fazer. As ideias se foram desenvolvendo a medida que Ele crescia. Depois da primeira iniciação, o Nascimento em Belém, as palavras que dirigiu à Sua Mãe, foram “Não sabeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai?” (22) Ele sabia que se lhe havia ordenado trabalhar e servir, porém as especificações dessa tarefa somente mais tarde se aclararam em Sua mente. Simplesmente reconheceu um Plano e a esse Plano Se dedicou. Isto é o que também devem fazer os que seguem Seus passos.

Depois, houve a segunda iniciação, a do Batismo. Cristo chegara à idade adulta e esta consecução foi seguida, imediatamente, por uma definida e consciente repulsa ao mal. O reconhecimento do trabalho a empreender deve ser seguido pela purificação daquele que deve realizá-lo, o qual tem que demonstrar essa purificação e libertação do mal. Cristo satisfez essa dupla condição, ao triunfar sobre as três tentações. Então, somente após esta manifesta preparação, lemos (23) que se dedicou a ensinar.

O reconhecimento e a preparação para participar no Plano divino foram seguidos pela dedicação a esse Plano. Depois da Transfiguração Ele compreendeu, plenamente, o que tinha por diante e o definiu, claramente, a Seus discípulos, quando disse:

“... que o Filho do homem padeça muitas cosias e seja rejeitado dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos escribas, e seja morto, e ressuscite ao terceiro dia... Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome sua cruz cada dia e siga-me”. (24)

Mais adiante, no mesmo capítulo, lemos que “Ele voltou seu rosto para ir “ao lugar do sofrimento e do sacrifício.” Tinha finalmente compreendido que havia cumprido o que d’Ele se esperava. Cumprira o Plano; resolvera os assuntos de Seu Pai e as “muitas coisas” empreendidas. Lemos que, ainda na Cruz, o Plano absorvia Sua atenção, e com o Seu “está consumado” (25) passou, pelos portais da morte, a uma gozosa ressurreição.

A revelação gradual do Plano e o serviço a ele prestado, sempre acompanham o processo iniciático; o indivíduo aprende a subordinar sua vida à vontade do Pai, e a transformar-se - como fez o Cristo - no servidor dessa Vontade. O processo iniciático, em si, é só uma parte do Plano geral para a raça, e os caminhos do discipulado e da iniciação são apenas as etapas finais na Senda da Evolução. Os primeiros passos no Caminho concernem à vida e à experiência humanas; porém, as etapas finais, seguintes ao novo nascimento, referem-se ao desenvolvimento do espírito.

O que é verdade a respeito do desenvolvimento do indivíduo, corresponde, também, ao da raça. Todas essas etapas devem ser realizadas na vida racial. Os que distinguem, claramente, essa visão, podem perceber evidências deste Plano em desenvolvimento, no constante surgimento das distintas ideias, que hoje predominam no mundo. Sem entrar em detalhes ou em extensas explicações sobre o tema, o desenvolvimento do Plano e, paralelamente, o da resposta racial, podem ser percebidos, com toda clareza, no desenvolvimento concomitante da ideia de Deus. Primeiramente, Deus foi uma longínqua Deidade antropomórfica, desconhecida e não amada, vista com temor e receio, sendo adorada como uma Divindade que se expressava mediante as forças da natureza. À medida que transcorria o tempo, este Deus distante se aproximou um pouco mais de Seu povo, tomando uma nuance mais humana, até que, na dispensação judaica, O vemos muito semelhante a nós, porém apresentando-se, ainda, como um Regente ético e iracundo, ao qual se obedecia e temia.

À proporção que o tempo transcorreu, foi-se aproximando mais e, antes do advento do cristianismo, os homens O reconheceram como o bem-amado Krishna, da fé hindu, e como o Buda. Depois chegou o Cristo para o Ocidente. Viu-se, n’Ele, o próprio Deus encarnado entre os homens. O distanciado converteu-se em próximo, e Ele, que havia sido reverenciado com temor e assombro, podia agora ser conhecido e amado. Hoje, Deus está se aproximando mais ainda e nova era, não só reconhecerá a verdade das revelações passadas, atestando sua validade e progressiva revelação da divindade, como também a tudo isso se somará a revelação definitiva da Presença de Deus no coração humano, do Cristo nascido no homem e de cada ser humano que se manifeste, verdadeiramente, como filho de Deus.

Se considerarmos o desenvolvimento da consciência, vemos que nele aparece o mesmo Plano divino. Conquanto a raça estivesse, em sua infância, dominada pelo instinto, à medida que o tempo foi passando o intelecto começou a manifestar-se e, agora, continua a controlar os assuntos humanos, os governos e o pensamento. Do intelecto, corretamente empregado e compreendido, algo mais sutil e ainda mais revelador está evoluindo e podemos traçar, no inteligente homem moderno, o crescimento progressivo desta nova força, que se chama intuição. Essa, por sua vez, traz iluminação e, assim, o homem Passa uma glória a outra, até que o onisciente e cósmico filho de Deus Possa ser visto, expressando-se através de cada filho do homem.

O mesmo desenvolvimento pode também ser observado racialmente, na transição levada a efeito nas diversas etapas que vão, desde o selvagem isolado, até a família e a tribo, seguindo-se a unificação das tribos em nações regidas por um governo central, até o momento atual, em que vivemos em um mundo que começa a responder a alguma coisa mais grandiosa que uma nação - a humanidade mesma - e a conceber sua expressão através do desenvolvimento de uma consciência internacional. Por qualquer linha onde tracemos o desenvolvimento do Plano, viemos de um passado distante, obscuro e ignorante, até a etapa atual, em que surgem valores mais reais. Começamos a vislumbrar quê é esse Plano e para onde vamos. Estamos penetrando, firmemente, em um mundo de realidades espirituais, porque “há um caminho que se inicia em cada conjunto natural de fatos e vai para cada realidade espiritual, no universo; e a natureza essencial da mente obriga, sempre, em certa medida, a percorrer este caminho...” (26)

Neste “fim da era” o homem defronta-se com o portal da oportunidade e, como está em processo de descobrir sua própria divindade, penetrará no âmbito dos valores reais e chegará a um melhor conhecimento de Deus. Ele enfrenta o mistério do novo nascimento e deve passar por essa experiência.

Esta divindade no homem deve nascer, tanto no indivíduo quanto na raça, e assim poderá o reino de Deus vir à existência.

Parte 3

Estas cinco iniciações têm certos pontos básicos e semelhanças, em comum, que são em si, de real significação. Existem fatores afins, em todas elas. O Caminho que conduz ao reino é universal e o próprio homem é, ao mesmo tempo, o símbolo e a realidade. O homem observa todos os mitos e símbolos do mundo; lê e conhece a história dos Salvadores do mundo e, concomitantemente, deve tratar de atualizar a mesma história e converter o mito em realidade, através de sua própria experiência pessoal; ele deve conhecer o Cristo e também segui-lo, etapa por etapa, mediante as grandes experiências do processo iniciático.

Toda iniciação é precedida por uma viagem; cada etapa e acontecimento dramático ocorrem ao finalizar o período de uma viagem. É evidente este simbolismo. “Percorrer o caminho” é um modo familiar de descrever a aproximação de um ser humano aos mistérios. É interessante observar que todo o mundo está em atividade. Empreendem-se viagens e peregrinações - processo simbólico de uma condição interna de busca e aproximação, a uma meta preestabelecida. As viagens por trem, navio, avião, são comuns. Grandes grupos emigram de um lugar a outro, segundo as possibilidades econômicas e a determinação do destino de cada um. Viajamos daqui para ali. Caminhamos, ampliando nossos horizontes. Preparamo-nos, também, para expansões de consciência que nos permitirão viver em dois reinos ao mesmo tempo - a vida que se deve viver na terra, e a que podemos viver no reino de Deus. A humanidade está na primeira etapa de sua viagem ao místico Belém, onde deve nascer o Cristo-Menino, e a primeira iniciação é, nestes momentos, um acontecimento iminente para muitos.

“Ante cada homem se abrem
Um caminho, e caminhos e um CAMINHO.
E a alma superior ascende pelo caminho superior
E a alma inferior vai, às tontas, pelo inferior;
E entre as brumosas planícies,
As demais seguem, a esmo, daqui para ali,
Porém diante de cada homem se abre
Um Caminho superior e outro inferior.
E cada homem decide
O Caminho que sua alma seguirá”. (27)

A enunciação de uma Palavra de Poder assinala uma iniciação. O iniciado a ouve, ainda que o resto do mundo não possa ouvi-la. Quando o Cristo passou por essas crises, em cada uma delas ressoou uma Voz, e o som emitido “abriu, de novo, os portais da vida”. Uma porta se abre após outra, ante a solicitação do iniciado e ante a resposta do Iniciador, que está do outro lado do portal. Veremos o que significou cada uma destas Palavras. A palavra sempre surge do centro. Repetidamente, diz-se no Novo Testamento: “quem tiver ouvidos para ouvir, ouça” (28) e um estudo das palavras dirigidas às sete Igrejas, no Apocalipse, lançará muita luz sobre o fator da Palavra.

Grandes Palavras foram emitidas, produzindo as mudanças requeridas, e significaram para o sensitivo um poder de verdadeiro valor espiritual.

