O Diálogo

Cristovam Buarque (discurso proferido no Senado Federal)

Sr. Presidente, fico feliz que seja V. Exª o Presidente nesta minha fala, porque venho tratar de um assunto que V. Exª tem tudo a ver duplamente, ou triplamente.

Venho aqui prestar uma homenagem ao diálogo, mas não ao diálogo apenas de algumas conversas, como costumamos fazer.

Venho prestar aqui uma homenagem ao diálogo no seu sentido maior possível: entre ideias, propostas e visões do mundo. Mas vou estender esta homenagem a três pessoas e fatos que simbolizam, para mim, entre outros obviamente, a ideia do diálogo.

E o primeiro é o diálogo simbolizado numa pessoa que ontem faleceu, aos 93 anos, chamado Aimé Césaire.

Aimé Césaire, até ontem, era o poeta mais importante, e não apenas – e aí entra a idéia do diálogo – o mais importante poeta da língua francesa – vivo –, mas um poeta negro, filho da Martinica, onde nasceu e onde faleceu ontem. Aimé Césaire foi um símbolo do diálogo entre as culturas africana e europeia, entre a cultura que podemos chamar de negra e a cultura que podemos chamar de branca, embora cada uma delas tenha características que não devem ser citadas de acordo com a cor da pele.

Ontem, aos 93 anos, Aimé Césaire faleceu na Martinica, onde nasceu. Um homem nascido aqui no nosso continente, um homem da cor negra, mas que vai receber no seu enterro, amanhã, a presença, por exemplo, do Presidente Sarkozy e do Presidente da África do Sul, Thabo Mbeki; espero que alguma comitiva importante do Governo brasileiro represente o nosso povo nessa homenagem final a esse grande homem. Aimé Césaire não apenas foi um grande poeta, mas quero aqui citá-lo como homem do diálogo, na própria vida e não apenas nos seus livros como, por exemplo, o seu livro sobre colonialismo, o seu belo livro sobre o retorno dele do exílio ao seu país, o retorno que é não apenas do ponto de vista geográfico, mas do ponto de vista cultural. Esse é o primeiro nome que trago aqui sobre a ideia de homenagear o diálogo.

O segundo é um brasileiro. Um brasileiro que anda pelo mundo e, a cada ano, realiza em algum país um encontro de personalidades, de intelectuais, na defesa do diálogo, o diálogo fundamental que hoje é preciso entre o que ele chama Islã e a latinidade. Esse homem que quero homenagear aqui é o prof. Cândido Mendes.

Todos os anos ele propõe uma reunião – e este ano já é a 17ª reunião – em países diferentes, com representantes do mundo islâmico, a maior parte de árabes, mas não apenas árabes, e representantes do mundo ocidental, sobretudo do mundo latino, para debater, dialogar, discutir e encontrar caminhos de convergência. Então, quero aqui prestar esta homenagem a Candido Mendes pela sua luta incansável pelo diálogo, que é a razão principal do meu discurso.

Mas há uma outra pessoa, que, além de representar a negritude, também representa o diálogo com o lado branco, e que, além de ser um homem de cultura africana, também é um homem de cultura europeia. Refiro-me ao Sr. Amadou-Mahtar M'Bow, um senegalês formado na cultura europeia francesa, mas que representou, ao longo da sua vida, um forte compromisso com o diálogo. E peço paciência para falar um pouco mais sobre esses diálogos que ele trabalhou.

Antes mesmo de se falar em guerra de civilizações, como se fala sobretudo a partir do 11 de setembro, já se falava antes com o livro do Sr. Huntington sobre a guerra de civilizações do oriente com o ocidente, mas o oriente simbolizado como a cultura islâmica. Antes disso, o M'Bow, na posição que tinha, naquele momento, de Diretor-Geral da Unesco, lutou pelo diálogo entre as civilizações.

Antes de todos, ainda no começo dos anos 80, ele simbolizou, ele agiu, no sentido de procurar encontrar um caminho, que, no mundo da globalização que então se iniciava, pudesse ser, não uma globalização de conflitos, mas de diálogo, e por intermédio da globalização do diálogo, encontrar um caminho único para o futuro da humanidade.