A Palavra ou som emitido para a Ásia, no passado, foi TAO, ou o Caminho. Representava o antigo Caminho que os Iniciados do extremo Oriente palmilhavam e ensinavam. Para nossa raça, a palavra é AUM, que degenerou no AMEN, de nosso vernáculo ocidental. As antigas escrituras da Índia consideram esta Palavra como indicando, peculiarmente, a divindade, o espírito de vida, o alento de Deus. Qual será a nova Palavra que “surgirá do centro”, não o sabemos, pois não será enunciada até que a raça esteja preparada. Há, porém, uma Palavra comum de Poder que será posta sob a custódia de nossa raça, se estivermos à altura de nossa oportunidade e, por meio do novo nascimento, entrarmos no reino de Deus. É esta Palavra que dará vida à alma oculta no homem e o galvanizará em uma atividade espiritual renovadora. À medida que a raça cresça em sua sensibilidade, que os aspirantes do mundo, de todas as religiões, cultivem a faculdade (por meio da meditação) de ouvir a Voz que pode silenciar as demais vozes; e à medida que aprendam a registrar esse Som que apaga todos os outros, reconhecerão, como um grupo, a nova Palavra que será emitida.

Em cada iniciação de Jesus, como veremos, foi dado um Sinal; um sinal que se estampou na consciência dos não iniciados. Cada vez um símbolo, ou forma, foi visto, indicativo de uma revelação. Cristo mesmo disse que, no final dos tempos “o sinal do Filho do Homem se verá no Céu”. (29) Assim como o Nascimento em Belém foi anunciado por um Sinal, a Estrela, também o nascimento para o qual se encaminha, pressurosamente, a raça, será anunciado por um Sinal celestial. A súplica, que se eleva do coração de todo verdadeiro aspirante à iniciação, está belamente expressa na seguinte prece:

“Há uma paz que transcende toda compreensão; ela mora no coração daqueles que vivem no Eterno. Há um poder que renova todas as coisas. Ele vive e se move naqueles que sabem que o Eu é uno. Que esta paz se esparja sobre nós; que o poder nos eleve, até chegarmos onde o Iniciador único é invocado, até vermos o fulgor de Sua estrela”.

Depois que esse Sinal é visto e a Palavra ouvida, o passo seguinte será registrar a Visão. O iniciado pode ver o Plano e a parte que deve desempenhar nele; então sabe o que deve fazer. Desta Visão se fala como da “visão de Deus”, porém se expressa para o homem em termos de vontade de Deus e da plenitude do que Deus intenta fazer. Estamos destinados a ser iniciados nos mistérios dessa vontade. A visão de Deus é a visão do Plano de Deus. Nenhum homem viu a Deus. A revelação de Deus vem pela revelação do Cristo.

“Disse Felipe: Senhor mostra-nos o Pai, e nos basta. Jesus lhe respondeu: “Tanto tempo faz que estou convosco e não me haveis conhecido, Felipe? Aquele que me viu, viu ao Pai”. 30

Cristo revelou em Si mesmo a vontade de Deus e deu à humanidade uma visão do Plano de Deus para o mundo; e este Plano é a vinda do reino. Cristo era Deus e a palavra de Deus surgia d’Ele.

O homem vive pela encarnação de Deus nele. Passando pelo portal do novo nascimento, ele pode redimir a carne em que essa divindade está encerrada e pode então ajudar a redimir o mundo. Também para a raça existe a crise, a iniciação e a visão. “Onde não há visão os povos perecem!” (31) Mas essa visão não é do Plano todo. Não é a experiência última, nem a consumação insondável. Não estamos, ainda preparados para isso. Nem o próprio Cristo proclamou a revelação final. Viu e anunciou o passo seguinte que a raça deveria dar. Os acontecimentos imediatos são pressentidos para, mais tarde, serem considerados inteligentemente; temos um momento de previsão, de predição do movimento e atividade, de dificuldade e serviço e do seguinte desenvolvimento de glória.

Depois da visão, como a que se seguiu à iniciação, vem um renovado ciclo de provas e dificuldades. As verdades reveladas e a revelação concorde, devem realizar-se na experiência da vida diária. Momentos de assimilação e reflexão devem seguir os de exaltação e visão. A não ser que se tenha uma experiência prática do que se sabe, este saber ficará sobre a montanha da revelação.

Por último, toda iniciação conduz a servir mais amplamente. Uma forma prática de vida espiritual deve seguir aos momentos passados no topo da montanha. O eu e suas consecuções devem ser esquecidos ao servir ao próximo. Não há como escapar disso. Todo pináculo conquistado é seguido, invariavelmente, por um ciclo de provas. Toda nova revelação captada e apropriada deve adaptar-se às necessidades de uma vida de serviço coerente e tenaz, pois que a iniciação sempre requer provas renovadas e um acrescentado poder para servir.

Parte 4

“E aconteceu que estando eles ali, se cumpriram os dias em que havia de dar à luz. E deu à luz o seu filho primogênito e o enfaixou e o reclinou em uma manjedoura, porque não havia lugar para eles, na estalagem”. (32)

Com essas simples palavras começa a transcendental história. Uma história de tão vastos alcances e consequências, que agora, precisamente, começamos a ver os resultados. Só hoje, dois mil anos depois do acontecimento, a lição da vida do Cristo está produzindo um efeito criador na imaginação dos homens. Só hoje, a fundamental lição que Cristo veio a ensinar-nos está produzindo as necessárias mudanças na capacidade de captação do homem. Agora, recentemente, nos damos conta de que a evidência histórica de Sua chegada na terra é a história mesma, e que existe no mundo a comprovação de duas grandes correntes de esforço ou atividade, de um lado, a consciência do homem, separatista, vulgar, em desenvolvimento, e de outro, a constante aplicação da mensagem do Cristo nos fatos atuais, para sua modificação e mudança, determinando, bem mais além do que possamos conceber, o caminho que deveremos seguir. Cristo chegou na plenitude do tempo, justamente quando a humanidade se aproximava de sua maturidade, mostrando-nos em Si mesmo, e através de sua vida, o que um homem foi e podia ser.

O Filho de Deus é também o Filho do Homem! Este fato tem sido esquecido, talvez pela ênfase posta em Sua divindade. Essa divindade está ali, e ninguém pode tocá-la, ou ocultá-la, pois que é radiação e luz branca pura. A condição humana, porém, está também ali, como garantia de nossas oportunidades e potencialidades, assegurando a nossa fé. Mediante o poder magnético emanado das palavras do Apóstolo Bem-amado, ao descrever o Cristo que como Filho de Deus, fala em forma divina, prostramo-nos com amor e adoramos essa divindade.

Todavia, Sua condição humana é sublimada por São Lucas e São Mateus, assim como Sua vida de Grande Servidor foi exaltada por São Marcos. Tem sido discutida a divindade do Cristo. Se não houvesse existido outro Evangelho que o de São João, só teríamos conhecido Sua divindade. Cristo como homem; o que fez e o que foi como tal, não foi considerado por este Evangelho.

Qualquer escritor moderno, responsável por uma biografia do Cristo, seria severamente criticado (da parte dos teólogos e ortodoxos), se houvesse omitido pontos tão importantes. No entanto, esses pontos, segundo a opinião do apóstolo, não foram de primordial importância. O Espírito do Cristo era para ele, o mais vital e necessário. Os outros três apóstolos proporcionaram o ambiente e outros detalhes e aparentemente muito fizeram para apresentar esses detalhes em concordância com os ensinamentos de outrora, no que diz respeito ao meio ambiente e vidas dos instrutores e salvadores do mundo passados, onde encontramos uma curiosa coincidência em acontecimentos e fatos.

Tem-se discutido sobre minúcias relacionadas com o aparecimento fenomênico do Cristo e se tem descuidado, paralelamente, da ênfase posta em três das iniciações, em Suas palavras e em que significaram. Apoiamo-nos nos acontecimentos físicos de Sua vida e nos esforçamos por provar a autenticidade histórica desses acontecimentos; no entanto, Deus mesmo, em todo momento, fala: “Escutai-O”.

Outro ponto que passa frequentemente despercebido, é que ao vir à terra e encarnar em forma humana, Deus testemunhou Sua fé na divindade que existe no homem. Teve suficiente confiança nos homens e em suas reações às condições mundanas, por isso oferecia Seu Filho para demonstrar ao homem essa divindade e, assim, salvar o mundo. Nisto expressou Sua crença e Sua conduta foi ditada por essa mesma crença. Com toda reverência eu quisera dizer que a divindade do homem garante uma expressão da divindade. Assim atuou Deus. Dean Inge, ao escrever sobre as obras de Plotino, disse, muito apropriadamente, que “a conduta da vida repousa em um ato de fé, que começa com uma experimentação e termina com uma experiência”. Estas palavras se aplicam a Deus e ao homem. Deus tem tal fé na espiritualidade inata do homem - e que é a espiritualidade senão a expressão, na forma, da divindade? - que se aventurou na grande experimentação de que resultou a experiência cristã. Fé em Cristo! Fé na humanidade! Fé na resposta do homem à experimentação! Fé em que a visão dada possa transmutar-se ou desenvolver-se em experiência! Essa foi a fé que Deus depositou na humanidade. A fé cristã, apesar do dogma e da doutrina, apesar das distorções do teólogo acadêmico e das imposições de alguns clérigos ignorantes, uniu Deus ao homem, fundidos no Cristo, e assim apresentou a verdade de que todo ser humano pode, também, ter fé para aventurar-se a experimentar e a passar pela experiência. Esta verdade vital, dramática, apresentada misticamente, mas sempre viva, quando captada pela mente e compreendida pelo coração, capacitará todo aspirante aos Mistérios cristãos, a transpor os umbrais do novo Nascimento para a luz, caminhando, de maneira crescente, nessa luz, a partir deste momento, porque “... a senda dos justos é como a luz da aurora, que brilha mais e mais, até que o dia seja perfeito”. (33) Esta é ainda, uma verdade vivida, que enriquece e matiza toda a nossa fé.

Nesta continuidade (base de nossa fé no amor de Deus) houve, como temos visto, muitas palavras, enviadas do Centro. Muitos Filhos de Deus, através das idades, têm dado à humanidade uma visão progressiva e reveladora dos “cumes da possibilidade”, interpretando para a humanidade o Plano de Deus, em termos adequados a cada época e temperamento. A uniformidade da história de suas vidas; o repetido aparecimento da Virgem Mãe (frequentemente uma variante do nome Maria); a semelhança dos detalhes do nascimento, tudo indica a constante e renovada promulgação de uma verdade, de modo que, por sua dramática qualidade e repetida ocorrência, Deus grava nos corações dos homens certas grandes verdades, vitais para sua salvação.

Uma dessas verdades é que o amor de Deus é eterno e que Seu amor pelo Seu povo tem sido constante e inalterável. Quando o tempo está maduro e a necessidade do povo o requer, Ele aparece para salvar as almas dos homens. Na antiga índia, Krishna proclamou esta verdade em majestosas palavras:

“Sempre que haja um debilitamento da Lei e um crescimento da ilegalidade por toda parte, então Eu Me manifesto.

“Para a salvação dos justos e a destruição daqueles que praticam o mal; para o firme estabelecimento da Lei, Eu volto a nascer, idade após idade.

“O que percebe o Meu nascimento e age como divino, que em verdade o é. . . esse está Comigo, ó Arjuna! (34)

Uma e outra e outra vez, tais instrutores surgiram, manifestaram a natureza divina segundo a existência do desenvolvimento racial, enunciaram as palavras que determinaram a cultura e a civilização dos povos e seguiram seu caminho, deixando que a semente lançada germinasse e frutificasse. Na plenitude do tempo chegou o Cristo e, se a evolução tem algum significado e a humanidade, em conjunto, cresceu e desenvolveu sua consciência, a mensagem que Ele deu e a vida que viveu devem, necessariamente, sintetizar tudo que o passado produziu de melhor, completando, realizando e proclamando uma possível cultura espiritual futura que transcenderá, em muito, tudo que o passado pode dar.

É curioso constatar que a maioria desses grandes Filhos de Deus nasceu em uma caverna e, em geral, de uma mãe virgem.

“No que diz respeito ao Nascimento de mãe virgem, é significativo que não haja referência a ele nas Epístolas que constituem os primitivos documentos cristãos; mas ao contrário, São Paulo fala de Jesus como sendo da linhagem de David, segundo a carne” (35) isto é, da estirpe de José, descendente de David. O Evangelho mais antigo, o de São Marcos, que data de entre os anos 70 e 100 D.C., não o menciona; tampouco o faz o de São João, que foi escrito antes do ano 100 D.C. O Livro da Revelação, escrito entre os anos 69 e 93 D.C. não se refere a este assunto; porém, se o Nascimento de Mãe Virgem fosse um dogma importante da fé, teria figurado, indubitavelmente, no simbolismo místico daquele trabalho. (36)

Isis era frequentemente representada de pé, sobre a Lua crescente, com doze estrelas em redor de sua cabeça. Em quase todas as igrejas católicas romanas do continente europeu, podem ser observados quadros e estátuas de Maria, “Rainha do Céu”, de pé sobre a Lua crescente, e sua cabeça circundada por doze estrelas.

“É mais que casualidade, que tantas virgens mães e deusas da antiguidade tivessem o mesmo nome. A mãe de Baco era Myrra; a mãe de Hermes ou Mercúrio era Myrra ou Maia; a mãe do Salvador siamês Sommona Cadom, se chamava Maya Maria, isto é, a “Grande Maria”; a mãe de Adônis era Myrra; a mãe de Buda era Maya. Pois bem, todos esses nomes, Myrra, Maya ou Mara são iguais a Maria, a mãe do Salvador cristão. O mês de maio era consagrado a essas deusas, assim como dedicado, atualmente, à Virgem Maria. Ela era chamada Myrra, Mara e também Maria... ” (37)

Na linguagem simbólica do esoterismo, a caverna é o lugar da iniciação. Isto sempre foi assim e poder-se-ia realizar um estudo muito interessante do processo iniciático e do novo nascimento se se recolhessem e analisassem as numerosas referências sobre esses fatos que ocorrem nas cavernas, citados em antigos documentos. O estábulo em que nasceu Jesus foi, com toda probabilidade, uma caverna, porque, nesses dias, muitos estábulos eram instalados em escavações. Isto foi reconhecido pela igreja primitiva e se diz que “é bem sabido que, enquanto nos Evangelhos se estabeleceu que Jesus nasceu no estábulo de uma estalagem, os primeiros escritores cristãos, tais como Justiniano - o Mártir, e Orígenes, dizem, explicitamente, que nasceu em uma caverna”. (38)

Ao estudar essas cinco iniciações do Evangelho, encontramos que duas delas têm lugar em uma caverna, duas no topo de uma montanha e uma no plano, entre as profundidades e as alturas. A primeira e a última das iniciações (o Nascimento para a vida, e a Ressurreição para a “vida mais abundante”) (39) tiveram lugar em uma caverna. A Transfiguração e a Crucificação se realizaram em cima de uma montanha, ou colina, enquanto que a segunda iniciação, depois da qual o Cristo começou Seu ministério público, ocorreu em um rio, nas planícies do Jordão, talvez simbolizando a missão do Cristo, de viver e trabalhar entre os homens. A frase maçônica “encontrar-se no nível” ganha aqui novo significado. Depois de cada experiência na montanha, o Cristo baixava outra vez ao nível da vida cotidiana, e ali manifestava os efeitos ou resultados desse grande acontecimento.

Mitras, como muitos outros, nascera em uma caverna. Cristo nasceu numa caverna e entrou, como o fizeram todos os demais antecessores, numa vida de serviço e sacrifício, capacitando-se, assim, para a tarefa de Salvador do mundo.

Os Salvadores trouxeram luz e revelação à humanidade e foram sacrificados, na maioria dos casos, pelo ódio daqueles que não compreenderam sua mensagem ou objetaram seus métodos. Todos eles “desceram aos infernos e, ao terceiro dia, ressuscitaram”. Há vinte ou trinta relatos similares difundidos no transcurso dos séculos, na história da humanidade, e estes relatos, assim como as missões descritas, são sempre idênticos.

“A história de Jesus, como se verá, tem muitas analogias com os relatos sobre anteriores Deuses Sóis, bem como ao atual percurso do Sol, nos céus - tantas outras histórias, na verdade, que não podem ser atribuídas à mera casualidade, nem, ainda, às tretas e blasfêmias do diabo! Enumeremos algumas: 1) o nascimento de uma mãe virgem; 2) o nascimento em um estábulo (caverna ou câmara subterrânea); 3) o 25 de dezembro (justamente depois do solstício do inverno); 4) a Estrela do Oriente (Sírio) e 5) a chegada dos Magos (os três Reis); 6) a ameaça do Massacre dos Inocentes e a consequente fuga para um país distante (conforme também se diz de Krishna e outros Deuses Sóis). Temos, ainda, as festividades da Igreja; ou 7) da Candelária, (2 de fevereiro), com procissões de círios, para simbolizar a crescente luz; 8) da Quaresma, ou a chegada da primavera; 9) a Páscoa (geralmente em 25 de março), para celebrar a passagem ou cruzamento do Sol pelo Equador, 10) simultaneamente, a erupção de luzes no Santo Sepulcro de Jerusalém. Temos ainda, 11) a Crucificação e morte do Deus-Cordeiro, na sexta-feira Santa, três dias antes da Páscoa; e mais 12) a crucificação em uma árvore, 13) o sepulcro vazio, 14) a Ressurreição gozosa (como nos casos de Osíris, Attis e outros; 15) os doze discípulos (os signos do zodíaco), e 16) a traição por um dos dozes. Mais adiante, temos: 17) o Dia do pleno verão (24 de junho, dedicado ao nascimento do discípulo bem-amado João, em correspondência com o do Natal; temos os festivais 18) da Ascensão da Virgem (15 de agosto) e 19) do Nascimento da Virgem (8 de setembro), correspondendo ao movimento do deus através de Virgo; além do conflito - do Cristo e seus discípulos, na constelação de outono, 20) a Serpente e o Escorpião; e, finalmente, o curioso fato de que a Igreja 21) dedica o mesmo dia do solstício de inverno (quando qualquer um pode duvidar, logicamente, do renascimento do Sol) a S. Tomás, que pôs em dúvida a verdade da Ressurreição”. (40)

Qualquer estudante de religiões comparadas pode investigar a veracidade dessas declarações e, ao final, ficará assombrado da persistência do amor de Deus e a disposição para o sacrifício, manifestada por todos esses Filhos de Deus.