Ele representou também, já naquele momento, um diálogo que já estava em discussão hoje aqui nesta tribuna, quando falávamos do problema das fronteiras brasileiras entre países e da fronteira entre nações e da fronteira de tribos com nações. Ele já tentava encontrar um diálogo, que está faltando termos aqui para esclarecermos em detalhes as fronteiras que existem entre globo e nações e entre nações e tribos.

O mundo ficou globalizado, mas não deixamos de ser nações. Somos uma comunidade mundial global, mas não somos uma comunidade unitária. Somos uma comunidade de nações, com interesses, com conflitos, com diferenças, mas todos no mesmo mundo. Só diálogo vai permitir que a globalização continue, porque é inevitável, sem que uma nação exerça sobre as outras o poder de dominação e de negação da mais fraca. Esse diálogo está faltando entre nações.

M'Bow foi um dos homens que levantou, já no começo dos anos 80, a necessidade do diálogo e não da guerra como o caminho da convivência, que tem dois caminhos: o caminho da guerra com uma nação impondo sobre a outra o caminho a ser escolhido, ou o diálogo em que ambas as nações procuram encontrar o caminho único. M'Bow procurou isso.

E aqui hoje nós vimos a dificuldade que estamos encontrando em fazer o diálogo entre a Nação brasileira e tribos indígenas ou etnias, como alguns gostam de chamar. É difícil. Como vamos encontrar um caminho para escolher entre dividir uma nação ou uma tribo indígena em dois pedaços pelo fato de que ali, naquela linha, passa a imaginária fronteira entre a Nação brasileira e outras nações? E, ao mesmo tempo, como é que a gente vai negar à Nação brasileira traçar uma linha separando-a das outras nações vizinhas? Só o diálogo. Só o diálogo vai permitir que encontremos um caminho.

O que a gente discutiu hoje aqui sobre aonde passa a linha que divide o Brasil com outras nações ou a linha que divide uma parte de uma nação indígena com a outra parte dela própria, para se encontrar uma resposta só com muito diálogo. E o Amadou-Mahtar M'Bow foi um dos defensores desse diálogo, muito antes de a gente falar nele.

E, graças ao Cândido Mendes – que eu estou homenageando –, eles estarão reunidos em Rabat, capital do Marrocos, durante três dias, discutindo como é que se faz o diálogo entre o islã e a latinidade. Mas também o diálogo entre religiões. Como é que a gente pode ainda, no século XXI, imaginar que uma religião tem o poder de dominar a outra religião? A colonização brasileira caracterizou-se pela conversão, o contrário do diálogo.

Converter é trazer o outro para o seu lado, mas de uma maneira que nega o outro. E a forma como a religião no Brasil foi exercida sobre as tribos indígenas foi a da conversão e não a do diálogo. Conversão que pode ter sido de maneira fraterna, não necessariamente de maneira brutal, mas, ao mesmo tempo, não foi respeitando as duas religiões, foi achando que uma era superior à outra. E esse debate, esse diálogo entre religiões, é uma homenagem que quero prestar aqui ao Sr. M'Bow.

A outra, fundamental para os tempos de hoje, é o diálogo entre ciências. Até aqui tratávamos as ciências separadamente. Alguém nascia para ser médico, alguém nascia para ser engenheiro. Não dá mais para ser assim, porque uma parte da maneira como a Medicina é feita hoje é com base na Engenharia. Os equipamentos que usam hoje os cardiologistas e a convivência dos cardiologistas com esses equipamentos é completamente diferente da de trinta anos atrás. A comparação que faço entre Medicina e Engenharia serve para quase todas as outras profissões. O tratamento das profissões como caixinhas, onde a gente mete ali os alunos que vão virar profissionais, é uma maneira atrasada de fazer universidade.

Hoje, o diálogo entre as ciências é um caminho necessário para que a ciência avance. A Neurobiologia hoje não é mais uma ciência biológica apenas, é uma ciência que se envolve com o uso de instrumentos da Informática, da Microeletrônica, da Computação.

E a gente resiste ainda, no século XXI, a fazer esse diálogo entre as ciências, que o Sr. Amadou M'Bow fazia, tentava fazer, sobretudo, trinta anos atrás.