Por conseguinte, é prudente e oportuno recordar que:

“Estes acontecimentos se reproduzem nas vidas dos diversos Deuses Solares e, na antiguidade, multiplicaram-se exemplos deles. Isis, no Egito, como Maria de Belém, foi nossa Senhora Imaculada, Estrela do Mar, Rainha do Céu, Mãe de Deus. Vemo-la, nas estampas, de pé, sobre a meia-lua crescente, coroada de estrelas, acalentando, em seus braços, a seu filho Horus, com uma cruz no espaldar do assento, onde está sentada sua mãe, e ele no seu colo. O signo de Virgo, do zodíaco, está representado, em antigos desenhos, como uma mulher amamentando um menino - o tipo de todas as futuras Madonas com seus divinos Infantes, demonstrando a origem do símbolo. Devaki também é representada, com o divino Krishna nos braços, semelhante a Milita ou Istar, da Babilônia, igualmente com a mencionada coroa de estrelas, e com seu; filho Tammuz, sobre os joelhos. Mercúrio e Esculápio, Baco e Hércules, Perseu e Dióscoro, Mitras e Zaratustra, eram todos de origem humano-divina”. (41)

Vem a propósito recordar que a catedral de Notre Dame de Paris está construída sobre a antiga localização de um templo dedicado a Isis; e que a Igreja primitiva, com frequência, se valia de uma assim chamada efeméride pagã para determinar um rito cristão, o dia cristão da recordação sagrada. Até o estabelecimento do dia 25 de dezembro, como o dia de Natal, foi assim determinado. A mesma autora, anteriormente citada, diz:

“Com referência à designação de 25 de dezembro como nascimento de Jesus, Williamson afirma que: Todos os cristãos sabem que o 25 de dezembro é reconhecido, agora, como a festividade do nascimento de Jesus, porém, muito poucos se dão conta que isto não foi sempre assim. Diz-se que houve cento e trinta e seis datas distintas, estabelecidas pelas diferentes seitas cristãs. Lighfoot a situa no dia 15 de setembro, outros a estabelecem em fevereiro ou agosto. Epifânio menciona duas seitas, uma que a celebra em junho, a outra em julho. O assunto foi definitivamente decidido pelo Papa Júlio, no ano de 337D.C. e São Crisóstomo, no ano 390 disse: “Neste dia (ou seja o 25 de Dezembro) também em Roma foi fixado, ultimamente, o nascimento de Cristo de modo que, enquanto os pagãos celebravam suas cerimônias (a Brumália, em honra de Baco), os cristãos podiam realizar seus ritos sem ser molestados”. (42)

A escolha desta data determinada é cósmica em suas implicações e estamos seguros de que os sábios dos tempos primitivos tomaram estas grandes decisões premeditadamente. Annie Besant nos diz que:

“Ele sempre nasce no solstício de inverno, depois do dia mais curto do ano, à meia-noite de 24 de dezembro, quando o signo de Virgo ascende no horizonte; nascido quando este signo ascende, sempre de uma virgem, que permanece neste estado mesmo depois de ter dado à luz o seu filho - Sol, tal como a Virgem celestial permanece inalterável e imaculada, quando o sol surge, dela, nos Céus. Débil, frágil como uma criança, ele é nascido quando os dias são mais curtos e as noites mais longas... ” (43)

É, também, interessante recordar que:

“O Venerável Bede (44) escrevendo no princípio do século VIII, diz que “o antigo povo da nação Angla”, aludindo aos ingleses pagãos antes de se estabelecerem na Grã Bretanha no ano 500 D.C. “começava o ano em 25 de dezembro, data em que agora celebramos o nascimento de Nosso Senhor”; e acrescenta que a noite de 24 para 25 de dezembro, “que é a própria noite agora tão sagrada para nós, chamava-se na língua desse povo, Modranecht, isto é, Noite da Mãe, pelas cerimônias executadas nessa longa vigília noturna”. O autor não menciona quais eram essas cerimônias, porém, estavam, evidentemente, relacionadas com o nascimento do Deus-Sol. Na época em que os ingleses se converteram ao cristianismo, nos séculos VI e VII, a festividade do Natal, o 25 de dezembro, já havia sido estabelecida, havia tempo, em Roma, como uma celebração solene: na Inglaterra, porém, sua identificação com o alegre “Yule” pagão - palavra aparentemente significando “folguedo” - lhe conferiu um tom festivo, como não se verificava na parte meridional. Este aspecto prevaleceu, em frisante contraste com a característica que existe entre as raças latinas, onde era desconhecido, até há poucos anos, o costume do Norte de festejar e dar presentes no Natal”. (45)

Na época do nascimento de Cristo, Sírio, a Estrela do Oriente, estava na linha do meridiano e Orion, chamada pelos astrônomos orientais, “os Três Reis”, se encontrava nas proximidades; em consequência, a constelação de Virgo, a Virgem, se elevava no Oriente e a linha da eclíptica, a do equador e a do horizonte se uniam todas nessa constelação. É, também, interessante constatar que a maior e mais brilhante estrela da constelação de Virgo tem o nome de Spica (Espiga); e está representada pela espiga de trigo (signo da fertilidade) que a Virgem sustenta. Belém significa “casa do pão”, existindo, portanto, uma evidente relação entre os dois termos. Esta constelação é também composta de três estrelas, em forma de taça. Este é o verdadeiro Santo-Graal, que contém o sangue da vida, o repositório do mais santo e sagrado e do que encerra a divindade. Eis aqui os fatos astronômicos. A interpretação desse simbolismo, ligado desde os tempos antigos a estas constelações, é alguma coisa de tão velho como a própria religião. De onde saíram esses signos, e como se manifestaram os significados e simbolismos a eles associados, são conhecimentos que se perdem na noite dos tempos. Existem nas mentes e pensamentos dos homens, mencionados em seus escritos, desde há milhares de anos, e constituem a nossa herança conjunta, hoje em dia. O antigo zodíaco de Dendera (antecedendo ao cristianismo em vários milhares de anos), representa uma prova cabal do que se disse acima. No trânsito do sol em torno do zodíaco, este “Homem dos Céus” chega, no seu devido tempo, a Piseis; este signo fica em exata oposição a Virgo e é, precisamente, o signo de todos os Salvadores do mundo. Já vimos que a era do cristianismo é a Era de Piseis e que o Cristo chegou à Terra Santa quando o nosso sol penetrava nesse signo. Por conseguinte, o que começou e teve seu ser em Virgo (o nascimento do Cristo-Menino) é consumado em Piseis quando o Cristo-Menino, havendo chegado à sua maturidade, se apresenta como o Salvador do Mundo.

Há outro interessante fato astronômico a este respeito. Estreitamente associadas à constelação de Virgo, e encontrando-se no mesmo setor dos Céus, existem outras três constelações, nas quais está representada, simbolicamente, a história do Menino que nascerá, sofrerá e voltará. Há um grupo de estrelas, denominado Coma Berenice, a Mulher com o Menino, os Centauros, ou o Centauro, e Bootes, nome que significa, em hebraico, “O Que Vem”. Antes de tudo, temos o menino nascido de mulher, e essa mulher é virgem; depois o centauro, que, nas antigas mitologias, sempre representou a humanidade, porque o homem é um animal e um deus, ao mesmo tempo e, portanto, um ser humano. Depois, Aquele Que virá destaca-se de todos eles, influenciando-os, assinalando a realização que se alcançará pelo nascimento e encarnação, como homem. Verdadeiramente, o livro ilustrado do céu contém a eterna verdade para os que têm olhos de ver a intuição suficientemente desenvolvida para interpretar. A profecia não está confinada à Bíblia apenas, mas aparece diante dos olhos dos homens, na abóbada celeste.

Deste modo, enquanto “os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra de suas mãos” (46), temos a profecia do acontecimento mundial, que teve lugar quando Jesus nasceu em Belém, “a casa do pão”, e Virgo ascendia no horizonte, enquanto brilhava a Estrela do Oriente.

Então, o Cristo veio para Sua Própria carne e sangue, porque o mundo dos homens O atraía e o amor do Pai O impulsionava. Veio dar à vida um propósito e uma finalidade e nos indicar o Caminho: Veio dar-nos um exemplo, para sermos galvanizados pela esperança que “não envergonha” (47) e “impulsionar até a meta pelo prêmio do Supremo Chamamento”. (48)

Deve-se observar que a viagem que precede o nascimento é também parte da história da vida de outros instrutores, enviados por Deus. Lemos, por exemplo, o seguinte:

“Entre os trinta e dois sinais que deviam ser cumpridos pela mãe do esperado Messias (Buda), o quinto estabelecia "que ela deveria viajar, no momento do nascimento de seu filho”. Em consequência, “para que se cumprisse o anunciado pelos profetas”, a virgem Maya, no décimo mês depois de sua concepção celestial, realizava uma viagem, para reunir-se com seu pai; e eis que nasce o Messias, sob uma árvore. Um relato conta que ela se havia apeado diante de uma hospedagem, quando Buda nasceu”.

“A mãe de Lao-Tse, o sábio chinês, nascido de uma Virgem, se encontrava longe de seu domicílio, quando nasceu seu filho. Deteve-se, para descansar, debaixo de uma árvore, e ali, como a virgem Maya, deu à luz seu filho”. (49)

No Evangelho, narra-se que a Virgem Maria, com seu esposo José e o Cristo-Menino em suas entranhas, saía de Nazaré, na Galileia, para Belém. Às vezes, pelo estudo do significado dos nomes que aparecem na Bíblia e na tradição, podemos lançar muita luz sobre o episódio a que se ligam, e revelar parte de seu significado oculto. No estudo da narrativa bíblica, deve-se empregar tão somente a própria Bíblia e a Concordância de Cruden, de onde extraí a interpretação dos nomes. Ali encontramos que “Nazaré” significa “o que se consagra” ou é destacado. “Galileia” quer dizer “o girar da roda” - a roda da vida e da morte que gira constantemente, arrastando-nos a todos em seu giro, mantendo-nos, assim, na “roda da existência”, como os budistas a chamam, até que tenhamos aprendido as lições da vida e nos tenhamos convertido em “um vaso para honrar, santificado e adequado, para o uso do Senhor”. (50)

O Cristo deixou atrás a longa jornada da existência e Ele, com Sua Mãe, percorre a última parte do caminho. Consagrado desde épocas imemoriais, a este trabalho de salvação mundial, deve-se submeter, antes de tudo, aos processos comuns do nascimento e da infância. Cristo saiu de Nazaré, o lugar da consagração, e foi a Belém, a Casa do Pão, onde, de forma singular, Ele mesmo se converteu no “Pão da Vida” (51) para um mundo faminto. Foi destacado, ou se destacou (como todos os filhos de Deus que despertam), para o trabalho de redenção. Veio para dar de comer ao faminto e, a este respeito, temos dois versículos na Bíblia que lançam luz sobre Sua tarefa e respectiva preparação. Isaías nos diz que, “O grão se mói”, (52) o próprio Cristo nos disse: “se o grão de trigo não cai na terra e morre, fica só; porém, se morre, produz muito fruto” (53) Este era o destino que O esperava, quando nasceu em Belém. Então, começou a carreira que, com o tempo, havia de “moê-Lo”, levando-O ate Sua morte.