Por isso, hoje ele está sendo homenageado pelo Cândido Mendes, e, com uma homenagem ao Cândido Mendes nessa reunião dos “latinité”, eu estou homenageando os dois grandes homens que nós estamos falando hoje. Depois, vem o diálogo entre os seres humanos e a natureza, tema que não se falava até pouco tempo atrás. Os seres humanos eram os donos do planeta, que estava aí para ser usado sob duas formas: como a despensa dos recursos naturais que a gente usava na economia e o depósito dos resíduos que o processo econômico produzia. Nenhum diálogo com o vale, com a terra, com a natureza, apenas a dominação técnica dos seres humanos sobre a natureza. Não há mais possibilidade disso.

Hoje, quando a gente fala em biodiesel, tem de dialogar com a natureza, para saber se o biodiesel é a saída para manter o equilíbrio ecológico ou se é a saída que vai levar à destruição ainda maior das florestas. Isso porque, se a gente quiser colocar álcool em todos tanques de gasolina de um bilhão de automóveis que há no mundo, de propriedade de 800 milhões de seres humanos, vai faltar comida para colocar no estômago dos 800 milhões de seres humanos que passam fome.

Claro que a gente vai ter de encontrar uma saída, e é o diálogo; é o diálogo dos seres humanos com a natureza para saber até que ponto a aritmética da civilização permite que a gente avance sem destruir o lugar onde a gente mora, o ar que a gente respira. E isso vai exigir outro diálogo, que M'Bow também tentava desenvolver décadas atrás, que é o diálogo entre ética e economia. E esse é um diálogo inexistente, porque o que menos se estuda no curso de economia é a palavra ética.

Onde nasceu a economia há 200 anos? Da ética. Hoje, a gente nega a ética. O grande pai da economia foi um professor de ética, Adam Smith. A evolução científica da economia fez com que a gente abandonasse a ética e o resultado é a economia destrutiva, é a economia degradadora, é a economia desigualizadora. Desigualizadora entre os seres humanos, depredadora da natureza.

Tem de haver um diálogo entre a ética e a economia. M'Bow fazia esse diálogo, promovia esse diálogo, como também o diálogo que está faltando hoje, um diálogo entre política e estadismo. Popularidade é política, não é necessariamente estadismo. Os estadistas, em alguns momentos, tomam decisões que são antipopulares para construir o futuro. Porque a popularidade mede a pesquisa de opinião naquele instante. Não mede a pesquisa de opinião 20, 30, 40 anos atrás, quando uma decisão tomada hoje por um estadista, que às vezes é uma decisão dura – no sentido de ser dura, não de durar no tempo – é uma decisão incômoda, é a decisão correta no longo prazo.

O diálogo entre política e estadismo está faltando hoje, não só no Brasil. O mundo inteiro, hoje, faz política com base na pesquisa de opinião daquele instante, com base no marqueteiro, que vai dizer o que dizer naquele instante, para ganhar o voto daquela eleição. O estadista fala pensando na próxima geração e, às vezes, diz coisas que o marqueteiro diria: "Não diga isso".

O que a pesquisa de opinião diz é o contrário do que a população – eu não disse o povo – quer, porque há uma diferença entre população e povo. População é o que está vivo hoje; povo é a população que virá depois também, dando-nos continuidade. O povo é eterno; a população é circunstancial.

O diálogo entre política e estadismo tem tudo a ver com o diálogo entre gerações. Falta esse diálogo, e o M'Bow foi um promotor do diálogo entre gerações, que se faz de duas formas: uma é entre os jovens e nós – é o diálogo entre gerações de hoje –; a outra é o diálogo até desses jovens com as gerações que virão depois deles, com os filhos, netos, bisnetos e todos depois. Hoje, falta um diálogo entre gerações.

Falta um diálogo entre as gerações de hoje e falta um diálogo das gerações de hoje com as gerações do futuro. As gerações de hoje tentam consumir tudo que a natureza é capaz de produzir, mesmo que as próximas gerações passem fome. Falta um diálogo desta geração de hoje com a futura e falta um diálogo da geração dos velhos de hoje com os jovens de hoje. M'Bow tentava levar adiante esse debate.

Nos cargos pelos quais ele passou, ele defendeu, sim, o diálogo entre as gerações de hoje – os velhos e os jovens – e entre as gerações ao longo da História – dos de hoje com os do passado. Falta um diálogo de algo que é a principal causa da continuidade da pobreza; um diálogo entre demanda e necessidade. Nós tratamos como diferentes. Necessidade é aquele que precisa, mas não tem dinheiro para comprar. Demanda é aquele que precisa e tem dinheiro para comprar. Necessidade é aquele que está com fome do lado de fora do supermercado. Demanda é aquele que está com fome dentro do supermercado, com dinheiro no bolso. A gente não faz esse diálogo. A economia trabalha a demanda.

O humanismo trabalha a fome da necessidade. Neste País, uma criança fora da escola necessita e uma criança dentro da escola demanda. A gente só trabalha com as que estão dentro da escola. O diálogo entre necessidade e demanda passa pelo diálogo, também, entre a economia e a ética. Mas como a economia não dialoga com a ética, a necessidade não dialoga com a demanda.

E a gente tolera as necessidades com a indiferença de quem acha que só vale considerar quem demanda e não quem necessita. Está precisando ter esse diálogo entre demanda e necessidade, que passa pelo diálogo entre ética e economia, que passa pelo diálogo entre os seres humanos de hoje e a natureza que a gente depreda, que passa pelo diálogo entre as gerações de hoje e as do futuro.

Para concluir, Sr. Presidente, quero dedicar o último diálogo que a gente precisa fazer. E é um diálogo que eu tive, pessoalmente, com esse Sr. Amadou-Mahtar M'Bow, que hoje homenageio, juntamente com a homenagem a Cândido Mendes: é o diálogo entre professor e aluno. Nós nos acostumamos que o professor ensina e o aluno aprende. Nós não nos acostumamos que professor e aluno dialogam, num processo de aprendizagem em que os dois são partes quase iguais. Isso sempre houve, mas agora mais que tudo, porque, com os novos sistemas e métodos de divulgação de informações, o aluno que navegou, na véspera, na Internet pode chegar em sala de aula sabendo mais do que o professor – em relação àquele assunto, não em relação a tudo e nem em relação à experiência. O aluno atento, hoje, é capaz de saber mais, na sala de aula daquele dia, do que o seu professor.

O professor que não dialogar com o aluno não é um professor compatível com o tempo de hoje. Não é mais tempo de transmissão de conhecimento apenas. É tempo de diálogo entre quem quer aprender e quem tem o que ensinar. Eu tive a sorte de que o primeiro encontro que tive, quando fui reitor da Universidade de Brasília, a primeira audiência, numa segunda-feira, às 8 horas da manhã, fosse com esse Sr. Amadou-Mahtar M'Bow. Ele veio ao Brasil e, no meio da sua agenda, obviamente, reservou um lugar para conservar com a universidade, não comigo especialmente – nem sabia que eu era o reitor. Eu tinha dois minutos de reitoria quando recebi esse senhor no meu gabinete. E, ali, eu tive oportunidade de começar a desenvolver essas ideias que eu tenho sobre a importância do diálogo, porque todos os diálogos de que eu falei aqui, apesar de eu estar com a perspectiva de mais de 20 anos de distância, eu tenho certeza de que discuti com aquele senegalês, com aquele homem elegante, que fazia o diálogo da sua África com a Europa onde estudou, que fazia todos esses outros diálogos que eu defendi e que eu aprendi, provavelmente, com ele.

Eu prestei uma homenagem sem querer, que fosse necessária de ser feita, porque ontem faleceu o Aimé Césaire. Essa homenagem eu preferia que a gente não estivesse fazendo hoje, aqui, sobretudo “post mortem”, como está sendo. É verdade que talvez com menos de 24 horas da morte dele, mas dessa homenagem eu fiz questão.

A outra, ao nosso querido professor que é Cândido Mendes. Essa figura incansável, na luta, para manter a continuidade da sua Universidade mas, também, pelo mundo inteiro, caminhando, caminhando e caminhando e realizando, além, dessas caminhadas, esses encontros (fora do Brasil, a um custo, provavelmente, muito alto, de energia, saúde e de dinheiro para ele, entre a sociedade, a parcela da civilização do) e a parcela da civilização ocidental.

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