Segundo a etimologia, o nome Maria significa “a excelsa do Senhor”. Ao se dizer estas palavras, vem à mente o famoso quadro de Murilo, que representa a Virgem, de pé, sobre a Lua crescente, envolta em nuvens celestiais. Tal é a ascensão da Virgem, à glória. Há outro ponto interessante, em relação à constelação de Virgo, que poderíamos mencionar. Maria, a Virgem, no simbolismo da antiga sabedoria, representa a matéria virgem, a substância que nutre, alimenta e oculta, dentro de si, o Cristo-Menino - a consciência crística. Em última análise, é através da forma e da matéria que Deus é revelado. Essa é a história da divina encarnação. A matéria, dominada pelo Espírito Santo, a terceira Pessoa da Trindade, dá nascimento ao segundo Aspecto, na pessoa do Cristo-cósmico, mítico e individual.

Associadas ao Livro de histórias dos céus, existem três constelações, além de Virgo, simbolizadas por mulheres. Temos Cassiopeia, a Mulher Entronizada. Esta constelação é o símbolo da etapa da vida humana, em que predominam e triunfam a matéria e a forma, onde a vida divina interna está tão profundamente oculta, que dela não há sinal, e somente a natureza material controla e rege. Logo vem uma etapa posterior, na história da raça humana e do indivíduo, em que encontramos Coma Berenice surgindo simbolicamente - a Mulher que leva o Cristo-Menino. Nesta etapa, a matéria começa a revelar sua verdadeira função, qual seja, a de dar à luz o Cristo, em cada forma. Quando o giro da grande roda da vida haja desempenhado a sua parte, então Maria pode sair de Nazaré, na Galileia, e dirigir-se a Belém, para dar à luz o Salvador. Por último, temos Andrômeda, a Mulher encadeada, ou a matéria submetida à alma. A Alma, ou o Cristo, então governa. Temos, primeiro, a matéria dominante, entronizada e triunfante. Depois a matéria, como guardiã da divindade, da beleza e da realidade ocultas, pronta para trazê-las à existência. Finalmente, a matéria, como servidora do que nasceu, o Cristo. Entretanto, nada disto se realiza, se não se empreende a viagem de Nazaré, o lugar da consagração, e da Galileia, o lugar da rotina cotidiana da vida; e tudo isto é certo, quer se trate do Cristo cósmico, oculto na forma de um sistema solar, ou do Cristo mítico, oculto na humanidade, no transcurso das idades; ou do Cristo histórico, oculto na forma de Jesus; ou, finalmente, do Cristo individual, oculto no homem comum. O processo é sempre o mesmo: a viagem, o novo nascimento, a experiência da vida, o serviço que se deve prestar, a morte que se há de sofrer e, depois, a ressurreição, para um mais amplo serviço.

O nome “José” significa “o que agrega”; José era um construtor, um carpinteiro, um obreiro da construção, o que assenta uma pedra sobre outra, ou viga sobre viga. É o símbolo do aspecto construtivo-criador de Deus-Pai. Nessas três pessoas, José, o menino Jesus e Maria, temos simbolizada e representada a divina Trindade, Deus, o Pai, Deus, o Filho e Deus o Espírito Santo, ou a Matéria animada pela Deidade e, portanto, representada para nós pela Virgem Maria.

Na atualidade, as multidões estão numa viagem. Em nossos dias, o ensinamento da Senda e do Caminho que leva a Deus absorve, de maneira crescente, a atenção dos aspirantes, no mundo. Estamos no Caminho do retorno a Belém, uma Belém individual e racial. Estamos a ponto de penetrar na caverna, onde poderá ter lugar o novo nascimento, e portanto, uma etapa da longa viagem da vida está quase completa. Este simbolismo talvez seja mais real do que cremos. O atual problema mundial é constituído pelo pão, e nossas inquietações, nossas perplexidades, nossas guerras e nossas lutas, baseiam-se no problema econômico de como alimentar as populações. Todo o mundo se ocupa, no momento, da ideia de Belém, do pão. Nesta sutil implicação há uma segura garantia de que, assim como Cristo chegou à Casa do Pão, assim Ele cumprirá novamente Sua palavra, realizar-se-á a Si mesmo e retornará. A caverna, local de trevas e desconforto, foi, para Maria, um lugar de dor e de esgotamento. Esta história da caverna, ou estábulo, do Novo Testamento, talvez seja mais simbólica do que nenhuma outra, na Bíblia. A longa e penosa viagem terminou em uma escura caverna. A prolongada e extenuante viagem da humanidade nos trouxe, hoje, a um lugar muito difícil e desagradável. A vida do discípulo individual, antes de receber a iniciação e de passar pela experiência do novo nascimento, é sempre repassada de ingentes dificuldades e penúrias. Todavia, nas trevas e dificuldades, se descobre o Cristo, a vida crística pode ali florescer e podemos apresentar-nos ante Ele, como o Iniciador; George MacDonald, o poeta cego, sentia isto, quando escreveu os belos versos que a tanto deram consolo:

“Desafia a treva, seja qual for,
Densa escuridão de dor, ou estranho mistério
De oração ou providência. Persevera no intento,
E acharás do amor o velado Sacramento.
Uma secreta revelação, doçura, luz
Aguarda a espreita do lutador noturno.
Na densa obscuridade, em seu próprio coração,
Cristo encontra, transfigurado, as almas que Ele chama”.

Nesta caverna de iniciação estão simbolizados, com clareza meridiana, os quatro reinos da natureza. Na estrutura rochosa da caverna, aparece o reino mineral. A forragem e o feno, que sem dúvida estão ali, simbolizam o reino vegetal. O boi e o asno representam a natureza animal, mas também, muito mais que isto. O boi representava a forma de adoração que deveria cessar na terra, quando da vinda do Cristo. Ainda havia muitos que adoravam o touro, culto que prevaleceu à época em que nosso sol transitava pela era de Taurus - o Touro, o qual fora conservado, naquela época, nos mistérios de Mitras e do Egito. O signo que imediatamente precedeu à era cristã, foi o de Áries - o Carneiro ou Cordeiro, simbolizado nos rebanhos de ovelhas que rodeavam Belém.

É também interessante recordar que os asnos estão intimamente associados à história de Maria e seu Filho. Dois asnos são mencionados no Evangelho, um, que vem do norte, levando Maria a Belém, e outro que a leva ao Egito. São os símbolos de duas constelações chamadas, respectivamente, Asno setentrional e Asno Meridional, que se encontram nas imediações da constelação de Virgo.

Encontramos o reino humano representado em Maria e José, com a unidade humana mais a dualidade que são essenciais à própria existência. No recém-nascido, expressa-se a divindade mesma. Assim, nessa pequena caverna, está representado o cosmo.

Quando Cristo nasceu em Belém, ressoou uma tríplice Palavra: “Glória a Deus nas alturas e na terra paz, boa vontade entre os homens”. (54) Um triplo enunciado nos foi dado, então. Foi cantado pelos anjos, à noite, para os pastores que cuidavam de seus rebanhos, nos prados que circundavam a caverna-estábulo, onde se encontrava o Menino. Um fato transcendental havia ocorrido nos cosmo e as hostes celestiais o honravam.

Esta questão da excepcionalidade da terra tem frequentemente preocupado as pessoas pensantes. Pode um átomo tão infinitesimal no espaço, como é o nosso planeta, ser de tanto interesse para Deus, a ponto de ter permitido esta grande experimentação nele? O mistério do homem e o significado de nosso propósito serão de tamanha importância que não tenham paralelo em nenhuma outra parte?

Pode algo ocorrer, realmente, nesta “esfera de pó”, de significação tão vital que dê lugar a que os anjos cantem “Glória a Deus nas alturas e na terra paz, boa vontade entre os homens?” Quiséramos que assim fosse. Tememos, porém, o momento em que demonstramos a nossa futilidade, ao contemplarmos as estrelas no firmamento, sabendo que existem milhares de milhões de constelações e centenas de milhões de universos. Somos pontos, na grande imensidade.

Talvez sejamos mais importantes de que supomos. Talvez o que nos sucede no reino da consciência tenha, realmente, influência no esquema cósmico. Sabemos que o que sucede no corpo não tem muita importância. O que acontece através do corpo, é o que importa. Provavelmente, o que ocorre no e através do corpo ao qual chamamos planeta, que é habitado, também, por Deus, seja de vital importância para os planos do próprio Deus. Isto daria sentido à vida. Somente quando captamos e apreciamos este sentido, podemos compreender a significação da Palavra emitida quando o Cristo nasceu. Parafrasearemos a mensagem dos anjos, a qual foi emitida por um grupo de seres e transmitida a outro. Portanto, é uma mensagem mundial, que ainda espera resposta. Quando a consciência crística despertar em todos os homens, então teremos paz na terra e boa vontade entre os homens. Quando isto ocorrer, então poderá Deus ser glorificado. A expressão da nossa divindade porá fim ao ódio reinante na terra e derrubará os muros que separam um homem de outro homem; um grupo de outro grupo; uma nação de outra, religião de religião. Onde há boa vontade deve haver paz, atividade organizada e o reconhecimento do Plano de Deus; porque este Plano é síntese; este Plano é fusão; este Plano é unidade e unificação. Então, Cristo será o todo em todos, e Deus o Pai, será glorificado. Isto se realizará por uma união viva com Deus, através do Cristo - o Cristo histórico, que revelou Deus e, através do Cristo individual, oculto em cada coração humano, O qual deve ser trazido à existência. Nenhuma das Epístolas do Novo Testamento estabelece isto com clareza como a Epístola aos Efésios, porque nela se estabelece a possibilidade, em termos que não admitem escusas por uma má interpretação. Esta epístola é:

“. . . embebida pela ideia de uma união vivente com o Cristo, morando nEle. Está expresso em muitas metáforas. Estamos arraigados nEle como a árvore ao solo, o que a torna firme e frutífera. Estamos construídos nEle, como os sólidos alicerces do Templo estão assentados na rocha viva. Vivemos nEle, como os membros no corpo... A morada é recíproca. Ele está em nós e nós nEle. Ele está em nós como a fonte do nosso ser; nós estamos nEle, cheios de Sua plenitude. Ele está em nós, todo comunicativo; nós estamos nEle, todo receptivos. Ele está em nós como a luz do sol, assim como a câmara sem luz estaria às escuras; nós estamos nEle como lenho verde que, lançado na flamígera fogueira, resplandece com rubro e fecundante calor. Ele está em nós como a seiva que circula na árvore; nós, nEle, como os ramos”. (55)

A compreensão disto é necessária agora. Cristo em Deus, Deus em Cristo. Cristo em vós e Cristo em mim. É isto que trará à existência essa religião una que será a do amor, da paz na terra, da boa vontade universal, da compreensão divina e do profundo reconhecimento de Deus. Então, Seu sinete e Sua vida poderão ser vistos em toda parte, em todos os seres e em todas as coisas. A “chancela divina” (como expressa Boehme) será reconhecida em toda parte. A vida de Deus está hoje agitando as mentes dos homens, obrigando-os a se deslocarem em direção à câmara do nascimento. Dali, passarão a um novo mundo, onde ideais mais elevados e contatos mais profundos, unidos a uma compreensão mais ampla, caracterizarão a humanidade.

Lemos que, quando o Cristo veio, os que tinham visão e estavam preparados disseram: “Vimos Sua estrela, no Oriente e viemos a adorá-lo”. (56) Esse sinal foi dado àqueles poucos que estavam preparados e que fizeram a necessária viagem a Belém. Um outro sinal, porém, visto por muitos, foi dado pelo anjo do Senhor aos pastores que, no campo, guardavam durante as vigílias da noite: “Isto, vos servirá de sinal: achareis o menino envolto em panos, deitado em uma manjedoura.” (57) Este sinal foi transmitido aos dois ou três que estavam em vigília, dispostos a se consagrar por inteiro, os quais perceberam o fulgor da estrela da iniciação e se apressaram a encaminhar-se para a câmara iniciática. A maioria que estava interessada e atenta, necessitava de um sinal mais concreto e fácil de ser interpretado, por isto se lhes disse que fossem ver o recém-nato e sua mãe. A atitude deles se expressa nestas palavras: “Passemos, pois, até Belém e vejamos isto que sucedeu”. (58) Os três que compreenderam, porém, foram a adorar e a dar.

Quando viram brilhar a estrela, os três Reis empreenderam uma viagem e, carregados de presentes, foram para Belém. Eles são símbolos desses discípulos do mundo atual que estão dispostos a se preparar para receber a primeira iniciação, transmutar seu conhecimento em sabedoria e oferecer tudo o que possuem ao Cristo interno.

Os presentes que levavam constituem o tipo específico da disciplina que se deve seguir para se apresentar diante do Cristo, no momento do novo nascimento, dons que simbolizarão a consecução. Os três Reis ofereceram ao Menino Jesus três presentes - ouro, incenso e mirra. Analisemos, de passagem, a importância especial que tais presentes têm para o futuro iniciado individual. Os esoteristas afirmam que o homem é de natureza tríplice e esta verdade está apoiada pelos psicólogos, através de suas investigações e pesquisas. O homem é um corpo físico vivente, uma soma total de reações emocionais e, também, esse algo misterioso a que chamamos mente. Estas três partes do homem - físico, emocional e mental - têm que oferecer-se em sacrifício, adoração e como dádiva voluntária ao “Cristo interno”, antes que o Cristo possa expressar-se por meio do discípulo e do iniciado, como Ele anela fazer. O ouro é um símbolo da natureza material que deve ser consagrado ao serviço de Deus e do homem. O incenso simboliza a natureza emocional, com suas aspirações, desejos e anelos, e esta aspiração deve elevar-se como o incenso, aos pés de Deus. O incenso é, também, símbolo de purificação, esse fogo que consome toda a escória e deixa somente a essência, para o Deus que abençoa. A mirra, ou a amargura, se relaciona com a mente. Por meio da mente sofremos, como seres humanos e, quanto mais progride a raça e se desenvolve a mente, tanto maior é a nossa capacidade de sofrimento. Quando, porém, o sofrimento é visto em sua verdadeira luz e é consagrado à divindade, pode-se empregá-lo como instrumento de maior aproximação a Deus. Então, podemos oferecer a Deus esse raro e maravilhoso dom, de uma mente que alcançou a sabedoria pela dor e de um coração que se fez bondoso pela angústia e dificuldades superadas.

À medida que estudamos o que significam essas três oferendas apresentadas ao Menino Jesus pelos antigos discípulos e observamos seu significado, no que respeita à nossa situação individual, resulta evidente, igualmente, que a humanidade, como um todo, está hoje diante do Menino Jesus, na Casa do Pão, ao final de uma longa viagem e pode oferecer, se o desejar, os dons da vida material, os da purificação, por meio dos fogos da adversidade e os do sofrimento a que esteve submetida. A humanidade pode viajar desde a Galileia, via Nazaré. O ouro, objeto que hoje parece ser o sangue vital dos povos, deve ser consagrado ao Cristo. O incenso, os sonhos, as visões e aspirações da multidão - tão reais e profundos que todas as nações lutam pela expressão desses sonhos - esses, também, devem ser dedicados e oferecidos ao Cristo, para que Ele seja o todo em todos. E a dor, o sofrimento e a agonia da humanidade, nunca tão pungentes como agora, devem, igualmente, ser depositados aos pés do Cristo. Temos aprendido muito. Que o significado de tudo isto penetre em nossos corações e em nossas mentes, fazendo com que a razão da dor nos impulsione a oferecê-la como a máxima dádiva ao Cristo. A dor sempre acompanha o nascimento. No aposento onde se realiza o nascimento, há sofrimento. A conscientização disso desperta, nas mentes daqueles que meditam sobre o sofrimento e sobre a agonia do mundo, um otimismo profundo e construtivo. Não poderia indicar que as dores de parto precedem a revelação do Cristo? Quando o compreendermos, diremos como São Paulo:

“Por amor do qual, perdi todas as coisas e as considero como refugo para ganhar o Cristo e ser achado nEle, não tendo a minha própria justiça, que deriva da lei, mas aquela que vem pela fé em Cristo - a justiça que procede de Deus através da fé. . . não que eu já tenha ganho este conhecimento ou alcançado a perfeição; mas prossigo, esforçando-me por conquistar aquilo pelo qual também eu fui conquistado por Cristo Jesus. . . Mas uma coisa faço - esquecendo-me de todo o passado e avançando para o que se encontra à minha frente, com meus olhos fixos na meta, prossigo para assegurar o prêmio celestial em Cristo Jesus. Portanto, todos os crentes adultos devemos apreciar estes pensamentos; e se de alguma maneira pensarmos diferentemente, também Deus nos esclarecerá. Todavia, qualquer que seja a etapa alcançada, perseveremos em nosso trajeto”. (59)

O relato da infância de Jesus, como se encontra no Evangelho, se explica em muito poucas palavras. Somente se narra um episódio, em que Jesus, havendo completado os doze anos, foi levado por Sua Mãe ao Templo do Senhor e, ali, pela primeira vez, deu mostras de Sua vocação, evidenciando, assim, o conhecimento de que se Lhe havia preordenado uma missão. Anteriormente a este episódio, Seus pais haviam cumprido todos os requisitos do ritual judaico; tendo realizado, também, a viagem ao Egito. Nada se disse de Sua Estada ali. Tudo o que sabemos está encerrado nas palavras:

“. . . voltaram à Galileia, à sua cidade de Nazaré. E o Menino crescia e se fortalecia em espírito, cheio de sabedoria, e a graça de Deus era sobre Ele”. (60)

Os estudantes fariam bem em recordar que o número doze é considerado pelos esoteristas de todos os credos como o número do que é completo, conforme expressado, uma ou outra vez, nas diversas escrituras do mundo. Os comentários que se seguem são interessantes, neste particular, pois indicam a significação deste número, e sua relação com a iniciação:

“Alcançar a idade de doze anos significa um período completo de evolução, em que se recebe a iniciação da alma crística, tendo lugar na mente interna (o templo) e correspondendo ao despertar dos aspectos da lógica e da intuição da alma. São o princípio Pai-Mãe, indicado pela presença dos genitores”. (61)

E ainda:

“Este número (o dos doze discípulos) está exemplificado por muitas coisas, no Antigo Testamento, como sejam: os 12 filhos de Jacó, os 12 príncipes dos filhos de Israel, os 12 mananciais de Helim, as 12 pedras no peitoral de Aarão, os 12 pãezinhos da proposição, os 12 espiões enviados por Moisés, as 12 pedras do altar, as 12 pedras extraídas do rio Jordão, os 12 bois que sustentam o mar de bronze. No Novo Testamento, temos as 12 estrelas da coroa da noiva, os 12 alicerces de Jerusalém, que João viu, e suas 12 portas”. (62)

Todas essas referências ao número 12, têm, provavelmente, sua origem, nos doze signos do zodíaco, essa faixa imaginária dos céus, pela qual o sol, aparentemente, transita em sua viagem durante um ano, sendo o seu ciclo maior de, aproximadamente, 25.000 anos.

Havendo completado o trabalho preparatório, Jesus, em seu duodécimo ano, realizou, novamente, outra experiência intuitiva, indo de Nazaré (lugar de consagração) ao Templo, onde a intuição O levou a uma nova conscientização de Seu trabalho. Nada indica que Ele conhecia, detalhadamente, em que consistiria essa missão; não deu explicação alguma à Sua Mãe. Começou a fazer o trabalho que constituía o Seu dever mais imediato e a ensinar àqueles que se encontravam no templo, assombrando a todos com Sua compreensão e suas respostas. Sua mãe, admirada e penalizada, ao mesmo tempo, Lhe chamou a atenção, em relação a ela e a Seu pai, porém só recebeu a serena resposta, dita com convicção que mudou, totalmente, a vida dela. “Não sabeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai?” (63) Esses negócios, à medida que se desenvolviam em Sua Consciência, no decorrer dos anos, se tornaram muito mais amplos e se estenderam em Seu todo-abarcante amor, que a igreja ortodoxa parece disposta a admitir.

A extensão desta missão delineou-se, lentamente, na jovem mente de Jesus e Ele começou, como devem fazer, obrigatoriamente, todos os filhos de Deus, verdadeiramente iniciados, a atuar como mensageiro de Deus, tão logo reconhecida a Visão e o lugar em que Se encontrava. Havendo, deste modo, indicado Sua Compreensão quanto ao trabalho futuro, lemos: “E desceu com eles (Seus Pais) e foi para Nazaré (lugar da renovada consagração) e era-lhes sujeito... E crescia Jesus em sabedoria, e em estatura, e em graça para com Deus e os homens”. (64)

Encontramos com muita frequência, no Evangelho, a palavra “desceu”. Cristo e Sua mãe “desceram ao Egito”, “Ele desceu a Nazaré”, e uma e outra vez “desceu do alto da montanha, “ou do lugar da solidão, para cumprir com seu dever junto aos homens. Depois da oculta experiência no Egito (pois a Bíblia nada disse a respeito), e depois da revelação no Templo e, ainda, da aceitação da tarefa a cumprir, Cristo regressa ao lugar de Seu dever. Neste caso, e depois da iniciação do Nascimento, nos é dito que, durante um período de trinta anos, atuou, como homem, na vida cotidiana, em uma oficina de carpintaria e no lugar onde moravam Seus pais. Esta vida em família constitui a prova a que foi submetido e sua importância não pode ser subestimada. Seria uma blasfêmia dizer que, se houvesse fracassado nessa tarefa imediata, teria fracassado no resto de Sua obra? Se não tivesse conseguido demonstrar a divindade no âmbito doméstico e na pequena cidade que Lhe reservara o destino, teria podido atuar como Salvador do mundo? Ele veio revelar-nos nossa humanidade, como deveria ser e será, quando concluirmos a longa viagem a Belém. Isto constitui o excepcional de Sua missão.

Cristo viveu silenciosamente em Seu lar com Seus pais, realizando a mais difícil experiência da vida familiar, com sua monotonia, sua invariável simplicidade, sua necessária subordinação à vontade e necessidade do grupo, suas lições, que todo discípulo tem de aprender. Enquanto não as houver aprendido, não pode progredir. Enquanto a divindade não se expressar no lar, entre os que nos conhecem bem e são nossos amigos familiares, não se pode esperar que se manifeste em outras partes. Devemos viver como filhos de Deus no lugar – desinteressante, insípido, e às vezes sórdido – que o destino nos coloca; não há nenhum outro lugar onde esta etapa seja possível. O lugar em que nos encontramos é de onde começa a nossa jornada, e dele não escaparemos. Se não tivermos êxito como discípulos onde nos encontramos, no lugar onde nos descobrimos a nós mesmos, nenhuma outra oportunidade nos será oferecida até que o consigamos. Aqui está o nosso teste e o nosso campo de serviço.

Muitos estudantes verdadeiros e sinceros creem, realmente, que eles poderiam impressionar o seu meio ambiente e manifestar a sua divindade se tivessem uma espécie diferente de lar, um ambiente ou cenário diferente. Se tivessem um casamento diferente, ou tivessem mais dinheiro ou mais tempo livre, ou tivessem melhor saúde física, quem sabe o que poderiam realizar. Um teste é algo que julga nossa força para verificar de que espécie ela é; exige a nossa capacidade máxima, e nos revela onde somos fracos e onde falhamos. A necessidade hoje é de discípulos confiáveis e daqueles que foram então testados e que não falharão ou cederão quando as dificuldades aparecerem e se depararem com situações obscuras na vida.

Temos, se pudermos apenas entendê-lo, exatamente as circunstâncias e o ambiente em que as lições de obediência ao superior, que está em nós, podem ser aprendidas. Temos exatamente o tipo de corpo e as condições físicas através dos quais a divindade pode se expressar. Temos os contatos no mundo e a modalidade de trabalho que se requer para nos habilitar a dar o próximo passo à frente no caminho do discipulado, o passo seguinte para Deus. Até que os aspirantes compreendam esse fato essencial e se dediquem alegres e amorosamente a uma vida de serviço e em seus próprios lares, não poderão fazer nenhum progresso. Até que o caminho da vida seja trilhado, alegre e silenciosamente e sem autopiedade no círculo familiar, nenhuma outra lição ou oportunidade lhes será oferecida.

Muitos aspirantes bem intencionados precisam também entender que eles próprios são responsáveis por muitas das dificuldades que passam. Confusos por lhes parecer evocar tanto antagonismo por parte daqueles que os cercam, lamentam-se por não encontrar aceitação amistosa na medida que tentam levar uma vida espiritual, estudar, ler e pensar. A razão usualmente pode ser encontrada no fato do seu egoísmo espiritual. Falam muito de suas aspirações e sobre eles mesmos. Porque falham em suas primeiras responsabilidades, não encontram nenhuma reação compreensível à procura deles por tempo para meditar. Tem de ser reconhecido que estão meditando. A casa deve estar quieta; ninguém pode perturbá-los. Nenhuma dessas dificuldades surgiriam se os aspirantes se lembrassem de duas coisas. Primeiro, que a meditação é um processo realizado secreta, silenciosa e regularmente no templo secreto da própria mente do homem. Segundo, que muito pode ser feito se as pessoas não falassem muito sobre o que estão fazendo. Precisamos caminhar silenciosamente com Deus, mantermo-nos, como personalidades, em segundo plano; organizar as nossas vidas de tal maneira que possamos viver como almas, dedicando tempo para a cultura de nossas almas, ao mesmo tempo preservando um senso de proporção, recebendo o afeto daqueles que nos rodeiam, e cumprindo perfeitamente nossas responsabilidades e obrigações. A autopiedade e o falar em demasia são os penhascos nos quais muitos aspirantes temporariamente afundam.

Por intermédio do amor e da prática amorosa provamos a nós mesmos a iniciação nos mistérios. Nascida no mundo de amor de Belém, a nota chave de nossas vidas, desde então, é a obediência ao mais elevado que há em nós, o amor a todos os seres e completa confiança no poder do Cristo imanente para demonstrar – por meio da forma externa de nossa personalidade – a vida de amor. A vida de Cristo é a vida para ser vivida agora, eventualmente por todos nós. É uma vida de alegria e felicidade, de provas e de problemas, mas a sua essência é amor e o seu método é amor. Deixa-nos um exemplo para seguirmos Seus passos e continuar o trabalho que Ele iniciou.

Enquanto viajamos com o Cristo, de Belém até nos aproximarmos da segunda iniciação, qual a lição que aprendemos? Como podemos resumir a significação desse episódio, em termos de aplicação prática individual? Este episódio tem algum significado pessoal? Quais são os requisitos necessários e quais as possibilidades com que nos confrontamos? Se um estudo dessas cinco etapas, na vida do Cristo, não for proveitoso para nós e se elas se referem a um desenvolvimento de impossível interpretação humana, então tudo que se escreveu e ensinou, no transcurso dos séculos, terá sido fútil e sem qualquer utilidade. As interpretações teológicas comuns já não mais atraem a inteligência evoluída do homem. Cristo, mesmo, sempre tem poder de atrair o interesse humano e também de chamar para junto de Si aqueles que têm visão para perceber a verdade tal qual é e escutar a mensagem evangélica, nos termos em que cada nova era exige. Constituiria uma perda de tempo, seguir elaborando esta antiga história do Cristo vivo, se ela não contivesse uma mensagem específica para nós e se apenas nos pedisse para assumirmos a atitude do observador e de um homem que dissesse simplesmente: “Assim é”. Esta atitude crente, posto que negativa, tem-se mantido por demasiado tempo. Observando o Cristo de uma distância muito grande, estivemos tão ocupados com a conscientização de Suas realizações, que nossa parte individual, a que devemos desempenhar, final e inevitavelmente, ficou esquecida. Deixamos a Ele todo o trabalho. Tentamos imita-Lo, e Ele não quer ser copiado. Quer que provemos a Ele, a nós mesmos e ao mundo, que a divindade que reside nEle se acha, também, em nós. Devemos descobrir que podemos ser como Ele, porque O vimos. Teve fé ilimitada em nós e no fato de que “todos somos filhos de Deus”, porque “nosso Pai é uno” e Seu chamado é emitido para percorrermos o Caminho da santidade e alcançar aquela perfeição que Sua vida alcançou, num desafio a nós e para o que Ele próprio nos pede que trabalhemos.

Às vezes se pensa se foi correto para os homens terem aceito as ideias de São Paulo, tais como foram traduzidas, no transcurso dos séculos. O conceito do pecado muito pouco foi tratado pelo Cristo. São Paulo o repisou e o ponto de vista que deu ao Cristianismo talvez seja o responsável principal pelo complexo de inferioridade dominante no cristão comum, inferioridade que o Cristo não ensinou de modo algum. Ele nos chama a uma santificação da vida e nos exorta a seguir Seus passos, não os passos segundo uma interpretação de Suas palavras por qualquer de Seus discípulos, por estimáveis e valiosas que sejam.

Qual é essa santidade a que nos exorta, quando damos o primeiro passo para o novo nascimento? Que é um homem santo?

Plenitude, unidade, unificação, integridade, são as características que distinguem o homem perfeito. Uma vez percebida, com olhos bem abertos, a visão da divindade, que poderemos fazer? Esta interrogação expressa o nosso problema. Qual é o passo seguinte, o dever imediato do homem que sabe que, nele, ainda não se verificou o novo nascimento, mas sente em si o impulso de ir da Galileia a Belém, pelo caminho de Nazaré?

Requer, antes de tudo, esforço. Significa iniciativa, emprego de energia, superação da inércia e a vontade de obrigar-se a si mesmo a empreender a viagem inicial. Isto significa, também, escutar à solicitação da alma e obedecer à sua insistência por uma maior aproximação de Deus e a uma mais plena expressão da divindade; conquanto “todo indivíduo, em determinado momento, hesite entre o esplêndido anelo de seguir adiante, para o conhecimento, e o desejo de retroceder ao lugar seguro”. (65)

Em realidade, há dificuldade e perigo no acima descrito caminho para o centro. Muito se deve superar e enfrentar. A natureza inferior (o aspecto Maria) retrocede, diante da perspectiva, preferindo a inércia e a estabilidade à atividade exigida e à incerteza momentânea.

Este novo nascimento não é um sonho místico; nem tampouco a formosa visão de um possível, ainda que não provável, empreendimento; não é, simplesmente, uma expressão simbólica de alguma meta definitiva - que nos espera, em um nebuloso futuro ou em alguma outra forma de existência, ou ainda, em algum céu definitivo, que poderemos atingir, se nos voltarmos à crédula e cega aceitação de tudo o que a teologia pode dizer-nos. É relativamente fácil de crer, esta é a linha de menor resistência para a maioria. Difícil é abrirmos caminho até a etapa de experiência em que o programa divino se torna claro para o homem, convertendo as possibilidades que o Cristo dramatizou em algo que nos impede de descansar, até que as tenhamos transmutado em experiência pessoal, pela experimentação da iniciação. O novo nascimento é um fato tão natural e tanto o resultado do processo evolutivo, como o nascimento de uma criança, no mundo físico. Eternamente, idade após idade, os homens realizaram e continuarão realizando a grande transição, corroborando a realidade desta experiência. Todos devemos enfrentá-la, em uma ou outra oportunidade.

Dois reconhecimentos devem surgir no mundo mental do aspirante de nossos dias. Primeiro, a presença da alma, uma entidade viva, que pode e deve ser conhecida pelo processo de trazê-la à existência, no plano da vida diária; segundo, a determinação de reorientar toda a natureza, para possibilitar uma identificação mais completa com essa alma, até conseguir a total unidade. Começamos a ver o que se deve fazer, começamos a adotar a correta atitude que tornará isso possível. As duas metades de nossa dualidade essencial - alma e corpo, Cristo e Maria, cobertos pela sombra do Espírito Santo, o material e o espiritual - se defrontam e se aproximam, cada vez mais, até que se alcance a união completa e o Cristo nasça por intermédio da Mãe. Mas a aceitação desta ideia divina e a orientação da vida para que a ideia seja uma realidade, são os primeiros e imediatos passos.

Isto, o Cristo ensinou e, por essa razão, orou ao Pai.

“E não rogo somente por estes (Seus discípulos), mas também por aqueles que pela sua palavra hão de crer em mim; para que todos sejam um; como Tu, ó Pai, és em mim, e eu em ti, que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que Tu me enviaste... Eu neles e Tu em mim, para que eles sejam perfeitos em unidade”. (66)

Essa é a doutrina da Unificação; Deus, imanente no universo - o Cristo cósmico. Deus, imanente na humanidade, revelado pelo Cristo histórico. Deus, imanente no indivíduo, o Cristo interno, a alma.

Como se pode experimentar esta verdade da alma, bem assim o novo nascimento, em forma tão singela e prática que apareça seu significado, de modo a nos permitir fazer o que for necessário? Talvez ajudem as seguintes afirmações:

1. Oculto em todo ser humano está o “Verbo encarnado”, o Filho de Deus feito carne. Este é o “Cristo em nós, esperança é de Glória”, mas somente uma esperança para a massa, por enquanto. Cristo ainda não se manifestou. Está oculto e velado pela forma. Vê-se Maria, mas não se vê o Cristo.

2. À medida que a roda da vida (a experiência na Galileia) nos leva de uma lição a outra, acercamo-nos, cada vez mais, da realidade interna e da deidade oculta. Porém, o Cristo-Menino se acha oculto, na matriz da forma.

3. Em seu devido tempo, a personalidade - física, emocional e mental - agrega-se em um todo vivente. A Virgem Maria está a ponto de dar à Luz o seu Filho.

4. A longa jornada chega a seu termo, e o Cristo-Menino oculto nasce na primeira iniciação.

O Dr. W. R. Inge se refere a esta verdade, nos seguintes termos:

“Macário, seguindo Metódio, ensina que a própria ideia da Encarnação inclui a união do Logos com as almas pias, nas quais Se sente satisfeito. Em cada uma delas nasce um Cristo. Deste modo, além das ideias do Resgate e do Sacrifício que Cristo realizou por nós, estes teólogos acrescentaram as ideias de santificação e de transformação interna do Cristo em nós, considerando esta última tão real e parte tão integrante de nossa redenção, como a primeira. Mas a doutrina da Imanência Divina no coração humano nunca chegou a constituir a verdade central da teologia, até à época dos místicos medievais. Foi Eckhart quem disse: “O Pai pronuncia a Palavra na alma e, quando o Filho nasce, todas as almas se convertem em Maria”. (67)

Somos convocados para o novo nascimento. Nossas personalidades vivem, agora, plenas de potencialidade. O momento chegou.

A alma humana deve escutar o desafio da alma crística e se conscientizar de que “Maria é bendita, não porque concebera o Cristo, fisicamente, senão porque o concebeu espiritualmente, e nisto todos podem se tornar como ela”. (Eckhart).

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Notas:

(1) - ... (35) - Romanos, 1:3.
(2) - João, 3:7. (36) - The Paganism in Our Christianity, de Arthur Weigall, pág. 42.
(3) -1 Coríntios, 15:31. (37) - Bible Myths, de T. W. Doane, pág. 332.
(4) - Pavel Flovensky, citado em The Recovery of Truth, por Hermann Keyserling, pág. 80. (38) - Pagan Christ, de J. M. Robertson, pág. 338.
(5) - João, 1:1, 2, 3, 4, 10. (39) - João, 10:10.
(6) - The Mystery of the Kingdom of God, por Albert Schweitzer, págs. 28, 29. (40) - Pagan and Christian Creeds, de Edward Carpenter, pág. 50.
(7) - The Value and Destiny of the Individual, por B. Bosanquet, pág. 129. (41) - Cristianismo Esotérico, de Annie Besant, pág. 158.
(8) - João, 14:6. (42) - Cristianismo Esotérico, de Annie Besant, pág. 160.
(9) - Paracelsus, por Robert Browning. (versão livre) (43) - Cristianismo Esotérico, de Annie Besant - pág. 157.
(10) - Isaías, 53:3. (44) - De temp. rat., Bede, XIII.
(11) - Colossenses, I, 27 (45) - The Paganism in Our Christianity, por Arthur Weigall, págs. 236, 237.
(12) - Hebreus, 7:1-4. (46) - Salmos, 19:1.
(13) - Atos, 17:28. (47) - Romanos, 5:5.
(14) - Timóteo, 2:21. (48) - Filipenses, 3:14.
(15) - Cristianismo Esotérico, de Annie Besant, págs. 53, 54, 185, 286. (49) - Bible Myths, de T. W. Doane, pág. 5
(16) - Hebreus, 9:23. (50) - II Timóteo, 2:21.
(17) - João, 3:5. (51) - João, 6:33, 35, 41, 58.
(18) - Mateus, 3:11. (52) - Isaías, 28:28.
(19) - Mateus, 18:3. (53) - João, 12:24.
(20) - João, 3:10. (54) - Lucas, 2:14.
(21) - The End Of Our Time, de Nicholas Berdyaev, pág. 59. (55) - Sermões, de A. Mac Laren 3.a Série - págs. 71, 72.
(22) - Lucas, 2:49. (56) - Matheus, 2:2.
(23) - Lucas, 4:14, 15. (57) - Lucas, 2:12.
(24) - Lucas, 9:22, 23. (58) - Lucas, 2:15.
(25) - João, 19:30. (59) - Filipenses, 3:8,9,12,16. Tradução de Veymouth.
(26) - The Value and Destiny of the Individual, de B. Bosanquet, pág. 111. (60) - Lucas 2:39,40.
(27) - John Oxenham. (61) - Diclionary of the Sacred Language of ali Scríptures and Myths, de G. A. Gaskell, pág. 773.
(28) - Matheus, 11:15. (62) - Bispo Rabanus Manrus, 857, D.C.
(29) - Matheus, 24:30. (63) - Lucas, 2:49.
(30) - João, 14:3,9. (64) - Lucas, 2:51, 52.
(31) - Pr., 29:18. (65) - Psychology and the Promethean Will, de W. H. Sheldon, pág. 47.
(32) - Lucas, 2:6, 7. (66) - João 17:20, 23
(33) - Pr., 4:18. (67) - The Paddock Lectures, pág. 66.
(34) - The Paganism in Our Christianity, de Arthur Weigall, pág. 42.

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